26 de novembro de 2013

Eleições em Honduras e o sistema eleitoral liberal

 Eleicoes em Honduras

Neste último domingo aconteceram eleições presidenciais em Honduras, e não obstante todas as pesquisas apontarem Xiomara Castro, do partido Libre, como vitoriosa no pleito, as autoridades já anunciam o candidato conservador da situação, Juan Hernández, como novo presidente do país, depois de 68 por cento dos votos apurados.

Não por acaso, começaram a surgir diversas denúncias de fraudes e irregularidades vindas dos partidos de oposição ao governo conservador hondurenho, o qual pertence o candidato apontado como vencedor. Manuel Zelaya, ex-presidente hondurenho deposto com um golpe de Estado pelas forças reacionárias hondurenhas em 2009 e marido de Xiomara, já anunciou que seu partido não vai aceitar o resultado, e nisso conta com o apoio de outro candidato, do partido Anticorrupção (PAC), Salvador Asralla.

Apesar das graves denúncias e dos fortes indícios que levam a crer que a apuração dos votos nas eleições hondurenhas ocorreram de forma suspeita, os Estados Unidos trataram de se manifestar imediatamente a respeito do resultado. O embaixador estadunidense no país disse que as eleições foram limpas e pediram que os candidatos respeitassem o resultado, assim como já tinham reconhecido a eleição de Porfirio Lobo, atual presidente, depois do golpe de Estado contra Manuel Zelaya, ao contrário da maioria dos membros da Unasul na ocasião.

É claro que eles pediram. A eleição, fraudulenta ou não – isso é o que menos importa pra eles – os favorece. O candidato supostamente eleito assume em janeiro e, sendo da situação, promete manter o governo de joelhos aos interesses do mercado no país, como Porfirio Lobo. Além disso, ainda tem a conveniência de representar a derrota das forças de esquerda no país, representadas pelo ex-presidente Zelaya e sua esposa candidata.

Presidente MaduroAgora vamos comparar, a título de ilustração, a eleição de Honduras com a venezuelana. O sistema eleitoral da Venezuela é, certamente, um dos mais vigiados e fiscalizados do planeta, porque as forças internacionais do capitalismo são ávidas para encontrar o menor indício de irregularidade, para deslegitimar perante o mundo o governo do socialismo bolivariano. No entanto, todos os observadores internacionais são obrigados a reconhecer: não existe a menor suspeita quanto ao sistema eleitoral venezuelano. Apesar disso, o governo dos Estados Unidos pensou, pensou, e mesmo assim resolveu não reconhecer a eleição do governo Maduro em abril deste ano.

A lição que podemos tirar desses fatos é que o sistema eleitoral burguês não foi feito necessariamente para dar voz aos interesses do povo. Ele foi criado para dar a impressão de dar voz aos interesses do povo. Pois basta estes interesses irem de encontro aos interesses do capital, para que se lancem medidas que vão desde a propaganda caluniosa, passando por fraudes eleitorais e chegando a golpes de Estado.

Isso nos faz refletir sobre a suposta eficiência do voto no sistema liberal como instrumento de representação dos interesses de uma sociedade. Como podemos acreditar nele, quando um povo está sujeito ao que acontece neste momento na apuração dos votos em Honduras, com o total beneplácito de umas das maiores potências ditas “democráticas” do mundo?

24 de novembro de 2013

Concessões e privatizações

aeroporto-galeaoSabemos que uma das estratégias do PT para enfrentar a mídia tradicional é o recrutamento de dezenas de blogueiros militantes, sejam eles renomados jornalistas ou internautas anônimos sob alguma página política, que atuam na internet como um pelotão de defesa das medidas governamentais. O problema é que, às vezes, eles exageram e perdem a razão.

A última campanha desses grupos na internet tem sido comemorar a concessão dos aeroportos, e para isso, têm usado como parâmetro de comparação a privatização da Vale do Rio Doce.

