9 de dezembro de 2015

Uma sugestão a Geraldo Alckmin: proponha um processo de Impeachment a si mesmo

Em meio ao conturbado momento político por que passa o Brasil, diversos governadores foram manifestar seu apoio à presidenta Dilma Rousseff contra o descabido processo de Impeachment. Menos, como era de se esperar, o de São Paulo, Geraldo Alckmin, que enxerga na tentativa de impedimento da Dilma uma chance de chegar ao governo federal por vias tortuosas. Aliás, em se tratando de criar mecanismos escusos para manobrar nas regras da democracia, o governador paulista é mestre.

Desde que assumiram essa atual legislatura há quase um ano, os deputados da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), em sua grande maioria aliados do governador, vêm criando obstáculos para a investigação dos diversos desmandos, das enormes evidências de corrupção, recebimentos de propinas, favorecimentos de empresas, incompetência administrativa, e outras acusações graves contra Alckmin.

Uma das táticas utilizadas pelos nobres asseclas do governador é abrir diversas CPIs sem pretensão de investigação séria, para impedir que a oposição possa fazê-la. Já no primeiro dia das sessões, os deputados da base governista propuseram nada menos do que 15 CPIs, das quais 5 (o número máximo permitido) estão em andamento. Porém, para deixar bem claro a manobra de sabotagem, duas não têm presidente, uma obteve apenas um depoimento, outra investiga um tema federal e a última repete uma temática que já foi apurada três vezes.

Seria falta do que investigar no governo Alckmin?

Picolé de Chuchu

Muito pelo contrário. Seria pouco o espaço neste post para enumerar as diversas suspeitas, evidências e denúncias contra um dos políticos mais acobertados do país. A começar pela suspeita de pagamento de mensalão para deputados barrarem CPI sobre corrupção no governo em 2011, passando pela denúncia no contrato do cartel de trens, crise no abastecimento de água pela estranha privatização da Sabesp, entre outros casos.

Em recente entrevista, Geraldo Alckmin afirmou que o processo de Impeachment da presidente Dilma não é golpe, pois, num raciocínio simplório, disse que “o Impeachment é previsto na Constituição, e a Constituição não é golpista”.

Pois então fica aqui a sugestão ao governador de São Paulo: permita submeter-se a um processo de Impeachment na Assembleia Legislativa de São Paulo. Seria bom esclarecer todas as suspeitas que pairam sobre sua conduta. Mas como o senhor é um homem democrático, não vai manobrar para garantir a maioria para obstruir os trabalhos: vai deixar a oposição garantir a maioria e a relatoria do processo. E então, quando todos os seus crimes forem devidamente apurados, faça o favor de renunciar ao cargo para responder na Justiça todos os seus malfeitos. E aí sim, depois disso, de dentro da cadeia, talvez você tenha alguma legitimidade para comentar o processo de Impeachment da presidente da República.

5 de dezembro de 2015

Impeachment: em vez de “tiro no pé”, Cunha fez jogada de mestre

Impeachment: em vez de “tiro no pé”, Cunha fez jogada de mestre

Militantes, partidários do governo e blogueiros engajados já comemoram antecipadamente o pedido de Impeachment acolhido pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha do PMDB-RJ, contra a presidente da República, Dilma Rousseff. Alguns afirmam que o processo de Impeachment foi bom para a Dilma (!?) pois dará a possibilidade dela esclarecer à população sua conduta até aqui ilibada – ignoram porém, o desgaste que tal necessidade de diversas explicações poderia causar; outros, mais afoitos, dizem que Eduardo Cunha gastou sua última bala, pois a tese das “pedaladas fiscais” que justificariam o Impeachment passou incólume na aprovação das contas pelo governo. Além disso, segundo eles, o crime de responsabilidade fiscal não poderia recair sobre a presidente e sim sobre algum secretário do segundo escalão da Economia.

Bom, Eduardo Cunha pode ser tudo e mais um pouco do que anda sendo acusado, com provas e tudo mais, mas não é tolo, e já mostrou que entende desse tal negócio de política. Não podemos deixar de levar em conta que essa manobra arriscada foi friamente arquitetada com gente da alta confiança, parlamentares que lhes devem favores, outros com afinidade política e alguns oportunistas. Somados estes asseclas, podemos muito bem deduzir que esse processo vai longe, com muitas sessões e etapas delongadas (acompanhe abaixo como funciona o processo).

Devido à gravidade das acusações contra si, Eduardo Cunha já estava na iminência da queda. Tudo o que ele ganha (e ele poderá ser o maior vencedor disso tudo, e não o ingênuo que “gastou a sua última bala à toa”) é sobrevida no cargo. Pois agora, os parlamentares da base aliada do governo que fizerem pressão para seu afastamento estarão apenas “tentando dar o troco”, ou “atuando de forma interesseira e não republicana”, fatos que serão explorados pela mídia burguesa certamente, e lhe darão tempo para assistir de camarote mais um processo de desgaste da presidenta. Isso se não cometerem a loucura de derrubá-la do poder...

Como se percebe, olhando as coisas por este outro prisma, talvez os petistas tenham mais motivos para se preocupar do que andaram demonstrando até aqui, nesse falso gesto de otimismo que não convence ninguém...

Como vai funcionar o processo:

                                                                                                                                                                                                              Fonte da arte: Época

1 de dezembro de 2015

Escolas de São Paulo: como as instituições burguesas tratam protestos de forma “democrática”

Pairando acima do cidadão paulista, o Estado, essa superestrutura que tem o dever de prover, entre outras responsabilidades, a Segurança Pública e a Educação. Por ocasião de uma medida autoritária que mexe com a vida de milhares de pessoas que não foram consultadas, o governo deste Estado, no poder há 20 anos pelo mesmo partido, decide reorganizar as escolas. Os alunos protestam, como protestariam em qualquer sociedade dita democrática. A falência da Educação faz entrar em ação o aparato militar.

O Brasil é um país democrático (não riam) e espera-se que um protesto espontâneo e pacífico de ocupação das escolas pelos alunos suspenda até segunda ordem a decisão de realocar alunos para outros colégios. Abrir-se-ia assim um canal de discussão entre governo, alunos, pais, diretores e os demais responsáveis, para encontrar uma solução negociada. No entanto, o governo de São Paulo, cujo partido tem a social-democracia no nome e o neoliberalismo na ideologia, publica autoritariamente o decreto da realocação assim mesmo. Mais do que isso, coloca a Polícia Militar como interlocutora do Estado para tratar com adolescentes estudantes.

Aluno preso

Pior ainda: o representante da secretaria de Educação do Estado diz que é preciso adotar “ações de guerra” e táticas de guerrilha” contra os alunos acampados. Os primeiros episódios de terror já começam a aparecer, com suspeitos encapuzados fazendo ameaças nas madrugadas em torno dos colégios ocupados. E ainda há de se esperar em breve a desocupação forçada com a Tropa de Choque, bombas de gás, cães, spray de pimenta, balas de borracha e outros apetrechos da democracia burguesa.

Então temos um Estado da federação governado por um partido que acaricia tendências protofascistas e que ataca diretamente um dos maiores baluartes do Liberalismo: a Educação Pública. Muito bem. Por sorte, na nossa democracia, ainda temos uma imprensa livre, que é capaz de denunciar as atitudes insanas do governo, em favor da população.

Mas algo está errado... Vemos os telejornais, os portais de notícias dos principais canais da mídia e eles estão ao lado do... governo!! Onde está a teoria de que o jornalismo é o bastião da democracia contra os desmandos e excessos da administração pública? No Brasil pelo menos, isso não existe. Os interesses comerciais das seis famílias que monopolizam os meios de comunicação parecem ter um peso muito maior no teor das notícias.

Pois então temos este cenário. Resumindo: um Estado (o mais importante do país) governado há 20 anos pelo mesmo partido com tendências protofascistas que coloca as forças militares para dialogar com crianças, cujo secretário diz que as ações têm que ser de guerra e a imprensa, em vez de ser livre apoiar os alunos enquanto cidadãos, inventa factoides para incriminá-los perante a opinião pública, funcionando quase como órgão de propaganda política do governo.

Diante disso, é caso de se questionar: e vocês, analfabetos políticos, ainda têm a coragem de dizer que totalitários e despóticos são os governos comunistas, e livres e democráticos são os governos liberais?!

Você vive num mundo da fantasia em que os senhores capitalistas do mundo elegem os “malvadões” comunistas como seu inimigo, e governos “liberais” como o Eldorado da liberdade. Você na verdade tem muito o que aprender sobre as mentiras da propaganda da ideologia capitalista. Quem sabe São Paulo não lhe seja uma primeira lição.

24 de novembro de 2015

2016 terá PIB negativo. O que o governo Dilma deve fazer?

O Brasil se encontra em recessão. Isso é notório, pois os resultados da má administração da macroeconomia nos últimos anos podem ser sentidos no bolso do trabalhador, com a carestia e a ameaça de desemprego rondando a cada mês. No entanto, se a expectativa era de um 2016 melhor, como acreditavam os analistas internacionais, agora a realidade nos mostra que a crise ainda está só começando.

Em documento enviado ontem à Comissão Mista do Orçamento (CMO) do Congresso Nacional, o governo admitiu que a previsão do PIB para o ano que vem, que era de 0,2%, agora foi corrigido para -1,9%.

