28 de maio de 2016

Brasil pronto para o socialismo?

 

O Brasil está maduro para o socialismo. Esta foi a conclusão a que chegou o professor-doutor em economia pela Unicamp, Edmilson Costa, em texto publicado pelo site Resistir.info e republicado esta semana pelo Lavra Palavra. Mas, passados três anos desde a conjuntura em que o texto foi publicado (que já não era favorável), não temos o menor indício de que a revolução socialista esteja no horizonte. Mas nem perto.
 
A tese central do professor é de que o Brasil, ao contrário da Rússia de 1917 e da China de 1949, apresenta as condições econômicas ideais para a revolução socialista. Através de um balanço histórico do nosso desenvolvimento econômico desde a época da Monarquia até os tempos atuais, o professor elenca uma série de fatos que levaram o país ao estágio atual de desenvolvimento, sem mencionar nossas potencialidades em termos de matéria-prima e recursos naturais.
 
No entanto, seu texto, que é o típico exemplo de marxismo economicista tão criticado pelo sociólogo Jessé Souza, não apresenta as respostas concretas para a transição ao socialismo. E pior, seu balanço histórico acaba indo de encontro à sua própria tese, pois mostra como todas as tentativas de reformas sociais foram duramente rechaçadas pelas nossas classes dominantes, que segundo ele mesmo, se acostumaram à impunidade, ao autoritarismo e às soluções resolvidas com pactos de cima, de elite para elite, para se antecipar a possíveis rebeliões, revoltas e revoluções nos momentos de maior crise política.
 
E que momento, exatamente, estamos vivendo agora?
 
O Partido dos Trabalhadores, como o próprio autor reconhece, compensou o competente gerenciamento do capitalismo nacional, ao agrado das classes dominantes, com medidas compensatórias aos mais pobres. No entanto, ao manter intocadas as bases do sistema econômico neoliberal que herdou do governo anterior, fez a economia nacional entrar em colapso, pois ao mesmo tempo que enfraquecia o poder do Estado, tirou-lhe recursos para financiar os programas sociais. Além disso, a quase década e meia de governo de "conciliação de classes" serviu, primeiro, para desmobilizar politicamente os mais pobres, enquanto os mais ricos, antes desestruturados e derrotados pela crise neoliberal dos anos 90, puderam reorganizar as forças para chegar ao ponto de tirar, através de subterfúgios jurídicos/parlamentares, a presidenta Dilma do poder.
 
É caso de se perguntar: existem, realmente, condições concretas para a implementação do socialismo no Brasil a curto e médio prazo? Apenas as condições infraestruturais, como sugere o professor Edmilson Costa, são suficientes?
 
É óbvio que não. O Brasil provou recentemente, e isso podemos ver não só através de ações dos nossos parlamentares e juízes, mas em pesquisas de opinião pública, que o Brasil não está pronto sequer para a democracia, quanto mais para o socialismo. Trabalhadores desorganizados politicamente, levados a defender conceitos que correspondem aos ideais da classe dominante por uma mídia compactuada com o sistema capitalista não nos deixam margem de manobra. Além disso, a crise de legitimidade conjunta dos partidos políticos e da esquerda, o surgimento de um movimento evangélico de vertente reacionária, a falta de uma liderança robusta que indique os caminhos, aliados à crescente fascistização das camadas médias criam um cenário de desolação para as mudanças necessárias.
 
Se o Brasil, segundo o autor, apresenta as condições econômicas necessárias — forte parque industrial, mão de obra operária centralizada, economia entre as 7 maiores do mundo, entre outros fatores — por que a revolução socialista ainda não ocorreu em países com condições infraestruturais ainda melhores do que a nossa? Por exemplo, os países europeus? É lógico que apenas a explicação economicista não dá conta das respostas. No Brasil, como em diversos outros países, as elites instrumentalizam as instituições ao seu serviço, sejam elas políticas, econômicas, militares ou midiáticas. Tudo isso desmobiliza politicamente a classe trabalhadora, iludida na zona de conforto das bolhas de consumo capitalistas. Qualquer mudança, mesmo em momentos de grande crise, as tornam ainda mais reacionárias, defensoras ferrenhas do pouco que tenham de privilégios em detrimento dos seus iguais. Aqui temos a ideologia do individualismo burguês em plena ação, como temos visto nos protestos contra a "corrupção" do governo PT — que não passa de uma reação contra as escassas porém incômodas medidas de ascensão de amplas camadas da miséria à esfera de consumo. Romper esse sistema bem montado, capaz inclusive de domesticar e subverter protestos e dirigi-los ao seu favor, como nas Jornadas de Junho, é o grande desafio, e pra isso o autor não apresenta os caminhos.
 
