28 de fevereiro de 2014

Não se pode parar o trem da história por muito tempo

trem da história

Ser historiador não é muito gratificante no Brasil. Aqueles que não têm a história como um simples hobby e se arriscam na profissão, seja por utopia, seja por amor, acabam tendo como única saída a sala de aula — com os salários aviltantes e condições de trabalho frustrantes que todos conhecemos. Mas, ao menos, em termos pessoais, lidar com essa apaixonante disciplina nos faz ter uma perspectiva da realidade muito mais profunda do que a média geral da população – que, por sinal, é cada vez menos estimulada a dominar a sua própria história, e muito menos entender como ela funciona e pra que serve.

Quem lida com os fatos do passado pode chegar até a fazer projeções para os anos vindouros — não por acaso cada vez mais historiadores andam sendo chamados para explicar conflitos pelo mundo, como a crise da Venezuela ou o golpe na Ucrânia, usando o passado para tentar predizer para onde vai o futuro, com grande chance de acerto.

O que me traz a uma questão brasileira do presente. Nossa total incapacidade de agregar aos nossos valores, os preceitos dos Direitos Humanos. A simples menção ao termo já remete imagens determinadas e frases prontas na cabeça de diversos indivíduos: “direitos humanos são para defender bandidos!”. “Direitos humanos para humanos direitos!" "Onde estavam os direitos humanos quando o policial foi morto?!" "Se fosse com a sua mãe você não iria querer direitos humanos!”.

Como todo historiador sabe, olhando para a perspectiva da Longa Duração, essa conjuntura específica incomoda, mas não tem como sobreviver por muito tempo, o que de certo modo, tranquiliza. Faz parte do lento período de transição da sociedade brasileira, de uma fase ainda imatura para outra mais desenvolvida. Um dia, daqui a 30 ou 40 anos, certamente olharemos para trás e vamos achar ridículo o que a nossa sociedade pensava sobre o assunto.

Mesmo assim, não deixa de causar estranheza até em nós mesmos, contemporâneos da atualidade, que alguém possa ser tão celerado a ponto de apoiar a violência institucionalizada e a vingança pessoal como formas de solucionar o problema da violência da sociedade . E que os defensores dos Direitos Humanos sofram todo tipo de depreciação por defender… direitos para os humanos!

Mas não é tão difícil assim de entender. Imaginem os abolicionistas no Brasil, no último quartel do século XIX, sendo ridicularizados pelos barões do café e os senhores de engenho. Estes possuíam muitos escravos e a abolição mexia diretamente nos seus negócios. Por serem a classe dominante, sua ideologia também era dominante, conforme nos mostrou Karl Marx, e, portanto, se derramava sobre todas as classes sociais, de cima a baixo. Não seria muito difícil encontrar pessoas do próprio povo, certamente até negros e mestiços, que corroboravam a causa da escravidão, por uma falta de consciência de classe…

Qualquer semelhança com o momento atual não é mera coincidência. O que o topo da pirâmide social pensa sobre Direitos Humanos — para negros, pobres e minorias, impera o desprezo de direitos — recai sobre a base. A melhora da educação, do nível de vida e de renda também são direitos humanos, mas quem tem tudo isso garantido acha que a vida já está competitiva demais para dividir ainda mais o bolo com quem não tem… Mas a coisa é tão forte, que até as potenciais vítimas do desprezo também pensam dessa forma, e em grande medida, desprezam os direitos humanos.  

Hoje em dia a escravidão é um aspecto horrendo da nossa história, praticamente (mas não totalmente) superada. Já não encontramos muitos defensores da escravidão por aí, bradando abertamente contra a alforria dos escravos. Analogamente, também um dia será difícil encontrar no Brasil alguém que seja contra o respeito aos princípios dos Direitos Humanos, conforme o Brasil vai avançando para dirimir as ideologias discriminatórias. O Brasil é como uma maria-fumaça: grande, pesado e lento. E mesmo com os próprios “passageiros” que tentam sabotá-lo, avança inexoravelmente, apesar dos percalços.