Como se não bastasse, os números da inflação também foram revistos – e para pior – com base no Índice de Preços para o Consumidor Amplo. Antes na casa dos 5,4%, agora 6,47%. Crescimento negativo, com risco de desemprego, desinvestimento na área produtiva, inflação acima do índice, ou seja, o cenário mais temido em qualquer governo. Ainda mais um que já padece com baixíssimos índices de popularidade, o que, juntando tudo numa mesma conjuntura, pode gerar problemas sérios para a estabilidade de Dilma Rousseff no poder ano que vem.

Mas então, é esse o resultado, a médio prazo, das políticas de corte e austeridade do governo?

Dilma caindoSim, o resultado é esse, a cartilha neoliberal em sua essência, que propõe ajustes onde o peso do sacrifício e do sofrimento recai sobre a classe trabalhadora, para aliviar os de cima, os ricos, empresários, os rentistas, o setor financeiro...

Ao contrário de Lula e de seu então ministro da Fazenda, Guido Mantega, que optaram por enfrentar o auge da crise mundial com incentivos aos empreendedores e investimentos na área produtiva, mantendo a economia em movimento, Dilma e Joaquim Levy aplicam exatamente o que os candidatos tucanos propunham naquela ocasião: corte de gastos, aumento de juros, e etc. o que paralisa o setor e cria o clima de medo e recessão que só piora a situação em vez de solucionar.

A saída da crise só pode ser na contramão da cartilha neoliberal, ou seja, pela esquerda, e propostas não faltam. Já no começo do ano, por exemplo, o PSOL apresentou sugestões que o governo deveria levar a cabo para, primeiro, tirar o país do buraco, e segundo, recuperar um pouco da popularidade nos setores que foram cruciais para a sua eleição, e para os quais a Dilma virou as costas no primeiro minuto após a confirmação de sua eleição.

Dentre algumas propostas, está a revogação das MPs 664/2014 e 665/2014 que retiram direitos dos trabalhadores; redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, sem redução de salário; luta para barrar o aumento das tarifas de transporte público e implementação do passe-livre nacional; aprovação de uma reforma política de verdade que amplie radicalmente a participação e o controle social e popular sobre as instituições públicas; punição de todos os envolvidos no esquema investigado pela Operação Lava Jato e revogação da reforma da Presidência, aprovada no primeiro ano do governo Lula; a taxação das grandes fortunas e (eu acrescentaria) a auditoria da dívida pública.

Leia na íntegra a Carta de Brasília com as propostas do PSOL

Talvez Dilma Rousseff saiba que precisa mudar de rumo na área econômica. O que lhe falta é autonomia e coragem para colocar as mudanças em prática. O resultado dessa fraqueza pode custar caro ano que quem, com o aprofundamento da crise. Dilma será pega na armadilha que a própria oposição criou e que ela entrou de livre e espontânea vontade.

15 de novembro de 2015

Atentado na França: o feitiço que vira contra o feiticeiro

129 mortos e 350 feridos, com 99 deles em estado grave. Este é o saldo, até o momento, dos ataques coordenados contra populações inocentes na França, reivindicados pelo Estado Islâmico (ISIS), em resposta, supostamente, à participação francesa ao lado dos Estados Unidos numa coalizão contra os terroristas do ISIS na Síria e no Iraque. Muito embora a França tenha se empenhado menos do que os próprios Estados Unidos, que não se empenham quase nada, nos ataques aos grupos terroristas religiosos que afrontam a Síria. Quem realmente combate o ISIS na região é a Rússia.

É preciso ser realista e acabar com esta hipocrisia ridícula que vem sendo a comoção mundial em favor da França. Antes de mais nada, é preciso dizer: o presidente francês admitiu abertamente, ano passado, que entregou armas a rebeldes sírios que tentam derrubar o governo de Bashar al-Assad naquele país, mesmo sabendo, como eu sei, como os EUA sabem, como o mundo sabe, que grande parte daquelas armas vai parar nas mãos do ISIS. Mas até aí, segundo eles, tudo bem. Os terroristas islâmicos cumprem um papel em nome dos imperialistas do Ocidente na região do Oriente Médio, que é desestabilizar e ajudar a derrubar governos não-alinhados com Washington. O problema é quando os terroristas, fanáticos e irracionais religiosos como são, saem do controle e atacam seus próprios financiadores...

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Se a França e o mundo devem sim prestar seu lamento pela morte de pessoas inocentes, devem fazer de modo crítico, condenando também o próprio presidente François Hollande pela culpa indireta nesse atentado, ao apoiar terroristas “moderados” na Síria. Se assim não for, cairemos numa comoção midiática tola que nos incentiva a colocar bandeirinhas da França nos nossos perfis de redes sociais e que tem como único objetivo sensibilizar a opinião pública para a necessidade de mais intervenção contra “terroristas” (pretexto para conseguir seus objetivos geopolíticos em outros países) e mais controle sobre a população. É o que já começa a pedir a extrema-direita francesa através do ex-presidente Nicolas Sarkozy, de Marine le Pen, entre outros. E assim ocultam quem está verdadeiramente por trás do próprio terrorismo mundial e os objetivos dessa empreitada maligna.

Outra questão bastante incômoda: um dia antes do atentado parisiense, ataques a bomba no sul de Beirute, capital do Líbano, também reivindicados pelo ISIS, mataram 43 pessoas e deixaram 239 feridos. Assim como acontece tantas vezes nas periferias do mundo. Por que só há essa comoção quando os alvos são os autoproclamados centros da hegemonia mundial, especialmente Europa e EUA? Por que, se, além de vítimas, esses países são também culpados pelo próprio terrorismo que, eventualmente, sofrem?

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Há muita coisa errada nesse mundo. Muitas delas precisam de grandes transformações. Mas muitas podem ter resultados incríveis se nos atermos desses meros detalhes.

10 de novembro de 2015

A responsabilidade do PT no crescimento do conservadorismo no Brasil

Em 2002, eu votei em Lula. Não era e nunca fui petista (na ocasião meus votos eram sempre para o PDT de Brizola), mas sentia que, naquele momento, algo histórico estava prestes a acontecer. Um partido de esquerda subiria ao poder máximo no país. Pra mim foi uma alegria a emblemática cena do Lula subindo a rampa do Planalto pela primeira vez, para receber a faixa presidencial. Ignorei os avisos do próprio Brizola, de que o PT era a UDN de macacão, e aí, logo depois veio a primeira decepção, a primeira de muitas que viriam a detonar todas as esperanças de milhões de brasileiros – mais precisamente, 50 milhões de brasileiros que naquela eleição disseram não ao neoliberalismo.

Recado aos vencidos

Lula divulgou a famigerada Carta aos Brasileiros, que bem podia ser chamada de Carta aos Banqueiros, que o jornalista Paulo Henrique Amorim denunciou que fora escrita por Antonio Palocci com a supervisão de ninguém menos que... do filho do Roberto Marinho! Isso mesmo. Nessa carta, procurava tranquilizar os mercados, afirmando que a ortodoxia neoliberal não ia ser mexida em sua essência. Juros altos e inflação controlada iriam continuar garantindo o lucro dos rentistas e do mercado financeiro.

Quero ser igual a você

Logo a seguir, em 2005, o PT mostrou que já não merecia mesmo a nossa confiança. Tal qual um novato apenas tolerado em um círculo onde era absolutamente indesejado – os círculos das altas esferas do Poder – achou que poderia lançar mão das mesmas práticas adotadas pelo seu antecessor, o PSDB e o famigerado mensalão, sem que a mídia ou o bloco conservador usassem isso como arma política. Ledo engano. Depois de um julgamento transformado em espetáculo pela imprensa burguesa, diversos dirigentes do partido foram condenados e presos.

 

Lula, Dilma, Cunha

 

Esperava-se que o PT, depois dessa dura lição, tivesse aprendido que não se pode confiar nas velhas forças da oligarquia política. O povo dera mais uma chance na reeleição petista em 2006. Mas Lula só fez aprofundar ainda mais a dependência para com estes setores da política, sintetizada na coligação com um PMDB fisiológico, o verdadeiro partido do “toma-lá-dá-cá”, com a desculpa mentirosa da necessidade de maioria para a governabilidade, esse jargão que virou justificativa para as alianças mais espúrias.

Completado o mandato, Lula podia se vangloriar de ter tirado “milhões de brasileiros da miséria colocando-os na classe média”, falácia que hoje, com a ameaça de corte de 30 por cento do Bolsa Família e o estrago que isso poderia causar nos números da pobreza, sabemos que não é bem assim.

Dilma presidente. Uma tecnocrata que não faz política

Com a eleição da Dilma Rousseff em 2010 parece que a dependência do partido para com os setores conservadores piorou ainda mais, com o agravante da presidenta não gostar muito de fazer política, ou seja, não ter a mesma capacidade de arrancar concessões dos seus “aliados” na mesa de negociações como o ex-presidente Lula. Isso foi fatal para o PT que, desde então, se tornou refém do que há de mais retrógrado no Congresso Federal. Coisas bizarras como as que temos visto, como a ascensão política de um delinquente que atualmente preside a Câmara dos Deputados e desafia abertamente Dilma Rousseff com ameaças de Impeachment, que promove discussões das mais repugnantes como projeto que dificulta o acesso garantido pela Constituição ao aborto em certos casos (isso depois que a própria Dilma voltou atrás sobre o projeto do Aborto Legal, a pedido do próprio Cunha…), e a mudança do Estatuto do Desarmamento, por exemplo. Uma mistura de interesses políticos, religiosos e empresariais, que nada têm a ver com a vontade daqueles que elegeram o PT contra estas mesmas forças reacionárias.

