26 de setembro de 2014

A história ensina

Agricultura Familiar

Da série "O tempo é o senhor da razão":
Em 1964, as Forças Armadas derrubaram um governo que, entre outras bandeiras, tinha a defesa da Reforma Agrária. Naqueles tempos (e isso não mudou), possuir terras era uma forma de poder, e como tudo neste país, elas estavam concentradas nas mãos de uns poucos latifundiários, enquanto grande parte da população rural padecia de falta de oportunidades para trabalhar. 

Hoje, 50 anos depois, a Reforma Agrária ainda não é uma realidade plena, mas, ironicamente, quem alimenta os militares do Ministério da Defesa é a Agricultura Familiar, através de acordos promovidos pelo governo com algumas famílias agricultoras ao redor de Brasília. Duas vezes por semana, elas fornecem uma variedade de alimentos que o governo compra para abastecer os refeitórios do Ministério. 

E pensar que os militares lutaram pela manutenção dos latifúndios nos anos 60… Talvez eles preferissem estar comendo dia após dia ração de soja com suco de laranja. Transgênica.

Pezão, um estranho fenômeno de repentina popularidade

Pezão protestos de junho

Naqueles memoráveis dias de junho do ano passado, o Brasil foi às ruas protestar. O que começou como uma campanha contra o aumento de 20 centavos na tarifa dos transportes se transformou num movimento de massas, e os protestos então se voltaram para variados temas, em especial a corrupção.

No Rio de Janeiro, no auge da indignação, mais de um milhão de pessoas direcionaram seus protestos ao então governador do Estado, Sérgio Cabral Filho. Responsável por um dos governos mais impopulares dos últimos tempos, avaliado como o pior governante do país inteiro, o político sentiu a pressão: saiu antes de terminar o mandato, e teve sua candidatura ao senado abortada pela sua descomunal taxa de rejeição.

Por tudo isso, seu insosso e até então desconhecido vice, Luiz Fernando Pezão, assumiu o governo e foi lançado às pressas na sua própria campanha para o próximo mandato. Como não podia ser diferente, começou sem nenhum prestígio, na faixa dos 5 por cento de intenções de voto, muito abaixo dos principais concorrentes (na pesquisa eleitoral de dezembro do ano passado, Garotinho tinha 21 por cento, Crivella e Lindbergh empatavam em segundo com 15). Nada indicava uma subida do candidato, mas nos últimos dois meses, um fenômeno extraordinário aconteceu. Pezão, que em julho deste ano já tinha 15 por cento de intenções de voto, em sessenta dias simplesmente dobrou esse número, chegando à liderança da disputa, com 29 por cento na última pesquisa.

Como entender esse fenômeno de popularidade repentina? O que fez aquele eleitorado revoltado e impaciente, que colocou um milhão de pessoas nas ruas gritando “Ei, Cabral, vai tomar no c...”, de repente votar justamente no candidato do Cabral?

Para tentar entender esse fenômeno é preciso atacar três frentes: a influência perversa da mídia na democracia, a falta de critério do eleitor, ou a total imprecisão dos institutos de pesquisa. Ou as três coisas juntas.

A mídia determina quem é bom e quem é ruim

Desde que Anthony Garotinho apareceu na liderança da disputa fluminense, seu maior adversário político não tem sido nenhum dos postulantes ao governo, e sim a Rede Globo de Televisão. Numa campanha desigual, assimétrica e intensa, a emissora ataca o candidato de forma sistemática em todas as oportunidades enquanto alivia a vida dos seus concorrentes. Não que o Garotinho seja um santo, muito longe disso. Mas o problema mais grave, é que a emissora não apresenta a mesma sanha investigativa em relação, por exemplo, ao envolvimento de Pezão na fraude em licitações para compra de uma ambulância no município de Barra do Piraí, no Sul Fluminense, quando era prefeito, crime que ficou conhecido como Máfia dos Sanguessugas e que fez o Ministério Público Federal pedir a suspensão dos direitos políticos do candidato. Certamente ninguém viu essa denúncia gravíssima nas emissoras do império jornalístico durante esta campanha. Isso para não contar as imensas suspeitas pelo envolvimento promíscuo do atual governador com empreiteiras desde a época em que era vice de Cabral. Infelizmente esse tipo de jornalismo parcial, interesseiro e com ideologia política que protege um lado e expõe o outro influencia a opinião dos eleitores.

