16 de abril de 2015

O paradoxo dos carros

CARROS EM BANGU

Primeiro, o sistema capitalista e sua poderosa máquina de propaganda ideológica/consumista te induz, todos os dias, a ostentar algum símbolo de distinção social. Então você vai e compra um carro, um dos mais emblemáticos destes signos de status (na cabeça do brasileiro médio). O problema é que muitas outras pessoas também pensaram a mesma coisa que você, e então a cada dia os veículos entopem tanto a cidade, que a velocidade média de deslocamento nas grandes cidades, em pleno século XXI, é menor do que as passadas de uma galinha – estamos mais lentos hoje do que antes da invenção do automóvel, um tremendo paradoxo. Mas não é o único quando o assunto é carro.

Segundo, o mesmo sistema que te diz que ter um carro é bom, reboca seu veículo se você não tiver onde guardá-lo. Mas onde você o guardaria, se cada vez mais os espaços urbanos estão sendo tomados por construções e – claro – mais e mais veículos? Outro paradoxo.

Esse é o dilema que anda ocorrendo em regiões do Rio de Janeiro, especialmente na Zona Oeste. Os reboques da prefeitura têm passado o rodo em carros estacionados nas ruas e em locais proibidos, deixando os proprietários indignados. Eles, os donos, esqueceram que ter um automóvel é só uma parte da questão, a outra é justamente ter onde guardá-lo. Mas isso a publicidade não lhes disse, claro.

A coisa é tão grave que até o político manda-chuva da região de Bangu, Coronel Jairo, tratou de distribuir um comunicado alertando aos seus eleitores do bairro que não tem nada a ver com isso. Em vez de tomar partido da ordem urbana e da utilidade pública, tomou o partido dos motoristas-eleitores, lógico.

Pois eu acho que a prefeitura tem mais é que rebocar mais carros e limpar as ruas cada vez mais.  No meu prédio mesmo, cujo portão é bem próximo da beira da rua, um morador resolveu transformar a entrada do edifício em seu estacionamento privativo, atrapalhando as entregas dos moradores, chegada de ambulância e até mesmo a ida e vinda dos pedestres. Se ele não tem garagem, o problema é dele, e ninguém precisa se sujeitar aos caprichos consumistas de ninguém. Tome reboque.

Todos os dias, uma média de 300 mil veículos são despejados nas ruas pelas montadoras. O colapso é iminente. E aí mais um paradoxo: construir carro é bom para a economia – eles dizem – pois garante milhares de empregos no setor. Mas o trânsito parado por engarrafamento todos os dias emperra a mesma economia e gera milhões em prejuízos e desperdícios. E então o governo gostaria de incentivar o transporte público, mais eficiente, mais rápido e mais limpo. Mas os empresários dizem que teriam que demitir muitos pais de família se as vendas caíssem. A sociedade fica refém de uma chantagem. Além disso a classe-média não quer se misturar com o povão e abrir mão do seu símbolo de status social. Ela prefere levar 2 horas e meia da Zona Sul até o Centro dirigindo seus veículos cada vez mais possantes (que não têm espaço onde despejar toda aquela potência, e tome paradoxo)  do que ter que pegar um maldito ônibus (coisa de pobre).

Pois fica aqui o alerta: antes de ser seduzido pela publicidade do consumo e da distinção social proporcionada pela propriedade de um automóvel, pense bem se você não vai ser mais um responsável por entupir as ruas e estradas da sua cidade com mais um trambolho motorizado poluidor, que de forma contraditória, é mais lento do que uma carroça puxada a cavalo do século XIX. E ainda contribuir com o lucrativo negócio dos reboques.

3 de abril de 2015

Sete em cada dez brasileiros não leram um livro sequer ano passado

Livros

Uma das notícias mais desalentadoras desses últimos dias foi a divulgação de uma pesquisa da Federação do Comércio do Rio de Janeiro sobre o número de leitores de livros no Brasil no ano passado: apenas 3 em cada 10 leram pelo menos um livro. Ou seja: 70 por cento dos brasileiros não leram um livro sequer no ano de 2014. Isso é simplesmente estarrecedor.