Em pelo menos quatro momentos o PT fraquejou, recuou e jogou no lixo o apoio dos setores mais progressistas do eleitorado:

  1. Quando recuou, em 2011, diante da bancada evangélica naquilo que depois ficou conhecido como “Kit Gay”: num país onde um homossexual morre a cada dia vítima de homofobia, a cartilha escolar visava esclarecer o tema perante os alunos, promover o entendimento, o convívio e a diversidade. A bancada evangélica, que está na base de apoio do governo (não deveria) fez estardalhaço e o governo covardemente recuou. De lá pra cá, Dilma tem sido vítima de ataques sistemáticos e campanhas difamatórias desse grupelho que forma uma das mais faltosas alas do Congresso e reúne alguns dos mais incriminados deputados da Casa;

  2. Quando desistiu de bancar a Lei de Médios: o PT no governo até chegou a propor o debate sobre a regulação de uma das mídias mais concentradas do planeta (apenas 6 famílias detêm o monopólio de todo o sistema de comunicação) mas com os ataques da mesma, o PT recuou. Recuou, e agora é vítima dessa mesma mídia, que não se furta a fazer um ataque sistemático e diário ao PT, a Lula e a Dilma;

  3. Quando Lula “escolheu” Henrique Meirelles para presidente do Banco Central e Dilma Joaquim Levy Ministro da Fazenda no seu segundo mandato: na verdade, escolheram no universo macroeconômico manter a continuidade da política econômica neoliberal do PSDB, aquela que os brasileiros rejeitaram em todas as últimas eleições e que aprofunda a crise que o país se meteu (e consequentemente abala a popularidade do governo);

  4. Por fim, quando, além de promover menos assentamentos da Reforma Agrária que o próprio Fernando Henrique Cardoso, Dilma escolhe como Ministra da Agricultura ninguém menos do que Kátia Abreu, a Rainha da Motosserra e defensora dos agrotóxicos na comida do brasileiro. Juntos com a Bancada da Bala (deputados patrocinados pela indústria das armas) formam o grosso da oposição ideológica ao governo.

Claro que esse é apenas um pequeno apanhado, existem muito mais áreas em que o governo, em vez de cortar a cabeça da direita, deu-lhe afagos, trouxe-os para o governo. E agora, sofre com o monstro que ajudaram a criar.

E poderia ser diferente?

Alguns governistas poderiam alegar que as forças conservadoras são tão grandes no Brasil, que não haveria alternativa a não ser a aliança com eles. Mas isso não é verdade, e os exemplos dos nossos vizinhos da América Latina, especialmente Argentina, Uruguai, Bolívia, Equador e Venezuela, estão aí para não nos deixar mentir. As forças reacionárias, da direita e conservadoras estão aí em todo o continente, seja nas mídias ligadas a SIP, seja nos próprios parlamentos.

Saiba mais: SIP: onde se forma o consenso da imprensa conservadora latino-americana

Mas em vez de recuar, os governos desses países revolveram enfrentar a briga, estabelecer a diferença e os limites entre eles e os golpistas, e com isso conseguiram avanços que nem sequer sonhamos aqui no Brasil. Porque têm o povo para defendê-los. Aqui, numa estratégia inacreditavelmente burra, o PT virou as costas para as Manifestações de Junho, incriminando-as num primeiro momento, e depois prometendo reformas que foram violentadas, deturpadas e manipuladas pelos seus “aliados” no Congresso. A voz das ruas virou a voz da oposição com o beneplácito de um governo fraco e que despolitiza a política em nome de uma falsa paz entre as classes.

Portanto, a aliança com as forças conservadoras foi uma escolha infeliz do Partido dos Trabalhadores, e não uma necessidade em nome da famigerada governabilidade, como nos tem sido dado a acreditar. Os reflexos dessa escolha podem ser sentidos agora, e deverão ser decisivos na eleição de 2018.

5 de novembro de 2015

Como Jean Wyllys se tornou a esquerda que a direita gosta

Nunca votei especificamente no deputado federal Jean Wyllys, eleito recentemente o melhor parlamentar de uma casa legislativa que não prima atualmente por grandes quadros. No entanto, como (ainda) simpatizante do seu partido, o PSOL, acredito que tenha ajudado sua eleição indiretamente ao votar 50 nos últimos sufrágios.

Não tenho nenhum motivo para fazer restrições ao seu mandato, que, ao contrário do que muita gente pensa, não se limita unicamente à defesa da causa homossexual. No entanto, quando temos a chance de ouvir suas opiniões a respeito de política internacional, o desacerto com a ideologia socialista que supostamente deveria representar gera uma grande decepção -- eu diria, até, uma enorme indignação por tamanha leviandade. Assim como outros dos seus colegas de partido também já causaram em outras oportunidades.

Jean-Wyllys

Nicolás Maduro, o presidente "totalitário"

Recentemente o laureado deputado foi se meter a fazer acusações sobre o presidente da Venezuela, que, através de um video editado com menos de um minuto, falou sobre a situação eleitoral do país. No tal video que Jean Wyllys publicou no seu Facebook, o presidente venezuelano afirma: 

Se sucedesse esse cenário hipotético (da vitória da oposição) negado, negado e trasmutado, eu governaria com o povo, sempre com o povo, e com união cívico-militar. Se ocorrer esse cenário, negado e trasmutado, a Venezuela entraria em uma das mais turvas e comovedoras etapas de sua vida política, e nós defenderíamos a revolução, não entregaríamos a revolução, e a revolução passaria a uma nova etapa (...) a revolução não será entregue jamais (...) com a Constituição nas mãos, levaremos adiante a independência da Venezuela, custe o que custar e como for”.

Numa interpretação pra lá de desonesta, digna de um verdadeiro quinta-coluna que faz a alegria da oposição golpista de direita, o deputado "socialista" brasileiro esquece o contexto de quase guerra civil que o mandato de Maduro precisa se manter e afirma que o presidente representa um perigo totalitário para a Venezuela, por suas medidas duras contra a oposição de direita, esta que não se furta a adotar quaisquer meios cabíveis para derrubar o governo bolivariano inaugurado por Hugo Chávez. Então quando o presidente diz que defenderá a revolução contra estes golpistas, estaria sendo, meramente, "antidemocrático".

Na pureza do coração dos socialistas defensores da "liberdade" (cuja democracia que apoiam se refere à defesa das instituições políticas burguesas e não da maior participação do povo nas decisões do poder, como fazem os "totalitários" Maduro e Fidel Castro), os verdadeiros socialistas venezuelanos que venceram golpes e atentados para implementarem um regime ainda frágil, incipiente, devem ceder gentilmente o poder àqueles que durante 500 anos exploraram a pobreza e o analfabetismo da população para se tornarem a classe rica e dominante.

Socialismo e liberdade pra quem merece: o povo

A confusão teórica de suas concepções socialistas já começa no nome do seu partido, que escolheu o pleonástico "socialismo e liberdade" para indicar que os outros socialismos são supostamente totalitários. Mas o PSOL é um partido de correntes, e existem outras concepções menos pueris do que esta na agremiação. Vendo, porém, a opinião do deputado sobre a Venezuela, podemos dizer que, na sua concepção, um partido socialista que tenha chegado ao poder ("democraticamente", é bom frisar) e precise se defender dos ataques, das ameaças, dos golpes e da influência perversa da ideologia burguesa nas mídias, é totalitário se não dançar conforme a música da farsesca democracia eleitoral burguesa. Os trotskistas do partido, baseados nesse engano colossal, também são capazes de lançar manifestos em apoio à revolução ucraniana (!) como fez Luciana Genro; e comparar o líder que libertou o mundo do nazismo ao preço de milhões de compatriotas combatentes, Josef Stalin, com um bandido criminoso que preside a Câmara dos Deputados (!!), como fez recentemente o deputado Chico Alencar.

Partidos socialistas depurados de conceitos incômodos para a burguesia como luta de classes, revolução e ditadura do proletariado, domesticados no consolo inútil da representatividade política no jogo da democracia burguesa, deveriam se limitar às suas pautas louváveis, como auditoria da dívida externa brasileira, taxação de lucro dos bancos e da riqueza, defesa das minorias, etc, coisas que o PSOL ainda faz muito bem. E deixar a política externa pra lá, porque já provaram que, nesse quesito, são um verdadeiro desastre.

Nota: o site do PSOL, tendo em vista a manifestação do seu deputado sobre o governo venezuelano, lançou um esclarecimento em que se isenta de responsabilidade nas afirmações do seu filiado, que durante os debates internos do partido, propícios para levantar teses, não se prestou a lançar nenhuma opinião sobre a Venezuela, preferindo jogar pra galera, naturalmente para polemizar. A nota do PSOL pode ser lida no link abaixo:

A Venezuela do PSOL

26 de outubro de 2015

Investigação da Polícia Federal na Operação Zelotes chega perto de Lula

Nesta segunda (26/10) a Polícia Federal cumpriu um mandado de busca e apreensão na empresa LFT Marketing Esportivo, de propriedade de um dos filhos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Luiz Cláudio. A ação é parte da chamada Operação Zelotes, que investiga fraudes e tráfico de influência no CARF (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais), além de investigar esquemas de lobby que visariam reduzir dívidas fiscais de grandes empresas e obter benefícios tributários.

Além da empresa do filho do ex-presidente Lula, a PF também faz a mesma operação na Marcondes & Mautoni Empreendimentos, acusada de repassar 2,4 milhões de Reais à empresa de Luiz Cláudio.

LUIZ CLAUDIO filho do Lula

A rede de corrupção que alcança o filho de Lula (imagem acima) pode chegar ainda mais perto do ex-presidente. Isso porque o empresário Carlos Alberto de Oliveira Andrade, dono da montadora Caoa, é suspeito de participar de um esquema que beneficiou empresas do ramo automotivo na época que Lula era presidente, em 2009, através de compra de Medidas Provisórias (MP)*.

