22 de fevereiro de 2016

Schopenhauer e o senso comum brasileiro

Todos vão preferir acreditar do que julgarSêneca

O senso comum é uma das coisas mais danosas que circulam na nossa sociedade. Já falei sobre esse tema aqui, em algumas postagens. Através dele, cria-se a falsa sensação de avaliação criteriosa, que o sociólogo Jessé Souza chama de “charminho crítico”, pois as pessoas opinam sobre coisas que não sabem a fundo, tendo a ilusão de fazer uma afirmação com alguma base de verdade.

Veja mais em:

  1. Trabalho, senso-comum e ideologia dominante
  2. O senso comum por trás do “bandido bom é bandido morto”
  3. Os mitos da meritocracia e da brasilidade a serviço dos privilégios no Brasil

Isso acontece porque o senso comum é tão disseminado que cria verdades absolutas que aproximam pessoas que pensam igual, que alimentam e reforçam essas mesmas falácias através da repetição. Esse fato pode ser entendido em detalhes aqui em O fenômeno da Polarização de Grupo. Por conta desses episódios, as pessoas tendem a repetir irrefletidamente factoides que veem e ouvem por aí, porque são aceitos como verdades pela maioria das pessoas.

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O problema é que esses consensos não vêm do nada. Eles são fabricados por terceiros, pessoas interessadas, por exemplo, em manchar a reputação pública de um adversário político, ou de uma proposta que prejudique seus negócios.

Lendo recentemente um livro, eu encontrei um trecho que explica magistralmente essa situação, apesar de ter sido escrito há mais de 150 anos pelo filósofo Arthur Schopenhauer em seu livro “Como vencer um debate sem precisar ter razão”.  A citação é longa, mas vale a pena ler pela reflexão sobre esse tema:

[…] Sim, não existe ideia, por mais absurda que seja, que as pessoas não tomem como suas com tanta facilidade e tão logo se convençam de que tal coisa é adotada de maneira geral. […] São ovelhas que seguem o pastor aonde ele for: para elas é mais fácil morrer do que pensar. É muito curioso que a universalidade de um pensamento tenha tanto peso sobre as pessoas, é como se sua própria experiência lhes dissesse que sua aceitação é um processo sem questionamento e por imitação.

[..] O que se chama de pensamento universal, visto à luz, é o pensamento de duas ou três pessoas; e seríamos convencidos disso se pudéssemos ver como realmente surgem esses pensamentos. Descobriríamos então que existem duas ou três pessoas que a princípio os aceitaram, promoveram ou defenderam; […] E então convencidas de antemão que estas tinham capacidade, algumas outras pessoas também aceitaram a opinião. Estas, por sua vez, receberam a confiança de muitos outros, cuja preguiça lhes sugeriu que era melhor acreditar de uma vez do que ter o trabalho de testar a questão por si mesmas. Assim, dia após dia, cresce o número de tais preguiçosos e seguidores crédulos; então logo a opinião tem um bom número de defensores […] e os que tivessem dúvidas eram compelidos a validar o que era admitido universalmente, para não passarem por cabeças-duras que resistem às opiniões validadas pela maioria, ou por pessoas rudes que querem ser mais espertas que o resto do mundo.

Agora, aderir torna-se uma obrigação. A partir desse ponto, os poucos que são capazes de julgar se calam. E quem se aventura a falar é completamente incapaz de ter ideia ou julgamentos próprios, simplesmente ecoam a opinião alheia; e mesmo assim a defendem com grande zelo e ignorância. Pois o que elas odeiam nas pessoas que pensam de outra maneira não são as ideias que elas professam, mas a pressuposição de que querem julgar as coisas por si mesmas, o que elas mesmas nunca fazem. […] Em resumo, poucos conseguem pensar, mas todos querem ter opiniões — o que resta a não ser pegá-las prontas dos outros em vez de formas as suas próprias?

Esse trecho é de uma atualidade incontestável. E onde esses pensamentos universais (senso comum) se manifestam hoje em dia?

Fácil enumerar: onde novas ideias e intenções ferem a “ordem” do conservadorismo brasileiro. Assim se espalham factoides que alcançam o senso comum, direcionando a opinião pública. Políticos de esquerda são difamados em boatos que circulam na internet; propostas de aborto; direitos humanos; redução da maioridade penal; feminismo; cotas para negros em universidades, corrupção (só) do governo petista e não de outros governos ou do empresariado… Todo mundo tem uma opinião “pronta” sobre esses assuntos, mas que na verdade, por não serem refletidas e pensadas, apenas reproduzem a ideia de terceiros.

