29 de março de 2013

Restrições e hipocrisias na Sexta da Paixão

churras cervaAdeptos de algumas das religiões mais importantes do mundo às vezes divergem em questões totalmente inúteis, a ponto de criarem um cisma doutrinário e se virarem contra suas antigas práticas. Assim é com católicos e protestantes, por exemplo.

Evangélicos costumam criticar os católicos por conta de suas superstições e práticas estranhas, como é o caso dessa Sexta-Feira da Paixão. Tudo bem que certas determinações doutrinárias são estranhas, inúteis ou desnecessárias, mas praticamente todas as religiões tem as suas - e as protestantes certamente estão entre as que mais restringem seus fiéis com suas doutrinas - que passam por cima do juízo pessoal de cada um, como se não fôssemos capazes de saber o que é bom e o que é mau, o que é certo e o que é errado para nós. Mas apesar disso, em vez de uma saudável autocrítica, sempre é mais fácil olhar para o rabo dos outros, não é? Pelo menos alguns evangélicos assim pensam.

Um exemplo desse costume religioso de não olhar para as próprias práticas inúteis e apontar as falhas dos outros ocorre aqui na rua, que ilustra perfeitamente como funciona a hipocrisia de alguns religiosos (não são poucos).

Como se sabe, católicos não comem carne vermelha nessa Sexta Feira Santa, porque não podem – o que os evangélicos consideram mais uma aberração da Igreja de Roma, tal como a iconolatria. Para deixar isso bem claro, uma família de evangélicos resolveu fazer um churrasco bem no meio da calçada, aos olhos de todos, em plena Paixão, para afrontar a doutrina católica e para deixar claro que são livres desse tipo de restrição “equivocada”. Mas o  churrasco é sem cerveja, claro, porque cerveja evangélico não pode beber...

Isso é um pequeno exemplo de como as religiões, de fato, impõem restrições desnecessárias em nossas vidas e tiram nossa autonomia de decidir o que podemos e o que não podemos fazer. Mas também um exemplo de como as pessoas só enxergam coisas erradas na fé alheia. Quem não tem religião alguma, como eu, pode beber cerveja, comer churrasco, comer peixe, ou não comer nada a hora que quiser. O único juiz a quem devo obediência é à minha própria consciência. Quem sabe alguém como eu tenha condições morais de apontar o dedo e condenar algumas doutrinas religiosas. Mas imagina se eu seguisse uma religião também cheia de doutrinas  restritivas… Como já diz o consagrado ditado: quem tem telhado de vidro não taca pedra na vidraça do vizinho…

28 de março de 2013

Renan Calheiros, o povo e o BBB

renan30 milhões de votos para o Big Brother Brasil, "apenas" 1 milhão e meio para a renúncia de Renan Calheiros, e ainda tem gente reclamando do povo?? A culpa é da população? O programa pode ser inútil para muitos mas com destaque massivo e diário na emissora de maior audiência do Brasil, acaba atraindo inevitavelmente as atenções, sendo pauta até de emissoras concorrentes, enquanto a petição pela renúncia do político foi totalmente escondida ou tratada superficialmente nos principais noticiários brasileiros. Queriam o quê? Nesse cenário, eu penso que o povo foi até além das expectativas.

A culpa é das mídias oligarcas do país, que direcionam os interesses da população de acordo com os seus próprios e dos seus patrocinadores. A TV virou uma vitrine de shopping, onde as emissoras oferecem seu espaço e seus expectadores aos anunciantes para a venda dos seus produtos. Quando a imprensa deixa de cumprir o seu papel de fiscalizadora da sociedade para virar empreendimento comercial, é isso que acontece.

   Saiba mais: A culpa é do povo? Como as mídias influenciam nossas  opiniões

O governo é o único que poderia interferir e acabar com essa prática antiética,  intervindo para democratizar e pluralizar as TVs que funcionam, todas, sob sua concessão pública, mas nossa presidenta não parece ter forças para enfrentar os poderosos barões das mídias brasileiras. Com uma outra programação mais diversificada, cultural e politicamente elevada, aí sim, poderíamos ter a noção exata do que o povo realmente se interessa. Por enquanto, tal qual um animal domesticado, ele apenas consome o que lhe é oferecido, e por isso não tem culpa da programação de baixa qualidade da TV brasileira.

Magistério brasileiro tem um dos piores salários do mundo

Magistério brasileiro tem um dos piores salários do mundo

Um dado curioso que revela como o governo brasileiro pouco se importa com as condições de vida e de trabalho do profissional de educação: ao contrário de outros países, aqui não existe um estudo oficial referente ao salário médio do professor do ensino básico.