Mas tomar consciência desse fato não deve nos acomodar, nos tornar otimistas demais, achando que esses representantes do obscurantismo e do irracionalismo vão ceder terreno gratuitamente para os novos tempos. Saber que os dias bolsonarianos da sociedade brasileira são apenas uma etapa rumo a uma sociedade mais plural e sem discriminações deve nos animar para combater o ranço do conservadorismo, e não esperar sentado sua superação. Se a escravidão acabou há mais de cem anos, é bom lembrar que mesmo nos dias de hoje, a luta dos negros por direitos ainda ainda está só no começo. Também a conquista dos Direitos Humanos deve ser uma vigília permanente da sociedade ao longos dos próximos anos.

21 de fevereiro de 2014

SIP: onde se forma o consenso da imprensa conservadora latino-americana

sipAqueles leitores mais distraídos, que podem achar que as grandes mídias da América Latina têm sempre aquela visão idêntica sobre política, economia, etc. por pura obra fortuita do acaso – por exemplo, sempre a favor do mercado, a favor da “liberdade de expressão”, contra a regulação da comunicação (Lei de Médios) e contra qualquer governo ou político governante de esquerda – talvez nem sequer desconfiem que esse consenso é na verdade fabricado num clube de empresários donos de jornais chamado Sociedade Interamericana de Prensa (SIP).

Todos os grandes jornais brasileiros, como a Folha de São Paulo, O Estadão e O Globo, além de grupos como Diários Associados e Abril são filiados ao grupo com sede em Miami – por acaso local de exílio dos cubanos opositores de Fidel Castro – e que fomentam na América Latina a visão conservadora do patronato de imprensa local associado com grandes empresas capitalistas das Américas e do Departamento de Estado dos EUA.

Fundada em 1943, a SIP vem patrocinando ataques a governos de esquerda que alcançam o poder na América Latina, através dos seus órgãos de imprensa afiliados, rompendo sem o menor pudor os preceitos de isenção jornalística.

Especialmente com a crise do neoliberalismo nos anos 90 que jogou os partidos latino-americanos de direita no total descrédito e promoveu a ascensão de governos progressistas pela via eleitoral, os periódicos filiados à ideologia empresarial da SIP ficaram mais agressivos e começaram a travar uma verdadeira e desavergonhada batalha golpista contra os governos democráticos da região.

Grupos como Clarín, na Argentina, que se beneficiaram diretamente da Ditadura militar para prosperar, não medem esforços para desestabilizar o governo Kirshner; na Venezuela, TVs como a Globovisión não tinham a menor vergonha de caluniar diariamente o presidente Chávez, inclusive com ironias criminosas como falsas previsões de horóscopo que diziam: "hoje é um bom dia para matar o Presidente”; no Chile, documentos do Departamento de Estado já tornados públicos revelaram que o jornal El Mercúrio recebeu 1,5 milhão de dólares da CIA para ajudar a campanha de desestabilização do governo constitucional de Salvador Allende. Certamente esses pequenos exemplos mostram, no mínimo, que a SIP tem interesses políticos indisfarçáveis alinhados com os da Casa Branca há muito tempo.

Recentemente, dois eventos completamente diferentes vem deixando claro como funciona a politização da imprensa no continente: na Venezuela, o presidente Nicolás Maduro sofre com as campanhas mentirosas dos meios de comunicação do país, que não se furtam a usar imagens forjadas para acusar o governo de violência na crise que a própria imprensa ajuda a fomentar; no Brasil, a morte de um cinegrafista serviu de pretexto para as Organizações Globo lançarem uma campanha vergonhosa contra as manifestações populares, contra um político de esquerda e contra o seu partido, que atrapalham os interesses empresariais da associação latino-americana. Tal como os meios de comunicação da Venezuela, a revista Veja também não se furtou a usar uma montagem de fotoshop em sua publicação semanal para incriminar uma ativista ligada ao mesmo político. E isso foi só nas duas últimas semanas…

Alguns países da região têm tentado neutralizar a oligarquia das poucas famílias que controlam a imprensa, através das chamadas “Leis de Médios”, que visam a pluralizar e democratizar a comunicação, quebrando monopólios e fornecendo mais opções de informação. No Brasil, a SIP tem conseguido barrar diretamente a menor tentativa nesse sentido, contando com a pusilanimidade do governo. Desde 2009, até tem-se tentado emplacar debates independentes para discutir a democratização das mídias através da Conferência Nacional de Comunicação, mas o governo recua diante da gritaria e acusações de “autoritarismo e interferência na liberdade de expressão dos órgãos de imprensa”, falácias que têm servido para manter os privilégios dos grupos ligados à SIP, que se dizem preocupados "porque os debates (nas conferências) são conduzidos por ONGs e movimentos sociais”. Sobre isso, o sindicato dos jornalistas do Rio de Janeiro se pronunciou na ocasião:

