20 de fevereiro de 2013

O Brasil é democrático e cuba é uma ditadura. E eu sou o Papai Noel

yoani_sanchezBastou a “turnê” mundial da blogueira cubana Yoani Sanchez desembarcar no Brasil para reacender alguns debates sobre ditaduras e democracias. Parece que isso é tudo o que importa, quando o assunto é a ilha caribenha.
 
Algumas pessoas já internalizaram tão bem a ladainha da "democracia" (burguesa) versus ditadura demoníaca, inculcada pelos aparelhos ideológicos capitalista-burgueses, que colocam essa farsa como a coisa mais importante de tudo, na frente de qualquer outra conquista de uma sociedade, como bem-estar, Saúde, Educação. Cuba está 33 posições acima do Brasil no Índice de Desenvolvimento Humano, mas tudo o que importa para essas pessoas é que Cuba é uma “ditadura”, que está errada e deve copiar nosso belo modelo “democrático”, repleto de Renans Calheiros, favelas, miséria, bolsa-família, violência, corrupção, desigualdade social, latifúndios, Eikes Batistas, Rede Globos, empreiteiras, Cavendishes, Mensalões, Privatarias, Sarneys... ahh sim, mas vivemos uma "democracia", e de tempos em tempos temos o direito de apertar uns botões na urna eletrônica e pronto, isso é tudo o que importa. Podemos falar o que quisermos, e isso é tudo que a Yoani Sanchez quer também, coitada...
 
Quem não conhece as condições históricas que levaram Cuba a restringir algumas liberdades e apenas diz que Cuba é uma “ditadura”, ou está mal intencionado, ou muito mal informado. Ao contrário da nossa farsesca democracia burguesa, Cuba optou pelo modelo político de participação popular, muito mais democrático que o nosso.
 
A maioria dos cubanos é interessada na política e participa de diversas reuniões de células partidárias, de sindicatos e outras organizações sociais. Segundo o jornalista Breno Altman,
O modelo cubano não nasceu expurgando seus opositores ou instituindo o mono-partidarismo. Poderia ter se desenvolvido com maior grau de liberdade, mas teve que se defender de antigos grupos dirigentes que se decidiram pela sabotagem e o desrespeito às regras institucionais como caminhos para derrotar a revolução vitoriosa. Na outra ponta, as diversas agremiações que apoiavam a revolução (além do Movimento 26 de Julho, liderado por Fidel, o Diretório Revolucionário 13 de Março e o Partido Socialista Popular) foram se fundindo em um só partido, o comunista, oficialmente criado em 1965.
 
Enquanto isso, uma breve e superficial olhada na história do Brasil no século XX mostra que nossa “democracia” foi entrecortada com Golpes de Estado, autoritarismos e ditaduras, conchavos e arranjos políticos, sempre que os interesses das elites se viram ameaçados pelo crescimento da consciência política e das reivindicações populares. E só os mais ingênuos acham que não é isso que acontece neste exato momento, apesar das aparências, no nosso país. Isso é democracia?
 
Tal cá, como lá, a CIA esteve por trás dos reacionários e ditadores para sabotar governos e democracias, mas a diferença é que aqui as elites usaram as Forças Armadas e a Igreja para derrotar o povo e lá o povo derrotou as Forças Armadas e a Igreja com armas na mão. Mas eles são persistentes, e vez ou outra voltam escondidos em pele de cordeiro, como no caso da Yoani Sánchez agora. Por isso que me parte o coração ouvir besteiras como críticas aos protestos contra esta agente da CIA no Brasil, vindo de gente até de partidos de esquerda. São “democráticos”, mas querem restringir o legítimo direito à livre manifestação?
 
Um pouco de autocrítica não faz mal a ninguém, então por que não olhamos o nosso próprio rabo antes de criticar o rabo dos outros? Ainda mais se nossa crítica não corresponder com a verdade do fatos e for uma mera reprodução do pensamento burguês-capitalista das elites brasileiras.

17 de fevereiro de 2013

Achismos e preconceitos na formação das nossas opiniões

Como se forma uma boa e respeitável opinião? As pessoas parecem sempre ter na ponta da língua uma opinião pronta a respeito de tudo. Afirmam com total convicção quase todos os assuntos do momento. Mas da onde vêm tamanhas convicções?

