21 de novembro de 2014

É o povo que não sabe votar, ou são as elites?

Elite Estupidificada

Desde 2002 é a mesma história: sempre que o Partido dos Trabalhadores vence uma eleição presidencial, uma enxurrada de críticas preconceituosas acusa o “povo” de não saber votar, que o mal do Brasil é ter eleitores que se deixam levar por “esmolas”, por políticos inescrupulosos, e etc. Neste ano, as elites e suas sempre aliadas subalternas, as classes médias do Sudeste, descontaram nos nordestinos a frustração de ver o PT vencer mais uma vez, acusando-os de ignorantes, “bovinos” e outros epítetos depreciativos. Mas será que o povo não sabe realmente votar ou são, pelo contrário, as elites, que perderam a capacidade de entender as necessidades básicas do país, por estarem tão afastadas da realidade brasileira, e que não compreendem mais as verdadeiras razões da população?

Elites impressionáveis

Em seu livro Microtendências – as pequenas forças por trás das grandes mudanças de amanhã, o especialista em pesquisas de opinião política e consultor de diversas empresas, Mark J. Penn, faz uma análise do eleitorado norte-americano no período das eleições de 2008 para traçar um perfil dos eleitores. Segundo ele, foi possível identificar dois tipos básicos: aqueles que basearam seu voto em aspectos como aparência do candidato, carisma, charme pessoal e outras coisas do gênero; e aqueles que votaram em candidatos que se concentraram em buscar soluções para resolver problemas concretos. Penn pergunta: qual dessas atitudes foi a da alta sociedade norte-americana? Ele afirma com certa surpresa: a primeira.

As elites dos Estados Unidos, e grande parte das altas classes médias, perderam a noção da realidade. Elas estão totalmente distantes das reais preocupações do país, como assistência médica, recursos para pagar a faculdade dos filhos, geração de empregos, coisas que a maioria dos cidadãos enfrenta todos os dias.

Um fato irônico relatado pelo autor no livro, e que chama a nossa atenção porque acontece exatamente no Brasil, é que se você perguntar aos membros dessas elites os motivos pelos quais votam centrados na personalidade do candidato, eles dirão que “os eleitores” – ou seja, em suas visões, cidadãos de baixa renda e menos instrução – não entendem os problemas e por isso votam baseados em características pessoais. Nada mais longe da verdade do que isso! As massas estão muito mais bem informadas dos verdadeiros problemas do país do que se pensa. E por isso Barack Obama venceu aquela eleição. E por isso a Dilma venceu a eleição aqui no Brasil.

De Collor a Aécio, os candidatos das elites

Desde 1990, as elites brasileiras tem votado pelas razões mais absurdas. Naquele ano, Lula e Brizola tinham propostas concretas para os desafios do Brasil num mundo que estava para ser reorganizado com o fim da Guerra Fria. Mas nossas elites, com o apoio da classe média, nos deram Fernando Collor de Mello, um playboy cuja imagem foi cuidadosamente moldada pelas mídias para salientar sua juventude, seu carisma e sua disposição em “caçar marajás” (quer coisa mais superficial e inócua do que um presidente que “caça marajás”, seja lá o que signifique isso?) e combater o “comunismo”. Depois votaram duas vezes no sociólogo “intelectual” Fernando Henrique Cardoso, cuja fama indevida de “pai do Plano Real” é a única coisa que lhe resta apontar na sua horrenda biografia de presidente. O desastre foi tão grande que até hoje todos os candidatos tucanos o escondem em suas campanhas presidenciais, pois cada segundo que ele aparece é mais uma fatia de votos perdidos para o candidato rival. E a gota d’água foi a mais recente adesão ao novo playboy com pinta de bom moço da praça: Aécio Neves, que nunca aprovou um projeto sequer no tempo em que está no Senado, mas que disse representar a “mudança”. Nunca foi capaz de explicar com detalhes que mudanças seriam essas, e seu eleitorado tinha como única forma de defendê-lo, apontar seu carisma e sua segurança nos debates da TV. Ou seja, as elites e as classes médias brasileiras, tal qual suas congêneres norte-americanas, votam baseadas na personalidade do candidato, e não nas suas propostas concretas. O símbolo desse fato é um vídeo que circulou pela internet, em que uma repórter desafia a um raivoso eleitor de Aécio pra ele dizer um programa de governo do candidato. Depois de enrolar – obviamente não conhecia nenhum – disse: “todos!”