Todo ano é realizado o Educacenso no Brasil, um senso escolar onde procura-se registrar o perfil do profissional da educação, saber o nível da sua formação, em quantas escolas leciona, etc. Mas parece que coisas como salário, poder de compra, gastos com material, o MEC não quer saber...

Talvez porque se soubesse, seus burocratas ficariam ruborizados de vergonha. Segundo o site da Udemo e com base nos dados da Pnad (Pesquisa Nacional Amostra de Domicílios) 2010 e pela Metas - Avaliação e Proposição de Políticas Sociais a pedido do UOL, “um professor brasileiro do fundamental 2 (6º a 9º anos) ganhou, em média, US$ 16,3 mil por ano em 2009. Enquanto isso, na média, um profissional com formação e tempo de experiência equivalentes recebeu US$ 41,7 mil nos países da OCDE” (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, dados do Education at a Glance de 2012).

Baixos salários são um problema por si só, porque complicam a vida dos professores, obrigam-nos a atuar em diversas escolas, sem tempo para a preparação de aulas ou formação continuada, mas tem consequências ainda piores: torna o magistério uma carreira pouco atraente para os jovens universitários, além de fazer os bons profissionais já formados e experientes a trocarem de profissão.

Além dessa diferença de salários entre professores do Brasil e do exterior, também existe uma defasagem gritante entre estes profissionais do ensino e profissionais de outras áreas dentro do país. Pelos cálculos da consultoria Metas publicados no Udemo,

“o salário médio de um professor da rede pública com curso superior e com, pelo menos, 15 anos de experiência (US$ 15,4 mil) não chega a metade (48,5%) da remuneração dos demais profissionais (US$ 31,7 mil) no Brasil (…) [Além disso], em comparação com os países da OCDE, o Brasil está entre aqueles com menor investimento anual por aluno do grupo, sendo o terceiro que menos investe por aluno no pré-primário (US$ 1,696) e no secundário (US$ 2,235) e o quarto colocado no primário (US$ 2,405)”

Diante desses dados, o que os nossos políticos estariam pensando em fazer para acabar com o vergonhoso paradoxo de sermos a sexta maior economia do planeta, enquanto ostentamos paralelamente uma vergonhosa colocação nos índices de educação? Por enquanto, nada. Para se ter uma ideia, o Plano Nacional para a Educação (PNE) com as metas da educação brasileira para o período 2011 a 2020, cuja 17ª das 20 propostas é aumentar o rendimento do professor ao nível dos demais profissionais de escolaridade equivalente, ainda está travada no Congresso Nacional com dois anos de atraso, sem previsão de ser implementado.

Não é fácil ser professor. No Brasil então, é quase uma loucura. O reflexo disso está aí, ao nosso redor, todos os dias. Um país cujo povo é mal formado, mal instruído, sem pensamento crítico, presa fácil para o que há de mais reacionário, elitista e conservador na nossa sociedade, com professores desmotivados e sem meios de trabalhar e ajudar a mudar esse quadro.

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Fontes: Udemo, OCDE , Education at a Glance

9 de março de 2013

Governo brasileiro emperra integração da América Latina

Dilma no velório de ChávezFoi de fato muito comovente assistir a emoção de Lula e Dilma Rousseff no velório do presidente venezuelano Hugo Chávez. Mas as lágrimas derramadas não condizem muito com o que está por trás das aparências, em se tratando atuação de Brasil e Venezuela na proposta de novas institucionalidades para a América Latina.

O governo brasileiro, desde a ascensão política do líder venezuelano na região, tem preferido servir como contraponto moderado ao modelo venezuelano, e nisso atua perfeitamente a favor do jogo de interesses do capital internacional, funcionando como barreira às pretensões integradoras de Hugo Chávez no continente sul-americano. Isso fica bastante claro quando analisamos três projetos que, sem o apoio do Brasil, não podem ter sucesso: o Banco do Sul, o Conselho de Segurança da Unasul e a Telesul. Segundo o professor e economista Nildo Ouriques, da Universidade Federal de Santa Catarina, a “prudência” e a “timidez” do governo brasileiro, desde Lula, em apoiar tais projetos para a região se dá simplesmente pelo compromisso do ex-presidente – seguido nessa linha pela Dilma – com as classes dominantes no Brasil e com o governo dos Estados Unidos, o que impede tais iniciativas de emplacarem a segunda independência dos povos latino-americanos.

