31 de dezembro de 2014

26 de dezembro de 2014

Não podemos subestimar o poder sedutor do capitalismo

Em breve McDonalds em Cuba

Uma das grandes surpresas desse fim de ano foi a reaproximação entre Estados Unidos e Cuba, com a mediação do papa Francisco. O fato causou admiração, desconfiança e esperança em medidas quase idênticas, dependendo das inclinações político-religiosas de quem analisa o fato.

O embargo fracassou. Em que, especificamente?

Muitos veem a reaproximação como benéfica para Cuba, que vive uma crise financeira de longa data, que a chegada de turistas cheio de dólares ajudaria a remediar; outros desconfiam das intenções norte-americanas, quando o presidente Barack Obama alega que era preciso uma nova estratégia, porque o embargo havia claramente fracassado. Mas fracassado em que objetivos? O embargo sufocou a economia cubana, deixou o país caribenho atrasado pelo menos trinta anos em termos de desenvolvimento, e causou indiretamente todas as dificuldades para a população. A única coisa que o embargo realmente fracassou, foi em derrubar o regime comunista da ilha. Isso quer dizer que a mudança de estratégia visa alcançar justamente esse objetivo que o embargo não atingiu?

Quando há papas envolvidos, é bom desconfiar…

Já há especulações no ar. Alguns jornalistas já lembram que outro papa esteve envolvido em negociações secretas (e sujas) no passado para a derrubada de regimes comunistas. Trata-se do polonês Karol Wojtyla, o papa João Paulo II, em cuja biografia consta, segundo Sergio Caldieri, passagens nada dignas como a ajuda financeira da CIA para ajudar a derrubar governos no Leste Europeu:

Segundo o escritor Marco Politi, jornalista italiano especializado em assuntos do Vaticano, o general Vernon Walters, ex-diretor da CIA, foi o intermediário de 50 milhões de dólares para o papa João Paulo II destruir a Cortina de Ferro com suas hóstias verdinhas. O livro de Marco Politi é “Sua Santidade – João Paulo II e a história oculta de nosso tempo”, escrito em parceria com o famoso jornalista Carl Bernstein, do caso Watergate. Eles contaram que João Paulo II teve 15 encontros secretos com o general Vernon Walters e Willian Casey, então diretor da CIA

Para aqueles que andam preocupados, a filha do atual presidente cubano, Mariela Castro, já tratou de dissipar qualquer insinuação de que um golpe branco está a caminho. Segundo ela, Cuba não voltará a ser capitalista. Mas eu creio que a filha de Raúl Castro subestima o poder da propaganda ideológica capitalista. Essa mesma força que faz as pessoas abandonarem convicções políticas e substituírem-nas pelo desejo de consumo de porcarias industrializadas, além da ilusão de liberdade que já derrubou muros e destruiu governos no passado.

A influência da ideologia capitalista

Imaginem quando milhares de norte-americanos invadirem a ilha para passar suas férias. O contraste entre aqueles cidadãos de classe-média estadunidenses e os nativos cubanos seria gritante nesse momento. Levarão seus celulares de última geração, suas máquinas fotográficas de última geração, seus cartões de crédito e o pior, suas propagandas enganosas sobre a liberdade nos Estados Unidos.

Além disso, logo os cubanos de Miami poderão voltar pra casa e constituirão talvez o que se poderia se chamar de uma classe-média local, com toda a mentalidade burguesa que aprenderam a defender enquanto viveram nos Estados Unidos. Isso poderia causar, pela primeira vez desde a revolução, uma desigualdade social considerável, e onde existe a desigualdade social existe o aumento da insatisfação e da criminalidade. Pra completar, a queda do embargo possibilitaria uma enxurrada de porcarias enlatadas estadunidenses na ilha, talvez filmes e seriados com mensagens contra “ditaduras”, “governos autoritários” em favor da “democracia”, e etc. Sei que a população cubana tem um nível de escolaridade elevado e não se deixaria levar tão fácil pela propaganda, mas quem pode ignorar o poder de sedução da engenhosa ideologia capitalista e todas as suas consequências nefastas?