Bom, essa prática é bem antiga, e é o que vem justificando as políticas bem modestas do governo petista nos últimos 10 anos: trata-se de fazer o mínimo para ser apenas menos pior que o PSDB no governo. Numa escala de 0 a 10 onde 0 é totalmente neoliberal e 10 é totalmente social, se os tucanos são 2, os petistas acham que ser 4 está de bom tamanho.

A concessão dos aeroportos

Uma dessas páginas de tendência pró-governo chama-se Política no Face. Um grupo de internautas que se revezam na postagem de temas políticos no Facebook, geralmente focando na comparação entre os governos petista e tucano. Essa semana um dos posts publicados dizia: “Dois aeroportos renderam mais do que três Vales do Rio Doce. E quem está preso é o Genoino...”.

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  Concessão dos aeroportos — privatização envergonhada

Sim, todos nós sabemos que a venda da Vale foi um descalabro, um acinte, uma vergonha nacional que ainda não teve seu prejuízo totalmente contabilizado pela opinião pública. Mas em vez desse debate semântico sobre uma privatização criminosa ser melhor ou pior que uma concessão desnecessária, deveríamos nos perguntar por que o PT mantém esse tipo de modelo neoliberal no seu governo, através desses eufemismos como “concessão”. Pois é claro que existem diferenças sutis entre a entrega da Vale definitivamente e a dos aeroportos por algumas décadas. Mas no fundo, trata-se da mesma política de desestatização. Segundo a Folha, a legislação enumera as modalidades de desestatização, entre as quais: “a transferência, para a iniciativa privada, da execução de serviços públicos explorados pela União, diretamente ou através de entidades controladas”. Mas discutir os pormenores entre as características de uma privatização e de uma concessão é perder o foco principal.

A política neoliberal do PT

O Política no Face alegou que a concessão dos aeroportos é como um aluguel, enquanto que a privatização é venda. Embora o resultado prático seja o mesmo, segundo eles, “se você tem uma casa e aluga é bem diferente que vender a casa”. Muito bem. Mas essa é a comparação correta?

A analogia do aluguel mais condizente com o caso dos aeroportos brasileiros, na verdade, seria a seguinte: eu tenho diversos imóveis, uns que me rendem mais, outros que me dão prejuízo. Aí eu decido justamente "conceder" o controle dos meus melhores imóveis para o lucro de terceiros, pelos próximos 20 ou 30 anos anos, a troco de um valor X. Os imóveis deficitários eu mantenho pra mim. Por mais alto que seja o valor X, ele jamais será maior do que o lucro que eu mesmo poderia obter com o meu imóvel se o controlasse diretamente. Até porque, senão, não seria interessante para ninguém obter a sua a concessão. Esse é o "bom negócio" do governo?

Se eu estivesse falido e desesperado, precisando de dinheiro imediatamente, tudo bem, seria uma emergência e eu teria que me submeter à necessidade. Mas certamente esse não é o caso do Brasil.

Como uma empreiteira como a Odebrecht, que levou o Galeão, pode ter mais capacidade de gerir um aeroporto que a Infraero?

Tudo não passa da velha e criminosa política neoliberal, que o governo petista insiste em manter sob eufemismos como “concessões”, em defesa do Estado Mínimo, cuja ideologia afirma que o Estado é sempre incapaz de gerenciar empresas públicas, tendo que deixar tudo a cabo do setor privado. Claro que setor privado não gosta de correr os riscos inerentes ao liberalismo econômico, e pra isso é sempre bom contar com governos bem simpáticos aos interesses do capital como o nosso.

Concessão, venda, aluguel ou privatização, o fato é que o setor empresarial sempre sai beneficiado quando ganha de presente o controle das melhores empresas públicas, que os nossos impostos ajudaram a criar e a manter. Para estes privilegiados, os riscos inerentes ao capitalismo podem muito bem ser amortecidos quando é o Estado que faz os investimentos, cabendo a eles apenas a gerência dos lucros. E eles ainda ficam com os méritos da boa gestão. Ao Estado, apenas a demonização...