A nossa entidade não pode silenciar diante do posicionamento pouco democrático manifestado pela SIP. É preciso deixar bem claro que o patronato mente quando diz que defende a liberdade de imprensa, pois está, isto sim, defendendo de fato a liberdade de empresa, que não aceita a ampliação dos espaços midiáticos a serem ocupados pelos mais amplos setores representativos do povo brasileiro, como são os movimentos sociais.

Passados mais de quatro anos desde a primeira Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), em Brasília, que tinha como meta “a elaboração de propostas orientadoras para a formulação da Política Nacional de Comunicação, através do debate amplo, democrático e plural com a sociedade brasileira, garantindo a participação social em todas as suas etapas”, nada mudou sobre o monopólio dos grandes meios de comunicação no Brasil. Quando a notícia vira mercadoria e os jornais viram empresas que só visam o lucro, o jornalismo vira negócio e o cidadão é o maior lesado, porque a imprensa não passa a vigiar os interesses da opinião pública, e sim os seus próprios interesses mercadológicos. Esses grupos são poderosos, mas não podem se sobrepor aos interesses da sociedade.

Só quando o país se livrar da influência dos grupos de mídia comerciais ligados a interesses políticos da Sociedade Interamericana de Prensa, é que poderemos começar a discutir sobre uma verdadeira democracia no país. Até lá, ainda veremos muitos interesses comerciais e políticos disfarçados de imparcialidade jornalística, como tem sido nos recentes e constantes editoriais das Organizações Globo.

Fontes:

http://observatoriodaimprensa.com.br//http://www.mc.gov.br/acessoainformacao/servico-de-informacoes-ao-cidadao-sic/respostas-a-pedidos-de-informacao/25143-dados-sobre-a-1-conferencia-nacional-de-comunicacao-confecom-realizada-em-2009/http://www.sul21.com.br/jornal/a-agenda-interditada-da-conferencia-nacional-de-comunicacao/ 

11 de fevereiro de 2014

Projeto de Lei em tramitação poderia ter salvo a vida de cinegrafista

cinegrafista santiago andrade

O cinegrafista Santiago Andrade da Band poderia estar vivo hoje, se os congressistas brasileiros já tivessem votado e aprovado o projeto de lei 3271, de autoria do deputado federal José Stédile (PSB/RS) que visa alterar a redação de dispositivos do Decreto-Lei nº 4.238, de 8 de abril de 1942, que dispõe sobre a fabricação, o comércio e o uso de artigos pirotécnicos, como a bomba que matou o cinegrafista recentemente.  O projeto atualmente aguarda parecer para apreciação no plenário da Câmara.

Poder de destruição letal

De acordo com dados do site do deputado, por ano 5 mil pessoas são vítimas dos fogos, sofrendo mutilações graves e outras que chegam a morrer com o manuseio dos artefatos. Se não bastasse isso, também é importante ressaltar o impacto nos animais que morrem de infarto, enforcamento ou se perdem nas ruas por conta do barulho e do estresse. Pessoas com problemas de saúde e crianças pequenas também são vítimas do incômodo provocado por este tipo de diversão estúpida e perigosa, que ocorre especialmente nos subúrbios mais pobres. Isso sem contar quando os fogos viram literalmente armas letais.

O tipo de bomba que matou Santiago Andrade provavelmente é o tipo “rojão de vara” ou “treme-terra” cuja venda é liberada apenas para maiores de 18 anos, mas que, sem fiscalização, pode ser facilmente adquirida. O artefato contém 60 gramas de pólvora e pode atingir velocidade superior a 460Km/h antes de explodir – o que pode facilmente matar, conforme vimos na Central do Brasil.

