26 de outubro de 2015

Investigação da Polícia Federal na Operação Zelotes chega perto de Lula

Nesta segunda (26/10) a Polícia Federal cumpriu um mandado de busca e apreensão na empresa LFT Marketing Esportivo, de propriedade de um dos filhos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Luiz Cláudio. A ação é parte da chamada Operação Zelotes, que investiga fraudes e tráfico de influência no CARF (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais), além de investigar esquemas de lobby que visariam reduzir dívidas fiscais de grandes empresas e obter benefícios tributários.

Além da empresa do filho do ex-presidente Lula, a PF também faz a mesma operação na Marcondes & Mautoni Empreendimentos, acusada de repassar 2,4 milhões de Reais à empresa de Luiz Cláudio.

LUIZ CLAUDIO filho do Lula

A rede de corrupção que alcança o filho de Lula (imagem acima) pode chegar ainda mais perto do ex-presidente. Isso porque o empresário Carlos Alberto de Oliveira Andrade, dono da montadora Caoa, é suspeito de participar de um esquema que beneficiou empresas do ramo automotivo na época que Lula era presidente, em 2009, através de compra de Medidas Provisórias (MP)*.

*Medida Provisória. É um instrumento com força de lei, adotado pelo presidente da República, em casos de relevância e urgência, cujo prazo de vigência é de sessenta dias, prorrogáveis uma vez por igual período. Produz efeitos imediatos, mas depende de aprovação do Congresso Nacional para transformação definitiva em lei.

O empresário Carlos Alberto de Oliveira Andrade também pode ser pivô não só da sabotagem da candidatura de Lula em 2018 através de suas denúncias, mas também do Impeachment da própria atual presidente, Dilma Rousseff. Isso porque outra operação da PF, denominada Acrônimo, revelou através de um inquérito sigiloso que portarias do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) foram compradas no governo Dilma Rousseff ano passado através de um lobista ligado a Fernando Pimentel, governador de Minas Gerais e ex-ministro do MDIC, que recebeu propinas da mesma montadora Caoa para habilitar a empresa no programa Inovar-Auto, do MDIC, que concede benefícios fiscais para o setor automotivo.

Consequências políticas das investigações

Ainda é cedo para afirmar que as investigações produzidas pela Polícia Federal terão importância na luta da oposição mais radical contra os petistas, primeiro para tirar Dilma precocemente do exercício do mandato, e segundo, impedir Lula de se candidatar a presidente na próxima eleição. Mas dependendo da repercussão desses indícios, e principalmente se eles se confirmarem, teremos uma grande reviravolta na política nacional, com o PT, que, infelizmente, se enlameou de sujeira no poder, sendo impedido de ter representante no pleito eleitoral de 2018.

Golpismo?

Golpe ou justiça? Nessas horas, eu lembro de um caso emblemático. Logo a seguir à Anistia que trouxe de volta políticos brasileiros exilados, a moribunda porém ainda atuante Ditadura Militar no poder perseguia seus desafetos de outra maneira. O caso de Leonel Brizola, candidato a governador do Rio em 1982, revela a tática da difamação como instrumento político da direita. Buscavam-se indícios de quaisquer malfeitos no seu passado que pudessem incriminá-lo perante a opinião pública, e assim impedi-lo de ser eleito. Vasculharam, procuraram, e não encontraram absolutamente nada. Brizola ainda teve que vencer uma fraude eleitoral na apuração, mas terminou eleito governador. Sua biografia até hoje é reconhecida como uma das mais limpas do país.

E o Lula? Que tipo de legado político o Lula pode contrapor ao “golpismo” atual? Vamos ver o que dizem as investigações…

21 de outubro de 2015

“Derivativos”: O Cassino global não regulamentado para bancos americanos



Curta história: Escolha algo de valor, faça apostas sobre o seu valor futuro, adicione contrato e você tem um derivativo. 

Os bancos ganham enormes lucros com derivativos, e quando as chances são da bolha estourar o contribuinte vai acabar com a conta.

Longa história: Um derivativo é uma aposta jurídica legal (contrato) que deriva seu valor de outro ativo, como o futuro ou valor atual de petróleo, títulos do governo ou qualquer outra coisa. Por exemplo, um derivativo compra-lhe a opção (mas não a obrigação) de comprar petróleo em 6 meses para o preço de hoje / qualquer preço acordado, na esperança de que o petróleo vai custar mais no futuro. (Pode ter certeza que ele vai custar mais em 6 meses). Derivativo também pode ser usado como seguro, apostando que um empréstimo será ou não será negligenciado até uma data determinada. Por isso é um grande sistema de apostas, como um Cassino, mas em vez de apostar em cartões e roleta, você aposta em valores e desempenho de praticamente qualquer coisa que tem valor futuro. O sistema é tão desregulamentado que você pode comprar um derivativo de um derivativo existente.