*Medida Provisória. É um instrumento com força de lei, adotado pelo presidente da República, em casos de relevância e urgência, cujo prazo de vigência é de sessenta dias, prorrogáveis uma vez por igual período. Produz efeitos imediatos, mas depende de aprovação do Congresso Nacional para transformação definitiva em lei.

O empresário Carlos Alberto de Oliveira Andrade também pode ser pivô não só da sabotagem da candidatura de Lula em 2018 através de suas denúncias, mas também do Impeachment da própria atual presidente, Dilma Rousseff. Isso porque outra operação da PF, denominada Acrônimo, revelou através de um inquérito sigiloso que portarias do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) foram compradas no governo Dilma Rousseff ano passado através de um lobista ligado a Fernando Pimentel, governador de Minas Gerais e ex-ministro do MDIC, que recebeu propinas da mesma montadora Caoa para habilitar a empresa no programa Inovar-Auto, do MDIC, que concede benefícios fiscais para o setor automotivo.

Consequências políticas das investigações

Ainda é cedo para afirmar que as investigações produzidas pela Polícia Federal terão importância na luta da oposição mais radical contra os petistas, primeiro para tirar Dilma precocemente do exercício do mandato, e segundo, impedir Lula de se candidatar a presidente na próxima eleição. Mas dependendo da repercussão desses indícios, e principalmente se eles se confirmarem, teremos uma grande reviravolta na política nacional, com o PT, que, infelizmente, se enlameou de sujeira no poder, sendo impedido de ter representante no pleito eleitoral de 2018.

Golpismo?

Golpe ou justiça? Nessas horas, eu lembro de um caso emblemático. Logo a seguir à Anistia que trouxe de volta políticos brasileiros exilados, a moribunda porém ainda atuante Ditadura Militar no poder perseguia seus desafetos de outra maneira. O caso de Leonel Brizola, candidato a governador do Rio em 1982, revela a tática da difamação como instrumento político da direita. Buscavam-se indícios de quaisquer malfeitos no seu passado que pudessem incriminá-lo perante a opinião pública, e assim impedi-lo de ser eleito. Vasculharam, procuraram, e não encontraram absolutamente nada. Brizola ainda teve que vencer uma fraude eleitoral na apuração, mas terminou eleito governador. Sua biografia até hoje é reconhecida como uma das mais limpas do país.

E o Lula? Que tipo de legado político o Lula pode contrapor ao “golpismo” atual? Vamos ver o que dizem as investigações…

21 de outubro de 2015

“Derivativos”: O Cassino global não regulamentado para bancos americanos



Curta história: Escolha algo de valor, faça apostas sobre o seu valor futuro, adicione contrato e você tem um derivativo. 

Os bancos ganham enormes lucros com derivativos, e quando as chances são da bolha estourar o contribuinte vai acabar com a conta.

Longa história: Um derivativo é uma aposta jurídica legal (contrato) que deriva seu valor de outro ativo, como o futuro ou valor atual de petróleo, títulos do governo ou qualquer outra coisa. Por exemplo, um derivativo compra-lhe a opção (mas não a obrigação) de comprar petróleo em 6 meses para o preço de hoje / qualquer preço acordado, na esperança de que o petróleo vai custar mais no futuro. (Pode ter certeza que ele vai custar mais em 6 meses). Derivativo também pode ser usado como seguro, apostando que um empréstimo será ou não será negligenciado até uma data determinada. Por isso é um grande sistema de apostas, como um Cassino, mas em vez de apostar em cartões e roleta, você aposta em valores e desempenho de praticamente qualquer coisa que tem valor futuro. O sistema é tão desregulamentado que você pode comprar um derivativo de um derivativo existente.

A maioria dos grandes bancos tenta impedir que os pequenos investidores tenham acesso ao mercado de derivativos com base na existência de um risco muito grande. Esse mercado tem soprado uma bolha galáctica, assim como a bolha imobiliária ou bolha do mercado de ações (o que está acontecendo agora). Desde que não existe literalmente nenhum economista no mundo que sabe exatamente como o dinheiro flui derivado ou como funciona o sistema, enquanto derivativos são negociados em microssegundos por computadores, nós realmente não sabemos o que vai desencadear o acidente, ou quando isso vai acontecer, mas considerando as crises financeiras globais por que já passou esse sistema, será catastrófico para o sistema financeiro mundial desde que os 9 maiores bancos mostrados abaixo mantêm um total de 228.72 trilhões de dólares em Derivativos - cerca de 3 vezes toda a economia mundial. Nenhum governo no mundo tem dinheiro para este resgate. Vamos dar uma olhada nos bancos que têm as maiores exposições de derivativos e os escândalos que eles foram recentemente envolvidos.

Antes: o que é (visualmente) um trilhão de dólares

torre de dinheiro
Fraude de banco
State Street
morgan stanley
WF
hsbc
Golman Sachs
bank of america
Citibank
JPM
bancos
Fonte: demonocracy.info (tradução de Almir Albuquerque para o Panorâmica Social)

14 de outubro de 2015

Assim caminha a humanidade: para pior

Pensopinando é um dos blogs que eu gosto de ler na internet. Mantém a tradição de postagens opinativas e de bom nível, como era na fase áurea da blogosfera, por volta de 2008-2011.

Recomendo bastante a leitura, porque fomenta o debate de assuntos importantes, apesar de nem sempre concordar com as postagens. Como no caso da última: Assim caminha a humanidade. Por isso resolvi fazer uma postagem para contrabalançar algumas das afirmações do autor naquele texto.

O texto afirma que, apesar das críticas alarmantes que muitos no mundo vêm fazendo sobre o momento atual da história do homem, principalmente com relação à desigualdade social, a humanidade está em plena evolução material, que será capaz, em algum momento futuro, de trazer paz e bem estar para todos.

Ele afirma que a desigualdade social não é um mal em si, mas a “pobreza extrema” e a falta de oportunidades. Mas ele não menciona que a geração de desigualdade extrema é aonde sempre esse sistema vai levar inexoravelmente, apesar das correções esporádicas promovidas pelo Estado através de programas sociais. A busca de lucros por parte dos grandes capitalistas é uma tarefa incessante, não existe um ponto em que os empresários digam: “já acumulei o suficiente, é hora de parar”. Não. Isso não existe. E como os recursos e a produção de riqueza no mundo são limitados, quanto mais um pequeno grupo acumula, mais falta faz para o resto da população. Essa é a marca indelével do sistema. E é o que mostra claramente os números de diversas pesquisas que apontam que apenas 1 por cento da população mundial já tem uma riqueza equivalente a metade do planeta. E a tendência disso, se nada for feito, é piorar, e não melhorar.

Talvez não sejamos capazes de sentir na pele o problema grave que isso representa, porque ainda vivemos, quase certamente, nas periferias da bolha de consumo, onde alguns de nós pode usufruir de algum tipo de conforto material, o que nos dá a falsa ilusão de bem-estar. Mas logo logo estaremos expulsos dessa bolha, indo engrossar as fileiras dos 50 por cento, porque a sanha de riqueza dos 1 por cento não acaba. Basta projetar uma progressão aritmética para os próximos anos para podermos entender isso.

A Revolução Industrial foi benéfica por si mesma?

Outra questão levantada no texto é a comparação entre a “miséria” da época pré-industrial com a pós industrial.

Hoje, podemos dizer que a Revolução Industrial foi benéfica, mas para as cidades que se localizam no centro do capitalismo mundial, notadamente na Europa, beneficiadas pela exploração colonial num primeiro momento, e pelo neocolonialismo e imperialismo já na era industrial. Em locais que formam a periferia do sistema, em especial a África, o Oriente Médio e a América Latina, ficou o legado de pobreza, violência e desigualdade que só não atinge as citadas bolhas de consumo, rodeadas de miséria que geram a violência das cidades.

Isso para não mencionar as origens do próprio industrialismo, onde os trabalhadores da própria Europa sofreram pela exploração cruel de jornadas de trabalho de 14 horas, com mulheres grávidas e crianças operando máquinas pesadas com capatazes dando-lhes chicotadas em qualquer mera distração, com um salário aviltante que garantia apenas a mínima subsistência. Essa era a Revolução Industrial.

Dois fatores contribuíram para amenizar essa situação: os trabalhadores que se organizaram em sindicatos num primeiro momento, reivindicando melhores condições de trabalho e ameaçando com greves, e o medo do patronato com a ascensão da União Soviética, que mostrou ao mundo um outro sistema em que os trabalhadores estavam no protagonismo do trabalho. Isso gerou a famosa Carta del Lavoro de Mussolini, que regulamentou o trabalho dos italianos e amenizou o risco de comunização dos trabalhadores daquele país, que aqui Vargas copiou na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), uma forma de apaziguar os ânimos da luta trabalhadores x patrões e garantir direitos.

Pouco antes da Revolução Industrial, as condições dos camponeses já não eram tão ruins quanto no auge da Idade Média, de modos que não podemos falar de “miséria” pré-industrial. Muitos historiadores já compararam as condições de vida de um camponês na França, por exemplo, com a um operário inglês do século XIX, e podemos perceber que o camponês tinha uma vida muito menos sacrificante e “miserável” do que seu colega que teve que migrar para a cidade. Portanto a comparação não procede.

 

Mais ou menos violentos hoje?