Espero estar completamente enganado, mas por enquanto, minhas barbas estão de molho.

23 de dezembro de 2014

Engenhão reabrirá a R$1. Qual a intenção?

Engenhão

Depois de quase dois anos interditado por conta de uma falha no projeto que poderia causar desabamento de sua cobertura, o Estádio Olímpico João Havelange – popularmente conhecido como Engenhão – será devolvido ao cidadão carioca na abertura do seu campeonato regional, em fevereiro do ano que vem.

O prefeito da cidade, Eduardo Paes, anunciou que pretende subsidiar o preço dos ingressos no estádio, para que o torcedor pague apenas 1 Real pela entrada. A alegação oficial é que no ano que vem, a cidade do Rio comemorará 450 anos de existência e uma taça em homenagem à data estará em disputa. Um grande gesto de nobreza do nosso alcaide, que pensa nos pobres e quer promover a inclusão das camadas populares nos estádios. Ou não...

Dizem que eu sou meio maldoso e enxergo intriga em quase tudo (é verdade) mas eu tenho uma outra versão para esse suposto ato de caridade do prefeito Eduardo Paes.

O Engenhão inaugurou não só a era das Arenas no Brasil, como também a época da elitização no futebol. Por conta desse movimento, os estádios passaram a receber um tipo de público bem diferente do que até então estávamos acostumados a ver. Hoje a torcida é formada por cidadãos de classe média que tem no futebol um mero passatempo, como ir no shopping ou no cinema. Bem diferente daqueles torcedores das periferias e comunidades da cidade, que tem no seu clube de coração quase a sua razão de viver.

O futebol passou, cada vez mais, a ser visto como um grande negócio, e a ameaça de queda da cobertura do Engenhão faz mal para os negócios. Seria o equivalente à suspeita de que a montanha russa da Disney estivesse em vias de desabar e sofresse uma intervenção, ficando fechada para reparos durante um tempo. Seria a coisa mais natural do mundo que as pessoas se sentissem receosas de voltarem a andar de montanha russa por um tempo depois daquele perigo. E isso iria arruinar o negócio, dando grandes prejuízos ao parque. E o prefeito Eduardo Paes sabe muito bem que, em comparação, os torcedores daqui terão muito receio de voltar a frequentar o Engenhão depois da ameaça de queda, não obstante todas as garantias oficiais.

Qual a solução do prefeito?

Transformar os pobres em cobaias. O preço popular atrairá as camadas populares de volta ao estádio, que então vão cantar, pular, torcer e testar as estruturas do estádio. Em casa, o torcedor-cliente das classes médias, seguro no sofá, tomará conhecimento da segurança do estádio, e então, passada a fase de teste, os preços poderão voltar aos patamares elitizados. E aquele torcedor das camadas pobres estará mais uma vez impedido de assistir seu futebol dos fins de semana.

E o prefeito ainda sairá com fama de dar atenção a todas as camadas sociais. Uma grande jogada.  

Enquanto Uruguai aprova Lei de Medios, governo brasileiro vira refém da imprensa

Pluraridade e Diversidade nas Midias

Foi aprovada hoje, no Congresso uruguaio, a “Lei de Médios” daquele país, denominada Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual, depois de mais de um ano de debates e disputas políticas, onde, obviamente, as empresas de comunicação comerciais lutaram para manter intactas as diretrizes que até então garantiam seus monopólios, através de seus deputados “amigos”.

A rigor, as medidas apontadas na nova lei servirão para garantir maior pluralidade e diversidade na programação uruguaia, com a quebra dos monopólios dos grandes meios de comunicação. A lei também defende que 60 por cento de toda a programação seja de produção nacional, além da limitação da publicidade e da criação de um Conselho de Comunicação Audiovisual que pretende garantir a pluralidade dos meios de comunicação.

Mas e no Brasil?