No meu modo de entender, existem alguns passos que precisariam ser dados antes de se emitir uma opinião qualquer, mas que são totalmente negligenciados em nome da comodidade. Antes de tudo, é óbvio, as pessoas deveriam entender o mínimo sobre o que estão falando. Não 303519adianta apelar para o “ouvi dizer que…” ou “dizem que…”, porque coisas assim não são (ou não deveriam ser) levadas a sério. É preciso se informar de verdade, pesquisar, refletir… E aí então vem o segundo passo: ouvir, ver e ler duas ou mais fontes diferentes sobre o mesmo assunto. Não adianta eleger uma instituição ou uma emissora de televisão como fontes isentas e confiáveis de informação para formar sua opinião, porque você só terá sempre metade da informação, aquela que interessa a terceiros, não a você. E hoje, com o advento da internet, ficou mais fácil buscar informações diferentes sobre todos os assuntos possíveis e imagináveis antes de emitir qualquer opinião.

Sim, essas coisas dão um certo trabalho. Ninguém tem tempo para fazer tudo isso antes de falar alguma coisa, muito mais cômodo é corroborar o senso-comum, os preconceitos do dia-a-dia, os clichês que estão já circulando por aí, aquilo que se ouviu por terceiros (“dizem que…”). Por isso todos os dias vemos opiniões estranhas, mal formuladas, carregadas de preconceitos e argumentos simplórios sobre os mais diversos assuntos, que no entanto carregam a aura da verdade absoluta.

Pessoas acríticas que corroboram esse tipo de coisa são as que mais contribuem para a perpetuação de certas lendas na nossa sociedade, e no entanto, paradoxalmente, são as que se mais se acham politizadas e bem-informadas. Tudo bem não ter tempo para pesquisar, mas por favor, se você não fez isso, pelo menos admita que sua opinião pode estar bem equivocada. Foi corroborando o senso-comum que muita gente já acreditou em besteiras como, por exemplo, “a escravidão é algo natural”, ou “lugar de mulher é na cozinha”, coisas que hoje soam absurdas e ridículas. Não seja alguém assim.

Leia bastante, seja crítico, se informe, evite os grandes meios de comunicação comercial como fonte principal, procure sempre o outro lado da notícia. É assim que a gente começa a ser livre de enganos e mentiras e constrói uma sociedade melhor. 

3 de fevereiro de 2013

Renan Calheiros, futebol e Carnaval

renan_calheirosEssa semana, Renan Calheiros foi eleito presidente do Senado. Tal situação fomentou, com razão, a indignação geral da sociedade – quer dizer, tirando alguns poucos que conseguiram encontrar motivos para comemorar sua vitória. Mas aí, eis que começaram a aparecer justificativas das mais estranhas e absurdas para mais uma tramoia dos nossos políticos, da boca de pessoas que, apesar de pouco afeitas à política, acham que sabem os motivos de todos os nossos problemas: culpa do futebol e do Carnaval, elas dizem. Como não percebemos isso antes? Algo tão claro, tão simples, diante dos nossos olhos, e esse tempo todo a gente não tinha a menor ideia. Sorte que temos essas pessoas iluminadas, que, sem nem sequer procurar se interessar por política, sabem como consertá-la!

Tal conclusão, é óbvio, não passa de puro preconceito e total ilusão, justo daqueles que pensam estarem acima de qualquer tipo de influências alienantes – quando são, na verdade, as maiores vítimas, ao repetirem clichês e ao difundirem ideias sem a menor base concreta. Essas pessoas não sabem que nossos problemas são muito mais complexos do que a paixão do povo pelo futebol e pelo Carnaval.
Por conta do nosso sistema burguês de democracia, a partir do momento que o cidadão aperta os botões da urna eletrônica, acaba a sua participação no jogo democrático. A partir daí, entram em cena os lobbies, os conchavos, os acordos por debaixo dos panos, o que foi justamente que possibilitou a eleição de Renan Calheiros à presidência do Senado. O pano de fundo dessa vitória foi a disputa entre governo e oposição pela importante cadeira da presidência, onde os acordos mais importantes foram selados por trás dos holofotes. Dentro desse quadro, de nenhuma participação popular direta e votação secreta dos senadores, fica difícil de entender onde o futebol e o Carnaval podem ser responsabilizados pela eleição de Renan. Esses acusadores poderiam estar lutando para melhorar nosso sistema democrático, poderiam se por à disposição para apoiar a Reforma Política, poderiam criticar o voto secreto no Senado, mas não... põem a culpa no futebol e no Carnaval!! Percebem como isso é equivocado e inútil?

