29 de julho de 2013

Jogo de aparências no destino de Guaratiba

ps modificado

Depois do fracasso retumbante que se tornou a “terra prometida” no Campus Fidei (por que persiste essa tendência católica em manter viva uma língua morta?) ou, em bom português, no Campo da Fé, em Guaratiba, e também por conta da enorme repercussão negativa pelas redes sociais dos gastos inúteis em estrutura num evento que não aconteceu por falta de estrutura, é claro que a Igreja e as autoridades iriam estudar uma forma de limpar a barra da organização da Jornada Mundial da Juventude.

Primeiro foi o prefeito do Rio, que anunciou a desapropriação por via judicial do terreno para a construção de um conjunto habitacional “para os mais pobres”. Depois foi a Igreja Católica que, apesar de ter vindo ao Brasil “sem ouro nem prata”, como tratou logo de avisar Sua Santidade o papa Francisco, “investiu ali muitos recursos que não poderiam ser desperdiçados”, segundo Eduardo Paes. Mas não, a Igreja não está cobrando o prejuízo. O investimento vai ficar como “doação”. Nada mais justo, para quem recebeu mais de 100 milhões dos cofres laicos para a organização do evento religioso.

Nesse jogo de aparências e bondades e toda essa repentina compaixão das autoridades pelos pobres de Guaratiba, quando saímos dos discursos preparados e vamos para o plano da realidade, começam a surgir os problemas. Primeiro, o terreno em questão é uma área de Proteção Permanente, por se tratar de um manguezal, e o Ministério Público vem investigando seu loteamento clandestino. Segundo, conforme denunciou o Jornal O Dia, o espaço de 2 milhões de metros quadrados pertence a Jacob Barata Filho, um dos magnatas do transporte rodoviário da cidade e grande financiador da campanha do prefeito. Terá Eduardo Paes a coragem de desapropriá-lo como fez com centenas de famílias pobres pagando uma indenização bem abaixo do valor real das propriedades, ou a indenização para a família Jacob será superfaturada, quando “especialistas” poderão avaliar o terreno 3, 4, 5 vezes acima do que realmente vale?

Vamos ficar de olho.

25 de julho de 2013

Conflitos de classes nos hospitais públicos brasileiros

saude-publica-descasoNunca a imagem dos médicos esteve tão arranhada no Brasil. Nem tanto pela inacreditável oposição desses profissionais à vinda de colegas estrangeiros ao país, para cobrir o enorme déficit de médicos pelo interior – onde se recusam a trabalhar, sob as mais variadas desculpas – nem pela grita contra os dois anos de estágio no SUS determinado pelo governo para tentar aliviar essa deficiência, inclusive nos grandes centros, mas pelos inúmeros casos de frieza, descaso, faltas, fraudes em plantões, negligência e indiferença que começaram a vir à tona por todos os lados – e que fizeram até o Ministro da Saúde dizer que era preciso “humanizar” os profissionais no trato com seus pacientes.  

No seu livro já bastante citado por aqui, A Ralé Brasileira – Quem é e como vive, o professor Jessé Souza abre espaço na segunda parte aos autores colaboradores, como Lara Luna, doutoranda em Sociologia Política pela UENF, que traz casos reais daquilo que Jessé trata na primeira parte do livro: as diferenças e preconceitos de classes que se refletem dentro das diversas instituições – aqui, no caso, nos hospitais públicos entre doutores, enfermeiros e pacientes, cada um deles representante de uma determinada classe social.

Reflexo do que acontece na sociedade

As más condições de atendimento são reflexo das desigualdades sociais de séculos no nosso país, que segregam e classificam os cidadãos na sociedade, exatamente como acontece com os doentes nos hospitais. O mal funcionamento do serviço público de Saúde tem de ser analisado, portanto, tendo em vista o seu "público-alvo”, ou seja, as classes mais baixas da sociedade. As debilidades dos hospitais públicos estão perfeitamente afinadas com a desigualdade social, reproduzindo-a cotidianamente.