Aparentemente pode-se concluir que se trata de uma questão secundária: “e daí que caiu o número de leitores? Temos o aumento do acesso à internet e isso compensa”. Não, não compensa. Não é a mesma coisa. Assim como a TV nunca compensou.

Um livro exige e privilegia a concentração, a dedicação de muitos minutos seguidos em um mesmo tema, e fornece assim um conhecimento profundo sobre determinado assunto. Já a internet, apesar de ter colocado à nossa disposição milhões de possibilidades de acesso à informação, transformou nossa capacidade de concentração em uma ervilha. Hoje os jovens não conseguem se concentrar em nenhuma tarefa por um período superior a 5 minutos, e vários artigos e postagens de internet já se adaptaram a isso para fornecer textos que levam cada vez menos tempo de leitura, ou seja, com conteúdo mais resumido e superficial. O que será dessa geração, ou o que será do conhecimento humano, quando esse tipo de modelo prevalecer daqui a algumas décadas, se nada for feito?

No Brasil, a coisa é ainda mais grave. Muitos países europeus e os Estados Unidos, não por acaso na liderança do mundo hoje em matéria de ciência e tecnologia (que, obviamente, se reflete na economia) deram a largada para a erradicação do analfabetismo e a universalização do ensino já século XIX. Portanto, suas populações se encontravam muito mais desenvolvidas e preparadas na época que a televisão deu as caras como a nova tecnologia em meados do século XX. Por terem uma ampla parcela de leitores, alguns países tiveram na televisão uma mera fonte de entretenimento, não de saber.

Veja também: Como as mídias manipulam a opinião pública no Brasil 

Infelizmente o Brasil assistiu a chegada do aparelho de televisão no momento em que mais da metade da sua população ainda era analfabeta. Então demos um salto da ignorância para a TV sem passar pelos livros, o que nos tornou uma nação que passa a vida diante da televisão assimilando passivamente o que recebemos como verdade e informação. Agora a internet vem tomando aos poucos a supremacia da TV, mas como todos sabemos, sem capacidade crítica de discernir as toneladas de informações que aparecem no monitor do PC, o brasileiro consome o que estiver disponível do mesmo jeito. Em 1 minuto lendo uma postagem sobre um determinado e complexo tema – por exemplo, a legalização das drogas – ele acha que já sabe tudo sobre o assunto, e assim despeja falácias na internet, que por sua vez ajudam a realimentar o senso-comum da profundidade de um pires que sempre circula na maioria dos portais e sites.

Isso não explica muita coisa do que temos visto ultimamente no nosso país?

1 de abril de 2015

1964 e 2015: por que eles têm medo que o brasil vire uma “nova cuba”

Bolsonaro celebra Golpe

Jair Bolsonaro celebra o Golpe um dia antes com fogos e faixa em Brasília

Há exatos 51 anos, a luta de classes e os conflitos sociais atingiam o ápice no Brasil. Na madrugada do dia 1º de abril de 1964, o general Olympio Mourão Filho conduzia as tropas do Exército, sediadas em Juiz de Fora, para depor o presidente João Goulart. A justificativa para um atentado tão grave contra a democracia foi salvar a pátria – e, em um nível mais elevado, até a “civilização judaico-cristã ocidental” – do “perigo comunista”. Mas por trás dessas supostas medidas heroicas, existem razões muito mais pragmáticas.

O Golpe preventivo

Desde 1961, com a renúncia de Jânio Quadros da presidência da República, os trabalhadores vinham se organizando nas cidades e nos campos em busca de direitos. Para as elites nacionais, herdeiras da ordem conservadora em que seus privilégios são considerados intocáveis há séculos, qualquer movimento que ameace essa condição deve ser combatida em todas as frentes. Foi assim que o empresariado e o patronato primeiro se organizaram no começo dos anos 60 em instituições que tinham como fachada estudar a situação do país e propor reformas dentro do âmbito liberal (mas um liberalismo sui-generis à la brasileira, em que as liberdades econômicas convivem com um exacerbado conservadorismo, o capitalismo “meritocrático” convivendo lado a lado com o paternalismo). 

