29 de janeiro de 2015

Conquistas do Syriza constrangem o PT

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Atualizado em 11 de julho de 2015

Uma das consequências mais nefastas da desilusão dos governos petistas foi a desconfiança que causou sobre toda a esquerda no eleitorado brasileiro. A cada vez que Lula e depois Dilma cediam de joelhos ao poder econômico, nomeando gente de confiança dos mercados para postos estratégicos do governo, a população perdia a fé de que, um dia, um governo verdadeiramente progressista pudesse chegar ao poder para enfrentar os desmandos do capital. Mas eis que a coligação de esquerda Syriza vence na Grécia, e apesar de ser muito cedo para uma avaliação, podemos dizer que, pelo que vimos até agora, já fez mais do que o PT em 13 anos.

Antes de mais nada, Alexis Tsipras (imagem à esquerda) anunciou energia elétrica para 300 mil famílias carentes; vai recontratar funcionários públicos demitidos; cancelou privatizações dadas como certas pela (e a mando da) troika e neste exato momento, está criando condições políticas e econômicas para acabar com a mal-fadada austeridade, que, trocando em miúdos, significa escalpelar os pobres para ressarcir os bilionários juros dos empréstimos dos bancos europeus, para sanar uma crise que a própria política de austeridade ajuda a aprofundar.

Enquanto isso, vai por água abaixo o discurso thatcherista do PT de que “não há alternativa” a não ser rezar na cartilha dos grandes capitalistas. Ora, se a Grécia, um minúsculo país pobre e endividado até a alma, pode oferecer uma outra alternativa a seu povo, é sinal de que Joaquim Levy no Ministério da Fazenda e seu neoliberalismo 2.0 é uma escolha política do PT. Existe sim opção à esquerda desse modelo econômico destrutivo, e o Partido dos Trabalhadores não implementa, ou porque não tem coragem, ou porque é conscientemente um partido da ordem estabelecida, embora não seja capaz de admitir.

A despolitização causada pelo estelionato eleitoral do PT, que garantiu sua reeleição, tem ficado cada vez mais difícil de administrar. A direita política e os setores mais conservadores da sociedade se uniram no mero intuito de varrer o PT do poder, que consideram um cão sardento e indesejável, apesar de obediente.

Até aqui, os eleitores progressistas, por sua vez, tem elegido os presidenciáveis petistas mais como um veto ao candidato tucano do que como uma escolha convicta. Acontece que a cada nova eleição, o eleitorado percebe menos diferença entre eleger tucanos e petistas, e isso ficou bastante claro na última e suada vitória de Dilma na disputa eleitoral mais apertada da história. Nesse ritmo, e com o surgimento no mundo de opções como o Syriza na Grécia e o Podemos, na Espanha, é hora do eleitorado progressista brasileiro abandonar de vez qualquer esperança no Partido dos Trabalhadores, e investir suas forças nos partidos brasileiros que têm potencial para carregar as mesmas bandeiras da esperança dos povos explorados pelo neoliberalismo no mundo. Eles estão por aqui, é só olhar com cuidado.

11 de janeiro de 2015

As religiões não podem ser satirizadas?

As religiões não podem ser satirizadas?

Por conta do recente atentado contra o jornal Charlie Hebdo na França por terroristas islâmicos, reacendeu-se no mundo o debate a respeito da liberdade de expressão. Ativistas lembraram que a democracia corre perigo quando criminosos tentam calar as críticas com assassinatos, e também quando pessoas do mundo inteiro tentam justificar o atentado pelo conteúdo de gosto duvidoso das charges publicadas no jornal, supostamente “islamofóbicas”, por fazerem piada com o profeta Maomé, algo considerado inadmissível para os seguidores daquela religião.

Levantando essas críticas justamente neste momento, dão a impressão de que estão tentando amenizar um crime bárbaro. O juízo de valor sobre o bom gosto das charges é relativo, mas o que devemos discutir agora em primeiro lugar, é o crime que elas causaram. Além disso, fica implícito outra questão bastante presente em situações desse tipo: que as religiões são “sagradas” e portanto, criticá-las, fazer piadas com elas ou seus símbolos é um desrespeito. Vamos tentar entender isso.

Como disse Richard Dawkins em seu livro, Deus, um Delírio, existe a crença disseminada em todas as sociedades de que a fé é vulnerável a ofensas e que por isso, deve ser protegida “por uma parede de respeito extremamente espessa”. Nessa mesma publicação, ele resume a questão citando um discurso de improviso de Douglas Adams em Cambridge, um pouco antes de morrer:

A religião […] tem determinadas ideias em seu cerne que denominamos sagradas, santas, algo assim. O que isso significa é: “Essa é uma ideia ou uma noção sobre a qual você não pode falar mal; simplesmente não pode. Por que não? Porque não e pronto!”. Se alguém vota em um partido com o qual você não concorda, você pode discutir sobre isso quanto quiser […] Mas se alguém disser “Não posso apertar o interruptor da luz no sábado”, você diz: “Eu respeito isso”.