16 de novembro de 2013

Mensalão e a Justiça seletiva

Jose GenoinoEnfim, alguns dos condenados da Ação Penal 470, alcunhada pela imprensa como “caso do mensalão”, começam a cumprir penas. Dentre eles, figuras de alta patente como José Dirceu, Delúbio Soares, José Genoino e Marcos Valério.

Apesar da festa dos órgãos da imprensa comercial, que saboreiam indisfarçavelmente o prazer pelo desfecho do caso – e também daqueles setores das classes médias levadas de roldão pela onda reacionária que as mídias sempre promovem – a sensação por aí não é a de que finalmente o Brasil deu cabo de sua longa tradição de impunidade contra crimes praticados por políticos. Não se percebe otimismo, muito menos esperança de que, a partir de agora, os políticos que coloquem suas barbas de molho, porque a Justiça brasileira acordou. Não é disso que se trata.

A sensação é de que a Justiça, composta por magistrados, que por sua vez compõem uma determinada classe social elevada, também atuam politicamente. Junto com a imprensa – outro setor que no Brasil se acostumou a atuar de forma política e não jornalística – formam um poderoso instrumento que pode destruir reputações daqueles que atravessam seus interesses.

Somente este fator é capaz de explicar a longa apatia e o estratégico desinteresse do Ministério Público e do Supremo Tribunal Federal pelos vastos e gravíssimos indícios de atividades ilegais como corrupção, enriquecimento ilícito, favorecimento indevido e formação de quadrilha praticados por membros do alto escalão do PSDB. Todos esses casos foram sumariamente ignorados, engavetados e deixaram de ser investigados e julgados, apesar dos inúmeros documentos que levam a estas conclusões – alguns desses crimes fazem o mensalão parecer coisa de criança, como foram devidamente comprovados no livro Privataria Tucana.

Antes, a impunidade de crimes cometidos por políticos era a marca da justiça brasileira; agora a justiça (ou a impunidade, como queiram) é seletiva: só atinge determinado grupo que não faz parte dos escolhidos e protegidos pelas classes dominantes brasileiras.

Que esse caso sirva de exemplo para o PT e para as esquerdas brasileiras de modo geral. Não se pode chegar ao poder e, em vez de enfrentar as oligarquias e os barões do capitalismo para impor as reformas que o país precisa, compor alianças com estes setores, achando que serão acolhidos de braços abertos, como iguais. Os petistas agora condenados acreditaram que tinham as elites como aliadas, mas, na verdade, elas nunca deixaram de tramar dia e noite para lhes puxar o tapete. Se tivessem tratado estes setores dominantes como alguns governos progressistas vêm tratando na América Latina, como uma classe de privilegiados opositores das reformas, contra os quais é preciso lutar e não se aliar, talvez o PT não estivesse passando por este papel vergonhoso no Brasil atualmente. Enquanto as classes privilegiadas sofrem derrotas no Equador, no Uruguai, na Bolívia, na Venezuela e na Argentina, aqui no Brasil elas brindam com champanhe a mancha pública que impuseram na imagem do governo.

14 de novembro de 2013

Continente africano: 500 anos vítima da exploração capitalista

Exploracao da AfricaÉ bastante comum, em sociedades como a nossa, onde não se têm o hábito de exercer o saudável senso crítico, olharmos para um determinado fenômeno sem sermos capazes de identificar precisamente as suas causas verdadeiras. E esse vácuo de conhecimento é sempre preenchido com ideias deturpadas, pelo senso comum, pela desinformação, pela enganação e pela propaganda. E assim, preconceitos e clichês acabam se tornando verdades incontestáveis apenas pela repetição, como sabia muito bem o ministro da propaganda nazista.
 
