28 de dezembro de 2012

Respirar taxas desumanas de enxofre nas grandes cidades: coisas do Brasil

Poluição automotiva

Os críticos desse nosso nocivo sistema de mercado desregulado sempre fizeram uma brincadeira sobre o avanço do capitalismo em todas as áreas da vida humana: chegaria o dia em que até o ar que respiramos seria comercializado por alguma empresa privada. Esse dia ainda não chegou, felizmente, mas não quer dizer que ele já não esteja envolvido em questões econômico-políticas.

O brasileiro, este pobre ser vilipendiado de cima abaixo por seus próprios governantes, aquele cidadão pacato e festivo que paga as taxas mais caras do mundo por serviços de péssima qualidade e produtos que custam o dobro do que custariam lá fora; que paga os impostos mais elevados do planeta Terra sem ver o retorno em melhorias na qualidade de vida porque o país prefere dar lucro aos rentistas; que vive no país do baixíssimo octogésimo-quarto nível de IDH (a piorar com a crise); que banca os maiores salários do mundo para os políticos mais corruptos e juízes que dormem sobre uma montanha de processos parados… nem sequer tem o direito de respirar um ar puro de qualidade nas grandes cidades.

O Brasil tem por predominância o transporte rodoviário, tanto de carga quanto de passageiros, e este consome em quase sua totalidade óleo diesel como combustível. Nos anos 80 e 90, o nível de enxofre do óleo diesel brasileiro alcançava a inacreditável marca de 13 mil partes por milhão. Hoje a marca atinge “suaves” 1.800 partes por milhão no interior e 500 partes por milhão nas grandes cidades, de acordo com as regras do governo, o que ainda é um absurdo.

Em 2002, o Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) publicou a Resolução 315, que obrigava as montadoras de veículos e a indústria do petróleo a reduzirem as partículas de enxofre, mas sem determinar o quanto, o que não adiantava nada. Somente em 2007 a Agência Nacional do Petróleo (ANP) determina que o óleo diesel brasileiro deve conter “apenas” 50 partes de enxofre por milhão (chamado de S50).

Leia também:

  1. Europeus votam na ONU contra punição a empresas poluidoras

  2. Desenvolvimento Econômico, mas a que preço?

Enquanto que na Europa, há muito tempo, é proibido óleo diesel com mais de 10 partes por milhão (S10), aqui o jogo de empurra e o lobby político de montadoras e distribuidoras emperram o cumprimento total da resolução. As montadoras, durante muito tempo, afirmaram que não iam produzir carros para um combustível que não estava no mercado, e as refinarias alegavam que se não se fabricassem carros respeitando a resolução não poderiam fazer o combustível menos poluente. O que está por trás de toda essa dissimulação é o medo dos custos elevados para a mudança de tecnologia e a consequente redução imediata dos lucros, interesses acima do bem-estar da população brasileira.

Mas só depois de estudos comprovando que o enxofre do óleo diesel mata 3 mil brasileiros por ano, as coisas começam a mudar vagarosamente. A Petrobras, depois de lutar anos contra a resolução usando as mais descabidas desculpas, mudou de postura, mas ainda tem a cara de pau de alardear que “lançou no mercado um novo óleo diesel” e que “essa iniciativa da companhia segue sua tradição de pró-atividade no exercício da responsabilidade ambiental e social”. Isso depois de tentar adiar a resolução e de jogar durante décadas milhões de toneladas de enxofre no nosso ar sem o menor remorso...

Se depender da “vontade” e do “empenho” dos governos brasileiros em fiscalizar a indústria automotora e de combustíveis no país, dada a morosidade da implementação do óleo S50, o brasileiro, além de ser enganado, maltratado, roubado e esquecido pelas autoridades, ainda continuará respirando veneno por muito tempo nas grandes e médias cidades.

26 de dezembro de 2012

Qual é o termo gentílico mais adequado para quem nasce nos Estados Unidos?

flag

Esse foi um tema proposto recentemente numa comunidade de história na internet, e que gerou calorosos debates. Aparentemente esse é um assunto sem muita importância, mas só o fato de envolver questões de profundo cunho ideológico e psicológico já faz desse, um debate muito importante.