No nosso país, a Lei de Médios é apenas uma utopia. Setores dos governos petistas têm promovido seminários e consultas há muitos anos com a sociedade civil para aprimorar e adaptar as diretrizes de todos os modelos disponíveis mundo afora à nossa realidade. Mas não se sabe por que motivos a cúpula do governo federal jamais tornou a regulação, a pluralidade e a diversidade dos meios de comunicação brasileiros, uma bandeira a ser levantada.

O tema é mais um dos que causam um abismo entre o Partido dos Trabalhadores, que apoia a lei e quer que ela seja implementada ano que vem, e o governo Dilma que apesar de ensaiar um apoio discreto antes da eleição, depois, já afirmou que o tema não é prioridade.

Ora, que prioridade pode ser maior do que a necessidade urgente de democratizar um aparelho poderoso de informação que em todos esses anos tem servido de plataforma política para a direita mentir, influenciar e atacar o próprio governo, como tem sido desde que o PT alcançou o poder?

Difícil de compreender por que Dilma Rousseff prefere apanhar todos os dias de uma mídia vendida, que atualmente anda colocando em risco a maior empresa estatal brasileira, com acusações e mais acusações de corrupção que sempre houveram e sempre vão haver enquanto o sistema for este que favorece o poder econômico em vez de servir aos interesses da população. Mas para essa mídia burguesa e parcial, toda a corrupção do planeta é obra do PT, e não há nenhuma maneira da população conhecer uma outra versão do Operação Lava Jato. Para todos os efeitos, a população brasileira é levada a acreditar que a corrupção na Petrobras começou apenas com a chegada de Lula e Dilma ao Planalto. Até quando o PT vai ser tão conivente com isso?

E nisso o governo Dilma é tanto o vilão quanto a própria vítima, e assim parece que vai querer ser até o fim.

18 de dezembro de 2014

E as intenções norte-americanas com a reaproximação de Cuba?

Fim do Embargo, ou fim da Revolução

A aproximação entre a Casa Branca e Havana tem sim a sua importância, mas na minha avaliação, ainda muito menor do que o “evento histórico” que andam a denominar o reestabelecimento das relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba.

Apesar de o embargo permanecer de pé, e não se saber se o Congresso terá vontade política de derrubá-lo*, alguns estudiosos do tema, como o renomado jornalista e escritor brasileiro Fernando Morais, disseram que a Guerra Fria acabou no exato momento em que Barack Obama e Raúl Castro faziam seus pronunciamentos, e os remanescentes dos “Cinco Cubanos” presos há 16 anos nos Estados Unidos, voltavam pra casa.

A medida certamente também representará um incremento no turismo da ilha caribenha, que pode acrescentar uma renda equivalente a 25 por cento do PIB cubano, um valor extraordinário. Fora isso, começou a aparecer até analistas tupiniquins tentando encher a bola do governo brasileiro, alegando que a construção do Porto Mariel financiado pelo BNDES foi “uma tacada de mestre” da Dilma, ignorando que a própria presidente se disse surpresa com o anúncio da reaproximação entre Estados Unidos e Cuba.

O que todo mundo parece ignorar são as intenções dos Estados Unidos nessa reaproximação.

Alguns analistas apontam que Obama está a fim de ganhar a simpatia do eleitor latino-americano para o pleito de 2016. Parece uma jogada muito grande para algo que poderia ser conquistado por outros meios. É preciso lembrar que, se a Guerra Fria do século XX acabou ontem, como disse Fernando Morais, a Guerra Fria do século XXI está em pleno curso na Ucrânia entre Estados Unidos e Europa de um lado e Rússia do outro. E Cuba tem sido um aliado histórico da Rússia desde os tempos da União Soviética. Neutralizar Cuba pode ser uma estratégia para evitar uma nova Crise dos Mísseis numa iminente e bem provável guerra entre Estados Unidos e Rússia. Ou, o que alguns já consideram inevitável, uma Terceira Guerra Mundial.