Uma das regiões onde o desconhecimento absoluto sobre sua história só é superado pelos preconceitos absurdos que gera é o continente africano. Nesse mês da Consciência Negra, acho que seria uma boa ideia trazer alguns fatos que explicam um pouco do porquê a África permanecer durante tanto tempo com tantas dificuldades. Afinal a consciência começa com conhecimento. Certamente aqui não vamos ver as teses conservadoras disseminadas por aí de que o negro é incapaz de produzir uma sociedade próspera por conta de sua suposta inferioridade inata ou algo ainda pior, como aqueles cristãos que acham que os negros, como descendentes bíblicos de Cam, estão sofrendo um castigo celestial eterno. Vamos ser bem menos superficiais do que isso.
 

O lucrativo tráfico internacional de escravos

O drama do continente africano está intrinsecamente relacionado com o surgimento e o desenvolvimento do capitalismo. Quanto a isso não pode pairar a menor dúvida. Algumas pessoas alinhadas ao pensamento conservador – e também leitoras de almanaques de baixíssima qualidade histórica como “História politicamente incorreta do Brasil” – hoje em dia tendem a alegar que a escravidão já era uma prática local bem antes das Grandes Navegações a colocarem na rota do tráfico internacional, no século XV. Sim, é verdade. Mas o fato da escravidão ser uma prática inserida na cultura africana há muito tempo não oculta, muito menos minimiza os 300 anos em que estes seres humanos, além de escravos, se tornaram mercadorias no comércio internacional, vendidos e usados como moeda de troca para enriquecer os negócios dos mercadores europeus.
 
O resultado é catastrófico: nesse período, mais de 11 milhões de pessoas foram retiradas do continente africano para trabalhar como escravas nas fazendas do Novo Mundo, alijando a África do contingente de homens e mulheres jovens e saudáveis que poderiam desenvolver a própria região durante 3 longos séculos.
 

O fim do tráfico não foi o fim da exploração

Trezentos anos de usurpações e acumulação primitiva de capital não foram suficientes para os países europeus abrirem mão da sua cobiça pela África no século XIX. Com o Antigo Sistema Colonial perdendo espaço para o capitalismo industrial, era hora de compensar o fim da escravidão criando e garantindo mercados no combalido continente africano. Desde 1876, os países capitalistas da Europa traçaram fronteiras temerárias e criaram Estados à revelia dos africanos, colocando tribos e etnias diferentes num mesmo território, separando outras em territórios diferentes, o que certamente provocaria futuras guerras muito bem-vindas. Grandes empresas industriais e bancárias desses países europeus aproveitaram para assegurar o monopólio destes mercados e de suas matérias-primas.
 
Claro que tais motivos não poderiam ser confessados publicamente, e a propaganda tratou de difundir a ideia de que os brancos estavam levando a “civilização” e o “progresso” para as regiões “atrasadas”. Mas o que aconteceu de fato foram covardias, massacres e pilhagens que tinham como única razão de ser a sustentação do capitalismo europeu.
 
Onde estavam os liberais e os defensores da “igualdade” e da “fraternidade” nesse momento? Certamente de olhos fechados para o massacre do continente africano. Até 1946, a França, mesmo na sua fase republicana, manteve a legislação de suas colônias africanas da época monarquista. A administração francesa na África cobrava impostos dos “súditos” dos 16 aos 60 anos de idade, recrutavam pessoas para o trabalho obrigatório e exigia o “devido respeito à autoridade francesa”, que consistia, entre outras coisas, em descobrir a cabeça ou fazer uma saudação à passagem de um branco. O descumprimento de tais trivialidades resultava em sessões de golpe de chicote. A repressão de grupos contrários ao colonialismo, por sua vez, atingiu a crueldade de verdadeiros genocídios.
 