Um estudo de caso

No capítulo 13, intitulado “Fazer viver e deixar morrer – a má-fé da Saúde Pública no Brasil”, Lara Luna traz o esclarecedor relato da estagiária chamada no livro de “Aline”, que na época estava concluindo a faculdade de Serviço Social e estagiava no pronto-socorro de um grande hospital público do Rio de Janeiro. É quando temos uma exata noção do tratamento desumano a que estão sujeitos milhões de pessoas pobres no Brasil, tratados de forma indigna apenas por serem membros das classes mais baixas.

Aline conta o caso que aconteceu durante a conversa com uma paciente idosa que havia se acidentado junto com o marido, ambos instalados precariamente no corredor do pronto-socorro. Ela com o braço quebrado, o marido com um colete para imobilizar a coluna. A mulher interrompe a conversa quando avista um médico passando. Como o colete do marido estava mal colocado, provocando dores, a mulher pediu ao médico que o ajudasse. Assim Aline prossegue contando no livro:

O médico gritava com o paciente: “Você tá vendo isso daqui? O colete é para imobilizar. I-MO-BI-LI-ZAR! Sabe o quê que é isso?”. Ele falava gritando com o paciente. Aí ele [o paciente] falou assim: “eu sei, mas…”. O cara não conseguia nem falar! “Eu sei, mas não sei como é que coloca! Você pode me ajudar?” [retruca o paciente humildemente]. Aí fazia assim com força no colete [gesticula o movimento do médico]! O cara gritava de dor: “Tá doendo!”. “É pra doer! Pra você aprender a não tirar do lugar!” [médico]. “Mas eu não tirei!” [responde temeroso o paciente]. O cara não tinha como tirar o colete porque ele estava sem força nenhuma! “E esse colete”… ele explicou gritando, que não havia a menor necessidade, “o colete é para imobilizar pra você não sentir essa fraqueza que está sentindo nas pernas. Você nunca mais vai andar se o colete não ficar no lugar certo, então você deixa ele aqui”

A esposa do paciente, tentando amenizar a situação, dirige-se ao médico:

“Então me explica pra quê que serve esse colete, como é que ele deve ficar, que eu não vou mais chamar o senhor não! Você pode ficar calmo, é só me explicar como é que coloca!”. Aí ele falou com a mulher: “Ouve o que eu tô falando! Você tem que me…” [o médico aos gritos]. Aí ela falou assim: “Mas eu tô ouvindo!”. “Você não tem que falar que tá ouvindo e nem responder nada, só tem que ouvir, cala a boca e escuta! O colete é pra ficar assim!” [mexe no colete com violência]

Todos os pacientes em volta consentiram com a humilhação, porque no fundo, ali ninguém estava em condições de confrontar aquele que agrega em si “o poder maior de controlar a vida”, e que possui tamanha autoridade e prestígio. A grande maioria dos pacientes advém das classes mais pobres enquanto que os médicos geralmente vêm das classes privilegiadas, o que gera o sentimento de hierarquia e preconceitos.

Esse foi o momento em que a Aline sentiu como era o universo dentro de um hospital público. É um grande esforço de assistentes sociais em garantir o menor dos direitos e algum bem-estar para esses pacientes, por conta da má-vontade de uns, em burocracias que emperram às vezes uma transferência, falta de material de trabalho, enfim, fatores comuns no dia a dia dos hospitais públicos.

Os conflitos de classe

O funcionamento da unidade médica favorece a ocorrência de conflitos entre os próprios profissionais da área, devido a uma hierarquização de funções de acordo com a “importância”.

Nessa “luta de classes” dentro dos hospitais, ainda há os auxiliares de enfermagem, que dentro da nossa escala de comparação com as classes sociais, podem ser considerados da “pequena burguesia”, pois possuem certo conhecimento incorporado (capital cultural), além de uma situação econômica mais confortável do que a maioria dos pacientes. O conflito se dá por esses profissionais estarem social e geograficamente mais perto das “ralés”, o que lhes incomoda e que por isso os fazem lutar para se desvincular dessa classe estigmatizada. Segundo Lara Luna,

…dispensar um tratamento ‘pouco humanizado’ ao desamparado pela família, bandido, alcoólatra ou mulher de ‘vida fácil’ é, ainda que não refletidamente, a forma mais comum que o profissional da pequena-burguesia tem para assinalar um distanciamento em relação a esses estigmas e com isso a recorrente e desesperada tentativa de evitar seu próprio rebaixamento como pessoa.