Em março de 1964 João Goulart via-se no meio de uma crise entre os setores conservadores e progressistas. No famoso Comício da Central, em 13 de março, ele finalmente decidiu pelo lado progressista, propondo medidas que seriam o pontapé inicial para as Reformas de Base. Nesse ponto, as elites descobriram que a pressão sobre o governo não faria mais efeito, teriam que dar a sua última cartada: um golpe.

O que Cuba tem de tão ameaçador?

Em todo aniversário do Golpe, os oficiais se reúnem no Clube Militar para celebrar o heroísmo daqueles que salvaram a pátria – na verdade, daqueles que primeiro cercearam as esperanças do povo e depois perseguiram, torturaram e mataram aqueles jovens universitários que lutaram contra a tirania. Jair Bolsonaro é a face mais caricata hoje desse movimento, soltando fogos e estendendo faixas em Brasília, agradecendo aos militares que não deixaram o Brasil virar uma nova Cuba. Mas o que exatamente eles tanto temem de Cuba?

Certamente não é a falta de liberdades. Isso fica patente na medida em que a ditadura militar que as classes dominantes fomentaram no Brasil exerceu uma censura e uma perseguição política que jamais foi vista neste nível na ilha caribenha. Ou seja, para as elites, a democracia é apenas um detalhe: souberam conviver perfeitamente durante duas décadas no Brasil sem democracia e sem liberdades, e viveriam até mais, se pudessem, desde que seus privilégios fossem mantidos.

Na verdade, o que Cuba tem e que eles tanto temem, é uma educação pública de qualidade para todas as pessoas, especialmente negros e pobres; serviços médicos de primeira qualidade; uma desigualdade social ínfima, onde não há ricos, tampouco miseráveis; uma participação social na política como pouco se vê no mundo; nenhum latifúndio que toma as terras dos camponeses e os emprega em trabalhos semi-escravos; e por fim, uma sociedade em que o ser humano por si vale mais do que a família em que nasce, a herança ou os contatos que alguém possa ter para favorecimento pessoal. É isso que as elites brasileiras e as classes médias cooptadas temem de Cuba. Não a suposta falta de liberdade. 

Nesse sentido, podemos perceber claramente até que ponto as elites brasileiras podem chegar quando a busca por mais direitos, menos desigualdade e mais democracia ameaça seu status. Primeiro mentem, fazendo uso dos meios de comunicação que lhes servem para propagar uma ameaça ridícula de perigo comunista; depois deixam de lado as diferenças pontuais entre seus membros para se organizar em defesa de seus interesses de classe; apelam para o sentimento religioso da população, alegando que os inimigos ameaçam “os pilares da civilização judaico-cristã” (se os pobres infelizes desses país pensassem, talvez eles próprios seriam os primeiros a derrubar tais pilares, por serem a fonte da resignação perante a desigualdade social mais perversa do mundo); e por fim, chegam ao extremo de derrubar o governo democraticamente eleito para salvaguardar seus privilégios.

Tudo isso seria meramente uma grande lição da história, que deveríamos entender para corrigir, mas desgraçadamente, o próprio regime militar, que perdurou 21 anos no poder, também violentou o sistema de ensino brasileiro. A herança maldita desses tempos sombrios pode ser sentida até hoje, quando a saudade da ditadura permeia o senso-comum. O filme se repete hoje quando as classes médias cooptadas pela ideologia das elites vão às ruas pedir Impeachment e golpe militar, bem no momento em que a sociedade, meio que desarticuladamente ainda, grita por mais direitos e por justiça social, tal como em 64.

O inusitado disso é que o atual governo, nem de longe, mas nem de longe mesmo, pode ser acusado de comunista, ou de sequer propor reformas que façam cócegas em seus privilégios. Mas a burguesia brasileira é tão egoísta, que basta a mera ascensão social de miseráveis ao status de consumidores primários para que o alarme soe.

Neste aniversário do Golpe Militar de 64, que o cidadão brasileiro possa refletir sobre o medo irracional do comunismo. Certamente ele vai chegar à conclusão que essa fobia tem sido fomentada há décadas para ocultar os interesses de classe das elites brasileiras. E que a “ordem social”, tal como a vemos no dia a dia, significa apenas o conformismo dos injustiçados.