A exploração moderna: fome e dívidas

A Segunda Guerra Mundial desestabilizou os imperialistas europeus e possibilitou o processo de independência de algumas colônias africanas. Mas significou isto o fim da exploração capitalista e da influência dos interesses das grandes corporações no continente? Certamente que não. Pelo contrário.
 
Tentando eliminar a influência marxista entre os africanos que lutavam pela independência, os europeus e os Estados Unidos financiaram milícias fascistas, grupos separatistas e terroristas que combateram estes nacionalistas. As guerras civis resultantes mataram milhões de pessoas no século XX, nos campos de batalha diretamente e indiretamente quando agricultores que deveriam cultivar os alimentos nas fazendas destruídas pela sabotagem foram transformados em soldados ou milicianos.
 
O resultado é até hoje sentido: um endêmico e resistente quadro de fome que nos remete às famosas imagens tristes de crianças famintas e esqueléticas, estas que os conservadores e os cristãos usam para justificar seus preconceitos tacanhos, além dos diversos mutilados pelas até hoje ativas minas terrestres esquecidas nos campos. Pois não se trata de incapacidade ou de castigo divino: é o capitalismo internacional a resguardar seus próprios interesses, para assegurar os recursos naturais da região e para favorecer os lucros das suas empresas, que têm gerado todas as instabilidades na África. As guerras patrocinadas contra os africanos favorecem, por exemplo a indústria de armas. Para dar conta dos rebeldes, os governos são induzidos a se endividar, o que se trata de um outro tipo de escravidão. A dívida externa desses países é simplesmente impagável, mas isso não importa. Mais do que econômica, a dívida é política, e permite aos europeus impor uma série de medidas para ajustar as economias africanas aos seus interesses capitalistas.
 
Diante desse pequeno mas abrangente quadro histórico, como imputar aos africanos a culpa pelas suas próprias desgraças? Tal atitude só é possível porque olhamos a África sem conhecermos pelo menos um pouco as causas que a trouxeram até esta situação. Quando percebemos que durante mais de 500 anos o continente vem sendo atacado, usurpado e destruído por interesses que durante muito tempo não eram os seus, começamos a entender por que os africanos têm lutado sistematicamente contra um inimigo que em outras regiões do mundo veste a capa da liberdade, da justiça, do desenvolvimento e do bem-estar, mas que na região africana, ela mostra a sua verdadeira cara: escravidão, fome, miséria, guerra, holocausto e exploração: seu nome é capitalismo.

 

11 de novembro de 2013

Documentos comprovam sabotagem contra governo venezuelano

Nicolas MaduroAo longo da turbulenta história do capitalismo, duas situações constantes vem acontecendo sistematicamente nos países periféricos: o aumento colossal do fosso da desigualdade econômica e social por um lado, e por outro a reação das classes favorecidas, com apoio dos países centrais, contra qualquer tipo de ameaça ao modelo. Para isso, não se furtam a lançar mão dos meios mais sórdidos, cruéis, assassinos e covardes de que possam dispor para alcançar seus objetivos.

Um longo histórico de golpes e sabotagens

Um dos meios mais comuns de salvaguardar os interesses capitalistas é a associação dos serviços secretos dos países mais avançados com os pequenos setores das burguesias locais nos países periféricos, dispostos a contar com o financiamento estrangeiro, apoio logístico e até fornecimento de armas para golpes, sabotagens, campanhas difamatórias e desestabilização de governos que por ventura ameacem os lucros das grandes corporações capitalistas internacionais associadas com estas classes dominantes.

Diversos são os exemplos históricos e alguns deles bastam para ilustrar essa tendência, como a intenção do serviço secreto londrino de cogitar um golpe militar para derrubar a Revolução Russa nos anos 20; a derrubada do governo nacionalista iraniano nos anos 50 e consolidação de um déspota que recolocou o país de joelhos perante os interesses das petrolíferas anglo-americanas, com a participação do Mossad (serviço secreto israelense); os diversos golpes de Estado tramados na América Latina com o apoio da CIA nos anos 60 e 70 – inclusive no Brasil –, enfim: os governos e empresários capitalistas não têm limites quando o assunto é garantir seus interesses.