Falta de critério do eleitor atenta contra ele mesmo

Sabemos que não podemos simplesmente culpar aqueles eleitores que tentam tirar proveito pessoal das eleições. A Zona Oeste do Rio, por exemplo, apesar de ser um dos maiores colégios eleitorais do Estado, é também uma das regiões mais abandonadas pelo poder público. Nesse ambiente de total falta de investimentos e de perspectivas, surgem aqueles políticos oportunistas que praticam a mal-fadada compra de votos. Um emprego aqui, uma cadeira de rodas ali, uma vaga num hospital acolá, e assim se criam as condições para a exploração da população mais carente. Afora isso, há o envolvimento da milícia da região na política, intimidando os moradores a elegerem os candidatos de determinada chapa. Ganha um doce de coco quem adivinhar quem é o candidato a governador que domina os banners na região das milícias...

Apesar de imprecisas, pesquisas influenciam decisão do eleitor

O estatístico José Ferreira de Carvalho, professor aposentado da Unicamp e livre docente pela USP, diz que as pesquisas eleitorais deveriam ser vetadas. Segundo ele, a metodologia falha favorece determinados candidatos e influencia no resultado. Por uma questão de contenção de custos, a maioria dos institutos faz uma “amostragem não probabilística” ou seja, os entrevistados são escolhidos na rua pelo julgamento subjetivo do entrevistador e não de forma totalmente aleatória. Assim, por exemplo, para preencher a quota de, digamos, 2.000 eleitores consultados, o entrevistador ficaria apenas num determinado local e assim pegaria pessoas de características similares. Sabemos que as regiões de uma cidade não são todas iguais. Uma pesquisa eleitoral onde os entrevistadores se concentram no Leblon teria o mesmo resultado, se eles se concentrassem, por exemplo, em Santa Cruz? É claro que não. São bairros cujos moradores apresentam especificidades absolutamente discrepantes: renda, escolaridade, expectativa de vida, etc.

Além disso, outra questão importante: grande parte do eleitorado só responde em quem vai votar em pesquisas estimuladas, ou seja, quando o entrevistador dá uma lista dos concorrentes. Quando em vez de estimulada a pesquisa é espontânea, ou seja, o eleitor precisa dizer ele mesmo em quem vai votar, aí a coisa complica. Mais da metade não lembra ou não sabe. Esses fatores indicam que são geralmente influenciados pela maciça publicidade de campanhas milionárias com financiamento privado, que martelam diariamente os nomes e os jingles de determinados candidatos em detrimento daqueles que não tem apoio das empresas privadas para divulgar seus programas de governo. Certamente é o caso de Luiz Fernando Pezão.

  Saiba mais: Fornecedoras do governo Pezão doam milhões ao PMDB 

Tendo em vista todas essas variáveis controversas que podem alterar uma eleição, é caso de se perguntar: não está mais do que na hora de uma verdadeira reforma política, para aperfeiçoar não só o sistema eleitoral, como a própria democracia, corrigindo um sistema que pode eleger um candidato que participou do mesmo governo que fora execrado por mais de um milhão de pessoas nas ruas um ano atrás?

22 de setembro de 2014

PSDB e Globo em queda livre. Bom sinal para o país

Tucanos-JB-e-Rede-GloboNa próxima eleição, que certamente será levada ao segundo turno na disputa nacional, pela primeira vez o PSDB não estará nela. Sondagens de especialistas têm mostrado que os tucanos sairão bem menores da disputa eleitoral do que entraram. A legenda vai encolher na Câmara, no Senado e entre os governadores eleitos. A mídia conservadora já notou o fenômeno e ligou o alerta: Ilmar Franco pergunta n'O Globo: para onde vai o PSDB?

Essa é uma pergunta difícil de responder. Se o PSDB vai encolher por culpa direta de seu candidato principal, Aécio Neves, que está prestes a protagonizar um dos maiores fiascos dos últimos tempos, ficando de fora do segundo-turno e não conseguindo fazer seu candidato se eleger em seu próprio Estado, então o partido ainda tem salvação. Seria difícil uma reformulação total e uma renovação de quadros dentro do partido, quando Aécio se juntar a nomes que desfrutam de uma colossal rejeição nacional (Fernando Henrique Cardoso) ou que emplacaram uma série de derrotas consecutivas para o PT (José Serra). Juntos, esses três têm os nomes envolvidos em uma série tão grande de escândalos, suspeitas e desvios de conduta, como privatarias, corrupção no metrô e mensalões, que nem a simpatia da imprensa conservadora (pra não dizer apoio descarado) eleva suas murchas imagens públicas. Mas, pelo menos, ainda poderia haver perspectivas de algum improvável resgate no futuro.