O nome do país suscita as controvérsias. Eles são os Estados autônomos que se uniram para formar um país no continente americano. Daí Estados Unidos da América. Alguns participantes da comunidade na internet defenderam que os nascidos naquele país sejam considerados “americanos” e não “estadunidenses” porque “Estados Unidos” é “relativo à sua forma de organização político-administrativa” sendo que em outros países “a construção do gentílico se dá com base apenas no último termo”. Daí Brasil resulta brasileiros, Canadá – canadenses, Argentina – argentinos, e assim por diante.

Temos dois equívocos neste argumento. Primeiro, porque a forma de organização político-administrativa do país é República Constitucional. “Estados Unidos” é relativo apenas ao contexto histórico da formação do país, ou seja, a união de Estados autônomos. Segundo, Brasil, Canadá, Argentina são, de fato, nomes de países. O mesmo não se aplica a “América”, que é o nome do continente. Portanto, Brasil – brasileiro, Argentina – argentino, não é o mesmo que América – americano. Isso só é verdade se você estiver se referindo a quem nasceu no continente americano e não nos Estados Unidos.

“Americanos” por costume

Há quem sustente que eles são “americanos” porque na Europa e no resto do mundo eles são tratados assim. Mas imagine o que aconteceria se hipoteticamente existisse um país no continente europeu chamado "Estados Unidos da Europa", cujos habitantes se autodenominassem "os europeus"... O que será que portugueses, alemães, franceses, italianos, pensariam disso? Será que concordariam e abririam mão de serem lembrados também como europeus? É claro que não.

É óbvio que o resto do mundo nomeia quem nasceu nos Estados Unidos como “americanos”, não por costume, mas pela força da sugestão. Quem pode resistir a tamanha máquina de propaganda, à cultura de massa dos seus filmes e produtos midiáticos e do peso da sua influência ideológica que impõe a sua maneira de viver e pensar a todo o planeta?

Como então devem ser chamados?

Quem nasce nos Estados Unidos também é norte-americano, mas esse termo não se aplica corretamente caso você esteja se referindo apenas a quem nasceu naquele país. Pois canadenses e mexicanos também são norte-americanos, é bom lembrar. Portanto, a única maneira de se referir corretamente a quem nasceu nos Estados Unidos é chamá-los estadunidenses. Americanos somos todos nós deste vasto continente, desde os índios quéchua da Bolívia até os esquimós do norte do Canadá, e o fato deles se apropriarem do termo para si é mais uma questão de poder e ideologia do que de "terminologia gentílica". Afinal, a subordinação de outras culturas e ideologias não se dá apenas através das armas. A destruição da autoestima e da cultura de outros povos se dá também através do sequestro da sua identidade. E é esse o papel da ideologia por trás de um assunto aparentemente tão banal, como tantos outros do nosso dia-a-dia, mas que estão cheios de segundas intenções escondidas.

20 de dezembro de 2012

Adiado para 2016 o Novo Acordo Ortográfico

Adiado para 2016 o Novo Acordo Ortográfico

O governo brasileiro resolveu adiar para 2016 a vigência do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, já utilizado por setores públicos e privados brasileiros desde o final de 2008 e previsto inicialmente para ser adotado definitivamente em 1º de janeiro de 2013. Com a medida, a duas formas de ortografia, a antiga e a nova, serão utilizadas simultaneamente durante mais 3 anos.

Os portugueses, seja por razões nacionalistas, políticas ou sentimentais, resistem mais à implementação do acordo, que foi discutido no longínquo ano de 1990 e ratificado em 2008 por todos os países lusófonos. Por causa disso, o governo português definiu um prazo maior para a sua implementação definitiva: 2014. O Brasil vem adotando mais fortemente as mudanças, mas mesmo assim, o governo decidiu adiar a implementação definitiva do novo acordo para dois anos além do estipulado pelos portugueses.

Esse adiamento não tem uma explicação convincente das autoridades. A alegação oficial é de que “há muita insatisfação” e assim “se ganharia mais tempo para discutir as mudanças”. Novas propostas poderiam ser feitas, e as mudanças previstas poderiam ser revogadas. Enfim, uma tremenda confusão.

Livros já foram editados com a nova ortografia, concursos já foram feitos com a nova ortografia, a imprensa escrita já está perfeitamente adaptada à nova ortografia, e no entanto, ainda querem discutir a nova ortografia, depois de quase 23 anos de reuniões e discussões desde 1990?