A grande questão é a inexistência das classes baixas como cidadãs portadoras de direitos. Dessa forma, o esquecimento da “ralé” enquanto classe se reflete nas falhas dos serviços públicos dos quais é dependente, como os hospitais. Assim reitera-se cotidianamente a desigualdade social dentro dessas instituições, onde as elites insensíveis, representadas pelos médicos, fazem da indiferença ou da brutalidade a sua arma contra as classes baixas. Alguma coisa precisa realmente ser feita para humanizar o atendimento à população. A começar por profissionais que deveriam trocar de profissão.

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SOUZA, Jessé. A Ralé Brasileira – Quem é e como vive. Ed. ufmg, Belo Horizonte: 2011. pp. 305-327

22 de julho de 2013

JMJ caiu do céu para as elites brasileiras

dilma e o papa

Ao contrário do que muita gente pensa, os verdadeiros ateus não têm uma postura radical e definitiva com relação à existência ou inexistência de deus. A grande maioria, depois de uma reflexão de anos e uma busca frustrada por evidências, concluiu que é muito improvável (e aqui o termo é usado de forma precisa) que ele exista. Mas isso não quer dizer que as buscas tenham terminado – o ateu vive a expectativa de sempre poder ter uma prova de que deus exista realmente.

Aqui, vamos supor que essa tão esperada evidência decisiva tenha sido encontrada, e que todos nós tenhamos descoberto que ele esteve aqui esse tempo todo. Mas então, de que lado ele estaria?

Ao admitir que ele tenha existido de fato e que, tal como creem os teístas, influenciado no curso dos acontecimentos históricos, então o nosso suposto deus parece que tem uma atitude “política” das mais questionáveis…

Vamos ver alguns rápidos exemplos ao longo de sua “existência”, do que ele teria sido capaz para manter a “ordem” estabelecida.

Começamos logo pela Bíblia, onde ele ainda era mais conhecido como “Jeová”, falava diretamente com seus escolhidos na Terra e não se furtava a lançar dilúvios, ataques aéreos, maldições e pragas contra a “oposição”, de acordo com  os relatos do Antigo Testamento. No Novo Testamento, por alguma razão – talvez influenciado por algum consultor de marketing celestial – ele resolve sair de cena e deixa os encargos terrenos a serviço do seu  filho e relações-públicas, que traz novos slogans politicamente corretos, como “amor” e “perdão”. A tática parece que não funciona muito bem a princípio, pois seu garoto-propaganda é literalmente crucificado.

Mas ele não desiste e faz uma última aparição para explicar a Paulo de Tarso como deve funcionar o seu “partido”. Paulo então resolve espalhar as “boas novas” pelo Império Romano, e apesar de ter um fim também inglório, consegue mostrar às elites romanas o papel que aquela religião política poderia cumprir no apaziguamento das paixões populares, e assim a Igreja se firma como o “partido” do Ocidente.

Deus age por meios misteriosos

Tal como os Estados Unidos, que durante a Guerra Fria executaram opositores e derrubaram governos indesejáveis através do seu serviço secreto, parece que deus também passou a ser adepto dessa tática: em vez de vir pessoalmente e executar seus planos malignos como na época do AT, agora ele resolveu agir de forma “misteriosa”, “imponderável”, para atingir seus objetivos.