A violência endêmica que o autor atribui ao passado para comparar com o presente supostamente menos agressivo não tem relação com a pobreza, a desigualdade social ou o sistema econômico vigente na época. Porque é uma época pré-capitalista, onde os bens materiais não definiam o lugar do cidadão na sociedade, e sim o nascimento. É preciso lembrar que a violência era institucionalizada, praticada muito mais pela Igreja e pelo Estado do que pela população. Depois do Iluminismo, essa situação foi, aí sim, amenizada, mas o capitalismo transportou a violência estatal para as camadas mais baixas da sociedade, apesar de teoricamente, o Estado ser o portador do monopólio da força.

Por quê? Porque o mundo passou a ser regido pelo status baseado na posse de bens materiais. Quanto maior a desigualdade em regiões com essa mentalidade, maior a violência entre a população. Por isso, ao contrário do que o autor do citado texto afirma, quanto mais alguém tem posses e dinheiro, menos seguras estarão suas casas. E daí vemos segurança particular, sistema de câmeras, muros cercados e eletrificados… Isso nada mais é do que uma falsa sensação de segurança e bem estar na sua bolha.

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A evolução científica mostrada no texto é um fato, realmente. Mas até nisso há uma desigualdade. Grandes países capitalistas transformam suas descobertas em patentes, de modos que o restante da humanidade não possa usufruir de seus benefícios até que paguem (nem todos os países tem essa condição) ou pelo menos até que elas estejam já defasadas. Sem falar de coisas simples, como um exame de mamografia, recentemente mostrada numa reportagem de TV, em que, em pleno século XXI, só é acessível apenas para a metade das mulheres brasileiras. E assim é em todo o mundo periférico do sistema capitalista.

Como se vê, não é possível ter nenhum tipo de otimismo com relação a esse sistema que tem no seu DNA o fomento cada vez maior da desigualdade; que destrói o meio ambiente como se os recursos naturais fossem infinitos; que joga bilhões de pessoas na pobreza; 1 por cento com a riqueza e alguns poucos na ilusão de suas bolhas de consumo.

Se não mudarmos o sistema, não teremos um futuro tão belo e utópico como o autor do texto foi capaz de imaginar.

12 de outubro de 2015

Intervenção russa na Síria pode inaugurar um novo cenário geopolítico internacional

Desde que as forças militares russas entraram de forma mais incisiva no apoio ao governo sírio contra as entidades terroristas no país, no final de setembro, alguns aspectos da geopolítica internacional ficaram expostos de forma um tanto esclarecedores, especialmente a atuação do Ocidente na região.

Há um ano os EUA lideram uma coalizão de fachada contra os terroristas na guerra civil síria, especialmente os do Estado Islâmico (ISIS), sem muita efetividade. Na verdade, chama atenção a incompetência em atingir alvos militares na mesma proporção em que se atingem alvos civis. Os russos, por outro lado, em menos de duas semanas de operações, já destruíram 40 por cento da infraestrutura do ISIS na Síria.

Afirmações deixam claro: prioridade do Ocidente é queda de Assad

O mais revelador da entrada russa no conflito é a forma como a máscara de algumas figuras importantes da política internacional vem caindo pelo mundo, mostrando que o Ocidente nunca teve, de fato, vontade de atacar os terroristas, mais do que derrubar o governo de Bashar al-Assad. John McCain, senador norte-americano e presidente do Comitê das Forças Armadas do Senado dos Estados Unidos, chegou a afirmar sem nenhum pudor que “os EUA devem atacar instalações de importância para o regime sírio em resposta aos ataques aéreos da Rússia”. Ou seja, além de indiretamente cooperar com rebeldes terroristas, sugere um atentado contra um governo legitimamente instituído com 70 por cento de aprovação do povo. Ainda sugeriu o oferecimento de armamentos ao governo golpista e reacionário da Ucrânia como forma de responder à atuação russa no desmantelamento dos grupos terroristas.

assad e putin

O próprio ilegítimo presidente ucraniano, Pyotr Poroshenko teve a coragem de dizer que os ataques russos a instalações militares dos terroristas do ISIS representam “a destruição da ordem mundial”.

Por trás dessas revelações até certo ponto surpreendentes, estão as verdadeiras intenções do Ocidente na região, fomentando grupos dissidentes a derrubarem governos que não se alinham às diretrizes dos Estados Unidos. É o caso do presidente sírio Assad, que preside um país numa posição geograficamente estratégica para o escoamento do petróleo do Oriente Médio pelo Mediterrâneo.

Para os EUA, ISIS não merecem sanções na ONU

Muitos desses terroristas, chamados de “moderados” pela Casa Branca e que atuam com armas na Síria para derrubar o governo, recebem apoio direto dos Estados Unidos e da Europa. Isso que a participação russa no confronto em apoio ao governo legítimo de Assad ajudou a desmascarar – se é que já não estava óbvio. Uma dessas ações reveladoras se deu quando os Estados Unidos bloquearam a proposta da Rússia de incluir o grupo terrorista Estado Islâmico na lista negra de sanções do Conselho de Segurança da ONU. Não há justificativa confessável para tal impedimento. Nem a vontade de assumir que o ISIS é visto com utilidade pela Casa Branca na intenção de derrubar Assad do poder.

Esse ano, o ex-oficial de contraterrorismo da CIA e do Comitê de Relações Exteriores do Senado norte-americano, John Kiriakou, assumiu publicamente que as armas que o governo dos EUA envia para os terroristas “moderados” vão parar nas mãos do ISIS. Segundo ele,

[O Exército Livre da Síria, grupo armado que tenta derrubar Assad do poder e considerado “moderado” pelo Ocidente] não ajuda em tudo. Apoiando-os só pioraram as coisas. A maioria das armas norte-americanas que foi enviada para eles só encontrou seu caminho nas mãos do Estado Islâmico. O Congresso pagou por armamento para o Estado Islâmico”

Em 2014, o Congresso norte-americano destinou meio bilhão de dólares ao grupo para criar uma força de mais de 5.000 homens até o final de 2015 para atuar contra o governo sírio. Com a desculpa de treinar “moderados” para combater o ISIS, na verdade prepara um grupo terrorista para combater o presidente sírio.

Uma nova ordem mundial a caminho?

Se a Síria conseguir derrotar os terroristas apoiados pelo Ocidente com a ajuda da Rússia, o que é bastante provável, um novo cenário estará esboçado na geopolítica internacional. A decadência diplomática da Europa e dos Estados Unidos com suas retrógradas políticas belicosas com interesses econômicos mal disfarçados daria assim lugar a novas potências em ascensão no protagonismo mundial, como a própria Rússia e a China.

Relembrando o presidente Ucraniano, a intervenção da Rússia no conflito “destrói a Ordem Mundial”. Mas se a “ordem mundial” é essa que vigorou desde a Guerra Fria, com países capitalistas promovendo atentados a governos eleitos legitimamente, golpes patrocinados de fora, assassinatos de líderes políticos, patrocínios de grupos terroristas e ingerência sobre assuntos internos de outros países, então que desmorone essa velha ordem mundial. Que venha uma Nova Ordem Mundial.

5 de outubro de 2015

O senso comum por trás do “bandido bom é bandido morto”

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Quando todos pensam igual, ninguém está pensando

Water Lippman

O senso comum é uma praga. Ela se alastra fora do controle e se estabelece como verdade dada, sem necessidade de reflexão, ainda mais em sociedades cuja média da população tem o raciocínio tatibitati. Ele faz as pessoas se sentirem pertencentes a um grupo, é acolhedor saber que tantas pessoas pensam igual a gente em assuntos importantes, e também oculta uma realidade bem diferente da que anuncia.

De acordo com recente pesquisa Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), metade da população pesquisada em 84 municípios de mais de 100 mil habitantes concorda com a afirmação típica do senso comum brasileiro: “bandido bom é bandido morto”. Foram ouvidas 1,3 mil pessoas.

Seria compreensível se a metade que concorda com essa afirmação fosse membro das classes mais altas da sociedade. Pois uma das funções do senso comum é jogar uma cortina de fumaça nos fatos e propor soluções inadequadas para os problemas. O fato é que a violência brasileira, que se torna a fábrica de bandidos com produção em série porque inserida numa sociedade capitalista onde a posse de bens determina o status social, é fruto direto do imenso abismo da desigualdade sócio-econômica, que coloca uns poucos vivendo numa bolha de consumo e bem-estar enquanto joga milhões na indigência e na falta de perspectivas. Então para essas classes abastadas, qualquer medida que algum governo proponha para apenas atenuar essa desigualdade, como uma bolsa-família ou cotas para Universidades, os fazem ir pra rua protestar e bater panelas em suas varandas. Muito melhor que a sociedade continue apoiando o massacre de negros e pobres com base na falácia de que matar bandidos é a solução.

E o lamentável de tudo, mas também esperado, é que as próprias vítimas em potencial dessa estratégia de matança policial apoiem a medida. São pessoas, em sua maioria, sem uma formação escolar adequada, sem hábito de leitura, sem capacidade de crítica e argumentação, e portanto, alvos preferenciais do senso comum, que não passa de uma forma confortável de ter opinião pra tudo sem ter que saber de nada.

Mas poderia ser pior. Não sei qual foi o questionário aplicado na pesquisa que levou à conclusão de que metade da população apoia a ideia de que bandido bom é bandido morto, mas parece que o próprio Fórum Brasileiro de Segurança Pública, órgão não governamental ligado a policiais, quis reforçar essa ideia. Tudo é a forma e o que se pergunta. Pesquisas não são absolutas. Seus métodos podem levar a resultado A ou B. Perguntar, por exemplo, – se foi o caso, como parece – “Você acha que bandido bom é bandido morto?” numa pesquisa dessas é o mesmo que perguntar “Deus ajuda quem cedo madruga?”, ou “O trabalho dignifica o homem?”.