Dilma Rousseff, por sua vez, demonstrou óbvias dificuldades com a oratória; o charme pessoal não é muito o seu forte; e até talvez tenha um raciocínio lento demais. Mas o que a fez vencer esta eleição foi a capacidade do seu marqueteiro e dos assessores da campanha em mostrar como a presidenta foi capaz de resolver concretamente muitos problemas do brasileiro. Creches, escolas, infra-estrutura, saneamento, moradia, programas afirmativos, empregos, transferência de renda… Tudo que foi feito foi mostrado, coisas reais que afetam o dia-a-dia de grande parte da população brasileira. Com base nisso, o eleitor mais pobre escolheu pela permanência da candidata, referendando seu mandato com a reeleição, justamente nas áreas em que elas foram mais importantes. As elites, distantes dessa realidade, além de votarem pelo carisma, focaram mais em medos ridículos como o velho fantasma do comunismo, o medo do Brasil “virar uma Venezuela”, e para fechar com chave de ouro tamanha ignorância, agora pedem Impeachment e Golpe Militar.

Com base nessa pequena comparação, é caso de se perguntar: quem realmente não sabe votar: o povo, ou as elites?    

18 de novembro de 2014

A imprensa esportiva e a política na arte da manipulação

Galvão e Patrícia Poeta

Assistindo a alguns comentários na TV nos lances finais do último amistoso do ano entre Brasil e Áustria, eu me toquei do nítido e óbvio papel da imprensa na criação de factoides e de exacerbações que pululam entre o senso comum. Dali saem clichês que mais tarde serão replicados por todos os lugares como verdades absolutas. O que não é exclusividade da imprensa esportiva, diga-se de passagem. Muito pelo contrário.

Basta pensar que o que eles fazem na imprensa esportiva, em se tratando de seleção brasileira, é feito exatamente na imprensa política, em relação ao governo.

Na seleção é tudo sempre muito simples. Tudo que nos diz respeito é digno, tudo é sempre maravilhoso. E se acontece alguma coisa de errada, é sempre dos outros, ou contra nós, é óbvio. Um maniqueísmo que cega.

Recentemente o ex-capitão da seleção na última Copa, Thiago Silva, que aliás vem dando demonstrações lamentáveis de ser uma criança mimada, reclamou que Dunga e Neymar lhe deram uma pernada ao lhe tirarem a braçadeira de capitão, sem dar-lhe a menor satisfação. Foi criado um clima ruim (pelo próprio jogador) e alguma coisa precisava ser feita.

Foi então que Neymar, atual capitão, ao ser substituído nesse último jogo, teve a "magnífica", "honrada", "nobre" ideia de passar a braçadeira para o choroso Thiago Silva, um gesto "dos grandes homens", que "prova que Neymar chegou a um patamar elevado" e blá-blá-blá, tudo de acordo com Galvão Bueno, Caio e Casagrande. Uma coisa patética, descarada e forçada, mas que cola, esse que é o problema. Essas pessoas criam factoides que a maioria das pessoas engole, assimila e reproduz por aí como verdades. Esse gesto será ainda discutido durante dias nos principais programas esportivos, certamente louvando a grandeza de um gesto digno.

O que Casagrande, Caio e Galvão fazem para construir a falsa imagem de Neymar como alguém notável por uma coisa tão banal, Merval Pereira, Miriam Leitão e seus congêneres fazem no jornalismo econômico/político para desconstruir a imagem do governo em outros casos não tão banais, mas que recebem uma dimensão igualmente desproporcional — para pior. E isso também cola, porque soa como música aos ouvidos pouco afeitos a uma análise crítica dos fatos tanto nestas áreas como no futebol. A política no Brasil vem sendo tratada com as paixões irracionais das torcidas de arquibancadas, inclusive com ameaças de vias de fato pelas ruas entre lados diferentes.

A responsabilidade destes homens de mídia, tanto na inofensiva criação de um mito futebolístico quanto na exacerbação das tensões políticas é muito latente. Em ambos os casos, o telespectador é vítima de manipulação barata, onde estão envolvidos interesses comerciais e ideológicos de terceiros. O cidadão é transformado em sujeito passivo, que tem a vida “conturbada e corrida demais”, e então precisa delegar a terceiros a tarefa de pensar por ele para mastigar e amaciar as notícias que ele recebe, num pacote pronto e enfeitado.

Só mesmo um governo corajoso o suficiente poderá enfrentar esses grupos e atacar seus monopólios da manipulação, para que essas fábricas de consensos possam ter a concorrência de outras ideias, outros pensamentos e outras opiniões, contribuindo assim para a maior diversificação e pluralidade da nossa sociedade. Basta lembrar que esse ano eles quase conseguiram a proeza de eleger seu candidato preferido apenas com factoides sobre o governo. É uma tarefa que a presidente Dilma Rousseff terá que encarar, se não quiser sucumbir num mar de embustices lançadas por estes detratores das mídias comerciais. Quanto a Galvão Bueno e seus arroubos de patriotadas, que venha a tão esperada aposentadoria para breve.