Aqueles derrames “milagrosos” que fulminaram Lênin em plena atividade política, que jogou a “detestável e ateia” União Soviética nas mãos do questionável Stalin; a misteriosa doença que matou Tancredo Neves bem no momento em que ele se preparava para assumir a presidência do Brasil sob enorme expectativa popular, mantendo assim o poder nas mãos daqueles mesmos que deram o golpe de estado em nome de “deus, da pátria e da família” em 1964; a série de problemas de saúde de diversos líderes progressistas da América Latina, que colocavam em risco “a ordem conservadora” e a “moral da família”, e que vitimou o maior líder de todos eles, Hugo Chávez, para ficar só em alguns exemplos, poderiam ser colocados na conta da “providência divina”?  Acredite, muitos cristãos pensam que sim…

Bendita seja a Jornada Mundial da Juventude

O último e intrigante exemplo acontece bem neste momento. Desde junho, o povo brasileiro resolveu sair da sua tradicional inércia e dar um basta nos abusos praticados pelos homens do poder político e econômico. Milhões de pessoas saíram nas ruas para exigir mudanças nessa “ordem” que vige há mais de 500 anos no país. E no instante em que as elites brasileiras já não sabiam mais o que fazer, no momento em que a imprensa se esmerava em desqualificar de todas as maneiras os atos dos manifestantes como um último recurso desesperado antes de exigir um novo golpe militar, eis que surge a providencial e oportuna Jornada Mundial da Juventude. 

Que oportunidade fantástica deus programou em toda a sua gloriosa onipotência – lembramos que a JMJ estava marcada desde antes dos protestos começarem pra valer, mas deus já sabia disso e antecipou-se aos eventos, é claro – para jogar um balde de água fria na população! Com a presença do novo papa no país, a juventude brasileira esquece por um momento seu sofrimento e cai na fantasia do aconchego espiritual; a imprensa, por sua vez, enxerga uma maravilhosa oportunidade de distrair as pessoas 24 horas por dia em seus telejornais com a cobertura do evento, mostrando casos incríveis de peregrinos que deixaram os problemas pra trás em busca de uma bênção; e as elites brindam satisfeitas, porque, apesar do papa ter falado recentemente que as manifestações são legítimas – o que ele fala da boca pra fora, porém, não representa a vontade de deus, como deixou bem claro os caciques do Vaticano no episódio em que o desmentiram no caso das boas ações que levam ao céu –, ou que ele surpreenda e faça um discurso ousado nessa semana, as tropas de choque, as polícias e até o Exército estão prontos a detonar qualquer manifestação enquanto Sua Santidade estiver em solo pátrio.

A conclusão que podemos chegar é: ao contrário do que algumas pessoas de bom coração pensam, não são os bons cristãos como Leonardo Boff – “por acaso”, um excomungado da Igreja – um Frei Beto, ou um pastor Ricardo Gondim os verdadeiros representantes do cristianismo; se formos olhar bem a atuação e a linha “política” de deus nas suas últimas ações, podemos concluir que Valdemiro Santiago, Edir Macedo, Maluf, Sarney, Marco Feliciano, Jair Bolsonaro e outros representantes das classes conservadoras e moralistas são, de fato, os verdadeiros beneficiários e representantes da divindade no Brasil.

Se deus existe, ele é de direita.

18 de julho de 2013

Secretários fora da reunião com Sérgio Cabral; comandantes das polícias, dentro.

 

cupula-seguranca

Vejam como o governo do Estado do Rio tenta resistir à realidade das ruas, cavando a sua própria tumba política. Para avaliar o momento grave de descontentamentos e revoltas, serviços públicos de qualidade abaixo do suportável, suspeitas graves de irregularidades no relacionamento com amigos poderosos e favorecimento de empreiteiras e empresários em licitações, o governador convoca uma reunião de fachada emergência para esta manhã.

Esperava-se que Sérgio Cabral, de bom grado, tivesse ouvido os clamores populares e finalmente decidido reconhecer: é preciso uma medida corajosa e determinada para solucionar o descaso do governo em áreas tão vitais para o Rio a curto e médio prazos. Mas os secretários Sérgio Côrtes, da Saúde, Wilson Risolia, da Educação e Júlio Lopes, dos Transportes, não participaram. Não senhor, esses continuam calados e sumidos. Na mesa de reuniões, estavam, além de Cabral e de Beltrame, secretário de Segurança Pública, a chefe da Polícia Civil, Martha Rocha; o comandante da PM, coronel Erir da Costa Filho e o chefe do Estado-Maior da PM, coronel Alberto Pinheiro Neto.

