30 de maio de 2014

Não adianta maquiar o capitalismo global

Do ponto de vista da justiça social e da distribuição de riquezas, o capitalismo é um retumbante fracasso – e isso quem afirma cada vez mais são os próprios defensores do sistema e não os seus críticos contumazes. Tanto isso é verdade, que grandes figuras da elite mundial se reuniram há pouco tempo em Londres para debater uma forma de tornar o mercado livre menos destrutivo, depois dos comentários feitos pelo economista francês Thomas Piketty de que o capitalismo vem concentrando renda, em vez de distribui-la.

oligarchyÉ interessante notar que cada vez mais os governantes dos países, eleitos para representar os interesses dos seus povos, estejam alijados das discussões econômicas internacionais, efeito da globalização internacional que desprestigia os Estados nacionais. Na mencionada reunião, por exemplo, tivemos o príncipe Charles servindo como cicerone para figuras como o ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton; Lynn Forester, CEO do conglomerado Rothschild; Madsen Pirie, fundador e presidente do Instituto Adam Smith, que defende o livre mercado, entre outras figuras da mesma estirpe. Nenhum representante do trabalho, nenhum presidente eleito pelo povo – apenas uma pequena elite global definindo os rumos de trilhões de dólares e bilhões de pessoas.

Em 2008 o ex-subsecretário de relações internacionais do governo Clinton, David Rothkopf, já tinha escrito um livro chamado Superclasse – a elite que influencia a vida de milhões de pessoas pelo mundo, onde chamava a atenção dos perigos do crescimento dessa pequena elite global que paira acima dos governos nacionais – e que portanto, está fora do seu controle.

Rothkopf estima que hoje existam cerca de 6 ou 7 mil pessoas ao redor do mundo (literalmente, uma em um milhão) com um poder de influenciar e decidir sobre a vida de todas as pessoas do mundo. É uma elite global bastante diversificada, que conta com pessoas que vão desde megaempresários como Donald Trump, passando pelos líderes religiosos como o papa, artistas como Bono Vox até chegar em ex-presidentes que mantiveram a sua influência mundial, como o próprio Bill Clinton. Mas as que mais decidem na economia são os CEOs das maiores empresas do mundo, representantes dos banqueiros e figuras ilustres que representam o capitalismo mundial – somente o grupo de pessoas dessa reunião de Londres controla US$ 30 trilhões (R$ 67 trilhões) em ativos globais, ou cerca de 14 vezes o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil.

É fácil de entender que esses magnatas que tentam maquiar mazelas provocadas pelo capitalismo e seus instrumentos políticos – democracia burguesa, globalização – são parte do problema, e não da solução. O capitalismo não sobreviverá com uma maquiagem social que dá-lhe aparência palatável enquanto produzir o tipo de civilização dividida entre os ricos que dominam as riquezas mundiais e os despossuídos que vivem num mundo de injustiças e misérias. O primeiro passo para o resgate da soberania é a retomada das decisões globais no âmbito dos governos nacionais eleitos pelo voto dos seus eleitores. Ou cada vez mais, as eleições serão mesmo tomadas como uma grande farsa da democracia, tendo em vista que grande parte das decisões são tomadas em gabinetes fechados em Davos regadas a charutos e uísque.

27 de maio de 2014

Trevisan e o estereótipo do machão brasileiro

Vai_Trabalhar,_VagabundoDe repente parece que os homossexuais saíram todos do armário, ameaçando os pilares da nossa boa civilização cristã. Pelo menos assim parece aos olhos dos contemporâneos que pertencem a uma categoria difícil de definir, apesar de fácil de reconhecer. Uns os chamariam de "coxinhas", outros de "almeidinhas", alguns ainda de "neoconservadores"... O que importa é que basta ilustrar essa classe com a figura de um Rodrigo Constantino ou de um Jair Bolsonaro que tudo fica bastante claro.