Mas, por outro lado, se o PSDB definha por conta de um fenômeno mais complexo, que é a maior conscientização do eleitorado com as novas ferramentas como internet, que tira dos grandes meios de comunicação o monopólio da verdade, então o caso do PSDB é grave, e talvez não tenha solução. Tal como políticos do passado de outro partido simpático às classes mais conservadoras e reacionárias do Brasil, a UDN, talvez o PSDB rache, mude de nome, seus membros formem ou novo partido, como aqueles políticos que migraram da UDN para a ARENA, depois para o PDS, PFL e por fim o DEM. Mas isso também não melhorou a imagem do DEM… 

Mas qual é a realidade dos tucanos? Uma queda momentânea e conjuntural, ou uma queda definitiva, estrutural?

Uma pista para essa questão pode ser encontrada numa outra instituição que, apesar de não ser política, atua como tal: a Rede Globo.

Tal como os tucanos, a emissora tem uma linha política conservadora, em prol do mercado, do neoliberalismo, na iniciativa privada e outras bandeiras como essas. Nos últimos anos os executivos do grupo têm assistido uma constante queda de prestígio e de audiência, fato que induz à conclusão de que o processo de desprestígio dessas ideologias é abrangente, longo e inexorável. A reação desses setores conservadores à ascensão de outros paradigmas na política e ao prestígio que outros modelos de política vem arregimentando é um sintoma de que estão lutando para sobreviver.

  Leia: De seus 10 principais programas, Globo perde ibope em 8

Para a coisa ficar bonita de vez, só se o próximo presidente, que certamente não será tucano e muito provavelmente será a Dilma, pare de fazer concessões a estes setores de uma vez por todas, dando-lhes um golpe fatal como seus colegas progressistas sul-americanos têm feito em seus respectivos governos. Deixar de fazer alianças políticas com o que há de pior no país já é possível e parar de ouvir os líderes religiosos reacionários é outro importante movimento em direção aos anseios mais progressistas da sociedade. O país precisa de um governo que represente as amplas minorias. E eu espero que a Dilma esteja ressentida o suficiente com o tratamento desleal que recebeu das mídias tradicionais e dos líderes religiosos nesta campanha, para não se furtar a dar-lhes o golpe de misericórdia no próximo mandato. Aí Ilmar Franco também será obrigado a perguntar: Para onde vai a Globo?

21 de setembro de 2014

Se pode a bíblia, também pode livro satânico

religião e criatividadePor que é tão difícil compreender o princípio da laicidade em sociedades como a nossa? Porque líderes religiosos agem de má-fé (ao pé da letra) ao combater o laicismo para defender seus interesses econômicos disfarçados de obra religiosa? Porque o assunto não é debatido com seriedade nos meios de comunicação? Porque as pessoas não tem o menor interesse no assunto?

Pensando nisso, talvez seja necessário mostrar com exemplos práticos, e também com um certo impacto, a importância do tema. Foi isso que um grupo que defende o secularismo fez nos Estados Unidos. O Conselho Escolar do Condado Orange, na Flórida, numa clara violação do princípio da laicidade, permitiu a distribuição de bíblias nas escolas locais. Para protestar contra esse absurdo, o grupo chamado Templo Satânico resolveu protestar de forma criativa: imprimir e distribuir livros de colorir com temas pagãos e satânicos entre os alunos.

A intenção é nobre: ao contrário dos cristãos, que insistem em fazer proselitismo em ambientes públicos, os satanistas não pretendem mostrar que sua crença é a melhor e sim que a violação da laicidade pode abrir um precedente perigoso: religiosos não sabem conviver com pessoas de crenças diferentes, costumam ser intransigentes, intolerantes e o contato entre eles, muitas vezes, resulta em conflitos, competições, quando não em violência. Se os cristãos acham que tem o direito de distribuir bíblias em escolas, outros religiosos podem querer distribuir seus materiais também, como o corão, a torá, e até livros de colorir satânicos para crianças. Aonde isso iria parar? Dá pra ter uma ideia…

No Brasil, a todo momento, cristãos desrespeitam outras pessoas e outras religiões, principalmente nas escolas, onde também temos casos de municípios que aprovam a bíblia em locais onde deveria prevalecer o pensamento crítico e científico, e não o irracional. Pode parecer uma coisa sem muita importância, mas é muito pelo contrário. Existem inúmeros exemplos de como é importante para uma nação investir na barreira do pensamento mágico e principalmente na rivalidade religiosa entre seu povo. A vantagem é a paz e o desenvolvimento científico, que levam a um estágio avançado de sociedade. Basta ver países europeus que se livraram de séculos de guerras religiosas, como a Holanda, a Inglaterra e a Noruega, para ficar só em poucos exemplos, e que hoje transformam templos em museus e bibliotecas, vivendo um momento cultural que jamais experimentaram num tempo tão prolongado.