O autor afirma que a vanguarda revolucionária tem um papel importante de orientação das classes trabalhadoras em momentos de prolongada crise política e econômica. Segundo ele,
 
O Brasil hoje reúne todas as condições para a construção de uma sociedade socialista desenvolvida tanto do ponto de vista material quanto cultural. Possui uma base material sólida, avançada e diversificada. Trata-se da sexta economia mundial, com um capitalismo maduro na cidade e no campo, monopolista e hegemônico em todas as regiões, com uma classe operária numerosa, concentrada nas grandes empresas fabris, com um nível de integração nacional extraordinário, o assalariamento generalizado no campo, sem disputas territoriais separatistas, uma só língua, um povo miscigenado, uma cultura nacional diversificada e rica. Portanto, com todas as condições objetivas para a construção da sociedade socialista.
 
Essa é a nossa vontade, essa é a nossa luta. Mas na atual conjuntura, sem levar em conta o momento histórico não favorável, são palavras fora de tempo e de lugar. Se pelo menos o ex-presidente Lula tivesse assumido o papel histórico de verdadeiro líder de um movimento progressista que lhe caiu no colo em 2002... 

12 de maio de 2016

O duelo de dois brasis no processo de Impeachment

 
E lá vamos nós, para mais uma aventura na política nacional. Depois de mais de 20 horas no processo de votação da admissibilidade do Impeachment de Dilma Rousseff, os senadores decidiram por 50 votos a 20 (1 abstenção) pelo prosseguimento do julgamento, agora com o afastamento da presidenta por até 180 dias.
 
O Brasil é um grande país, e não só em termos geográficos. Conquistou, nos últimos anos, um lugar de destaque no cenário geopolítico internacional, a ponto de pleitear uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU. Suas políticas públicas de diminuição das desigualdades ganhavam prêmios mundo afora. Sua economia, até então robusta, colocava peso nas reivindicações econômicas do país na OMC, a ponto do Brasil abrir processos contra os Estados Unidos por conta dos subsídios federais aos produtores de algodão, prejudicando nossas exportações, e a Bombardier, empresa canadense rival da nossa Embraer.
 
Mas esse Brasil moderno, amigos, era um Brasil ainda jovem, incipiente, que tentava surfar no prestígio internacional de sediar os dois maiores eventos esportivos do mundo de forma seguida: Copa do Mundo e Olimpíadas. O Brasil estava na moda, os de baixo estavam felizes (com exceção daqueles que foram covardemente removidos de suas moradias para as obras dos eventos), resgatados da miséria: afinal podiam sentir o gosto de serem gente no capitalismo, ou seja, poderem ser consumidores de produtos e serviços. E mais, seus filhos agora estavam entre os milhares de jovens que finalmente podiam ingressar em uma universidade, representando um aumento de graduações em 109,83 por cento de 2002 até 2012. O Brasil preparava a sua juventude para o futuro.
 
Mas existe um outro Brasil dentro do Brasil. O Brasil da herança escravocrata; dos senhores de engenho, dos barões de café cujos netos são hoje os donos dos latifúndios; dos banqueiros e do empresariado paulista, setores tradicionalmente reacionários, que formam, a grosso modo, as elites e as classes dominantes desse país.
 
Através de uma falácia chamada meritocracia, cooptam também amplos setores das camadas médias, que pensam poder ser eles os novos ricos de amanhã. Estes setores reagem e lutam contra qualquer pequena mudança na política e na economia nacionais que ameacem seus privilégios de classe, nem que pra isso precisem recorrer a conclusões lunáticas como "risco de bolivarianismo" ou "comunização" do país, "ataques aos valores cristãos da família", e outras baboseiras que ocultam as verdadeiras intenções egoístas.
 
E pra finalizar, temos agora as seitas evangélicas, que pregam uma versão inusitadamente conservadora, de direita, no seu discurso para uma maioria de pobres e semianalfabetos, vítimas deste mesmo sistema. A religião, nesse sentido, tem feito um papel magnífico para as classes dominantes: junto com o pacote da fé religiosa, vai também o da xenofobia, da misoginia, da homofobia, do ódio ao diferente, do apego ao tradicional, a aversão a mudanças, apologia do patriarcado machista... E tudo isso com a vantagem de que cada membro convertido é um replicador em potencial desse veneno social.

Assim, a utopia liberal-conservadora atravessa todas as camadas sociais brasileiras, de cima a baixo, destruindo quaisquer tentativas de modernização deste país.
 
Eis aí as duas forças, os dois "Brasis" em disputa que desde Getúlio Vargas duelam com mais acirramento pela hegemonia. Toda vez que o Brasil moderno tentou emergir, as forças conservadoras reagiram, impedindo o país de avançar como um todo, de dar oportunidades para os de cima e os de baixo. Não... isso é inadmissível para aqueles que Darcy Ribeiro chamou de as classes dominantes mais perversas do mundo.
 