Venda apenas para empresas

Se a proposta do deputado for aprovada, a venda desse tipo de artefato estará proibida para toda e qualquer pessoa, sendo permitida apenas para pessoas jurídicas – empresas que organizam o Réveillon de Copacabana, por exemplo. A ideia inicial do projeto em 2012 foi anunciada no lançamento da Frente Parlamentar em Defesa dos Animais no RS, proposta pela Câmara Federal, mas acabou crescendo em proporção com o aumento das tragédias envolvendo fogos de artifício. O deputado cita, por exemplo, o caso da Boate Kiss, em Santa Maria, onde dezenas de jovens morreram em consequência do manuseio de um artefato pirotécnico, e do jovem boliviano Kevin Spada, morto quando um rojão clandestino da torcida do Corinthians acertou seu olho. Agora a morte do cinegrafista da Band também reforça a necessidade de se regular a venda de fogos e bombas que podem se transformar em verdadeiras armas letais.

A partir de agora estamos acompanhando a tramitação do PL 3271/12 , e qualquer novidade a respeito do projeto será divulgada em nossas redes sociais.

Houve uma época recente em que rojões eram culturalmente aceitos e deflagrados livremente em estádios de futebol, e com o tempo esse costume foi sendo abolido na medida em que os casos de acidentes foram ficando mais recorrentes. Se no futebol conseguimos esclarecer a população e romper com uma larga tradição, então é possível conseguir o mesmo resultado com a sociedade de modo geral também.

O projeto de lei: CLIQUE AQUI

9 de fevereiro de 2014

Sem liderança, os protestos no Brasil não têm futuro

líderAos poucos, vou perdendo a convicção nos protestos que andam acontecendo e os que estão para acontecer. Não porque não concorde com essa legítima forma de manifestação amparada até pelas constituições liberais burguesas, mas porque a acefalia dos movimentos sociais no Brasil, fragmentados, desunidos, sem uma linha de conduta, sem direção, tornam os protestos presas fáceis daqueles a quem pretendem combater – esses sim, bastante organizados e com objetivos muito bem definidos.

Parece que, até agora, a maior bandeira dos protestos tem sido o lema “Não vai ter Copa”. E por que não vai ter? Porque “falta saúde, educação e transportes”. Sim, isso está muito claro. Mas qual a estratégia para atingir esses objetivos? Que tipo de organização política permitirá alcançar o poder? De que maneira? Aí que a coisa começa a complicar.

Existia uma frase irônica – porém, sintomática -- que se dizia muito na época do Estado Novo no Brasil: “A esquerda só fica unida na prisão”. Sempre existiu uma dificuldade enorme entre as esquerdas brasileiras para apresentarem uma proposta unificada, legítima e consensual para mudar os rumos do país. O que sempre vimos, por exemplo, foi um partido de esquerda seguindo diretrizes internacionais com as quais tinha filiação, criticando propostas nacionalistas de outros, fazendo alianças com a direita para derrubar um partido de esquerda que não fosse da sua vertente, mudando de opinião conforme a direção dos ventos sobre líderes políticos… Enquanto isso, a direita, em defesa dos seus próprios valores e interesses, foi sempre capaz de derrotar qualquer um desses movimentos enfraquecidos. Ainda hoje segue esse mesmo padrão, e o resultado é que, apesar da imensa insatisfação geral, não existe um candidato de legítimo partido de esquerda com chances de vencer as eleições em alguma importante capital esse ano, muito menos para o Executivo nacional.

Para piorar um pouco mais as coisas, hoje os movimentos sociais ditos de esquerda, bem de acordo com as tendências pós-modernas, já não acreditam em organizações políticas como porta-vozes legítimas das massas, muito menos apoiam lideranças que por ventura possam direcionar os movimentos, dar a eles uma meta definida. O padrão, hoje, já não é mais a do líder que diz o que fazer e quando fazer, e sim a do subcomandante Marcos, conhecido membro do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) que no entanto não assume nem defende sua posição de liderança – apesar de tê-la. Parece que é feio ser líder.

De alguma forma, durante esse processo de total descrença nas representações políticas nos últimos 20 anos, as lideranças saíram de cena. Mas vejam bem, somente as lideranças dos movimentos sociais pelo mundo foram questionadas, e não toda e qualquer liderança em si. Seguir uma liderança não quer dizer obediência cega, e sim entender que existe alguém com preparo e visão acima da média que é naturalmente aceito para organizar uma determinada ação. Durante muitos milênios as sociedades espalhadas pelo mundo se organizaram exatamente dessa maneira, e ainda hoje ela não está totalmente abandonada – muito pelo contrário: basta ver que as instituições burguesas continuam se organizando sob a instituição da liderança, seja na presidência de uma República, seja no comando de uma corporação militar, ou religiosa. Por que somente os líderes dos movimentos sociais são tão questionados?  