Logo se percebe a importância de todos nós apoiarmos o Estado Laico, inclusive os religiosos. Espero que os legisladores e os juristas brasileiros estejam atentos a esse problema, e cortem o mal pela raiz antes que seja tarde demais. Ou então daremos 200 passos pra trás na nossa história.

20 de setembro de 2014

11 de setembro de 2014

É contra o Trabalho Escravo? Então não eleja os seguintes deputados

Trabalho Escravo

Ano de eleição é sempre a mesma coisa: deputados pedem votos prometendo atuar em nome dos interesses dos eleitores. O discurso quase nunca varia muito, e certamente a esmagadora maioria deles não põe em discussão temas importantes como taxação de grandes fortunas, despenalização do aborto, descriminalização das drogas, auditoria da dívida pública, defesa do Estado laico, Reforma Agrária ou outro assunto de interesse atual. Preferem um mantra genérico e sem nenhum compromisso específico: “mais emprego, segurança, saúde e educação”. Pior do que isso: quando eleitos, além de esquecerem as promessas, ainda atuam na contramão dos interesses da população, virando capachos do poder econômico. É assim que um grande número de deputados votou contra a aprovação da PEC do Trabalho Escravo em 2012.

A chamada “bancada ruralista” tentou barrar o projeto que desapropria, para fins de Reforma Agrária, terras onde haja trabalho escravo, na concepção moderna do termo. Em nome de quem estavam atuando? Dos interesses nacionais ou específicos dos latifundiários?

Grande parte desses deputados quer agora se reeleger. Reclamar é bom, é essencial, mas nossa função também é se informar antes de votar, porque grande parte da culpa pelo Congresso Nacional ser um ninho de cobras é porque não estudamos os candidatos que pretendemos eleger. Então fazemos a nossa parte para ajudar o eleitor, divulgando o infográfico que revela como votou cada deputado na ocasião (ou se estrategicamente se ausentou para escapar da votação).

9 de setembro de 2014

Marina Silva foi cooptada para servir às elites como Lula em 2002

Marina e Lula cooptados pelas elitesDaniela Mussi escreveu um artigo muito esclarecedor no blog Convergência (A esquerda e as eleições: recolocando a estratégia em seu lugar) sobre o PT e seu projeto de governo colocado em prática nos últimos anos. Utilizando o conceito transformista de Antonio Gramsci, a autora revelou como o Partido dos Trabalhadores operou a sua metamorfose desde um partido de bandeiras de lutas por reformas sociais a uma legenda da ordem, alinhada com os setores conservadores-moderados da sociedade.

Para a autora, hoje está acontecendo um esgotamento da confiança do eleitor no governo. A insatisfação da sociedade brasileira com os rumos do país, no entanto,  precederam a chegada do PT ao poder em 2002 e foi o que propiciou a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, depois de quatro tentativas. O que acontece é que o partido não cumpriu o que foi eleito para fazer, provocando os sucessivos desapontamentos como suas lamentáveis  alianças com os setores mais reacionários da sociedade em nome de uma ficção chamada “governabilidade”. Aliás, essa crise demorou até a chegar porque a metamorfose petista de partido de oposição para partido alinhado aos setores mais conservadores já vinha acontecendo desde os anos 90, embora sem ser muito notado. Para Daniela, o PT já não era o PT quando chegou ao poder, e a eleição de Lula em 2002 cercou os trabalhadores de expectativas não correspondidas, exatamente como a abertura política do país em 1985,

A vitória de Lula repetiu, como farsa, o fim da ditadura militar. Isso por que este governo carregou consigo os antagonismos da transição brasileira para a democracia: em um polo, o pacto entre uma fraca burguesia industrializante, uma vampiresca burguesia rural e o aventureiro capital financeiro; em outro, uma classe trabalhadora em pedaços, explorada, precarizada e perseguida, oprimida e estigmatizada. Apesar desta enxergar nas eleições do PT uma nova chance para recomeçar sua história, não havia, ali, uma “hegemonia” capaz de substituir o arranjo político anterior.

Daniela afirma, com toda a razão, que o atual esgotamento que o PT enfrenta, com desempenhos cada vez menos robustos a cada nova eleição presidencial, não é, de fato, uma crise do PT: é uma crise “das classes que o hegemonizam”, ou seja, do modelo de conciliação com as elites que o PT sustenta ao invés de se alinhar com os setores populares.