Venezuela luta contra sabotadores

Mas tudo isso foi dito para lembrarmos o contexto do que vem acontecendo na Venezuela: as grandes dificuldades por que vem passando a economia daquele país, francamente hostil aos interesses capitalistas de Washington, fruto de locautes planejados pelo empresariado local com apoio internacional. O método escolhido pelas burguesias venezuelanas lembra o locaute de que foi vítima Salvador Allende no Chile, em 1972, quando os caminhoneiros chilenos, com franco apoio da CIA, resolveram parar o país para prejudicar o abastecimento de produtos básicos, na intenção de desestabilizar a economia, afetando então a popularidade do governo progressista que ameaçava seus interesses de classe. Como apoio da imprensa, tentaram culpar a suposta incompetência do governo para preparar o golpe. Exatamente como vem ocorrendo na Venezuela.

Não é de hoje que os empresários venezuelanos tentam sabotar o governo. Chávez já havia passado pelo mesmo problema, e agora Nicolás Maduro trava uma guerra contra estes setores. A imprensa mais uma vez cumpre seu (mau) papel de agitador político ao alarmar os problemas com abastecimento, colocando a culpa diretamente no presidente.

Mas a culpa é mesmo do presidente?

Esta semana foi publicado um documento de junho deste ano intitulado “Plano Estratégico Venezuelano” da Fundação Internacionalismo Democrático, do ex-presidente colombiano e capacho do governo estadunidense, Álvaro Uribe, junto com a Fundação Centro de Pensamiento Primero Colombia e a empresa estadunidense de consultores FTI Consulting, durante uma reunião entre representantes dessas três organizações, dirigentes da oposição venezuelana, como María Corina Machado, Julio Borges e Ramón Guillermo Avelado, o especialista em guerra psicológica, J.J. Rendón e o encarregado da Agência Internacional de Desenvolvimento dos Estados Unidos (Usaid) para a América Latina, Mark Feierstein. O conteúdo deste documento não usa de meias palavras para indicar, no campo das “Ações”, o que é preciso fazer para provocar a queda do governo democraticamente eleito. Destacamos duas passagens importantes:

documento sabotagem

Clique AQUI para ver os documentos originais

Conforme podemos ver claramente no documento, estes membros, com interesses particulares e ligações com o capitalismo internacional indisfarçáveis, estão por trás da campanha de desestabilização que o governo venezuelano enfrenta atualmente. Sua intenção é criar um clima desfavorável ao governo para as eleições municipais de 8 de dezembro, favorecendo a eleição da oposição. Para isso, não se furtam de mentir, sabotar, e até de provocar “mortos e feridos”, desde que isso possa favorecer suas intenções.

Mais uma vez, estamos diante da falta total de escrúpulos do poder econômico em vias de atropelar a vontade soberana de um povo. Interesses mesquinhos, baseados no lucro capitalista, planejam derrubar um governo democraticamente eleito, reeleito e referendado num dos sistemas eleitorais mais eficientes e democráticos do mundo. O golpe, o jogo sujo, a baixaria, a mentira, as mortes, nada é demais para essa gente, em se tratando de assegurar seus privilégios em aliança com o capitalismo internacional. Tudo isso que o socialismo bolivariano da Venezuela está enfrentando naquele país. E vai vencer.

9 de novembro de 2013

Portugal, crise do capitalismo e desigualdade social

Pobreza em PortugalAs pessoas mais atentas devem se perguntar a respeito da economia mundial em que estão inseridas: como um sistema – o capitalista – que desde a década de 70 do século XIX apresenta crises cada vez mais frequentes e devastadoras é capaz de se manter, mesmo provocando cada vez mais rejeição na população?