Imagine, a título de ilustração, uma batalha travada na Antiguidade, em que, de um lado, temos um monarca na frente do seu exército bem treinado, auxiliado por seus cavaleiros e com a bênção dos representantes da entidade religiosa do momento que dão as justificativas morais para a luta, como por exemplo “manter a ordem e os pilares da nossa sociedade contra os malfeitores do inferno”. E do outro lado do campo de batalha temos uma massa de camponeses revoltados, indignados, prontos para lutar pelos seus direitos constantemente vilipendiados, porém sem uma liderança e sem uma estratégia de combate definida. Essa tem sido a história dos conflitos entre governos tiranos e governados humilhados nos últimos milênios em todo o mundo. E salvo pouquíssimas exceções, somente um mesmo lado tem vencido essas batalhas. Numa das raras ocasiões em que o lado mais fraco e até então desorganizado foi capaz de derrotar o lado mais forte e organizado, não foi por acaso: havia uma grande liderança por trás, guiando as ações com sua estratégia bem definida e o seu conhecimento da conjuntura do momento. Isso ocorreu em outubro de 1917 e seu nome era Vladimir Ilyitch Uliánov, mais conhecido como Lênin, membro do partido bolchevique russo.

7 de fevereiro de 2014

Água engarrafada, a última jogada da publicidade

agua engarrafadaHouve um tempo que a American Tobacco Corporation, nos Estados Unidos, queria aumentar as vendas de cigarro no país, e então contratou o papa da publicidade na época, Edward Bernays, que aplicou na propaganda conhecimentos de psicologia adquiridos com seu tio famoso, Sigmund Freud. O alvo era o público feminino, pois até aquele momento, o cigarro era um hábito tipicamente masculino. Bernays conseguiu convencer as mulheres através da publicidade, de que fumar era desafiar o poder masculino, era chique, dava status, e assim conseguiu convencer as mulheres a fumar, dobrando os lucros da indústria do tabaco.

Estava inaugurada a era moderna da publicidade. Hoje a propaganda continua uma das armas mais importantes do sistema capitalista, induzindo-nos a consumir produtos que de outra forma não teríamos a menor necessidade. Dessa vez, o alvo é a água engarrafada


A privatização da água é um sonho antigo, talvez a última fronteira do capitalismo mundial. O presidente do grupo Nestlé, Peter Brabeck, não esconde de ninguém esse desejo. Segundo ele, “a água deveria ser tratada como qualquer outro bem alimentício e ter um valor de mercado estabelecido pela lei de oferta e procura”. O primeiro passo vem sendo dado.

Não perca: ganhe 8 minutos da sua vida assistindo a este pequeno vídeo-documentário esclarecedor sobre como a indústria capitalista cria os mecanismos para nos induzir a consumir aquilo que deveria ser disponível para todos. O vídeo é sobre garrafas d'água, mas os mais espertos perceberão que a publicidade cria muitas outras necessidades inúteis, e mentir faz parte do jogo.

3 de fevereiro de 2014

Eduardo Coutinho e a questão agrária no país

Eduardo Coutinho

Neste 2014 completam-se 30 anos do lançamento do filme-documentário Cabra marcado para morrer, do cineasta e documentarista Eduardo Coutinho, que acaba de ser tragicamente assassinado em seu apartamento no último dia 2, aos 80 anos de idade, em circunstâncias ainda não totalmente esclarecidas.

No início dos anos 60 a realidade degradante do mundo rural brasileiro passou a chamar maior atenção da sociedade de um modo geral. Envolvido em atividades do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (UNE) o então jovem cineasta Eduardo Coutinho participou de um projeto itinerante da UNE para registrar e divulgar a cultura popular dos rincões brasileiros. De passagem por Sapé, na Paraíba, onde se realizava um protesto pela morte de João Pedro Teixeira, Coutinho conheceu a viúva do líder camponês morto em 1962, Elizabete Teixeira, e resolveu realizar o filme documentário para contar a sua história.