Nossa sociedade dita “laica” é pródiga em tratar a religião com privilégios, como uma instituição acima do bem e do mal. E assim seus líderes tem o direito de pregar o ódio contra minorias, contra negros, mulheres e outras religiões protegidos pela suposta sacralidade de seus atos e pela liberdade religiosa. Além disso, contam com privilégios fiscais e com a benevolência das autoridades com relação aos milhões de Reais arrecadados em seus serviços religiosos. O mínimo que a sociedade poderia ter como direito seria satirizar os dogmas que eles pretendem que sejam espalhados para todos nós através da pressão nos nossos políticos. É um dever cívico denunciar religiões que pregam contra direitos civis baseadas, no nosso caso, num livro escrito por um povo bárbaro da Idade do Bronze, uma espécie de coletânea de mitos de outras crenças do neolítico que eles interpretam ao sabor de seus preconceitos.

Nesse sentido, e apenas nesse sentido – sem querer me ater quanto ao bom gosto ou não de suas charges – eu apoio o jornal Charlie Hebdo, e espero que eles não se rendam ao terrorismo. Não podemos ceder a pressões de quem quer impor suas crenças irracionais a todos nós. Criticar, debochar e satirizar religiões é perfeitamente legítimo, como fazer piada de político ou de partidos políticos é absolutamente aceitável.

10 de janeiro de 2015

IFSUD: religião do medo

IFSUD: religião do medo

Não me ocorre outra palavra para descrever o que acontece com os membros da seita cristã Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (IFSUD) nos Estados Unidos: escravidão. E isso fica bem claro na narrativa biográfica de Elissa Wall em seu livro Inocência Roubada, que acabo de ler.

Elissa foi nascida e criada dentro dessa seita poligâmica. Sua mãe fora dada a seu pai, que já era casado, para ser sua segunda esposa, de acordo com os costumes, pelo profeta, a autoridade máxima que, entre outras funções, arranja casamentos seguindo supostas revelações de Deus. O livro relata a infância de Elissa numa casa repleta de irmãos – somente de sua mãe ela tinha 11 irmãos e 12 irmãs, fora os das outras duas esposas de seu pai – e descreve uma rotina absolutamente controlada pela religião.

Homens e mulheres entregam igualmente o destino de suas vidas ao profeta, tanto com relação ao casamento, quanto a decisões básicas sobre o que poder fazer nas horas de lazer, o que comer, quando viajar, entre outras coisas. Ele pode simplesmente desfazer uma família inteira ao dar as esposas e os filhos de um homem a outro fiel da religião, como forma de castigo, sem levar em conta o trauma que isso representa para as crianças. Mas as mulheres são muitos mais dominadas, e o profeta exige delas subserviência total, obediência cega e entrega sem questionamentos. É, sem sombra de dúvidas, uma das mais extremas religiões patriarcais, misóginas e machistas que existem hoje, totalmente elaborada para colocar os homens em ampla posição de privilégio em relação às mulheres.

Isso só é possível porque, criadas desde pequenas na cultura fundamentalista da IFSUD, as mulheres acreditam piamente que a salvação de suas almas está condicionada a ser uma esposa submissa a seus maridos. O reino do céu não está garantido a elas diretamente, mas sim apenas como acompanhante de maridos, desde que elas tenham sido obedientes o suficiente.

Elissa Wall, repentinamente, soube que seria obrigada a se casar aos 14 anos de idade com seu primo de primeiro grau. E a partir daí o livro relata toda a angústia de uma jovem que luta desesperadamente para fugir desse destino arranjado, sem o menor sucesso, pois a opinião das mulheres sobre suas próprias vidas não vale absolutamente nada naquela cultura de submissão.

Atenção, spoilers a seguir

Pra resumir a história, Elissa conhece um outro rapaz renegado da religião, como tantos outros, expulsos e entregues à própria sorte, e foge com ele. Ela então é incentivada pelas autoridades a denunciar todos os abusos que sofreu no casamento forçado por cumplicidade do profeta Warren Jeffs. O profeta é condenado a 10 anos de prisão e Elissa passa a viver a sua vida normalmente longe da religião.

*   *   *

Pra alguém, como eu, que já tem enormes desacordos com todo tipo de religião, ler esse livro é um exercício de autocontrole, devido a minha completa indignação com os relatos de abusos, lavagem cerebral e ignorância a que os membros da IFSUD estão expostos naquelas comunidades em Utah. Mas o que realmente me deixa frustrado não é essa realidade local, e sim que as religiões monoteístas do mundo inteiro pratiquem o mesmo tipo de controle sobre seus seguidores, embora de forma bem mais suavizada pelo convívio com o mundo laico. Por isso, pode parecer que os católicos e os evangélicos não passem por esse tipo de situação, mas passam sim. São doutrinados, são controlados, induzidos a pensar de acordo com a cabeça de terceiros, e fazem tudo isso pelo mesmo medo do que vem após a morte. Medo que é devidamente explorado por líderes religiosos, que no fundo, apenas pretendem garantir para si dinheiro, status e poder.

Por isso que as sociedade mais avançadas aos poucos abandonam essas ilusões escravizantes, enquanto que em outros lugares, mais pobres, menos educados e portanto terrenos potenciais para seitas supostamente salvadoras, elas proliferam como praga.

O único lugar onde essa caracterização não se aplica perfeitamente, é justamente nos Estados Unidos, onde a educação é relativamente elevada, a cultura científica está muito bem assentada, e ainda assim, existem bolsões de ignorância religiosa, como a IFSUD.

Não adianta apelar para alguma tentativa de relativização desses fenômenos. Elas são exatamente o que são: uma forma de controlar a mente e de submeter a vontade das pessoas através do medo.