Certamente porque nem todos sofrem seus efeitos de forma idêntica.

Enquanto está tudo bem na economia, os barões do capitalismo usufruem de liberdade para praticar as suas jogatinas especulativas, inchando de modo artificial as suas riquezas. Os trabalhadores podem, por outro lado, desfrutar de alguma estabilidade. Mas eis que um dia a brincadeira dá errado, e as fortunas começam a desmoronar como um castelo de cartas, assim como os empregos começam a faltar. Quem paga a conta dessa irresponsabilidade temerária? Os trabalhadores, é claro.

Enquanto a população trabalhadora carrega nos ombros o peso dos estragos que meia-dúzia de especuladores provocaram, os barões do capitalismo conseguem enxergar novas oportunidades de negócios em plena crise para aumentarem seus rendimentos. A desgraça de uns pode ser a oportunidade de outros. E por isso o capitalismo, apesar de tão venenoso para a economia de um país, ainda se mantém de pé com todas as crises que provoca. Pelo menos por enquanto.

Um pequeno exemplo atual nos bastará para ilustrar essa tendência.

A crise econômica de 2008 foi particularmente perversa com Portugal, um país que já atravessava problemas econômicos não era de hoje nem de ontem. A partir dessa avalanche na economia, com o baixo crescimento  que o impede de saldar os compromissos, Portugal foi obrigado a recorrer a um empréstimo de 78 bilhões de euros com juros não muito satisfatórios à troika*. A recessão afeta o setor mais vulnerável da população: os trabalhadores e aposentados. O desemprego faz a oferta de mão de obra do exército de reserva do capitalismo português aumentar, achatando os salários daqueles que conseguem um tão procurado emprego.

Mas diante de um quadro tão alarmante, Portugal nos apresenta um outro lado bastante inusitado: segundo o Relatório de Ultra Riqueza no mundo em 2013, Portugal, que tinha 785 ultramilionários com mais de 22 milhões de euros em 2012, conseguiu a proeza de aumentar o número desses felizardos em 85 membros neste ano, chegando a marca de 870 magnatas com mais de 20 milhões de euros cada um. Isso em plena recessão econômica...

Todos esses apatacados representam apenas 0,009 por cento da população portuguesa, mas concentram nas mãos o equivalente a 74 bilhões de euros – quase o mesmo valor que o país precisou pedir emprestado para salvar as contas da economia nacional. E esse fenômeno do aumento da concentração de riqueza é mundial, onde quer que o capitalismo tenha se instalado, seja com crise, seja sem crise.

Houve um tempo em que estes barões da riqueza podiam brincar de ganhar dinheiro impunemente, pois as pessoas estavam tão envolvidas com a crença no sistema capitalista, que podiam acreditar no sonho de que um dia chegaria a vez delas de poderem ter um iate ou uma cobertura num condomínio de luxo também. Mas nas últimas décadas, as pessoas comuns, os estudantes, os trabalhadores, os sindicalistas, aposentados, ou seja, aquelas que carregam de fato o país nas costas, estão cada vez mais abandonando as suas fantasias para combater a realidade do sistema que tem na sua essência o aprofundamento cruel da desigualdade. Seja nos Estados Unidos, na Grécia, nos países árabes, em Portugal e agora também no Brasil, o capitalismo tem vivido cada vez mais sob uma forte e crescente pressão das ruas. Aonde isto vai dar, é um dos episódios mais aguardados para os próximos capítulos da história ocidental.

* O termo troika é usado como referência às equipes constituídas por responsáveis da Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional que negociaram as condições de resgate financeiro na Grécia, no Chipre, na Irlanda e em Portugal.