Interrompido pelo Golpe de 64 e retomado 17 anos depois nos anos 80, na reabertura política, o filme acabou sendo uma narrativa de duas décadas diferentes e de várias histórias que se cruzavam na trajetória de sua personagem principal, Elizabete Teixeira.

O contexto da época do lançamento

Dentre estas histórias, a questão agrária no Brasil tem um grande destaque. O filme, finalmente lançado em 1984, veio bem a calhar, no momento em que o país vivia a expectativa de uma redemocratização e da discussão das reformas pendentes por conta dos 21 anos do regime de exceção. Por todo o país eclodiram movimentos de greve no campo. Em 1979 e 1981, ocorreram duas grandes greves de trabalhadores rurais na zona canavieira de Pernambuco. Em outros Estados, como no Rio Grande do Norte, Paraíba, Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo também tiveram greves no campo no começo dos anos 80.

O ano de lançamento do filme foi ainda mais emblemático porque foi exatamente em 1984 que os trabalhadores rurais de todo o país se organizaram e fundaram o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Todas essas lutas, assim como o próprio filme, traziam à tona questões agrárias interrompidas pelo Golpe, especialmente a memória das Ligas Camponesas, criada em Pernambuco em 1955, se expandindo pelo Nordeste e que tinha entre seus quadros de afiliados, João Pedro Teixeira, o camponês assassinado que inspirou o filme Cabra marcado para morrer.

Passados esses 30 anos, a Reforma Agrária ainda é um enorme tabu neste país – basta lembrar que o atual governo desapropriou menos terras improdutivas e assentou menos famílias no campo do que o governo militar de João Figueiredo, aquele que justamente deveria impedir reformas… – e a luta no campo ainda causa uma guerra sem fim entre latifundiários e sem-terras assassinados. Mas se alguém tem o mérito de colocar o dedo nessa ferida brasileira, além de João Goulart, é Eduardo Coutinho. Seu trabalho fará falta para as artes cênicas brasileiras de modo geral, mas sua morte trará à lembrança o filme que produziu um grande impacto na época e que pode reacender o debate sobre a questão agrária no Brasil.

Clique AQUI para ver o filme completo.

2 de fevereiro de 2014

Moralistas muitas vezes lutam contra si mesmos

cena do beijo em Beleza Americana

Nessa última sexta-feira parece que o país parou mais uma vez para assistir ao último capítulo de uma novela. E não foi só porque o brasileiro adora esse tipo de entretenimento, pois afinal, dizem, a novela em questão não foi das mais empolgantes, e sim por conta da expectativa de um tão polêmico beijo gay, que acabou, de fato, acontecendo.

Durante anos se debateu as possíveis consequências para a “família” brasileira se um ato tão banal fosse transmitido em rede nacional, o que mostra o quanto ainda estamos atrasados, presos em valores absolutamente ultrapassados neste país (embora o próprio beijo enfim transmitido mostre que estamos melhorando aos poucos). Isso se dá muito por conta da persistente influência de costumes tradicionais, conservadores, cristãos, que durante muito tempo prevaleceram no Brasil e que recrudesceram nestes novos tempos de transição de comportamentos. Seria uma forma de controlar as supostas “promiscuidades” alheias e zelar pelos valores de deus, da pátria e da família que estariam se perdendo? Sim, mas existe um outro lado desta moeda que poucos têm coragem de admitir: combater a imoralidade da sociedade, no fundo, é uma maneira de controlar os próprios impulsos. Quem viu o clássico filme Beleza Americana (na cena da imagem acima) sabe muito bem do que eu estou falando.

Moralistas são os maiores consumidores de “imoralidades”

Não faz muito tempo e uma pesquisa científica apontou justamente para esta conclusão. Homofóbicos, por exemplo, na verdade sentem um desejo sexual enrustido pelas pessoas do mesmo sexo. O curioso é que os moralistas, sob pretexto de fiscalizar o comportamento da sociedade, na verdade estão entre os que mais dão Ibope para as supostas imoralidades. Quanto daquela audiência do beijo gay da Globo não foi dada justamente pelos moralistas de plantão?

Mas um dos casos mais engraçados e ilustrativos sobre essa questão aconteceu há muito tempo, e vale a pena relembrá-lo.