A principal razão não dita é que os portugueses, de modo geral, não aderiram ao novo acordo, emperrando a sua implementação simultânea entre os países. Muitos deles afirmam que não vão deixar de escrever como escrevem nem com a entrada em vigor do acordo. E o governo brasileiro acha que entrar no ritmo lento de Portugal vai causar menos embaraços e ser bom politicamente, para não dar a ideia de que a “colônia do Brasil está invertendo os papéis [sic] e impondo sua ortografia à sua metrópole, verdadeira pátria-mãe e guardiã da pureza da língua”, que é o grande receio de muitos portugueses.

Por este prisma, mais três anos não parecem ser suficientes para mudar uma mentalidade tão entranhada no imaginário português, e se a ideia for esta, este acordo pode estar rumando fragorosamente para o fracasso.

11 de dezembro de 2012

Como tirar melhor proveito da cultura maia do “fim do mundo”.

calendário
Nunca a cultura maia foi tão comentada e discutida quanto neste final de 2012. Isso por conta de apenas duas pequenas citações encontradas em inscrições em pedra, no Monumento 6 de Tortuguero, no México, e mais recentemente nas densas florestas de La Corona, noroeste da Guatemala, onde a data 21 de dezembro de 2012 aparece como o momento de grandes transformações na vida dos indígenas que viveram na América Central.
maiasO problema é que a civilização maia já não existe desde antes da chegada dos espanhóis no Novo Mundo e sua cultura hoje se restringe a pequenos povoados na região do México e da Guatemala, onde os descendentes dos antigos indígenas lutam para manter vivas certas tradições dos seus antepassados.
Mas por que então o calendário maia ganhou tanta notoriedade nos últimos tempos, e por que a chamada “profecia maia” do fim do mundo ganhou tantos adeptos neste começo de Terceiro Milênio?
poster-filme-2012-rioA resposta passa por uma série de fatores. Destacaremos dois. Em primeiro lugar, o fim do mundo rende muito dinheiro a editores, escritores, cineastas e à mídia de modo geral. O tema do fim do mundo baseado na “profecia maia” já foi alvo de documentários, programas de TV, artigos de jornal, livros e revistas, e até empresas que constroem bunkers andam recebendo muitas encomendas nos Estados Unidos, assim como pilhas e estoques de água e comida têm sido vendidos cada vez mais, conforme o fatídico dia 21 de dezembro vai se aproximando. Em segundo lugar, estes produtos midiáticos só vendem porque a nossa civilização judaico-cristã está desde muito cedo familiarizada com profecias do fim do mundo, muitas delas inspiradas no Apocalipse bíblico. As pessoas realmente acreditam que o mundo em algum momento vai passar por uma espécie de Juízo Final, e embora todas as outras datas estipuladas ao longo da história para o fim do mundo tenham falhado categoricamente, parece que esse tema ainda exerce um grande fascínio na sociedade ocidental, pessimista com os rumos do mundo e impotente para mudar alguma coisa.
Neste quadro, fica fácil de compreender porque muitas pessoas associaram a cultura maia com a sua própria ideia de fim do mundo e Juízo Final, esperando que em dezembro de 2012 a população mundial passe por algum tipo de acerto de contas. Mas a verdade é que mais esta “profecia” não vai finalmente se concretizar. Até porque os maias não previram nenhum fim do mundo.
Se as pessoas quisessem realmente se inspirar na cultura maia, em vez de levar o assunto para o superficial e inútil lado da profecia do fim do mundo, deveriam se inspirar no calendário maia de modo objetivo para começar um novo ciclo em suas vidas – talvez este o verdadeiro sentido da “profecia”. O fim de um ano e o começo de outro é o período em que as pessoas geralmente estão mais propensas a fazer mudanças em suas vidas, em seus comportamentos e em seus hábitos. Quem sabe este 21 de dezembro de 2012 não seja o momento mais indicado para que as pessoas possam deixar de lado as coisas que atrapalham as suas vidas, em busca de novos rumos e novos desafios -- a começar pelo abandono de crenças em superstições tolas e profecias.
Em vez do fim do mundo, que tal o começo de uma nova vida?