A solução é usar a cabeça, pensar por si mesmos, evitar espalhar boatos por aí, para não servir de ovelha numa massa de manobra que tem a intenção de deixar as coisas sempre como estão. Aí está uma lição de mais de 150 anos que não pode ser ignorada.

15 de fevereiro de 2016

Microcefalia: um mistério ainda não resolvido. ou ainda não revelado?

Aplicando larvicida em reservatórios de águaDesde o ano passado, principalmente, e também neste começo de ano, o surto de microcefalia no Brasil vem causando espanto não só no país, mas no mundo inteiro. Nesse período, o número de fetos diagnosticados com a má formação cerebral aumentou de forma inexplicável, e desde então, especialistas brasileiros vêm tentando descobrir o que está por trás desse fenômeno estranho.

A partir de um primeiro estudo feito por pesquisadores brasileiros em uma recém-nascida no Ceará, passou-se a associar os casos de microcefalia ao vírus da zika, transmitido principalmente pelo mosquito Aedes Aegypti. Posteriormente, outros casos também foram confirmados pela presença do vírus no organismo de fetos com a má formação congênita. Então, criou-se quase um consenso na área médica de que o vírus estava na raiz da epidemia de microcefalia no Brasil.

No entanto, alguns especialistas mais ponderados desconfiam desse diagnóstico. Afinal pouco se sabe sobre a relação da transmissão do vírus com a microcefalia em bebês e como ele causaria o problema nos fetos. A única coisa que se tem como concreta até agora é que alguns fetos e recém-nascidos com microcefalia realmente apresentaram o vírus, mas ainda não se pode comprovar que exista a relação entre eles.

Recentemente pesquisadores argentinos propuseram uma tese bastante polêmica, no entanto bastante plausível: a recente epidemia de microcefalia em bebês não é causada pelo mosquito, e sim pelo produto químico utilizado nos reservatórios de água potável para combatê-lo. Mais precisamente o Pyriproxyfen, pesticida indicado pelo Ministério da Saúde, de fabricação da japonesa Sumitomo Chemical, empresa associada com a polêmica Monsanto, E os indícios não são poucos.

Pra começar, esse pesticida passou a ser utilizado no Brasil no final de 2014 até agora, em substituição a outro pesticida que já não fazia efeito contra o mosquito, o Temephos;

Outro indicio é o fato de que o Pyriproxyfen é mais utilizado em regiões carentes de saneamento, onde é preciso armazenar água por falta de fornecimento regular, como por exemplo o Nordeste, não por acaso o local onde foi detectado a maior incidência de microcefalia, justamente no período em que o novo pesticida passou a ser utilizado;

Mais indícios suspeitos: na Polinésia Francesa, região onde pelo menos 75 por cento das pessoas foram infectadas com o vírus, não existe casos de microcefalia relacionados. Na Colômbia, o segundo país do mundo com o maior número de infectados, com cinco mil grávidas doentes de zika, também não há registros de microcefalia.

São indícios demais que não podem ser ignorados.

Mas então existiria uma questão grave, tanto política quanto econômica: enquanto a microcefalia for associada ao mosquito, tudo bem, é uma questão da Natureza que o homem não tem como evitar, e sim minimizar. Mas se for constatado a causa pelo pesticida Pyriproxyfen então a Agência Nacional de Vigilância Sanitária e o Ministério da Saúde ficarão em maus lençóis,  terão que responder por negligência, por incentivar o uso de um pesticida -- que age modificando geneticamente o mosquito, causando-lhe má formação -- dentro de reservatórios de água que as pessoas vão beber. Além disso, os laboratórios que fabricam o Pyriproxyfen perderão bilhões de dólares com o fim do contrato de fornecimento com os países, sem falar em prejuízos em suas ações na bolsa.

Por isso, com tanta questão envolvida, é capaz do mosquito da dengue acabar sendo o bode expiatório dessa história, apesar do vírus da zika ser conhecido desde 1947 como uma doença benigna. Pelo menos até 2015, quando o Pyriproxyfen passou a ser usado. Coincidências, é claro.

Leia mais: 1 - Nota técnica sobre microcefalia e doenças vetoriais relacionadas ao Aedes aegypti: os perigos das abordagens com larvicidas e nebulizações químicas – fumacê. Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO): https://www.abrasco.org.br/site/2016/02/nota-tecnica-sobre-microcefalia-e-doencas-vetoriais-relacionadas-ao-aedes-aegypti-os-perigos-das-abordagens-com-larvicidas-e-nebulizacoes-quimicas-fumace/

2- Informe de médicos sobre o vírus Zika, Oxitec e veneno da Monsanto

11 de fevereiro de 2016

A maior crise da esquerda da história: nunca estivemos tão fracos e desunidos

CismaComunistaBons tempos aqueles em que o Brasil tinha nomes de peso representando a esquerda, seja dentro da política institucional, seja fora dela. Seria cansativo enumerar os diversos nomes de políticos moderados, reformistas ou revolucionários que durante décadas representaram as esperanças do povo trabalhador nesse país. Ficaremos apenas com três, em três momentos diferentes – e também concomitantes, em alguns períodos –, como Luiz Carlos Prestes, do PCB, João Goulart, pelo antigo e então digno PTB, e Leonel Brizola, pelo também saudoso PDT.