Tudo isso no embalo das pautas dos repórteres das empresas jornalísticas tradicionais, que nos últimos tempos decidiram radicalizar outra vez na criminalização e “estereotipação” dos protestos na cidade, focando malandramente nos “vândalos” e suas “badernas”, em vez de colocarem câmeras e microfones a serviço da sociedade, buscando resumir as demandas da população indignada nas ruas. Ainda há quem se surpreenda quando a fachada de uma empresa de comunicação ou um veículo de “imprensa” são furiosamente “justiçados” com pedras e coquetéis molotov…

Sem dúvida, apesar das estúpidas acusações de que a oposição estaria por trás dos protestos no Rio de Janeiro, Sérgio Cabral conseguiu por si mesmo canalizar todo o foco da ira e descontentamentos populares na cidade. Enquanto se recusar a ouvir a voz das ruas, enquanto o diálogo for apensas através de bombas, balas de borracha e porrada, quando ele decidir sair do seu glorioso pedestal, talvez seu pescoço já não tenha mais salvação.

12 de julho de 2013

Desvendando o segredo da desigualdade social brasileira

ricos-e-pobres-no-brasilUma das qualidades mais decisivas do livro do professor Jessé Souza, A Ralé Brasileira – Quem é e como vive, o qual estamos resenhando nas últimas postagens, sem dúvida é o esclarecimento de como a hegemonia do economicismo serve ao encobrimento dos conflitos sociais mais profundos e fundamentais da sociedade brasileira, como toda visão superficial e conservadora do mundo. Nessa postagem vamos discutir os mecanismos ocultos e a reprodução das desigualdades sociais analisadas pelo autor, que permitem a perpetuação de um dos mais graves problemas brasileiros, que é justamente esse abismo colossal entre ricos e pobres.

Na crença fundamental da visão economicista de mundo, segundo o autor Jessé Souza,

O marginalizado social é percebido como se fosse alguém com as mesmas capacidades e disposições de comportamento do indivíduo da classe média. Por conta disso, o miserável e sua miséria são sempre percebidos como contingentes e fortuitos, um mero acaso do destino, sendo sua situação de absoluta privação facilmente reversível, bastando pra isso uma ajuda passageira e tópica do Estado para que ele possa “andar com as próprias pernas”. Essa é a lógica, por exemplo, de todas as políticas assistenciais entre nós.

O professor critica no livro teorias sociais tanto liberais quanto marxistas – apesar de se utilizar bastante de conceitos do marxismo, como luta de classes, ideologia dominante, etc. – por darem um peso muito grande aos pressupostos econômicos da desigualdade, enquanto se esquecem de analisar as causas não materiais da pobreza – e  essa é sem dúvida uma das maiores contribuições de todo o livro, conforme veremos.  Como consequência, o “esquecimento” dos fatores não econômicos da desigualdade, na verdade, serve ao encobrimento dos conflitos sociais que estão no âmago da “divisão de classes” no Brasil.

A questão-chave: a herança imaterial como fonte da desigualdade

Normalmente, apenas a herança material, pensada em termos econômicos de transferência de propriedade e dinheiro, é percebida como característica determinante para o indivíduo ser considerado membro de determinada classe social. A grande sacada do autor é mostrar como essa visão economicista oculta a verdadeira raiz da desigualdade social brasileira. Ao enxergar somente bens e valores como base da desigualdade, deixa-se de perceber o mais importante: a transferência de valores imateriais na reprodução das classes sociais e de seus privilégios no tempo.