Mas a verdade é que, nem de longe, essa é uma batalha recente. Há muitas e muitas décadas, não era tão simples, realmente, se assumir como homossexual. Mas eis que eu pego um livro de João Silvério Trevisan (Pedaço de Mim), que é uma coletânea de artigos escritos pelo autor desde o final dos anos 70, e lá está, dentre uma miríade de assuntos, o tema da homossexualidade -- ou da homoafetividade, para usar um termo mais atual. E já naquela época, Trevisan, homossexual assumido, enfrentava brilhantemente o machismo com seus artigos demolidores, coisa ainda hoje bem comum, mas heróica naqueles tempos em que o Jair Bolsonaro não chamaria a menor atenção por ser apenas mais um homofóbico na multidão. 

Em um belo artigo sarcástico denominado "As maravilhosas aventuras do machão brasileiro", Trevisan já em 1978 criticava os estereótipos do macho que permeavam os filmes da pornochanchada nacional, como Vai trabalhar vagabundo -- para o escritor, um filme com a mesma receita dos filmes eróticos populares da época passada a limpo para o gosto da classe média "fina". 

O filme estrelado e dirigido por Hugo Carvana reproduzia os valores da sociedade patriarcal brasileira dos anos 70 sem nenhum pudor: mulher-objeto, bebida, jogatina, espírito de competição, supremacia do macho, tudo enredado em diversas "aventuras". Trevisan conclui seu artigo dizendo: "para o bem da família brasileira, está salvo o macho nacional".

Pastores evangélicos levantam hoje a antiga bandeira do machismo

Tudo bem, estávamos nos anos 70, outra cabeça, outra época. Mas não é de surpreender que esse estereótipo do macho nacional esteja ainda tão vivo e presente entre nós, a ponto de fazer despontar uma turma raivosa e homofóbica que brada em defesas dos "valores tradicionais e da família” principalmente pelas redes sociais? 

O elemento de novidade nesse processo é o conservadorismo das Igrejas evangélicas que abraçaram hoje essa causa, que antes pertencia praticamente ao seio do catolicismo. Pastores compraram a briga em favor do patriarcalismo nacional, e é fácil entender por que: o patriarcado é a base da religião, e a religião é a base do patriarcado: sem um desses elementos, o outro não sobrevive. 

Já se passaram mais de 40 anos desde o lançamento do filme, e o Brasil ainda está só no começo da luta para o respeito à diversidade e aos direitos das minorias. Sinto muito informar aos amigos progressistas que desejam conciliar as suas crenças religiosas com a reforma social: dentro das instituições religiosas, essa atitude é impossível, pois elas são, por natureza, o bastião do conservadorismo.

15 de maio de 2014

A velha imprensa ganha sobrevida na internet. E com a nossa própria ajuda

Zumbi da Imprensa

Qual foi a grande e bem-vinda consequência do crescimento da internet nos últimos 15 anos? Aos poucos, ela ajudou a fomentar a diversidade, a pluralidade de visões e de opiniões, tornando-nos sujeitos ativos que interagem com a informação e não meros receptores passivos dos tradicionais veículos de imprensa. Isso ajudou a romper o monopólio das famílias que controlam os grandes conglomerados de mídia no país, como o Grupo Abril, os jornais conservadores e os canais de TV. Durante esse período, temos assistido a uma queda constante da audiência desses veículos, de modo que muitos deles perderam grande parte da influência e receita em publicidade, que migrou para onde a audiência mais tem aumentado: justamente a internet. Isso deveria representar um grande golpe na velha mídia oligárquica e uma grande vitória da diversidade na imprensa, mas não tem sido assim. Por quê?

Atrás dessa verba e dessa audiência, essas mídias tradicionais, que representam o controle da opinião pública, os interesses elitistas particulares em detrimento do público, a manipulação política da informação e o pensamento único, têm tentado usar o prestígio de suas marcas para migrarem para a internet. E uma vez consolidadas na rede, essas mídias estão tendo uma nova chance de manipularem e acabarem com a diversidade que é a marca da própria rede mundial de computadores.