Além disso, enquanto uns ressaltam o fim do embargo (que ainda não veio), outros apontam que o que a Casa Branca pretende mesmo é o fim da Revolução Cubana. O acordo prevê a reabertura de embaixadas em ambos os países, o que não deixa de ser preocupante. Pois como resume bem a conhecida piada: “Sabe por que nunca houve um Golpe Militar nos Estados Unidos? Porque lá não tem uma embaixada dos Estados Unidos”

Por isso é preciso um pouco de cautela nesse calor dos acontecimentos, e desconfiar sempre de quem tem o poder. A chave para entender a “bondade” de Barack Obama pode estar no Leste Europeu e no Oriente Médio, com intenções bem menos nobres.

Pra finalizar, é bom lembrar as palavras de Che Guevara:

 

*Bill Clinton, quando sancionou a chamada Lei Helms-Burton, em 1996, estabeleceu que nenhum presidente poderia colocar fim ao embargo econômico contra Cuba, mas somente o Congresso norte-americano.

17 de dezembro de 2014

Publicidade de estatais, ou como o governo alimenta os inimigos

Publicidade Estatal

A atuação golpista da grande mídia na campanha eleitoral contra o governo foi tão severa, que reacendeu nos círculos progressistas da sociedade a necessidade premente de pluralizar e democratizar as mídias brasileiras. Os governos petistas, nestes 14 anos de poder, jamais levantaram essa bandeira de forma contundente. E pra piorar ainda mais a situação, são os grandes responsáveis em alimentar os veículos que não tem a menor vergonha de se virar contra próprio governo que os patrocina.

Gastos com publicidade dispararam no governo Dilma

Segundo reportagem da Folha de São Paulo, os números da publicidade estatal em veículos de comunicação nos últimos 14 anos foram divulgados após ação movida por eles na Justiça. Certamente o jornal desconfiava que as empresas estatais estivessem gastando milhões em sites e blogs simpáticos ao governo, mas os números divulgados mostram exatamente o contrário disso.

Saiba mais: A Folha descobriu que Fórum não recebe quase nada do governo federal

Nesse período dos governos petistas, as empresas estatais – majoritariamente a Caixa, a Petrobras e o Banco do Brasil – gastaram quase R$ 16 bilhões em publicidade para promoção dessas empresas em propagandas de rádio, TV, internet e revistas das grandes mídias, as maiores beneficiadas do bolo. Patrocínios a eventos esportivos e culturais não entraram nessa conta. Sites e blogs simpáticos ao governo, ficaram com uma ínfima parte.

A grande revelação desses dados – e que não podemos chamar de surpresa – foi a relação dos maiores contemplados: justamente aqueles veículos da mídia comercial que não se furtam a atacar o próprio governo que os financia: nesses 14 anos de governo petista, as organizações Globo ficaram com R$ 4,2 bilhões, seguidas pela TV Record (R$ 1,3 bilhão), o SBT (R$ 1,2 bilhão) e a Bandeirantes (R$ 1 bilhão). A reportagem afirma ainda que o primeiro grupo da lista de empresas que não tem TV como seu principal negócio é a Abril, que recebeu R$ 298 milhões das estatais, seguida pela Editora Globo, com R$ 248 milhões. A própria Folha foi uma das maiores contempladas:

A Empresa Folha da Manhã, que edita a Folha e o jornal "Agora São Paulo", aparece em 11º lugar na lista, com R$ 206 milhões. Em seguida vem o jornal "O Estado de S. Paulo", com R$ 188 milhões.

O UOL, que pertence ao Grupo Folha, aparece em primeiro lugar na lista dos portais de internet, com R$ 45 milhões em publicidade.