A polícia brasileira é a que mais mata no mundo inteiro. E não só bandidos, como suspeitos e até inocentes. Os poucos que conseguem escapar estão lotando as penitenciárias. Foram 11.197 mortes causadas por policiais entre 2009 e 2013, ano em que as polícias civil e militar mataram seis pessoas por dia em média no Brasil, de acordo com o Anuário produzido pelo próprio FBSP. Então é caso de se pensar: e se a pergunta feita na pesquisa fosse diferente? Por exemplo: Há trinta anos a política de segurança pública no Brasil estabelece a guerra e a matança como solução para a violência. Você se sente mais seguro com essa medida?

Enquanto o senso comum imperar na sociedade brasileira, vamos continuar defendendo ações que só reforçam o quadro de violência. A muita gente interessa que se continue defendendo falácias como a do bandido morto, porque dá a falsa sensação de que matando um bandido, resolve-se o problema. E se alguém for contra isso, por exemplo evocando a questão essencial dos Direitos Humanos, ainda é obrigado a ouvir novas pérolas do lugar-comum, como a de que “quem não apoia a medida defende os bandidos”, e aí surgem uma série de outras falácias derivadas como “direitos humanos para humanos direitos”, “tá com pela leva pra casa”, “e se fosse com a sua mãe?”, coisas realmente tristes e patéticas pela forma como se repetem. Mas basta uma pequena reflexão de 2 minutos para se perceber que os bandidos tem sido mortos há décadas, e a sociedade está cada vez mais acuada. Está na hora de propor novas soluções e abandonar as medidas fáceis e enganosas.

14 de setembro de 2015

Meio ambiente e capitalismo: uma discussão necessária

André Trigueiro debate sobre o meio ambiente

Na manhã de hoje (14/9) eu tive a oportunidade de estar presente na abertura do VIII Fórum de Debates Povos e Culturas das Américas, uma realização do Núcleo de Estudos das Américas (Nucleas) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), cujo foco era voltado ao meio-ambiente.

O palestrante convidado da primeira sessão foi o jornalista das Organizações Globo, André Trigueiro, reconhecido militante das causas ambientais. No entanto, ouvi-lo foi uma surpresa (talvez nem tanto) decepcionante, pois ele, apesar da pompa e das afetações na fala, repete no conteúdo algumas das falácias, omissões e distorções que geralmente aparecem quando o assunto é meio-ambiente.

Primeiro, porque o jornalista reforçou a ideia ingênua de colocar sobre nós, cidadãos, a maior parte da responsabilidade na crise do meio-ambiente e na solução de problemas. Por exemplo, citando o caso de uma menina israelense – que foi tema de reportagem da Globonews – que, a exemplo do seu povo, toma banho com um balde para evitar desperdícios de água. Ou quando se vangloriou de ter feito os porteiros do seu prédio pararem de lavar as calçadas com mangueiras.

Eu pensei ser o único a estar incomodado na plateia com tamanha superficialidade e omissão da questão político-econômica do meio ambiente, mas tendo em vista as perguntas que foram feitas ao palestrante, o incômodo era geral. A mais emblemática delas foi feita por um professor latino-americano presente, como uma forma de provocação: “é mais fácil falar de fim do mundo do que do fim do capitalismo?

Professor Theotônio dos Santos, presente, foi homenageado

Mas é óbvio que não podemos falar de preservação do meio-ambiente sem questionar o sistema econômico que fomenta o consumismo exacerbado, a obsolescência programada, a distribuição desigual de riquezas, o uso indiscriminado dos recursos naturais… Não dá pra discutir preservação do meio ambiente, colocando na conta do cidadão a culpa da racionalização de água potável, quando apenas 8 por cento de todo o recurso hídrico do país é utilizado pela população em uso doméstico. Quem gasta mais e desperdiça mais água? Setores como o Agronegócio (72 por cento) e Indústria (22 por cento). Alguns desses setores foram mencionados diretamente pelo jornalista? Não. Aliás, ele fugiu de todas as perguntas que questionavam o capitalismo e seus danos ao meio-ambiente.

Tal situação incomodou tanto, que um dos presentes que seriam homenageados em seguida, o professor Theotônio dos Santos, teve que pedir um aparte, para dizer, acertadamente, que meio-ambiente é questão de Estado e alvo de luta de classes, no que o jornalista replicou ingenuamente que “nós somos os Estado”. Pela sua explicação posterior, ficou claro se tratar de uma visão pós-moderna que nega a política como locus principal do poder de decisão, considerando-a “atrasada” frente a novos meios de participação direta e militante, no espírito “faça você mesmo”, como por exemplo, não lave seu carro com mangueira d’água. 

Theotônio dos Santos é um grande cientista social e economista, reconhecido internacionalmente. Foi um dos propagadores da Teoria da Dependência na segunda metade do século XX. Com ela, podemos entender melhor o papel subalterno da América Latina, do país e da periferia do capitalismo de forma geral perante as nações que largaram na frente no século XIX e que hoje formam o centro do sistema econômico mundial.

Sem esse arcabouço teórico, apostando em atitudes meramente individuais, pessoais, André Trigueiro jamais será capaz de explicar o fato de um morador de Santa Cruz-RJ, que segue rigorosamente os preceitos ecológicos que o jornalista defende (uso racional da água, separação e descarte consciente do lixo, economia de eletricidade, etc.) ser vítima, por outro lado, de uma nuvem tóxica de poeira proveniente dos altos fornos da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), que causa danos ambientais gravíssimos e duradouros, muito maiores que as descargas do vaso sanitário do cidadão. Não vai saber que, bem de acordo com a teoria de centro-periferia, quando a Europa apertou as leis ambientais recentemente, suas empresas poluidoras vieram instalar-se aqui na periferia do mundo – como a própria TyssenKrupp da Alemanha, que opera a CSA em Santa Cruz. Política de Estado associada com megaempresas privadas. Capitalismo. Não dá pra ignorar isso. 

Veja mais em: CSA envenena moradores em Santa Cruz

Portanto, enquanto ninguém questiona a legítima necessidade de uma maior conscientização coletiva a respeito do uso racional dos recursos ambientais, não podemos ter essa discussão da degradação ambiental sem colocá-la no seu devido lugar, como efeito de um sistema econômico danoso ao planeta, que deve ser criticado e destruído, substituído por outro mais harmonioso com os escassos recursos naturais. Margareth Thatcher costumava dizer que “não há alternativa” ao capitalismo selvagem. Mas agora eu digo que a frase deve ser reformulada: com o capitalismo selvagem, não há alternativa. É o fim do planeta.

31 de agosto de 2015

2016 será o ano mais difícil de Dilma no poder

Congresso Nacional

A entrega, hoje (31/08), da proposta do Orçamento Geral da União para 2016 feita pelos ministros da Fazenda, Joaquim Levy e do Planejamento, Nelson Barbosa ao presidente do Congresso, Renan Calheiros, já causou mal-estar, críticas e ameaças por parte dos senadores. Isso porque, numa atitude “sincera”, a proposta prevê um incrível déficit de 30,5 bilhões de Reais nas contas da União. Pela primeira vez na história, um governo apresenta uma proposta de Orçamento com déficit reconhecido de receitas em relação a despesas.

Para senadores da oposição, como se já não bastasse o clima de golpismo que impera no ar da política nacional, Dilma quer transferir para o Congresso o desgaste de ter que fazer os cortes e os ajustes no orçamento.  Para o senador Álvaro Dias,

O governo, que cometeu estelionato eleitoral na última campanha, que enganou a população, agora confessa a sua incompetência no gerenciamento das contas públicas, confessa que não gerenciou corretamente as finanças do País. E pior do que assumir sua incompetência é querer agora transferir para o Congresso Nacional um problema que é seu. O governo Dilma quer que o Congresso faça milagres, que faça a mágica de colocar dinheiro no arrombado caixa da União. A presidente da República quer que o Congresso assuma a responsabilidade de promover a criação de novos impostos e o aumento da carga tributária, que já esmaga os setores produtivos e asfixia a sociedade brasileira. Os congressistas não podem aceitar essa missão

Uma das formas de fechar as contas para o ano que vem seria a criação de novos impostos. O governo sinalizou a volta da CPMF, tão atacada por aqueles que ganham mais e menos contribuem no país, mas a repercussão negativa no Congresso a fez recuar.

A entrega do Orçamento com déficit bilionário promete reacender o debate sobre o Impeachment no ano que vem. Isso porque alguns congressistas como José Agripino do DEM consideram o Orçamento prova de irresponsabilidade fiscal, o que dá base para a discussão voltar à tona no ano que vem.

O fato mais lamentável é Dilma Rousseff abandonar medidas progressistas para abraçar as metas econômicas neoliberais e mesmo assim, como previsto por todos devido ao fragoroso fracasso de tais ajustes, morrer abraçado com elas.

29 de agosto de 2015

Lula possível candidato em 2018. Resta saber ao lado de quem

Lula

O ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, tendo em vista o fracasso do governo Dilma,  já demonstrou estar bastante preocupado com o legado político do seu lulopragmatismo. Já anunciou por diversas vezes que, “se necessário”, sairá candidato a presidente mais uma vez nas eleições de 2018. Mas a tarefa não será tão fácil como ele e seus ardorosos militantes parecem pensar.