Leia mais: Como se perpetuam os mitos da sociedade brasileira

Na página 19 do livro o autor já deixa bem claro como a cegueira da percepção economicista trabalha para que não percebamos que…

…mesmo nas classes altas, que monopolizam o poder econômico, os filhos só terão a mesma vida privilegiada dos pais se herdarem também o “estilo de vida”, a “naturalidade” para se comportar em reuniões sociais, o que é aprendido desde a tenra idade na própria casa com amigos e visitas dos pais. (…) Algum capital cultural também é necessário, (…) ainda que esse capital cultural seja, muito frequentemente, mero adorno e culto das aparências, significando o conhecimento de vinhos, roupas, locais “in” em cidades “charmosas” da Europa ou dos Estados Unidos, etc. É a herança imaterial, mesmo nesses casos de frações de classes em que a riqueza material é o fundamento de todo o privilégio, na verdade, que vai permitir casamentos vantajosos, amizades duradouras e acesso a relações sociais privilegiadas que irão permitir a reprodução ampliada do próprio capital material [grifo meu].

A classe média opera de maneira diferente. Ao contrário da classe alta, ela se reproduz pela transmissão afetiva, ainda que de forma quase inconsciente, das precondições que irão permitir aos filhos dessa classe competir, com chances de muito sucesso, na aquisição e reprodução de capital cultural.

O filho ou filha da classe média se acostuma, desde a tenra idade, a ver o pai lendo o jornal, a mãe lendo um romance, o tio falando inglês fluente, o irmão mais velho que ensina os segredos do computador brincando com jogos. O processo de identificação afetiva – imitar aquilo ou quem se ama – se dá de modo “natural” e “pré-reflexivo”, sem a mediação da consciência, como quem respira ou anda, e é isso que o torna tanto invisível quanto extremamente eficaz como legitimação do privilégio. Apesar de “invisível”, esse processo de identificação emocional e afetiva já envolve uma extraordinária vantagem na competição social seja na escola, seja no mercado de trabalho em relação às classes desfavorecidas. Afinal tanto a escola quanto o mercado de trabalho irão pressupor a “in-corporação” (tornar “corpo”, ou seja, natural e automático) das mesmas disposições para o aprendizado e para a concentração e disciplina que são “aprendidas” pelos filhos dessas classes privilegiadas, sem esforço e por mera identificação afetiva com os pais e seu círculo social.

O capital cultural, sob a forma de conhecimento técnico e escolar, é a circunstância que permite às classes médias ter um papel dominante na sociedade. A classe alta se caracteriza, por sua vez, pela apropriação, em grande parte pela herança de sangue, do capital econômico, ainda que alguma porção de capital cultural esteja sempre presente.

Veja também: O economicismo e suas consequências para a desigualdade social

Agora podemos começar a entender coisas como o “fracasso”, a repetência e o abandono escolar de uma enorme parcela de crianças das classes mais pobres, bem como de um contingente enorme de pessoas que não conseguem colocação no mercado de trabalho, não obstante a grande oferta de vagas nesses tempos de crescimento brasileiro, como algo muito mais complexo do que as explicações simplistas que apontam mera culpa individual. O processo histórico de modernização do Brasil produziu não apenas as classes que se apropriam dos capitais culturais e econômicos. Ele constituiu também “uma classe inteira de indivíduos, não só sem capital cultural nem econômico em qualquer medida significativa, mas desprovida, esse é o aspecto fundamental, das precondições fundamentais, morais e culturais que permitem essa apropriação. Essa é a classe que o autor chama no livro de “ralé”, segundo ele, de forma provocativa.

Chamar a atenção para esses detalhes não econômicos que passam batidos pelas análises economicistas dos especialistas é, eu repito, o maior mérito do livro do professor Jessé Souza, porque nos permite compreender o fosso da desigualdade econômica entre as classes sociais não como a causa da desigualdade em si, mas como consequência de uma condição de vida onde milhões de pessoas vivem sem acesso aos meios essenciais para poderem sair de sua condição precária. É por isso que a tão decantada ascensão social de milhões de miseráveis através do assistencialismo governamental será somente uma ascensão econômica artificial, porque não oferece verdadeiros meios para que os mais pobres possam definitivamente sair da sua condição de miséria material.

o maior recado que se pode deixar é tentar enxergar os problemas brasileiros menos sob a ótica econômica, para procurarmos entender as causas estruturais da histórica chaga da desigualdade social brasileira.