A regulação das mídias, sua democratização e pluralização através de uma lei de médios nos moldes que já foram implementados em países democráticos é uma luta difícil que envolve disputas políticas, interesses comerciais, embates ideológicos, e que promete ser uma das tarefas mais árduas daqueles setores mais progressistas da sociedade. Muito mais simples, rápido e inteligente, seria cortar, ou ao menos, diminuir a verba de estatais destinada a publicidade nestes veículos que promovem campanha sistemática contra o próprio governo. Mas Dilma Rousseff já deu mostras de que não fará nem uma coisa, nem outra. Um grande erro que pode custar bem caro ao governo que insiste em virar as costas a quem lhe deu apoio, e apoiar aqueles que lhes viram as costas.

16 de dezembro de 2014

A falsa simetria entre Bolsonaro e Jean Wyllys

simetria

Atualizado em 18/04/2015:

Hoje em dia tem virado clichê a comparação entre os deputados Jean Wyllys e Jair Bolsonaro, como se ambos formassem uma espécie de yin-yang da política nacional. Jean Wyllys pelo espectro da esquerda, Jair Bolsonaro pelo da direita. Não para demonstrar que Jean Wyllys é qualitativamente melhor que Bolsonaro, e sim tão radical e condenável quanto ele. Mas será que um deputado representa mesmo o exato oposto do outro em se tratando de atuação política?

Num desses programas de rádio corriqueiros do Brasil, o apresentador Luiz Ribeiro, da Rádio Tupi do Rio de Janeiro, traz convidados para discutir assuntos da política. Não faz muito tempo, um dos temas debatidos foi mais uma das inúmeras quebras de decoro do deputado Jair Bolsonaro. E um dos participantes da discussão presentes teve o disparate de alegar que Bolsonaro “faz bem para a democracia”, porque no Congresso é saudável que “tenhamos opiniões divergentes”. E para corroborar esse argumento totalmente burlesco – porque a questão não é sobre opiniões divergentes mas se um deputado tem o direito de, entre outras aberrações, dizer que não estupra uma colega porque ela é feia – o cidadão ainda praticou a fatídica comparação entre Bolsonaro e Jean Wyllys, colocando-os exata e simetricamente em lados extremos do espectro político, querendo com isso dizer: “se temos Jean Willys de um lado , podemos ter Bolsonaro do outro ”.

Saiba mais: Documento revela ligação entre os Diários Associados e a ditadura

Infelizmente, no tempo em que ouvi o programa, não foi mencionado o nome do debatedor, autor desta pérola da desonestidade intelectual. Mas não importa. O que é crucial é entendermos que a comparação entre Bolsonaro e Jean Willys, por mais bizarra que seja, foi dada como inquestionável, e certamente induziu milhares de ouvintes a acreditar realmente nisso.

No portal da Veja saiu uma postagem do famigerado Reinaldo Azevedo fazendo a mesmíssima comparação entre Bolsonaro e Jean Wyllys. Diferentemente do debatedor da Tupi, que usou a comparação para defender, Azevedo curiosamente a faz para condenar Bolsonaro:

Também já escrevi e sustento que parlamentares como este senhor [Bolsonaro], numa ponta, e Jean Wyllys (PSOL-RJ), na outra, são opostos e complementares. Eles se estapeiam verbalmente para atrair eleitores que “odeiam” o outro lado. Um depende do outro.

Reinaldo Azevedo, para justificar a comparação esdrúxula, coloca Jean Wyllys na “extrema esquerda” [sic] do espectro político. O texto, apesar de ser crítico a Bolsonaro, por vezes parece querer ser mais uma justificativa para atacar Jean Wyllys e a esquerda do que uma verdadeira indignação contra um ataque misógino inaceitável promovido por Bolsonaro em plena Câmara dos Deputados há alguns meses.

E, recentemente, foi o Emílio Zurita que fez essa comparação de forma desdenhosa no programa do Pânico na Rádio Jovem Pan, durante uma entrevista com a reaça neocon Rachel Sheherazade, cujo vídeo foi bastante divulgado recentemente nas redes sociais.