Carlos Lacerda era um dos jornalistas e políticos mais pudicos do país enquanto foi uma figura pública de relevância, defensor ferrenho da moral e dos bons costumes (claro que ele também era um dos maiores cretinos americanófilos fomentador de golpes contra governos nacionalistas que já existiram, mas isso não vem ao caso agora). No começo dos anos 50, o jornal Última Hora publicava uma coluna do Nelson Rodrigues chamada A vida como ela é. Todos os dias, durante 10 anos, o famoso autor ofereceu aos leitores histórias ousadas que geralmente tratavam sobre o mesmo tema: adultério.

Lacerda, com a sua característica fúria canina à la Bolsonaro, dizia que Nelson Rodrigues punha em xeque os “pilares da nossa civilização cristã”. No seu jornal, Tribuna de Imprensa, resolveu partir pro ataque. Num caderno especial intitulado “Preto no Branco – Depoimento sobre o jornalismo-capão”, ele fez um curiosíssimo e detalhado exame das publicações “imorais” de Nelson Rodrigues, com um afinco apaixonado:

Das 48 histórias que examinei, 26 são de adultério. […] Seis, de homicídio, três, de espancamentos de cônjuges. Cinco, de embriaguez alucinatória. Casos de necrofilia, instigação ao suicídio […] E, para terminar, das 48 histórias, 35 se desenrolam nos seguintes ambientes: 12, em cemitérios; 12 em rendez-vous; 2, em necrotérios; 8, em enterros; 4, em mausoléus e 2 em bordéis*

Nem o mais doentio dos maníacos depravados seria capaz de um relatório com tamanha riqueza de detalhes. Fico a imaginar Carlos Lacerda, o guardião moralista, sentado no seu escritório à noite, lendo Nelson Rodrigues, anotando em cada uma das 48 publicações a lista de cada uma das licenciosidades narradas nas histórias. Tudo isso para salvar a nossa civilização cristã da degradação moral, é claro…

É ou não é um exemplo típico de moralista com desejos secretos enrustidos? Quantos destes estarão espalhados por aí ainda hoje, bradando raivosamente uma coisa e praticando (ou pelo menos pensando) secretamente outra?

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*Fonte: AGUIAR, Ronaldo Conde. Vitória na Derrota. Quem levou Getúlio ao suicídio. Casa da Palavra: Rio de Janeiro, 2003

1 de fevereiro de 2014

Um Rio de farofeiros

IsoporzacoVejam vocês como a vida dá voltas… Houve um tempo em que os moradores da Baixada e da Zona Oeste do Rio de Janeiro, regiões onde vive a parcela economicamente mais pobre do Grande Rio, sempre que iam curtir o lazer nas praias da Zona Sul, eram ironizados e tachados pejorativamente como “farofeiros” pelos moradores da alta classe média da área rica da cidade: por considerarem os preços praticados nos bares e nos vendedores ambulantes abusivos ou acima de suas capacidades, eles geralmente traziam as suas comidas e bebidas de casa, em isopores, para economizar.

Muito bem. Mas eis que o Rio de Janeiro, de uma hora pra outra, resolveu se tornar uma das cidades mais caras do planeta, especialmente nos setores de transporte, turismo e alimentação, com estabelecimentos comerciais praticando preços simplesmente surreais, principalmente nas regiões que receberão o maior número de turistas para a Copa do Mundo deste ano.

Quando a onda da ganância e oportunismo atingiu o preço das cervejas no Zona Sul, Niterói e outras regiões, um grupo de pessoas se organizou pelas redes sociais e criou o isoporzaço,  para justamente – quem diria? – se reunir em praças e levar de casa seu próprio isopor de cerveja! Parece que o que antes era visto como coisa de pobre, agora acaba de ganhar status e se tornar uma prática também entre aqueles que se gabavam de poder consumir nos próprios estabelecimentos comerciais.

O fato é que muita gente reclama dos altos impostos que encarecem os produtos no Brasil, mas esquecem que além disso, da lei da oferta e da procura que também atua na variação de preços, um terceiro fator também influencia na hora de estabelecer um valor em um produto: o senso de oportunidade de um comerciante. E aí, muitas vezes até aqueles que podem se dar ao luxo de viver na estreita faixa de consumo no país, sentem o golpe e são obrigados a recorrer a métodos criativos para driblar os altos preços. E descobrem justamente aquilo que os pobres já sabiam como fazer há muito tempo.

É, não tá fácil pra ninguém…