A maioria dos grandes bancos tenta impedir que os pequenos investidores tenham acesso ao mercado de derivativos com base na existência de um risco muito grande. Esse mercado tem soprado uma bolha galáctica, assim como a bolha imobiliária ou bolha do mercado de ações (o que está acontecendo agora). Desde que não existe literalmente nenhum economista no mundo que sabe exatamente como o dinheiro flui derivado ou como funciona o sistema, enquanto derivativos são negociados em microssegundos por computadores, nós realmente não sabemos o que vai desencadear o acidente, ou quando isso vai acontecer, mas considerando as crises financeiras globais por que já passou esse sistema, será catastrófico para o sistema financeiro mundial desde que os 9 maiores bancos mostrados abaixo mantêm um total de 228.72 trilhões de dólares em Derivativos - cerca de 3 vezes toda a economia mundial. Nenhum governo no mundo tem dinheiro para este resgate. Vamos dar uma olhada nos bancos que têm as maiores exposições de derivativos e os escândalos que eles foram recentemente envolvidos.

Antes: o que é (visualmente) um trilhão de dólares

torre de dinheiro
Fraude de banco
State Street
morgan stanley
WF
hsbc
Golman Sachs
bank of america
Citibank
JPM
bancos
Fonte: demonocracy.info (tradução de Almir Albuquerque para o Panorâmica Social)

14 de outubro de 2015

Assim caminha a humanidade: para pior

Pensopinando é um dos blogs que eu gosto de ler na internet. Mantém a tradição de postagens opinativas e de bom nível, como era na fase áurea da blogosfera, por volta de 2008-2011.

Recomendo bastante a leitura, porque fomenta o debate de assuntos importantes, apesar de nem sempre concordar com as postagens. Como no caso da última: Assim caminha a humanidade. Por isso resolvi fazer uma postagem para contrabalançar algumas das afirmações do autor naquele texto.

O texto afirma que, apesar das críticas alarmantes que muitos no mundo vêm fazendo sobre o momento atual da história do homem, principalmente com relação à desigualdade social, a humanidade está em plena evolução material, que será capaz, em algum momento futuro, de trazer paz e bem estar para todos.

Ele afirma que a desigualdade social não é um mal em si, mas a “pobreza extrema” e a falta de oportunidades. Mas ele não menciona que a geração de desigualdade extrema é aonde sempre esse sistema vai levar inexoravelmente, apesar das correções esporádicas promovidas pelo Estado através de programas sociais. A busca de lucros por parte dos grandes capitalistas é uma tarefa incessante, não existe um ponto em que os empresários digam: “já acumulei o suficiente, é hora de parar”. Não. Isso não existe. E como os recursos e a produção de riqueza no mundo são limitados, quanto mais um pequeno grupo acumula, mais falta faz para o resto da população. Essa é a marca indelével do sistema. E é o que mostra claramente os números de diversas pesquisas que apontam que apenas 1 por cento da população mundial já tem uma riqueza equivalente a metade do planeta. E a tendência disso, se nada for feito, é piorar, e não melhorar.

Talvez não sejamos capazes de sentir na pele o problema grave que isso representa, porque ainda vivemos, quase certamente, nas periferias da bolha de consumo, onde alguns de nós pode usufruir de algum tipo de conforto material, o que nos dá a falsa ilusão de bem-estar. Mas logo logo estaremos expulsos dessa bolha, indo engrossar as fileiras dos 50 por cento, porque a sanha de riqueza dos 1 por cento não acaba. Basta projetar uma progressão aritmética para os próximos anos para podermos entender isso.

A Revolução Industrial foi benéfica por si mesma?

Outra questão levantada no texto é a comparação entre a “miséria” da época pré-industrial com a pós industrial.

Hoje, podemos dizer que a Revolução Industrial foi benéfica, mas para as cidades que se localizam no centro do capitalismo mundial, notadamente na Europa, beneficiadas pela exploração colonial num primeiro momento, e pelo neocolonialismo e imperialismo já na era industrial. Em locais que formam a periferia do sistema, em especial a África, o Oriente Médio e a América Latina, ficou o legado de pobreza, violência e desigualdade que só não atinge as citadas bolhas de consumo, rodeadas de miséria que geram a violência das cidades.