Mas o ponto em questão é que estes veículos usam de opiniões falsas para incutir no ouvinte/leitor a ideia de que Jean Wyllys é o alter ego de Jair Bolsonaro. Mas, pra começar, Jean Wyllys jamais foi extrema esquerda, é um dos mais moderados do seu partido. Isso já complica a comparação. Se Jair Bolsonaro prega o golpe militar, Jean Wyllys não é partidário de uma revolução comunista; se Bolsonaro é misógino; Jean Wyllys não é misândrico; se Bolsonaro acha que bandido bom é bandido morto, Jean Wyllys não pensa que bandido tem que ser tratado com flores; Bolsonaro acha Cuba o inferno na Terra, Jean não acha que lá seja o paraíso. E por aí vai.

O que se quer dizer é que se Bolsonaro é de posições radicais, de extrema-direita, muitas vezes beirando a perversidade. Jean Wyllys é bem mais moderado e ponderado.  Mas infelizmente, criou-se o mito de que ambos estariam no mesmo patamar de radicalidade, cada um de um lado oposto, e ambos igualmente condenáveis em suas atitudes. Não passa de mais uma das inúmeras campanhas de difamação lançadas no ar contra o deputado do PSOL. Apoiar as minorias e os Direitos Humanos como faz Jean Wyllys só pode ser considerado “radical” na medida em que a defesa desses valores deve(ria) ser incondicional para a maioria dos cidadãos brasileiros. A reação raivosa do outro lado é outra coisa.

Portanto, da próxima vez que ouvir alguém dizer que tanto um quanto o outro representam dois extremistas que atuam de forma idêntica e oposta, pense de novo. Você pode estar sendo induzido a uma trapaça.

9 de dezembro de 2014

Classe média pode pedir golpe. Pobres não podem exigir justiça social

MANIFESTAÇÃO/FORA DILMA/AVENIDA PAULISTA

A parcela reacionária da população brasileira, levada de forma ensandecida às ruas por políticos irresponsáveis e uma mídia golpista, desde o fim das eleições, para pedir intervenção militar no Brasil, foi o tema do artigo de hoje na Folha, de Vladimir Safatle. O professor lembrou a ironia desse assunto estar em voga bem na véspera da conclusão do relatório final da Comissão da Verdade, prevista para ser publicada nesta quarta-feira.

Mas um outro detalhe importante trazido por Safatle diz respeito ao crime que se comete ao se pedir um golpe de Estado para eliminar as parcas conquistas democráticas que conseguimos granjear desde 1985, fato que me faz tratar do assunto mais adiante.

O que pensam os chefes militares

Há pouco menos de um mês, os três chefes das Forças Armadas comentaram com a jornalista Mônica Bergamo sobre o que pensavam dos ruidosos protestos pedindo Impeachment e Ditadura Militar, e se mostraram bastante tímidos, despreocupados e resignados com a atitude criminosa desta parcela de fascistas brasileiros.

O general Enzo Peri afirmou na ocasião que "Nós vivemos há muitos anos em um ambiente de absoluta normalidade". Já o almirante Julio Soares de Moura Neto, comandante da Marinha, disse: "Os militares estão totalmente inseridos na democracia e não vão voltar. Isso eu garanto". O brigadeiro Juniti Saito, por sua vez, criticou os radicais: "São opiniões de extremistas", afirma, antes de sentenciar. "É algo impossível de acontecer. Só quem poderia tentar fazer isso é o pessoal da ativa. E, como nós não queremos nada nesse sentido, não há a menor chance de essas ideias evoluírem."

Espanta a tranquilidade com que os oficiais militares trataram do assunto. Afora uma guerra, talvez não haja tema mais caro aos militares de qualquer país do que insinuações de Golpe de Estado. Isso porque dentre as funções máximas das Forças Armadas, está a defesa da lei e da ordem, prerrogativa que os militares fizeram muita questão de manter na Constituição de 88. Ora, não seriam esses manifestantes fascistas “criminosos”, como afirma Safatle, justificando uma intervenção de natureza militar, não contra as instituições republicanas, como querem os golpistas, mas sim contra essa horda que desdenha da “ordem” que os militares tanto prezam, nem que sejam meras prisões e interrogatórios, como os militares brasileiros estão tão acostumados a praticar?