Governo brasileiro descarta o Banco do Sul em favor do BNDES

Banco-del-Sur-LogoO Banco do Sul, proposta da Venezuela para acabar com o mito do financiamento externo e com a eterna dependência econômica, é uma forma de impulsionar a economia da região através das poupanças dos países latino-americanos para investimentos em projetos de interesse conjunto. Mas Chávez encontrou no Brasil um grande adversário a essa proposta. O que Lula fez e o que Dilma está fazendo é preferir o protagonismo do BNDES, que, diga-se de passagem, há muitos anos ficou marcado como o financiador dos ricos. Eike Batista, por exemplo, assim como outros magnatas brasileiros, cada vez mais dependem do BNDES para seus projetos capitalistas pessoais, e o banco deixa em segundo plano projetos de estratégia nacional.

Conselho de segurança da Unasul esbarra no governo brasileiro pró-EUA

imagesJá na importante proposta de um Conselho de Segurança da Unasul, há a intenção de esvaziá-la por conta da filiação brasileira ao projeto de segurança de Washington e a pretensões de apoio em uma cadeira brasileira no Conselho de Segurança da ONU. Se o Conselho de Segurança regional tem o claro intuito de combater o imperialismo estadunidense na América Latina, o Brasil, ao contrário, respalda a política do inimigo.

Telesul contraria interesses dos grandes conglomerados de mídia que o governo do Brasil não enfrenta

telesurA Telesul, que Hugo Chávez gostaria que fosse a nossa CNN, poderia servir como contraponto às mídias oligárquicas da região, todas elas alinhadas com uma ideologia, a das elites dominantes. Mas o governo brasileiro, pusilânime em enfrentar as próprias empresas de comunicação nacionais, jamais sequer pensou em apoiar este importantíssimo projeto. O compromisso do governo com os monopólios comerciais da mídia impede que a Telesur emplaque de vez.

Os governos conservadores no Brasil sempre foram acusados – e com razão – de virarem as costas para o continente sul-americano, preferindo uma condição subalterna frente aos Estados Unidos e Europa. Os governos do PT, desde Lula, representavam uma esperança de romper esse descaso histórico, mas ao que tudo indica, se chegaram a olhar um pouco para a região, foi com o prisma de sub-império regional. Só isso explica as atitudes de sabotagem da definitiva e imprescindível integração dos países da América Latina, cujo maior líder era, sem dúvida, Hugo Chávez. O governo brasileiro, além disso, prefere se situar na cômoda posição entre os erros do PSDB e as necessidades de aprofundar urgentemente as reformas sociais. Sem ser um partido totalmente neoliberal como seu antecessor, também está muito longe de proceder as reformas progressistas que seus vizinhos sul-americanos já conseguiram com sucesso, apesar da necessidade de aprofundá-las ainda mais. Chorar a morte de Hugo Chávez no seu velório é muito pouco. É preciso seguir adiante com suas ideias, e não servir como dique de contenção a elas.
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Áudio da entrevista do professor Nildo Ouriques:

5 de março de 2013

Hugo Chávez e a Verdade

Presidente Hugo Chavez

A busca por uma verdade universalmente válida e que se sobreponha a outras “verdades” é algo que sempre me intriga e me fascina, tamanha é a luta histórica de certos setores da sociedade para a imposição de uma própria visão de mundo aos demais grupos sociais. Essas tentativas – ora vitoriosas, ora fracassadas --, ao longo da história, foram capazes de gerar numerosos conflitos de todas as espécies, seja no campo filosófico ou nos campos de batalha.

A Ciência, a partir principalmente do século XIX, tentou estabelecer princípios e métodos para a busca de uma verdade universalmente aceita em diversas áreas do conhecimento, especialmente nas disciplinas da Natureza. E na área das Ciências Humanas, já no século XX, foi o filósofo marxista Adam Schaff quem melhor definiu, no meu modo de entender, um modelo adequado para a busca de verdades, combatendo relativismos pós-modernos inúteis e inadequados.

Definindo a Verdade

Como podemos definir uma proposição, um juízo, como verdadeiros? Em seu livro História e Verdade, Adam Schaff aponta a definição clássica de verdade para nos orientar a esse respeito: “É verdadeiro um juízo no qual se pode dizer que o que ele enuncia é na realidade tal como ele enuncia”. Parece simples (e é). Porém, nos ajuda a eliminar uma série de proposições que visam alcançar o estatuto de “verdade”, mas que não tem nenhuma correspondência com a realidade verificável, ou padecem de uma superficialidade desconcertante. A pessoa que enuncia um juízo deve ser capaz de mostrar alguma evidência sobre o enunciado; mostrar de onde vem tal informação de forma concreta, de modo que sua asserção possa ser verificada e justificada.

Veja mais em: Minhas Verdades, suas Verdades, a Verdade deles... Que Verdade?