Isso para não mencionar as origens do próprio industrialismo, onde os trabalhadores da própria Europa sofreram pela exploração cruel de jornadas de trabalho de 14 horas, com mulheres grávidas e crianças operando máquinas pesadas com capatazes dando-lhes chicotadas em qualquer mera distração, com um salário aviltante que garantia apenas a mínima subsistência. Essa era a Revolução Industrial.

Dois fatores contribuíram para amenizar essa situação: os trabalhadores que se organizaram em sindicatos num primeiro momento, reivindicando melhores condições de trabalho e ameaçando com greves, e o medo do patronato com a ascensão da União Soviética, que mostrou ao mundo um outro sistema em que os trabalhadores estavam no protagonismo do trabalho. Isso gerou a famosa Carta del Lavoro de Mussolini, que regulamentou o trabalho dos italianos e amenizou o risco de comunização dos trabalhadores daquele país, que aqui Vargas copiou na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), uma forma de apaziguar os ânimos da luta trabalhadores x patrões e garantir direitos.

Pouco antes da Revolução Industrial, as condições dos camponeses já não eram tão ruins quanto no auge da Idade Média, de modos que não podemos falar de “miséria” pré-industrial. Muitos historiadores já compararam as condições de vida de um camponês na França, por exemplo, com a um operário inglês do século XIX, e podemos perceber que o camponês tinha uma vida muito menos sacrificante e “miserável” do que seu colega que teve que migrar para a cidade. Portanto a comparação não procede.

 

Mais ou menos violentos hoje?

A violência endêmica que o autor atribui ao passado para comparar com o presente supostamente menos agressivo não tem relação com a pobreza, a desigualdade social ou o sistema econômico vigente na época. Porque é uma época pré-capitalista, onde os bens materiais não definiam o lugar do cidadão na sociedade, e sim o nascimento. É preciso lembrar que a violência era institucionalizada, praticada muito mais pela Igreja e pelo Estado do que pela população. Depois do Iluminismo, essa situação foi, aí sim, amenizada, mas o capitalismo transportou a violência estatal para as camadas mais baixas da sociedade, apesar de teoricamente, o Estado ser o portador do monopólio da força.

Por quê? Porque o mundo passou a ser regido pelo status baseado na posse de bens materiais. Quanto maior a desigualdade em regiões com essa mentalidade, maior a violência entre a população. Por isso, ao contrário do que o autor do citado texto afirma, quanto mais alguém tem posses e dinheiro, menos seguras estarão suas casas. E daí vemos segurança particular, sistema de câmeras, muros cercados e eletrificados… Isso nada mais é do que uma falsa sensação de segurança e bem estar na sua bolha.

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A evolução científica mostrada no texto é um fato, realmente. Mas até nisso há uma desigualdade. Grandes países capitalistas transformam suas descobertas em patentes, de modos que o restante da humanidade não possa usufruir de seus benefícios até que paguem (nem todos os países tem essa condição) ou pelo menos até que elas estejam já defasadas. Sem falar de coisas simples, como um exame de mamografia, recentemente mostrada numa reportagem de TV, em que, em pleno século XXI, só é acessível apenas para a metade das mulheres brasileiras. E assim é em todo o mundo periférico do sistema capitalista.

Como se vê, não é possível ter nenhum tipo de otimismo com relação a esse sistema que tem no seu DNA o fomento cada vez maior da desigualdade; que destrói o meio ambiente como se os recursos naturais fossem infinitos; que joga bilhões de pessoas na pobreza; 1 por cento com a riqueza e alguns poucos na ilusão de suas bolhas de consumo.

Se não mudarmos o sistema, não teremos um futuro tão belo e utópico como o autor do texto foi capaz de imaginar.

12 de outubro de 2015

Intervenção russa na Síria pode inaugurar um novo cenário geopolítico internacional

Desde que as forças militares russas entraram de forma mais incisiva no apoio ao governo sírio contra as entidades terroristas no país, no final de setembro, alguns aspectos da geopolítica internacional ficaram expostos de forma um tanto esclarecedores, especialmente a atuação do Ocidente na região.