Em 2002, quando foi eleito a primeira vez, Lula já não era mais o mesmo. Precisou fazer uma série de suavizações no discurso e concessões com a classe política mais conservadora. Naquela época, as classes dominantes precisaram encontrar uma figura carismática e popular para dar prosseguimento à agenda econômica dos antecessores tucanos, desgastados por conta  dos governos de pedigree assumidamente neoliberais de Fernando Henrique Cardoso. Na falta de um legítimo líder com aceitação popular, as classes dominantes encontraram em Lula o serviçal perfeito para a função, e toleraram que ele fizesse o papel de apaziguador dos conflitos sociais nascidos da insatisfação geral com os rumos econômicos do país.

Com a ajuda dos marqueteiros, surgiu o “Lulinha paz e amor” e sua Carta aos Brasileiros, que, segundo o insuspeito Paulo Henrique Amorim, foi redigida pelo nefando Antônio Palocci com a consulta a João Roberto, filho de Roberto Marinho. Essa rendição ideológica pode muito bem ser entendida como a primeira de uma série de traições aos anseios do povo e um compromisso assumido com o poder econômico nacional e internacional. O primeiro estelionato eleitoral que marcaria as campanhas presidenciais do PT a partir de então.

Assim, para ser, repito, tolerado pelas classes dominantes e pelas velhas raposas políticas do país, o Lulinha teve que fazer diversas guinadas à direita. Principalmente ao lado do PMDB, partido que, desde a redemocratização, funciona como um apêndice parasita de qualquer governo, usando sua força eleitoral para sugar cargos e recursos do executivo em troca de “governabilidade” no Congresso. Assim tem sido desde 2002 com o PT no poder. Pelo menos até agora.

O problema é que o PMDB, pela primeira vez desde 1989, sentiu que pode, ele mesmo, lançar seu próprio candidato a presidente. É o que cogita o partido, tendo em vista a covardia e a fraqueza inacreditáveis do atual governo Dilma. Ora, se já governam de fato, por que não de direito?

Isso causaria um enorme transtorno às pretensões de Lula. Pois com candidato próprio, forte, as oligarquias, a burguesia e toda a elite nacional podem prescindir da incômoda, mas até então útil figura do Lula apaziguador que despolitiza as massas. Essas classes sociais sentem que chegou a hora de retomarem mais uma vez o controle direto da política, sem lacaios travestidos de “estadistas”.

Mas então surge a questão: se não for para servir às elites, para quem Lula vai governar? Com quem vai se aliar em 2018?

Com o PMDB não poderá. Com os partidos de esquerda, do ponto de vista das classes dominantes, será apenas mais um Brizola a ser deslegitimado aos olhos da opinião pública. Se com Brizola, que tinha uma biografia irretocável e uma conduta totalmente ilibada, as mídias burguesas conseguiram destruir o seu capital eleitoral, imagina como seria fácil fazer o mesmo com o Lula e as tantas suspeitas que envolvem o seu nome. Além disso, desde que optou por despolitizar as camadas mais pobres e abandonar as bandeiras dos movimentos sociais em nome da “paz entre as classes”, Lula perdeu grande parte do seu prestígio nas esquerdas.

Pelo andamento das coisas, só falta surgir uma bizarra coalizão nacional entre PT-PSDB para derrotar as forças oligárquicas do PMDB. Imaginem… Lula presidente, Alckmin vice… Surreal? Pois tal aliança já acontece a nível municipal há muito tempo. Em 2004, por exemplo, a “esdrúxula” dobradinha PT-PSDB elegeu 149 prefeitos. 

Seria apenas a consolidação daquilo que todos já sabem há muito tempo. Ambos os partidos têm muito mais em comum do que os petistas gostariam de admitir. Ou então Lula vai para o pleito sem a base de outrora, manchando sua reputação política com uma derrota eleitoral depois de governos bem avaliados na condução da economia. Leia-se, depois de satisfazer os interesses de banqueiros e empresários a ponto de ser laureado com prêmios pelo mundo capitalista.

27 de agosto de 2015

Há 28 anos, a PM paulista executava Pixote

Pixote

Por Paulo Eduardo Dias para a Ponte

O envolvimento de policiais militares em chacinas, execuções e extermínio em massa, não é um fato novo no Estado de São Paulo. Principalmente quando se trata de bairros da periferia. Há exatos 28 anos, o cinema brasileiro perdia Fernando Ramos da Silva, de 19 anos. O personagem Pixote do filme “Pixote, a lei do mais fraco”, do diretor Hector Babenco. Os assassinos: um sargento e dois soldados da Polícia Militar.

Para a viúva de Fernando, Cida Vinâncio, com quem teve uma filha, os policiais que o mataram o tratavam como um bandido. “Quando o mataram, eles pensaram que estavam tirando de circulação um bandido perigoso”. Ela ainda diz que nada mudou e que “continuam todos os dias a matar outros pixotes menos famosos”.

Presente ao enterro do jovem e responsável pela missa, o padre Julio Lancellotti, à época na pastoral do menor (hoje representante da pastoral do povo de rua), disse à reportagem da Ponte Jornalismo que se lembra bem do caso. “Lembro do filme, lembro do Fernando, lembro do menino que cresceu e a fama iludiu. Lembro ainda de seu corpo massacrado e de seu sepultamento.” Para o padre, Fernando foi executado assim como muitos periféricos. E ficou marcado porque se tornou um símbolo de denúncia.

Interprete de Lilica no filme de 1981, o ator Jorge Julião diz que Fernando era um menino sonhador. À reportagem da Ponte, citou um verso da música “Força Estranha”, de Caetano Veloso, que faz parte da trilha sonora do filme e que toca no momento em que Lilica e Pixote se abraçam na praia do Arpoador, no Rio de Janeiro. “Eu vi um menino correndo, eu vi o tempo… Corremos, brincamos e Fernando acreditou no sonho de uma vida melhor. Saudades de um tempo passado. Fiz parte deste sonho. Também sonhei. Ainda sonho”, afirmou.

Com tantas mortes de jovens sonhadores como Pixote causadas por disparos de pistolas .40, que vieram a aposentar o calibre 38, o padre Lancellotti enfatiza que “a maioria dos executados são pobres, negros e da periferia, moradores de rua e indígenas”.

Além de Fernando, sua mãe dona Josefa Ramos da Silva, perdeu em Diadema mais dois filhos vítimas da violência. Quatro meses antes de Fernando, em abril de 1987, Paulo Ramos da Silva, o Paulinho, foi morto a tiros na cidade. O crime nunca foi esclarecido. Filho mais velho de dona Josefa, Valdemar Ramos da Silva, o Dema, foi encontrado morto, aos 27 anos, dentro do porta-malas de seu Passat, em 4 de abril de 1990.

A então violenta Diadema, uma das cidades mais carentes do Estado de São Paulo, que no ano de 1999 chegou a ter a taxa de 102 mortos por 100 mil habitantes (a Organização Mundial de Saúde tem como índice aceitável 10 mortos por 100 habitantes), tem conseguido dar um pouco mais de tranquilidade a seus habitantes. Em 2014, a taxa chegou a 13 mortos por 100 mil habitantes.

O crime

Diadema, 25 de agosto de 1987. Era meio da tarde quando os policiais militares da viatura 06374 do Tático Móvel (hoje equivalente à Força Tática), do 6° Batalhão de São Bernardo do Campo – cidade vizinha a Diadema, recebem um chamado de roubo em andamento a uma empresa no bairro de Piraporinha. A viatura lotada com seis homens, após no início do turno a viatura 06373 ter colidido contra outro carro no centro de Diadema, caça os suspeitos de cometerem tal delito.

Após percorrer cerca de 4 quilômetros pelas ruas de Diadema, os PMs a bordo da veraneio avistam dois jovens num barranco à beira do quilômetro 16 da Rodovia dos Imigrantes. Lá estavam Fernando Ramos da Silva, 19 anos, e Marcelo Bicalho, com então 16 anos. Ao avistar os PMs, os dois correm para dentro da favela da Vila Ester, no Jardim Canhema, onde moram.

Bicalho estava foragido da Febem (Fundação para o Bem Estar do Menor – hoje, Fundação Casa), já Ramos da Silva, era conhecido dos policiais da região, além de ter sido protagonista do filme lançado em 1981 e premiado  internacionalmente, sendo par de atrizes e atores consagrados como Marília Pera, Jardel Filho e Tony Tornado, ele havia participado no mesmo ano da novela “O amor é nosso”, da TV Globo, e já havia ficado preso por duas vezes: uma por furto de uma TV quebrada, levada da casa de um comerciante, e outra por portar um revólver. Ambas as vezes não ficou sequer uma semana na cadeia.

Antes de alcançar o final do barranco, Bicalho é detido pelos três PMs da viatura 06374. Os outros três PMs que haviam batido com a viatura 06373 seguem no encalço de Ramos da Silva, que constantemente reclamava para a família, os vizinhos e para imprensa da constante perseguição da polícia. Ao chegar à rua 22 de Agosto, a primeira após o barranco e já próximo a sua residência, ele busca abrigo na casa número 6, uma espécie de moradia coletiva. Amigo do esposo da vizinha, ganha um cigarro; logo atrás estão de arma em punho o sargento Francisco Silva Junior, 23 anos, e os soldados Wanderley Alessi, 25, e Walter Moreira Cipolli, 23.

A última cena de Ramos da Silva, já que a vida imite a arte, é se esconder embaixo de um estrado, que com um fino colchão por cima servia de cama para uma idosa. O esconderijo logo foi descoberto. Testemunhas disseram à época que um dos PMs dissera “achei você, agora você não escapa, Pixote”, em clara demonstração de que sabiam quem era seu perseguido. Acuado, as últimas palavras do ator teriam sido: “não me matem, por favor não me matem, eu tenho uma filha para criar”. A filha Jacqueline Ramos da Silva, havia nascido em 1985 fruto de seu casamento com Cida Venâncio.