Em 2013, a classe trabalhadora que o PT ajudou a esmagar e dividir, com a conivência e indiferença que dele se tornaram marcas, devolveu nas ruas todo o ressentimento e frustração com o partido, o governo e a vida política brasileira. Sua revolta foi calibrada pelo avanço de uma crise econômica internacional, que sinaliza um novo período de desorganização capitalista mundial. As ruas e as greves, curiosamente, retomaram a agenda programática da luta contra a ditadura: direitos sociais, liberdades democráticas, salários e empregos.

Diante desse quadro, nada mais natural que as classes dominantes, que até aqui se serviram de um governo conveniente para seus interesses, estejam preocupadas em buscar agora um novo nome para arejar as esperanças da população, enquanto mantêm exatamente o Establishment intocado – papel que o PT vem cumprindo desde 2002. E certamente Marina Silva vem sendo preparada para este intuito desde a eleição de 2010.

As elites nacionais já se deram conta, desde o fiasco neoliberal, que candidatos saídos diretamente de seus quadros não desfrutam de nenhuma popularidade. Por isso, notaram que os lobos em pele de cordeiro parecem funcionar perfeitamente aos seus desígnios. Marina Silva é a típica figura que funciona para o eleitorado: mulher de origem humilde, negra, envolvida em questões ambientais, uma figura “do povo”, como Lula era o metalúrgico nordestino que o marketing transformou em Lulinha Paz e Amor. Mas tal como o ex-presidente, Marina tem nos bastidores do seu staff o apoio das mais altas elites financeiras, políticas e empresariais deste país.

Na falta de fôlego do PT e sob uma perspectiva de futuro com crises econômicas e insatisfações da população, as elites brasileiras já decidiram que a hora é de mudar o testa de ferro da vez. Agora é a vez de Marina. Resta saber qual será a estratégia do PT para não perder as eleições: provar que pode ainda servir às elites, ou se virar completamente para o outro lado, resgatando a ilusão que funcionou em 2002, de que dessa vez fará jus às suas históricas bandeiras de lutas ao lado dos setores populares, como tem sido em vários governos verdadeiramente progressistas da América do Sul.  

3 de setembro de 2014

A batalha do segundo turno entre Dilma e Marina

Marina e Dilma 300

Membros do comitê de Aécio Neves, como o coordenador de sua campanha, Agripino Maia, parecem já ter jogado a toalha. No segundo turno, do jeito que a coisa está indo, vai dar Dilma, presidente que até há pouco tempo levava uma campanha morna, no piloto automático, considerando não haver nenhuma ameaça à vista (não contava com o imponderável da morte de Eduardo Campos) e Marina Silva, o furacão que herdou a vaga do finado candidato e mexeu com todo quadro eleitoral.

Sentindo que terão que lutar ou morrer, os governistas dão pinta de que virão com um rolo compressor de toneladas de publicidade (pelo menos o que for permitido pelo TSE), milhões de Reais em campanha eleitoral, militância petista com o orgulho ferido, tudo como se não houvesse amanhã... E do outro lado, uma massa de opositores totalmente heterogênea orbitando a candidatura rival: a turma tucana, o DEM, o pessoal do agronegócio, os banqueiros, as grandes mídias e os fundamentalistas das seitas evangélicas…

Vai ser bonito de ver... Seria mais ou menos como uma Batalha das Termópilas Tupiniquim, em que o futuro do Brasil estaria em jogo com a ameaça da Marina Xerxes e seu exército híbrido contra os “300” aguerridos petralhas da Dilma.

As pesquisas mostram que Marina venceria no segundo turno. Quem apostaria nos 300 de Leônidas na batalha histórica contra o poderoso exército de Xerxes? Mas a história mostrou que apesar de tudo contra, a eficiência falou mais alto contra a supremacia dos números do exército inimigo. O que será que Dilma vai preparar para barrar o avanço das forças reacionárias no Brasil?

Infelizmente parece que ela não é boa de estratégia. O primeiro passo foi tentar acenar para as hostes evangélicas. Um tiro no pé. Estas já estão fechadas com a Marina.

A melhor solução para o país seria o PT finalmente sair do comodismo de anos de governo e liderar as massas descontentes, os jovens, os manifestantes de junho, a comunidade LGBT, os negros, os socialistas, enfim, todos aqueles que até agora não se sentiram realmente representados pelo Partido dos Trabalhadores em seu governo.

Leônidas se recusou a se ajoelhar perante o exército de Xerxes. Será que Dilma vai mais uma vez se prostrar perante as forças reacionárias desses país, ou vai finalmente abraçar a agenda progressista de uma vez por todas?

A sorte está lançada. É matar ou morrer.