Ou será que a ordem não está em perigo quando são as classes médias que estão a clamar por golpes, e sim apenas quando as populações pobres e os movimentos sociais vão às ruas pedir justiça social? Acho que não há mais dúvida pra ninguém quanto a isso.

8 de dezembro de 2014

Bancada da bala quer revogar o Estatuto das Armas

Tiro no pé

Em entrevista pela rádio CBN, o deputado fluminense Flávio Bolsonaro, filho do famigerado deputado federal Jair Bolsonaro, debateu com o coronel da Polícia Militar do Rio, Ubiratan Ângelo, sobre a possível revogação do Estatuto do Desarmamento de 2003, possibilidade que está em discussão numa Comissão Especial na Câmara dos Deputados.

De acordo com o site da EBC,

O projeto (PL 3.722/12) propõe acabar com as restrições do estatuto ao porte particular de armas de fogo, por civis, e cria normas para a comercialização de armas e munições. A atual lei estabelece que o porte de armas, por civis, é permitido somente quando for comprovada a necessidade.

Flávio Bolsonaro falou em favor da revogação, enquanto que o coronel opinou contra. E enquanto isso, a maior justificativa dos ouvintes que enviaram suas mensagens para a rádio, para que cidadãos possam andar armados, segundo o apresentador, era a defesa da família. Mais uma vez, a sagrada família brasileira tem uma solução simples, dessa vez para a questão da violência no país: se defender à bala.

Os deputados e os eleitores favoráveis a revogação do Estatuto do Desarmamento querem, mais uma vez, propor medidas drásticas, porém paliativas para solucionar um problema altamente complexo. Não se sabe se, por má-fé ou por autêntica ignorância, em vez de ir a fundo no problema e atacar as estruturas perversas da sociedade brasileira, que historicamente fomentam uma das maiores desigualdade sociais do planeta, base da violência em países capitalistas, propõem mais matança como solução.

Além disso, fecham os olhos para uma política de segurança pública que desde os anos 90, fracassa rotundamente porque se utiliza justamente da violência como resposta à violência, com resultados cada vez menos eficientes, porque coloca criminosos e policiais na linha de tiro matando-se mutuamente, aumentando ressentimentos, colocando pobres contra pobres, enquanto que as classes dominantes se cercam de segurança particular para usufruir das riquezas às quais a maioria esmagadora da população não tem acesso.  

Ainda há setores de extrema-esquerda que também defendem a revogação do Estatuto, embora por razões diferentes, pois o consideram uma medida burguesa para tirar das mãos dos trabalhadores as armas de uma possível revolução social. Mas devido ao grau de alienação ser ainda tão monstruosamente elevado entre as classes trabalhadoras brasileiras, era bem capaz deles pegarem em armas para barrar uma revolução, ao lado dos seus patrões, em vez de apoiá-la...

Os números comprovam: quanto mais armas em circulação, maior é o número de homicídios. Especialistas em segurança pública já disseram que a revogação se trata de um retrocesso. Afora isso, temos que grande parte dos deputados da Câmara receberam doações de fabricantes de armas, com a Taurus, por exemplo. Daí vocês tirem as conclusões sobre as verdadeiras razões desse assunto ter sido mais uma vez trazido à tona nessa nossa legislatura. Será que eles querem mesmo a paz, ou apenas eliminar pessoas indesejáveis com armas de fogo compradas de uma dessas indústrias de armamentos que os financia?

2 de dezembro de 2014

A Reforma Política e a disputa em torno do governo

cabo de guerra

Em 2015, está configurado no horizonte uma realidade complexa, porém, bastante interessante no que diz respeito às disputas no campo da política nacional: de um lado, os movimentos sociais, a sociedade civil organizada, os partidos de esquerda e as alas progressistas, lutando bravamente para que o governo faça valer as demandas que prometeu abraçar durante a campanha eleitoral; do outro lado desse cabo de guerra, as forças do Congresso Nacional, do empresariado, dos banqueiros, e das alas mais conservadoras da sociedade, tentando puxar esse mesmo governo para o seu lado. E no centro dessa disputa acirrada, está a pauta da Reforma Política.