5 de novembro de 2013

O rei do camarote e os números da violência

 Violencia

Essa semana, dois fatos aparentemente isolados foram noticiados nas mídias brasileiras. Primeiro, em reportagem da revista Veja de São Paulo, conhecemos a vida fútil e ostentatória de um playboy paulistano conhecido como “Rei dos Camarotes”, ao mesmo tempo que tomamos ciência de números estarrecedores sobre a violência no nosso país. Para onde quer que se olhe, há estatísticas e mais estatísticas sobre o crescimento de diversas modalidades de atos violentos, neste que é paradoxalmente conhecido como o país da festa e da alegria – pelo menos para as elites ignorantes que vivem no luxo supérfluo.

Quase 50 mil homicídios em um ano

De acordo com dados publicados recentemente, 47.136 pessoas foram vítimas de homicídio doloso (quando há a intenção de matar) em 2012, um número exorbitante que excede todas as medidas de uma nação democrática e sem guerras. Isso dá uma média de 129 assassinatos por dia, salvo algum erro matemático de minha parte, o que não seria inesperado.

O dobro de estupros da Índia

Aí quando você pensa que nada pode ser pior do que isso, a mesma publicação relata que o número de estupros é ainda maior: 50.617 casos de estupro em 2012, o que equivale a 26,1 estupros por grupo de 100 mil habitantes – um aumento de 18,17% em relação ao ano passado, quando a taxa foi de 22,1 por grupo de 100 mil. Isso se você levar em conta apenas os casos registrados oficialmente..

Só a título de comparação: a Índia é reconhecida como um dos países onde a incidência de estupros é uma realidade cotidiana alarmante. No entanto, segundo dados do governo indiano, em 2011 foram registrados 24.206 estupros, menos da metade dos casos no Brasil, que tem uma população 6 vezes menor...

Para fechar esse quadro de calamidades brasileiras, duas mil das vítimas de assassinato foram mortas pela polícia, que é a mais violenta do mundo. Nenhuma mata mais do que a nossa.

Como nos tornamos uma das nações mais violentas do mundo?

Não existe resposta fácil para esta pergunta. É claro que uma série de fatores convergiram no passado para que chegássemos a essa condição atual, fatos complexos que não cabem neste espaço. Mas se pudéssemos apresentar uma causa bastante segura como base para este estado de coisas, certamente seria a profunda desigualdade social brasileira – também ela uma das maiores do planeta – que nos fornece miseráveis de um lado, burgueses inúteis como o rei do camarote de outro e uma polícia que mata os primeiros para garantir a festa dos segundos.

 contraste social

Não é que a pobreza esteja automaticamente ligada à violência, como já explicamos aqui. Mas quando a ostentação, o luxo, a posse, o consumo, se tornam valores em si mesmos, uma meta a ser alcançada em detrimento de outros mais nobres, como a cooperação e a solidariedade, para que você seja reconhecido como alguém que mereça respeito e dignidade, então as pessoas fazem de tudo para conquistá-la. Como já foi explicado pelo psicanalista e professor de Medicina Social da UERJ, Benilton Bezerra Júnior,

Somente numa cultura que enaltece a posse do dinheiro e bens como expressão de sucesso, de uma vida digna de ser vivida, a pobreza tende a ser vivida como exprimindo o contrário. Num contexto como esse, a pobreza não implica apenas restrição material, mas, sobretudo, uma restrição simbólica [moral], e como tal precisa ser negada de qualquer forma, mesmo com o recurso à violência

Em sociedades capitalistas onde as elites se tornaram egoístas e guardaram apenas para si o acesso à educação e a grande parte dos bens materiais de um país, jogando milhões de pessoas na vida precária, a violência tende a ser uma realidade cotidiana.

Para que diminuam os casos de violência, não existem soluções mágicas, mas somente quando a distância colossal entre os mais ricos e o mais pobres for trazida para mais perto de um equilíbrio, é que se poderá pensar seriamente em diminuí-los. Enquanto isso, ainda teremos que conviver com números aterradores de violência junto com parasitas ostentadores das elites como “o rei do camarote” e suas lições de indignidade superficiais.