10 de julho de 2013

O economicismo e suas consequências para a desigualdade social

desigualdade-socialQue o Brasil viva sob uma colossal, desumana e degradante desigualdade social, não é novidade para ninguém. O fato mais intrigante disso, porém, é que possamos conviver com esse aspecto lastimável da sociedade brasileira sem nos importar muito, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Para expor as engrenagens ideológicas que legitimam e permitem esse tipo de comportamento conformista, bem como as consequências diretas para milhões de desclassificados da pobreza, o professor e sociólogo Jessé Souza escreveu o excelente livro A Ralé Brasileira – Quem é e como vive. Conforme o prometido, a começar de agora, pretendo vir trazendo os assuntos mais importantes e esclarecedores tratados pelo professor no livro para entendermos de uma vez por todas o que está por trás da nossa sociedade dividida entre aqueles poucos que tudo tem, aqueles muitos que não têm nada e aqueles que têm um pouco e por isso acham tudo isso muito normal.

Legitimando a desigualdade

Os jornais, a TV, as mídias em geral, por fim, os pesquisadores e especialistas afirmam cotidianamente que “todos os problemas sociais e políticos brasileiros já foram devidamente mapeados”. Curioso que, apesar de conhecidos os problemas, não se perceba nenhuma grande e radical mudança nas últimas décadas na vida de milhões de pessoas condenadas a humilhações e privações diárias. A desculpa desses especialistas, dos políticos e dos jornalistas é que “a desigualdade brasileira vem de muito tempo e não se pode acabar com algo assim na base da canetada...”

Leia mais: Como se perpetuam os mitos da sociedade brasileira

E assim, com ideias conformistas como essa, é que se cria o consenso que legitima e naturaliza a desigualdade como algo a ser resolvido lá no eterno futuro, um dia, quem sabe... O Estado, com suas medidas paliativas de assistencialismo, mas que não vão a fundo na estrutura social, não ataca a raiz do problema histórico e acaba contribuindo para essa violência simbólica que é milhões de pessoas sem acesso aos meios mais básicos de vida, como Saúde e Educação decentes. Nossa desigualdade social tem sim uma ligação com o nosso passado colonial e escravocrata, mas o processo de legitimação e perpetuação dessa desigualdade não tem nada a ver com o chicote do senhor de escravos ou com o poder do dono de terras; ela é reproduzida, no dia a dia, por meios “modernos”, como afirma o professor Jessé em seu livro, especificamente simbólicos.  

A ideologia do economicismo

Certamente os economistas tomaram dos bacharéis de direito do século XIX o prestígio perante as elites. E o resultado disso é que o economicismo extrapolou as barreiras da disciplina e tomou conta do senso comum. Agora só enxergamos nossos problemas, sejam eles tanto sociais quanto políticos, através de esquemas, equações, cálculos, numa confusão entre “quantificação” e “fetiche dos números” com “interpretação” e “explicação”. As palavras bonitas e rebuscadas dos doutores e intelectuais do passado agora dão lugar a estudos técnicos vazios e estatísticas que nada dizem ao cidadão comum.

Segundo o professor, essa visão economicista não passa de um subproduto de um determinado modelo econômico hoje hegemônico no mundo e que ele denomina “liberalismo triunfalista” – que no fim das contas, reduz todos os problemas brasileiros à lógica da acumulação econômica (ou da falta dela).

Estado versus Mercado

A base dessa visão predominante é a falsa oposição, bastante difundida, entre Estado e Mercado. Segundo a tendenciosa e conveniente tese do liberalismo triunfalista (neoliberal de fato), basicamente, a mão invisível do Mercado livre e desregulado seria capaz de realizar a tão desejada justiça social que o Estado, identificado sempre com a incompetência e a corrupção, não podem fazer. Curioso é o fato de que, apesar desses pressupostos estarem em vigor no Brasil há pelo menos 20 anos, o fosso de desigualdade só foi ser remediado com medidas assistencialistas – do Estado! – para corrigir as distorções econômicas e sociais – do Mercado...