14 de novembro de 2014

O que é “consenso sobreposto” e por que estamos tão longe dele

Nas nossas sociedades ocidentais, cada vez mais pluralistas e diversificadas, têm havido um tipo de conflito que vem merecendo a atenção de estudiosos, filósofos e cientistas políticos. A dificuldade de conciliar nossos interesses singulares, nossas visões pessoais de mundo, com uma sociedade onde prevaleça a ideia de valores políticos comuns acima das particularidades. Como podemos conciliar essa dualidade entre o privado e o público em nome da boa convivência e do bem de todos?

As pessoas, de modo geral, além de uma concepção de justiça baseada na equidade, apresentam valores individuais, ancorados nas visões políticas ou religiosas da comunidade em que vivem. A população de uma sociedade pluralista apresenta uma série de visões diferentes, tantos quantos forem os grupos, comunidades, minorias ativas, muitas vezes conflitantes e que representam um desafio para uma sociedade tradicional que se pretende unitária, coesa. Esse assunto foi tema de um artigo publicado pelo doutor em Filosofia e professor da USP, Cícero Araújo, no livro Ontologia, Conhecimento e Linguagem1. Segundo ele, essa diversidade de ideias não necessariamente é algo negativo, desde que alguns princípios básicos estejam envolvidos – coisas que as sociedades mais avançadas já desenvolveram, mas que nós, aqui no Brasil, estamos muito longe ainda, conforme veremos.

Intolerancia

Em busca do consenso sobreposto

Cícero Araújo aborda o conceito de “consenso sobreposto”, lançado pelo professor de Filosofia Política de Harvard, John Rawls (1921-2002), na intenção de mostrar que tais sociedades repletas de visões divergentes são capazes de “construir a mais profunda estabilidade que se pode imaginar”. A palavra-chave para essa finalidade é a tolerância.

Numa sociedade onde os cidadãos estão sempre em conflito com suas lealdades – tanto a lealdade política que deve à comunidade em geral, quanto ao grupo particular a que pertence, que Rawls chama de “igreja” –, é dever do Estado administrar essa tensão através do princípio de justiça. O conceito de consenso sobreposto, como um tipo de pacto de convivência acima das diferenças particulares, tem a finalidade de tornar tais conflitos complementares e harmônicos entre si.

Brasil ainda longe desse caminho

Embora diversos países tenham conseguido sucesso nessa proposta, certamente, não é o caso do Brasil. No nosso país, temos exemplos de como estamos longe de atingir essa meta tanto no campo político, quanto no campo religioso. E ambos os fenômenos estão ligados, porque são consequências de uma reação conservadora à relativamente recente ascensão de diversos grupos até então sem voz, ou seja, uma maior pluralidade na sociedade brasileira: minorias étnicas, religiosas, politicas e de gênero que buscam igualdade de direitos, alargando assim a diversidade – e potencializando inevitáveis conflitos com os setores até então privilegiados.

Religiões na raiz da intolerância

Na Grã-Bretanha, terra de enormes conflitos religiosos no passado, tivemos uma maior tendência à tolerância entre as diversas seitas protestantes, passados 200 anos de convívio plural e diversificado entre elas. Curiosamente, menos no caso da Igreja Católica. O filósofo David Hume, segundo Cícero Araújo, explicou que as facções religiosas fundadas no “entusiasmo” como as protestantes, embora sejam intolerantes e perturbadoras da paz social num primeiro momento, tendem a se tornar mais tolerantes com o passar do tempo. Enquanto isso, as fundadas na “superstição” como a católica, apresenta tendência inversa.

Mas será que essa lógica se aplica ao Brasil?

Creio que não. A Igreja Católica desembarcou no Brasil desde os primeiros momentos, teve sua fase mais violenta durante a época colonial, mas durante o século XX se tornou uma das Igrejas mais moderadas do mundo – pelo menos de acordo com Scott Mainwaring em seu livro Igreja Católica e Política no Brasil. Já as seitas neopentecostais surgiram no final de três fases no país: dos pentecostais históricos na primeira década do século XX (Assembleia e Cristã); dos pentecostais da segunda geração, surgidos a partir da década de 50 (Quadrangular, Brasil para Cristo, Casa da Benção, Deus é Amor); e dos neopentecostais, surgidos a partir da década de 70 sendo a principal a Universal do Reino de Deus de Edir Macedo. Esses últimos representam o que há de mais intolerante, odioso e sectário em termos de respeito às diferenças, e um grande problema para a sociedade brasileira. E o passar do tempo os tem feito piorar, não melhorar.

Sua rivalidade, ao contrário de outros países na Europa, não se dá tanto contra as demais seitas ou religiões rivais (com exceção das religiões afro-brasileiras), e sim contra determinados segmentos sociais ditos minoritários: gays, mulheres, ateus, movimentos de esquerda e outros. Ancorados no direito à manifestação religiosa, seus líderes vêm propondo verdadeiras campanhas de perseguição contra esses grupos – e nada indica que o tempo irá moderá-las.