Abraçados na utopia neoliberal, aquela que foi derrotada nas urnas nas últimas 4 eleições, as classes dominantes muito bem representadas num Congresso de homens brancos, conservadores, cristãos, empresários e donos de terras, querem passar por cima das regras democráticas para impor na marra o fim dos míseros benefícios que os pobres conquistaram nos governos petistas, não obstante os ricos tivessem ficado ainda mais ricos no período. E assim se explica, por baixo de todas as insinuações e acusações mentirosas contra o governo, as verdadeiras razões deste golpe parlamentar contra o Brasil que um dia quis ser moderno. Estes senhores querem o Brasil do jeito que eles conhecem e gostam: estratificado, desigual, uma republiqueta gigante nas mãos de coronéis submissos aos interesses do imperialismo internacional, do qual se colocam como cães alegremente adestrados, jogando no lixo todo o nosso potencial de independência como nação.
 
É a história golpista das elites brasileiras se repetindo sempre como farsa. 
 
 

4 de maio de 2016

Fecha-se o círculo de um golpe perfeito contra Lula. Possível embate Ciro e Marina em 2018.

 

Todas as críticas construtivas que nós, da verdadeira esquerda, sempre fizemos ao PT no poder foram solenemente ignoradas. Pior, foram tomadas cinicamente como a serviço da direita. Passados 14 anos de alianças e concessões com o que há de pior na política nacional — basta lembrar que Cunha, Temer e Bolsonaro eram de partidos da base aliada — hoje o PT está prestes a colher os maus frutos do que plantou.
 
Desenha-se um exímio golpe na política nacional, com o judiciário, o Congresso e as mídias perfeitamente coordenadas na campanha do Impeachment, mesmo utilizando-se de argumentos frágeis e inconsequentes. No entanto, o governo, enfraquecido pela personalidade passiva da presidenta, somado ao afastamento dos movimentos sociais e do eleitorado progressista, traídos desde o primeiro dia do segundo mandato, além da massa de beneficiários de programas sociais do governo que não foram devidamente mobilizados, vai cair como um castelo de cartas, sem lutar, sem ir para a batalha.
 
O golpe, tentado desde que Aécio covardemente não reconheceu a derrota nas urnas, começou a ganhar força com a mobilização do PMDB para sair da base do governo, com as investigações da Lava Jato, depois teve a mão do STF, passou pela "descoberta" das tais pedaladas fiscais no Congresso, e por conta de uma vingança chantagista do presidente da Câmara, teve o Impeachment colocado em votação. Agora o Impeachment está sendo debatido no Senado.
 
Duas opções se apresentam no horizonte: o governo cair nas mãos do vice-presidente Michel Temer, que já fala inclusive como mandatário da nação, ou o Senado propor uma medida de "consenso" — menos para o vice golpista — que seria a realização antecipada de eleições presidenciais esse ano.
 
No entanto, para o golpe não correr risco de ir por água abaixo com uma possível candidatura de Lula e sua provável eleição, é preciso arrumar um jeito de impugná-lo. E isso o Procurador Geral da República já tratou de antecipar, pedindo abertura de inquérito no STF contra Dilma e Lula. Pra não ficar muito descarado, pediu também a de Aécio e Eduardo Cunha, mas todos sabemos o que vai acontecer. Os protegidos do sistema se safam, e os perseguidos se danam.
 
Com a possível impugnação ou até prisão de Lula, os golpistas veem o caminho livre para 2018. Mas existe uma questão. Tanto quanto a esquerda, a direita carece de um nome de peso no cenário nacional. Temer do PMDB tem a rejeição batendo na estratosfera; Alckmin e Serra são do odiado PSDB; Bolsonaro é uma figura caricata tal como Enéas Carneiro: seus eleitores não ultrapassam certo limite de lunáticos; resta ao poder econômico e às classes dominantes apostarem num nome "fresco", aparentemente neutro, uma "renovação na política" para aqueles cansados da polarização do PT e do PSDB: Marina Silva.
 
E a esquerda?
 
Eu, como muitos membros da ala esquerda, tenho minhas próprias convicções políticas. Mas às vezes é preciso analisar as conjunturas que se apresentam, e extrair delas algo positivo. Ciro Gomes, se vier mesmo a ser candidato pelo PDT, tem duas vantagens: primeiro, arcabouço e experiência política para desmascarar a Marina "neutra"; e segundo a força que faltou à Dilma para implementar as políticas progressistas que vem defendendo nos últimos tempos. E com o possível impedimento de Lula, seu caminho fica ainda mais aberto para o crescimento nas pesquisas.
 
Marina pode se beneficiar do golpe. Ciro Gomes pode ser o efeito colateral indesejável dos golpistas
 
 
O jogo ainda está sendo jogado, e muita coisa pode acontecer até 2018, mas o embate Ciro e Marina é o que vem se desenhando no cenário.
 
E você, em quem apostaria para a presidência em 2018?