Cada click que damos, é um ponto a mais na audiência

Um exemplo claro é cada um de nós notar que tipo de sites tem suas notícias mais vezes compartilhadas nas suas redes sociais. Certamente a grande maioria vem de três fontes: O Globo, Estadão e Folha de São Paulo. Ou seja, esses veículos, que deveriam estar sendo superados pelos anos de maus serviços prestados ao jornalismo no país, estão sendo cada vez mais prestigiados, ganhando uma sobrevida num espaço que deveria representar a sua falência. Com o status renovado, eles sufocam a concorrência independente, sem condições de competir com os milhões de publicidade de que eles dispõem. E tudo isso com a nossa própria ajuda, na medida em que lemos, comentamos, compartilhamos e damos audiência a esses jornais travestidos de portais de notícias eletrônicas, em vez de favorecer outras fontes do jornalismo independente, que fazem um trabalho muito mais leal e tão profissional nas redes quanto esses velhos veículos.

Sei que esses jornais contam com uma estrutura que permite a qualidade (não a isenção) dos seus trabalhos, e por isso fica realmente difícil ignorar suas páginas. Mas para aqueles que ainda pretendem ter uma internet realmente livre e independente no Brasil, a sugestão é buscar prestigiar outros portais independentes de notícias – eles estão aos montes por aí – em vez de manter esses monstrengos que tantos desserviços fizeram ao país vivos na internet. Vamos tentar?

5 de maio de 2014

Cidades Alertas, Brasis Urgentes e a sensação de violência

violência

A página de Facebook que difundiu o boato que atiçou as labaredas do justiçamento, dessa vez no litoral de São Paulo, com direito a suposto retrato falado e tom alarmante, chama-se Guarujá Alerta. É mais uma daquelas mídias dedicadas exclusivamente a potencializar a sensação de medo e insegurança na população a níveis exorbitantes, de modos que, principalmente, a militarização, a brutalização dos órgãos de repressão e o controle da ordem e da “normalidade” sejam tomados como legítimos.

A página de notícias locais talvez nem tenha essa estratégia planejada, mas segue exatamente o tipo de receita que virou padrão no jornalismo da TV brasileira, com rastro de pólvora, sangue e violência.

Os programas que exploram a violência cotidiana tem o intuito de deixar todo mundo em permanente estado de alerta, e podemos presumir a intenção: que ninguém se sinta nem um minuto relaxado, tranquilo, despreocupado diante da TV, ou na rua, ou no trabalho. Parece que uma postura calma e imperturbável hoje em dia é quase meio caminho para ser uma vítima em potencial de todos os tipos de crimes possíveis e imagináveis. Por isso temos cada vez mais programas “jornalísticos” que adotam o “alerta” em seus nomes: Cidade Alerta, Estado de Alerta, População em Alerta, sem mencionar os genéricos regionais espalhados pelo país – como o próprio Guarujá Alerta e aqueles que usam artifícios semelhantes como Brasil Urgente, Brasil Agora, e etc.

O que muitos desses propagadores de alertas não devem ter previsto é que a onda de violência que eles alimentam e que deveria servir para legitimar a ação da polícia, passasse a resultar em justiça com as próprias mãos. Isso porque o justiçamento foge do controle das autoridades, é praticado no calor de um boato ou num flagrante ato de delito, por exemplo. E a partir daí o conhecido fenômeno de bando faz o seu trabalho de espalhar o rastilho de selvajaria, que começa com um, dois, três agressores, até se tornar generalizado. Mas uma população fora do controle não é algo que as autoridades e as classes dominantes gostem muito de imaginar, e por isso não me surpreenderia se começassem a haver campanhas oficiais contra a popularização desse tipo de arroubo de revolta. Hoje, os justiçamentos são praticados contra um pivete que roubou um relógio ou uma praticante de magia negra, como esse mais recente e lamentável episódio de Guarujá. Mas amanhã a população poderia muito bem canalizar sua revolta para situações mais abrangentes, como a miséria, o descaso, os políticos, as emissoras de TV... Claro que tudo precisaria ser bem disfarçado em Campanhas pela Paz

Com a repercussão cada vez mais negativa desse tipo de jornalismo, é de se esperar também que as empresas que ainda têm coragem de patrocinar, através da publicidade, programas e telejornais que fomentam esse tipo de permanente estado de alerta possam rever seus conceitos. Essa onda de justiçamentos faz mal pros negócios, e quem sustentar ou apoiar esse tipo de crime, que responda pelas consequências na Justiça. Ou no Mercado, que parece ser a única coisa que importa, no fim das contas.