Países desenvolvidos também gostam de futebol

time-alemaoÉ claro que quase todos os que pensam assim na verdade apenas não gostam de futebol e de Carnaval. Ninguém é obrigado a gostar mesmo, mas esse fato não pode se tornar motivo de puro preconceito, beirando ao recalque, quando se acusa aqueles que gostam de tais atividades de serem os responsáveis por tudo de ruim que acontece na nossa política. O futebol é o esporte mais popular do planeta Terra, sendo amado e praticado tanto em países subdesenvolvidos quanto por potências econômicas (entre os países do G7, o futebol é o esporte mais popular de quatro deles, e eu tenho sérias dúvidas se o Japão também já não pode entrar nessa lista).
carnavalO Carnaval, por sua vez, é a festa mais popular do mundo, pessoas de diversos países se encantam com a nossa cultura, com a beleza dos espetáculos, com nosso ritmo e com nossa alegria. Não é possível que 4, 5, 6 dias de festa possam ser as culpadas por todos os nossos problemas, quando temos outros 360 dias inteiros para nos preocupar com as questões do Brasil. Se não o fazemos, é porque, como eu disse, nossos problemas são muito mais complexos do que aqueles que criticam o Carnaval pensam. Tanto é verdade, que apesar de não gostarem de Carnaval, muitos deles também não gostam de política. Se o Renan agora é o presidente do Senado, a culpa é também nossa, é claro, mas de todos nós, inclusive desses, por terem a visão tão desfocada da realidade e por se omitirem no conforto da acusação.

1 de fevereiro de 2013

Bolsa Família completa 10 anos com resultados abaixo do esperado

BolsaFamiliaEste ano de 2013 marca uma década do Programa Bolsa Família. No intuito de erradicar a pobreza extrema de milhões de brasileiros, o programa governamental tem como foco o futuro, não o presente.

De modo pragmático – embora jamais os governantes possam admitir publicamente – a cúpula do projeto reconhece que existe toda uma geração perdida abaixo da linha de pobreza para a qual pouco pode-se fazer, mas que é possível salvar as próximas gerações de brasileiros investindo-se nas crianças e jovens dessas famílias. Não por acaso a concessão das Bolsas é condicionada à matrícula deles nas escolas. Mas essa lógica está a perigo, de acordo com recente pesquisa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) em parceria com o Ministério da Educação (MEC).

Saiba mais: Governo quer incentivar leitura no Brasil

sala de aula quebradaIsso porque as escolas frequentadas por estes alunos pobres não oferecem condições adequadas de educação – e portanto, de ascensão social –, de acordo com o levantamento feito por aqueles órgãos. São 15 milhões de crianças de 6 a 15 anos e quase três milhões de adolescentes entre 16 e 17 anos que fazem parte do programa e que serão acompanhados, mas os dados preliminares já mostram que 50 por cento deles estudam em escolas cuja infraestrutura está bem abaixo do padrão nacional, que já não é lá essas coisas. Muitas delas não têm quadras de esportes, bibliotecas, acesso à internet – e maioria nem sequer tem coisas básicas como redes de esgotos.
O programa conseguiu frear um pouco a evasão escolar, é verdade, mas nem o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome nem o MEC parecem dar muita atenção à qualidade do ensino dos beneficiários do Bolsa Família, o que acaba criando uma contradição. Como erradicar a pobreza a médio e longo prazo, se uma das maiores bases de ascensão social, a educação, é negligenciada com tamanha magnitude?
Para que o paliativo do Bolsa Família são seja apenas mais uma jogada política que eleva artificialmente o padrão de vida das famílias pobres apenas em nível de consumo, é preciso que estas crianças tenham condições para estudar e crescer na vida, para competir em nível de igualdade num sistema tão excludente quanto o nosso. Se isso não acontecer, nem mais 20 ou 30 anos de Bolsa Família serão capazes de erradicar a chaga da pobreza extrema da nossa sociedade, e o Estado continuará condenando milhões de pessoas à dependência econômica de programas sociais para sobreviverem – o que não condiz com a sexta maior economia do mundo.