Há um ano os EUA lideram uma coalizão de fachada contra os terroristas na guerra civil síria, especialmente os do Estado Islâmico (ISIS), sem muita efetividade. Na verdade, chama atenção a incompetência em atingir alvos militares na mesma proporção em que se atingem alvos civis. Os russos, por outro lado, em menos de duas semanas de operações, já destruíram 40 por cento da infraestrutura do ISIS na Síria.

Afirmações deixam claro: prioridade do Ocidente é queda de Assad

O mais revelador da entrada russa no conflito é a forma como a máscara de algumas figuras importantes da política internacional vem caindo pelo mundo, mostrando que o Ocidente nunca teve, de fato, vontade de atacar os terroristas, mais do que derrubar o governo de Bashar al-Assad. John McCain, senador norte-americano e presidente do Comitê das Forças Armadas do Senado dos Estados Unidos, chegou a afirmar sem nenhum pudor que “os EUA devem atacar instalações de importância para o regime sírio em resposta aos ataques aéreos da Rússia”. Ou seja, além de indiretamente cooperar com rebeldes terroristas, sugere um atentado contra um governo legitimamente instituído com 70 por cento de aprovação do povo. Ainda sugeriu o oferecimento de armamentos ao governo golpista e reacionário da Ucrânia como forma de responder à atuação russa no desmantelamento dos grupos terroristas.

assad e putin

O próprio ilegítimo presidente ucraniano, Pyotr Poroshenko teve a coragem de dizer que os ataques russos a instalações militares dos terroristas do ISIS representam “a destruição da ordem mundial”.

Por trás dessas revelações até certo ponto surpreendentes, estão as verdadeiras intenções do Ocidente na região, fomentando grupos dissidentes a derrubarem governos que não se alinham às diretrizes dos Estados Unidos. É o caso do presidente sírio Assad, que preside um país numa posição geograficamente estratégica para o escoamento do petróleo do Oriente Médio pelo Mediterrâneo.

Para os EUA, ISIS não merecem sanções na ONU

Muitos desses terroristas, chamados de “moderados” pela Casa Branca e que atuam com armas na Síria para derrubar o governo, recebem apoio direto dos Estados Unidos e da Europa. Isso que a participação russa no confronto em apoio ao governo legítimo de Assad ajudou a desmascarar – se é que já não estava óbvio. Uma dessas ações reveladoras se deu quando os Estados Unidos bloquearam a proposta da Rússia de incluir o grupo terrorista Estado Islâmico na lista negra de sanções do Conselho de Segurança da ONU. Não há justificativa confessável para tal impedimento. Nem a vontade de assumir que o ISIS é visto com utilidade pela Casa Branca na intenção de derrubar Assad do poder.

Esse ano, o ex-oficial de contraterrorismo da CIA e do Comitê de Relações Exteriores do Senado norte-americano, John Kiriakou, assumiu publicamente que as armas que o governo dos EUA envia para os terroristas “moderados” vão parar nas mãos do ISIS. Segundo ele,

[O Exército Livre da Síria, grupo armado que tenta derrubar Assad do poder e considerado “moderado” pelo Ocidente] não ajuda em tudo. Apoiando-os só pioraram as coisas. A maioria das armas norte-americanas que foi enviada para eles só encontrou seu caminho nas mãos do Estado Islâmico. O Congresso pagou por armamento para o Estado Islâmico”

Em 2014, o Congresso norte-americano destinou meio bilhão de dólares ao grupo para criar uma força de mais de 5.000 homens até o final de 2015 para atuar contra o governo sírio. Com a desculpa de treinar “moderados” para combater o ISIS, na verdade prepara um grupo terrorista para combater o presidente sírio.

Uma nova ordem mundial a caminho?

Se a Síria conseguir derrotar os terroristas apoiados pelo Ocidente com a ajuda da Rússia, o que é bastante provável, um novo cenário estará esboçado na geopolítica internacional. A decadência diplomática da Europa e dos Estados Unidos com suas retrógradas políticas belicosas com interesses econômicos mal disfarçados daria assim lugar a novas potências em ascensão no protagonismo mundial, como a própria Rússia e a China.

Relembrando o presidente Ucraniano, a intervenção da Rússia no conflito “destrói a Ordem Mundial”. Mas se a “ordem mundial” é essa que vigorou desde a Guerra Fria, com países capitalistas promovendo atentados a governos eleitos legitimamente, golpes patrocinados de fora, assassinatos de líderes políticos, patrocínios de grupos terroristas e ingerência sobre assuntos internos de outros países, então que desmorone essa velha ordem mundial. Que venha uma Nova Ordem Mundial.