Segundo o professor Cícero Araújo, “enquanto o conjunto de cidadãos não conseguir ‘embutir’ a concepção de justiça nas doutrinas religiosas, filosóficas ou morais que abraçam, não se poderá dizer que a esfera política tornou-se comum o suficiente para estabilizar-se” Eis o grande desafio para o Brasil nos próximos anos. Combater os sectarismos e colocar o consenso sobreposto na agenda política em nome da diversidade e da pluralidade apesar de todas as reações conservadoras.

1 ARAÚJO, Cícero. Tolerância, Metafísica e Ceticismo. In: PINHEIRO, Ulysses; RUFFINO, Marco e SMITH, Plínio Junqueira (orgs.) Ontologia, Conhecimento e Linguagem. Rio de Janeiro: Mauad, 2001.

12 de novembro de 2014

De que lado está o governo no conflito de terras

Conflito no campo

Recentemente foram divulgados números estarrecedores da violência no Brasil, com dados que nos colocam no topo da lista internacional. Também, não era de se espantar: nosso país é um dos mais desiguais do planeta, e convenientemente nossas classes dominantes tentam esconder esse fato criminalizando a pobreza e propondo, paradoxalmente, medidas autoritárias e violentas para diminuir a violência. Mais fácil do que atacar a raiz da questão, ou seja, acabar com a desigualdade, é colocar a polícia para matar os insatisfeitos.

Um desses privilégios históricos e fonte de quase todos os nossos problemas nacionais é a concentração de terras. Não por acaso, o campo é o cenário de alguns dos maiores, mais longos e mais violentos conflitos, onde coronéis e senhores de terras usam de sua influência política para mandar policiais ou jagunços armados matarem, sem cerimônia, indígenas e ativistas rurais que lutam pelo direito a terras. Ainda por cima também é fonte indireta da violência nas grandes cidades, porque grande parte dos camponeses sem terra que não conseguem ter a sua propriedade vão para as grandes áreas urbanas sofrer para morar e viver.

A Região Norte do país tem sido a zona de conflito mais perigosa, por conta da fome de terras do agronegócio, que invade áreas protegidas e reservas indígenas. O Pará é um desses locais, pois se localiza na fronteira entre os latifúndios e as áreas ainda inexploradas das florestas amazônicas.

Segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), de todas as mortes no país causadas por conflitos de terras nos últimos 10 anos, 40,65% aconteceram justamente naquele Estado. Eis outros números sobre os conflitos no campo neste período:

Dados da violencia no campo

Os dados revelam que, em média, 30 pessoas morrem todos os anos no país por conta dos conflitos de terras, mas o número de pessoas envolvidas é muito maior. Somente no ano passado, 435 mil pessoas sofreram algum tipo de transtorno por conta da luta pelo direito à terra: vítimas de violência, prisões, abusos, ameaças de morte, expulsões, e outras intimidações.

Além dos ativistas por direitos a terras, há outros números absurdos com relação a ambientalistas que se intrometem no caminho dos latifundiários brasileiros: dos 908 assassinatos de ativistas ambientais que ocorreram no mundo, nada menos que 448 foram no Brasil. 

Veja mais: Brasil tem metade das mortes de ativistas ambientais no mundo

As razões para este histórico conflito perdurar atualmente são o modelo brasileiro de desenvolvimento no campo que privilegia o agronegócio e sua eterna monocultura exportadora que demanda mais e mais terras. Além disso, os movimentos sociais ligados ao campo denunciam a falta de vontade política do governo para a efetiva Reforma Agrária. Participante da Mesa de Controvérsias realizada pelo Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), evento que ocorreu nos dias 4 e 5 de novembro, em Brasília, Gilmar Mauro, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST –, afirma que não há intenção do governo de promover Reforma Agrária para combater a política de concentração fundiária. “A Reforma agrária não foi feita porque não houve interesse político”. Para Mauro, os índices da regularização de terras divulgados pelo governo federal estão inflados e não correspondem à realidade.

A violência brasileira parece institucionalizada a ponto de não chocar mais ninguém. Enquanto houver pessoas interessadas em lutar por seus direitos roubados, pela justiça social, pela diminuição das desigualdades e por uma maior distribuição da riqueza nacional, ainda haverá aqueles que, por outro lado, recorrerão à violência como meio de defender seus históricos privilégios. Está na hora do governo federal tomar partido e decidir de que lado ele está nesse conflito. Largar um pouco Kátia Abreu e a bancada ruralista e olhar um pouco mais para os movimentos sociais. Há vidas sendo ceifadas nesse processo.