Outra coisa importante: verdades subjetivas, do tipo “É assim porque eu creio que seja”, são totalmente inválidas. Se aceitarmos a definição clássica da Verdade descrita acima, a junção do substantivo verdade com o adjetivo subjetiva constitui-se numa tremenda contradição. Em ciência, toda a verdade deve ser válida universalmente, não para um indivíduo ou um grupo de indivíduos. Neste caso, o que é válido e o que devemos buscar é a verdade intersubjetiva, ou seja, aquela que é corroborada por um maior número possível de especialistas através da verificação ou da reflexão. Quanto mais universalmente uma verdade é aceita, mais validade ela terá, o que é justamente a verdade que vale para todos, independentemente de crenças, posições políticas, etc.. (As "verdades" religiosas, por exemplo, são aceitas por um número muito grande de pessoas no mundo, mas sua validade para a ciência é nula porque suas asserções não podem ser verificadas cientificamente, como veremos abaixo).

Interferências prejudiciais na busca da Verdade

Mas aqui temos um problema: e quando o julgamento sofre influência da ideologia dominante, sem que as pessoas tenham plena consciência desse fato? Um exemplo: 80 por cento da população brasileira considera o catolicismo a religião universalmente verdadeira. Mas isso significa que ela seja realmente, ou que outros fatores, como o ambiente, a doutrinação, a influência dos pais, a falta de critérios aceitáveis na busca da verdade, etc. tiveram um papel mais importante nessa escolha do que a reflexão racional? Penso que a resposta é clara. Cientistas têm consciência dessas influências externas, e por tê-la, tentam superá-las, por mais difícil que seja.

Eu disse tudo isso para finalmente chegar até o ex-presidente venezuelano Hugo Chávez, que perdeu a batalha pela vida em 2013, vítima de complicações do câncer.

Hugo Chávez, vítima da manipulação da Verdade

Os fatos frios sobre Chávez mostram claramente que todos os seus erros e acertos só foram por uma intenção: resgatar a dignidade dos milhões de pobres não só da Venezuela, mas de toda a América Latina, durante séculos deixados entregues à própria sorte enquanto as suas elites latino-americanas dominavam a maior parte da riqueza dos seus respectivos países. Os indicadores sociais e os inúmeros trabalhos de cientistas sociais provam isso. Pode-se amar ou odiar Chávez, mas não se pode ir contra esse fato: Chávez lutava pelos pobres contra os imperialistas estrangeiros e os traidores do próprio povo. E apesar disso, grande parte dessa mesma população pobre, principalmente no Brasil, não conseguiu se identificar com a luta chavista. Como pode?

Saiba mais: Democracia, alternância de poder e o socialismo bolivariano

Tal qual a influência da doutrina católica, a influência externa da ideologia conservadora dominante transborda a própria origem e penetra em todas as classes sociais, desde as mais elevadas até as mais baixas. Dessa forma, apesar de ser pobre, ou de uma classe-média baixa, a pessoa, levada pela crença na ordem social vigente, tende a se identificar com seu próprio opressor, por mais que não se dê conta disso, por lhe faltar a capacidade de reconhecer a influência dos fatores externos sobre seu modo de pensar -- aquilo que os cientistas sociais procuram reconhecer e evitar.

Todos os dias, de forma sutil, a imprensa oligárquica, porta voz das elites, não só aqui, mas em toda a América Latina, martela uma satanização nem sempre dissimulada do bolivarianismo e daqueles que querem mudar as regras estabelecidas do jogo. Esses órgãos, contrariando toda a imparcialidade que deveria ser o cerne do jornalismo – como também deveria ser o da ciência – detêm o monopólio da verdade nas mãos e a manipulam como bem entendem, antes de jogar para o consumo da população, envernizada com uma fina casca de “credibilidade jornalística”. E nós que a aceitemos, passivamente -- e mais do que isso, tomemos partido dela.

Leia também: Como as mídias controlam a opinião pública no Brasil

Só a má formação educacional aliada a uma poderosa máquina propaganda midiática podem explicar por que os povos desse continente miserável ainda adormecem frente a um poder absolutamente cruel: o das classes abastadas que espoliam as riquezas e o poder político dos pobres durante séculos a fio. Diante de uma realidade acachapante dessas, a verdade é um mero joguete nas mãos de quem a fabrica, e Hugo Chávez morreu como alguém que deveria ser reverenciado pelos povos latino-americanos, mas que, do contrário, sempre foi visto com desconfiança como um “ditador antidemocrático autoritário” --  como Guevara era o “terrorista”, Allende era o “subversivo das massas”, Brizola era o “amigo dos traficantes”…. E nisso, a verdade vai sofrendo duros e mais duros golpes.

Como já dizia Winston Churchill: "A mentira roda meio mundo antes da verdade ter tido tempo de colocar as calças."