5 de outubro de 2015

O senso comum por trás do “bandido bom é bandido morto”

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Quando todos pensam igual, ninguém está pensando

Water Lippman

O senso comum é uma praga. Ela se alastra fora do controle e se estabelece como verdade dada, sem necessidade de reflexão, ainda mais em sociedades cuja média da população tem o raciocínio tatibitati. Ele faz as pessoas se sentirem pertencentes a um grupo, é acolhedor saber que tantas pessoas pensam igual a gente em assuntos importantes, e também oculta uma realidade bem diferente da que anuncia.

De acordo com recente pesquisa Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), metade da população pesquisada em 84 municípios de mais de 100 mil habitantes concorda com a afirmação típica do senso comum brasileiro: “bandido bom é bandido morto”. Foram ouvidas 1,3 mil pessoas.

Seria compreensível se a metade que concorda com essa afirmação fosse membro das classes mais altas da sociedade. Pois uma das funções do senso comum é jogar uma cortina de fumaça nos fatos e propor soluções inadequadas para os problemas. O fato é que a violência brasileira, que se torna a fábrica de bandidos com produção em série porque inserida numa sociedade capitalista onde a posse de bens determina o status social, é fruto direto do imenso abismo da desigualdade sócio-econômica, que coloca uns poucos vivendo numa bolha de consumo e bem-estar enquanto joga milhões na indigência e na falta de perspectivas. Então para essas classes abastadas, qualquer medida que algum governo proponha para apenas atenuar essa desigualdade, como uma bolsa-família ou cotas para Universidades, os fazem ir pra rua protestar e bater panelas em suas varandas. Muito melhor que a sociedade continue apoiando o massacre de negros e pobres com base na falácia de que matar bandidos é a solução.

E o lamentável de tudo, mas também esperado, é que as próprias vítimas em potencial dessa estratégia de matança policial apoiem a medida. São pessoas, em sua maioria, sem uma formação escolar adequada, sem hábito de leitura, sem capacidade de crítica e argumentação, e portanto, alvos preferenciais do senso comum, que não passa de uma forma confortável de ter opinião pra tudo sem ter que saber de nada.

Mas poderia ser pior. Não sei qual foi o questionário aplicado na pesquisa que levou à conclusão de que metade da população apoia a ideia de que bandido bom é bandido morto, mas parece que o próprio Fórum Brasileiro de Segurança Pública, órgão não governamental ligado a policiais, quis reforçar essa ideia. Tudo é a forma e o que se pergunta. Pesquisas não são absolutas. Seus métodos podem levar a resultado A ou B. Perguntar, por exemplo, – se foi o caso, como parece – “Você acha que bandido bom é bandido morto?” numa pesquisa dessas é o mesmo que perguntar “Deus ajuda quem cedo madruga?”, ou “O trabalho dignifica o homem?”.

A polícia brasileira é a que mais mata no mundo inteiro. E não só bandidos, como suspeitos e até inocentes. Os poucos que conseguem escapar estão lotando as penitenciárias. Foram 11.197 mortes causadas por policiais entre 2009 e 2013, ano em que as polícias civil e militar mataram seis pessoas por dia em média no Brasil, de acordo com o Anuário produzido pelo próprio FBSP. Então é caso de se pensar: e se a pergunta feita na pesquisa fosse diferente? Por exemplo: Há trinta anos a política de segurança pública no Brasil estabelece a guerra e a matança como solução para a violência. Você se sente mais seguro com essa medida?

Enquanto o senso comum imperar na sociedade brasileira, vamos continuar defendendo ações que só reforçam o quadro de violência. A muita gente interessa que se continue defendendo falácias como a do bandido morto, porque dá a falsa sensação de que matando um bandido, resolve-se o problema. E se alguém for contra isso, por exemplo evocando a questão essencial dos Direitos Humanos, ainda é obrigado a ouvir novas pérolas do lugar-comum, como a de que “quem não apoia a medida defende os bandidos”, e aí surgem uma série de outras falácias derivadas como “direitos humanos para humanos direitos”, “tá com pela leva pra casa”, “e se fosse com a sua mãe?”, coisas realmente tristes e patéticas pela forma como se repetem. Mas basta uma pequena reflexão de 2 minutos para se perceber que os bandidos tem sido mortos há décadas, e a sociedade está cada vez mais acuada. Está na hora de propor novas soluções e abandonar as medidas fáceis e enganosas.