Hoje, o partido que se dizia de esquerda e que governa o país nos últimos 14 anos sofre uma crise de identidade e legitimidade. Há muito tempo se deixou corromper pelas práticas sujas dos seus antecessores, sendo bombardeado constantemente com ameaças de prisão e Impeachment, levando com isso a credibilidade de toda a esquerda para o ralo. Também o partido legitimamente de esquerda que possui a maior representatividade na política institucional, o PSOL, é incapaz de lançar um nome de peso no cenário nacional para angariar as insatisfações com os rumos da política e da economia nacionais, como tem sido nos Estados Unidos, com o candidato democrata Bernie Sanders, que surgiu como um fenômeno da política local apenas por levantar algumas meras bandeiras progressistas. Mas era exatamente o que uma enorme parcela da população estava esperando ouvir.

Uma esquerda festiva

O pior, no nosso cenário nacional, acontece fora da política institucional. Bem ao gosto de novas ondas teóricas, denominadas genericamente de pós-modernas, grupos tradicionalmente acolhidos nas esquerdas passaram a levantar pautas e reivindicações exclusivas, afastando-se cada vez mais do foco na luta contra o sistema burguês-capitalista como um todo. Movimentos negros, movimentos “homoafetivos” e, principalmente, as feministas, conseguiram dividir, subdividir e microdividir suas lutas ao nível subatômico, a ponto de hoje vermos negros contra negros, gays contra gays e mulheres contra mulheres, totalmente perdidos em querelas insignificantes, terminologias que nascem sabe-se lá de onde, como sororidade, cis, e outras superficialidades, enquanto que o verdadeiro inimigo, a direita conservadora e reacionária, se organiza, se une e toma conta dos espaços do poder, deixando esses grupos falando sozinhos entre si.

Comunistas moralistas?

Mas o recente fenômeno mais lamentável de tudo isso é o surgimento de grupos de esquerda mais ortodoxos, mais fiéis aos ditames da teoria marxista, que começam a ter preconceitos ressentidos contra esses grupos, a ponto de aparecer um novo tipo de militante da esquerda combativa com críticas a esses movimentos de minorias, que o coloca quase lado a lado dos burgueses defensores da moral e da família tradicional. Pelo menos em redes sociais e comunidades de internet, as críticas aos ataques de purpurina, às oficinas de siririca, ao uso de drogas são tão moralistas, machistas e homofóbicas que lembram os fãs de Bolsonaro. Como chegamos a esse ponto?

Certamente as esquerdas brasileiras estão na beira do precipício. Talvez seja a maior crise da história. A única forma de podermos ter esperança, é que essa moda, como toda moda, canse, e passe, e essas pessoas então amadureçam, e se voltem para os teóricos clássicos das esquerdas. Que possam compreender que divididos, somos fracos. Precisamos de todos, cada indivíduo com alguma consciência progressista na cabeça, para tentar mudar esse panorama sombrio de conservadorismo e superstição que tomou conta do país. Assumir as nossas culpas e erros, e começar de novo.

Lula, a esperança em 2018. Será?

Se Lula fosse o que seus persistentes defensores pensam que ele é, já estaria articulando com as esquerdas um governo pra entrar para a história em 2018. Tal como Getúlio Vargas nos anos 50, uma guinada para a esquerda no segundo governo, para enfrentar os poderosos e liderar uma mudança radical nesse país. Mas precisamos saber se ele, Lula, vai sobreviver aos ataques daqueles parasitas da política, do mercado e das mídias, os mesmos inimigos que fizeram Getúlio se matar, e que o próprio Lula ajudou a alimentar, os mesmos que agora querem sabotar a sua candidatura a todo custo.

Sem um líder, alguém capaz de dizer às massas o que precisa ser dito, um Bernie Sanders e seu discurso honesto e coerente, desunidos e brigando entre nós, não vamos vencer as forças conservadoras que dominaram o cenário nacional. Se Lula cumprir esse papel, além de resgatar as esquerdas que ele ajudou a destruir, pode voltar a figurar na galeria dos maiores líderes de esquerda desse país, ao lado de Prestes, Jango e Brizola. Mas alguém acredita nisso?