23 de dezembro de 2014

Engenhão reabrirá a R$1. Qual a intenção?

Engenhão

Depois de quase dois anos interditado por conta de uma falha no projeto que poderia causar desabamento de sua cobertura, o Estádio Olímpico João Havelange – popularmente conhecido como Engenhão – será devolvido ao cidadão carioca na abertura do seu campeonato regional, em fevereiro do ano que vem.

O prefeito da cidade, Eduardo Paes, anunciou que pretende subsidiar o preço dos ingressos no estádio, para que o torcedor pague apenas 1 Real pela entrada. A alegação oficial é que no ano que vem, a cidade do Rio comemorará 450 anos de existência e uma taça em homenagem à data estará em disputa. Um grande gesto de nobreza do nosso alcaide, que pensa nos pobres e quer promover a inclusão das camadas populares nos estádios. Ou não...

Dizem que eu sou meio maldoso e enxergo intriga em quase tudo (é verdade) mas eu tenho uma outra versão para esse suposto ato de caridade do prefeito Eduardo Paes.

O Engenhão inaugurou não só a era das Arenas no Brasil, como também a época da elitização no futebol. Por conta desse movimento, os estádios passaram a receber um tipo de público bem diferente do que até então estávamos acostumados a ver. Hoje a torcida é formada por cidadãos de classe média que tem no futebol um mero passatempo, como ir no shopping ou no cinema. Bem diferente daqueles torcedores das periferias e comunidades da cidade, que tem no seu clube de coração quase a sua razão de viver.

O futebol passou, cada vez mais, a ser visto como um grande negócio, e a ameaça de queda da cobertura do Engenhão faz mal para os negócios. Seria o equivalente à suspeita de que a montanha russa da Disney estivesse em vias de desabar e sofresse uma intervenção, ficando fechada para reparos durante um tempo. Seria a coisa mais natural do mundo que as pessoas se sentissem receosas de voltarem a andar de montanha russa por um tempo depois daquele perigo. E isso iria arruinar o negócio, dando grandes prejuízos ao parque. E o prefeito Eduardo Paes sabe muito bem que, em comparação, os torcedores daqui terão muito receio de voltar a frequentar o Engenhão depois da ameaça de queda, não obstante todas as garantias oficiais.

Qual a solução do prefeito?

Transformar os pobres em cobaias. O preço popular atrairá as camadas populares de volta ao estádio, que então vão cantar, pular, torcer e testar as estruturas do estádio. Em casa, o torcedor-cliente das classes médias, seguro no sofá, tomará conhecimento da segurança do estádio, e então, passada a fase de teste, os preços poderão voltar aos patamares elitizados. E aquele torcedor das camadas pobres estará mais uma vez impedido de assistir seu futebol dos fins de semana.

E o prefeito ainda sairá com fama de dar atenção a todas as camadas sociais. Uma grande jogada.  

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Professor de História, Mestre em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), carioca, usa este espaço para comentar sobre os assuntos da política e da sociedade de forma simples e clara, sem, no entanto, abrir mão do rigor da checagem dos fatos.

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