Os vizinhos contam que Fernando não teve tempo nem de terminar a frase, sendo baleado oito vezes. Os tiros acertaram o coração, tórax e o braço, em evidente defesa. Empurrado para fora da casa, os PMs alegam legítima defesa, e, após clamor dos vizinhos, socorrem o jovem até o Pronto Socorro de Diadema, que o recebeu morto. No 3° DP da cidade, os PMs apresentam como sendo de Ramos da Silva um revólver Smith & Wesson, calibre 32, com 4 disparos deflagrados.

Segundo testemunhas era impossível o rapaz estar armado. Enquanto corria, sua camiseta larga branca era erguida ao corpo e em sua cintura nenhum volume ou arma. O rapaz também vestia uma calça jeans e um tênis. A fisionomia magra do jovem contrastava com a barba rala que ostentava para deixar uma aparência de mais velho.

Após repercussão na mídia internacional, com um obituário de 38 linhas no jornal  americano The New York Times, os PMs confessaram a farsa e disseram que mataram Pixote. Também disseram que “fizeram a arma”, ou seja, dispararam um revólver frio a esmo enquanto levavam, já morto, o jovem ao hospital. Somente naquele ano, entre janeiro e agosto, 190 pessoas haviam sido mortas em supostos confrontos com a polícia no município, que ostentava uma das maiores taxas de mortes do Brasil.

Fernando Ramos da Silva foi enterrado em 27 de agosto, com a presença de mil pessoas no cemitério municipal de Diadema, que preserva até hoje uma foto do rapaz em sua lápide. Há no Centro de Diadema um CAPS (Centro de Atendimento Psicossocial Alcool e Drogas), mantido pela prefeitura com o nome do ator.

Os PMs tiveram condenações entre seis e quatro anos, por fraude processual e por dificultar a investigação, depois reduzidas para dois anos, mas não ficaram um dia preso. Foram apenas demitidos da corporação (não foram expulsos, porém não conseguiram ser readmitidos mesmo pedindo na Justiça). A reportagem procurou os acusados, mas não conseguiu localizá-los.

Em 3 de setembro de 1987, o jornal Folha  de S. Paulo publicou a nota de demissão dos policiais militares. Nela, o Comando da Polícia Militar informou que a demissão foi “por terem dificultado a correta elucidação dos fatos, através da alteração de dados referentes à ocorrência, bem como da o missão nas medidas necessárias no sentido de preservar a ocorrência”. Assinada pelo então chefe dos assuntos civis, o tenente coronel Julio Bono Neto, a nota continua com a mesma explicação dada hoje quando há participação efetiva de PMs em crimes. “(o comportamento) contraria normas existentes na corporação e revela nita incompatibilidade com a função policial militar”.

21 de agosto de 2015

Como entender a renúncia de Alexis Tsipras

Alexis Tsipras renuncia

Quando o Syriza, partido de coalizão das esquerdas, venceu a eleição na Grécia, um sopro de esperança surgiu nos movimentos populares e partidos de esquerda do mundo. Pela primeira vez, um governo verdadeiramente de esquerda enfrentaria o poder político-econômico da Alemanha por trás da União Europeia.

Alexis Tsipras, o primeiro-ministro eleito na Grécia, começou muito bem, sinalizando medidas progressistas como luz de graça para quem não pudesse pagar, fim das privatizações e a promessa de uma postura firme nas negociações da dívida grega.

Além disso, gestos simbólicos como a visita ao túmulo dos comunistas gregos vítimas do nazismo indicavam os rumos que o governo deveria tomar.

No entanto, sete meses após a vitoriosa eleição de janeiro, Alexis Tsipras renuncia, horas depois do anúncio de mais um pacote de resgate (o terceiro) para o pagamento de dívida da Grécia com o BCE (Banco Central Europeu), fato que vai de encontro com tudo o que o primeiro-ministro pregara até então.

Como entender essa derrota em tão pouco tempo?

A primeira opção é reconhecer que o Partido Comunista Grego (KKE) sempre esteve certo nas críticas ao Syriza. Os comunistas acusavam desde sempre o partido vencedor das eleições de ser “social-democrata” a serviço da burguesia europeia e do capitalismo. Suas medidas não representariam uma ruptura com a troika (União Europeia, Banco Central Europeu e FMI) e sim acordos que a longo prazo representariam os mesmos sacrifícios ao povo grego.

Outra opção é imaginar que Alexis Tsipras está preparando uma volta triunfal com mais força nas próximas eleições, previstas inicialmente para 20 de setembro, apesar de ainda não ter confirmado sua candidatura. Assim como Jânio Quadros renunciou na expectativa de que voltasse com plenos poderes, Tsipras seria eleito no novo pleito com a maioria que não conseguiu no parlamento em janeiro, tendo mais força e poderes para colocar em prática suas medidas econômicas contra os credores. No entanto, o racha que ocorreu dentro do Syriza parece inviabilizar essa alternativa, porque a ala mais radical do partido abandonou a sigla para fundar um novo partido, a Unidade Popular, um dia após a renúncia do primeiro ministro. Estaria essa jogada dentro dos planos do Syriza? Difícil de analisar.

O mais provável, pelo que temos visto, é que o jovem Tsipras chegou ao governo cheio de verdadeiras e boas intenções, mas foi engolido numa disputa de Davi contra Golias nas negociações com a troika e o governo alemão. Sem condições de barganhar melhores condições para os acordos, fez o que foi possível, dentro dos limites do jogo politico, para aliviar a crise. Já que o rompimento radical com a UE nunca esteve nos seus planos, ele preferiu renunciar a ter que assistir de camarote o fracasso das negociações.

Nos próximos meses, teremos uma melhor noção dessa renúncia que nos pegou a todos de surpresa.

4 de agosto de 2015

Instituições públicas no Brasil atual

Instituições públicas no Brasil atual

 

Acesso Livre é a revista da Associação dos Servidores do Arquivo Nacional (Assan), criada com o objetivo de ser um meio de divulgação alternativo e de acesso livre à discussão e ao conhecimento sobre a realidade das instituições arquivísticas e de memória, e também a questões referentes a administração e políticas públicas, democracia, acessibilidade, sistemas e tecnologias de informação e comunicação, direitos e movimentos sociais, entre outros temas que influenciam na preservação e no acesso ao patrimônio cultural e no dia a dia dos profissionais que atuam ou fazem uso dessas instituições.

É com muita honra e grande felicidade que eu pude participar desta terceira edição da Revista Acesso Livre, cujo dossiê aborda as instituições públicas no Brasil atual. Convido todos os amigos a conhecerem essa revista que tem crescido a cada edição, por trazer temas sempre muito relevantes sobre nossa sociedade e nossa história

27 de julho de 2015

Senado tem CPI do Assassinato de Jovens

CPI do Assassinato de Jovens

O Brasil é um dos países mais violentos do mundo. Aqui, a média de mortes por homicídio ultrapassa sempre a casa dos 50 mil casos por ano. Mais do que em muitas guerras declaradas. Levados pelo alarde das mídias comerciais e das classes médias mais conservadoras da sociedade, o Estado se equivoca na proposta de combate a esses crimes, aumentando a repressão através da política de militarização do combate às drogas, por exemplo, deixando de atacar o problema na sua verdadeira raiz: a questão social.

Pensando nesses tópicos, o Senado Federal instaurou em maio a CPI do Assassinato de Jovens, que busca investigar o elevado número de mortes de jovens no Brasil, presidida pela senadora Lídice da Mata, do PSB-BA. Uma das primeiras medidas da senadora foi articular a Comissão Parlamentar de Inquérito do Assassinato de Jovens com a que trata da Violência Contra a Juventude Negra, de modo a contribuir para melhores resultados de ambos os trabalhos.

Depois de ouvir dezenas de pesquisadores e especialistas sobre a questão da violência contra a juventude brasileira durante os últimos meses, a CPI identificou a necessidade de mudar o foco do combate militarizado às drogas para uma política de prevenção, sugestão que será encaminhada ao Palácio do Planalto na conclusão dos trabalhos.

De acordo com as estatísticas apresentadas pelo senador Paulo Paim, de cada dez jovens assassinados no Brasil, oito são negros, demonstrando que a questão da violência tem uma característica específica, um alvo determinado, e não um processo aleatório. É praticamente uma política não-oficial de extermínio da juventude negra, o que deveria chamar a atenção do país inteiro. A CPI tem previsão de estar concluída em novembro.

Infelizmente, a CPI terá que enfrentar uma visão distorcida da opinião pública sobre o tema. Propostas progressistas de combate à violência não tem muito prestígio numa sociedade atualmente brutalizada e amedrontada pelos meios de comunicação de maior porte – basta notar a pouca ou nenhuma repercussão da referida CPI na grande imprensa. Propostas de combate à violência que não envolvam mais violência são tidas como ineficazes, quando é justamente a repressão armada a responsável pelo grande número de mortes no país. Mas enquanto as vítimas forem das classes mais baixas e de etnia negra, a sociedade brasileira continuará a ser insensível sobre a questão da violência. Só se manifesta quando o problema sai dos guetos e favelas e atinge seus condomínios fechados, quando então clamam por mais repressão policial. O desafio é romper esse círculo vicioso que se sustenta com insensibilidade, descaso com a pobreza e preconceito contra pobres e negros.