Veja também: Desvendando o segredo da desigualdade social brasileira

Na verdade, a perpetuação dos privilégios econômicos de uns poucos nos é vendida como se fosse o interesse de todos os cidadãos, o que está longe da verdade, muito longe. Abertura de mercado, queda de barreiras tarifárias, pode ser ótimo para o megaempresário do setor de importação e exportação, mas é péssimo para o pobre trabalhador que busca uma colocação num mercado de trabalho local arruinado pela competição com os produtos do exterior.

Na próxima postagem daremos continuidade à crítica à visão economicista, suas consequências nefastas, a falácia da meritocracia, e outras questões importantes tratadas no livro do professor Jessé Souza.

Editado por Almir Ferreira em 29/12/2013

5 de julho de 2013

Como se perpetuam os mitos da sociedade brasileira

Quantas vezes na vida, ao olharmos o quadro social em que vivemos, nos sentimos como o Neo (personagem principal da famosa trilogia Matrix do cinema norte-americano) que sabe que há algo de errado com o mundo, mas que não é capaz de identificar sozinho exatamente o quê?

Infelizmente não podemos contar com um Morpheus, que surge na trama para mostrar ao protagonista da série o que está por trás da realidade. Mas, ao menos, podemos ter excelentes explicações para os problemas sociais brasileiros, a perpetuação das desigualdades econômicas e as falsas teorias sociais que iludem e legitimam a perpetuação desse quadro, ao lermos o excelente livro do doutor em Sociologia e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Jessé Souza: A Ralé Brasileira – Quem é e como vive.

O termo “Ralé” identifica aquela parcela da sociedade brasileira que é sempre alijada de qualquer benefício, que está sempre apartada das conquistas materiais em comparação com aquela parcela ínfima de abastados, e que é vitimizada e acusada tendenciosamente de ser a culpada de sua própria desgraça social. O termo, como explica o autor, é provocativo mesmo, para ilustrar a forma como é vista essa gigantesca parcela da sociedade perante os olhos das classes dominantes.

Leia mais: O economicismo e suas consequências para a desigualdade social

Não gostaria de adiantar e me aprofundar agora em muitas das teses do livro, porque certamente pretendo voltar a discutir muitos dos seus tópicos em futuras postagens. Mas de cara, posso dizer que o livro está certamente entre meu “top 5” dos melhores já lidos, porque esclarece de forma avassaladora as falsas ideologias, como uma suposta “brasilidade”, que seria o mito da nação unida e feliz como forma de ocultar o conflito de classes; os diversos equívocos do senso-comum que servem para legitimar uma determinada ideologia (a dominante); a falsa controvérsia do Estado como sendo a razão de todos os males sociais em contraposição ao Mercado endeusado por uma elite “economicista”, que só enxerga o sucesso em termos de números dos indicadores econômicos; a ideia de que o brasileiro é cordial e o consequente resultado de que qualquer conflito é entendido como fora de nossas características (seríamos esse povo amável, dócil, que recebe a todos de braços abertos e que mostra ao mundo uma verdadeira democracia racial, ou esse ideal apenas interessa à ordem conservadora?) e que tem muito a ver com as recentes manifestações e conflitos envolvendo “vândalos” e a polícia; por que a saúde pública não funciona… enfim, o autor e seus colaboradores conseguem iluminar diversas questões obscuras que vivemos no nosso dia a dia, mas que não conseguimos explicar ou entender de forma muito precisa. Pelo menos até ler esse ótimo livro. Voltaremos com outras postagens para aprofundar algumas dessas questões em breve.

Veja também: Desvendando o segredo da desigualdade social brasileira

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TÍTULO: A RALE BRASILEIRA: QUEM E COMO VIVE

ISBN: 9788570417879

IDIOMA: Português

ENCADERNAÇÃO: Brochura

FORMATO: 15,5 x 22,5

PÁGINAS: 484

ANO DA OBRA/COPYRIGHT: 2009

COLEÇÃO: HUMANITAS

ANO DE EDIÇÃO: 2009/ 1ª Reimpressão: 2011

EDIÇÃO: 1ª