Entretanto, alguns setores da esquerda, em vez de ajudar a fazer força, tratam com ceticismo a capacidade do governo de abraçar essa causa, especialmente porque a presidente reeleita, Dilma Rousseff, vem dando demonstrações de que pretende atender as demandas do lado direito deste cabo de guerra. Se formos analisar os nomes que escolheu para compor ministérios de grande importância, eles têm até certa razão para se preocupar. Outros chegam a dizer que a própria Reforma Política não é assim tão importante, como no caso do professor Valério Arcary, militante do PSTU, porque, entre outras coisas, não faria parte da demanda central dos trabalhadores.

Em artigo publicado no blog Convergência, (Por que a luta pelo plebiscito pela Constituinte exclusiva para a reforma política é uma tática equivocada?) o professor pergunta se a Reforma Política (RP) deve mesmo ser o centro da tática da esquerda. E responde que não. Segundo ele, as esquerdas deveriam lutar contra o governo que colabora com a burguesia, e a campanha em torno da RP ilude, burla e engana.

A esquerda do PT e os movimentos sociais que se uniram ao MST e à CUT para defender o plebiscito estão tentando pressionar o governo Dilma para dançar uma salsa, mas a direção do PT já decidiu que quer ir ao baile do segundo mandato com Michel Temer para dançar um samba canção de reconciliação com o grande capital.

Isso é um ponto. Mas o professor parece ter total descrença na mobilização popular e na sua capacidade de influência sobre os governantes. Neste momento, é a única arma com que contamos: pressionar o governo Dilma para que deixe de ser traidor do povo e assuma seu papel de liderança dos movimentos sociais. Em muitos países cujo sistema democrático-burguês se assemelha ao nosso, as demandas da população foram atendidas em grande medida com o povo nas ruas, mesmo com a intenção dos governos de irem por uma outra direção. Não dá pra esperar que a Dilma espontaneamente se veja na intenção de dar uma guinada à esquerda, pois isso já sabemos que ela não vai fazer.

O professor também afirma que “o papel dos sindicatos e movimentos populares não deve ser o de ala auxiliar do governo e do PT em suas disputas com o PMDB”. E nisso ele tem total razão. Mas tirando aqueles que Breno Altman classificou como “militontos”, por seu apoio cego e incondicional ao governo, já vemos críticas e cobranças contundentes destes setores para que o governo não traia o programa que o elegeu. E certamente, a Reforma Política está entre as medidas que serão mais exigidas como prioridade.

Discordo completamente do professor Valério Arcary quando ele afirma que a luta pela constituinte para a implementação da RP não é importante, e chegaria a ser até danosa, porque “divide as esquerdas” em um tema secundário e “de interesse das classes médias”. Ele afirma que “para os trabalhadores o que é central é o salário mínimo de 2015, o direito ao trabalho, os 10% do PIB para a educação e a saúde, e um longo etc..”

Parece que o professor ignora que tais demandas são praticamente impossíveis neste Congresso que ele tanto critica. E ao mesmo tempo ignora que não existe solução imediata. Uma constituinte para a Reforma Política é a única esperança a longo prazo para eleger, no futuro, políticos comprometidos com tais demandas, na medida em que dentre algumas de suas consequências está o fim do financiamento empresarial de campanha.

Se Valério Arcary não fosse tão cético com relação a isso, poderia enxergar aí a razão por que muitos dos movimentos sociais ainda não jogaram a toalha e esperam do governo que ele cumpra o que prometeu. Afinal, apesar dos nomes absurdos escolhidos por Dilma para compor os ministérios, de fato, segundo mandato nem sequer começou. Está muito cedo para largar a corda.