18 de agosto de 2012

Votar nulo é um desperdício e não anula a eleição

Votar nulo é um desperdício e não anula a eleição

Toda vez que estamos nas vésperas de uma eleição, vemos campanhas para o voto nulo nas redes sociais, especialmente dos setores mais radicais da esquerda e daqueles que optam pela posição mais cômoda. Alguns destes cidadãos afirmam que votam nulo porque “políticos são todos iguais, e assim que chegam ao poder, eles mudam”. Quem vê imagina que esta seja uma pessoa que pesquisou todas as opções, que investigou a vida de todos os candidatos, e depois desta exaustiva labuta, chegou a esta conclusão. Mas a verdade é bem outra. Outros não confiam no “sistema eleitoral burguês”, apesar deste mesmo sistema ter aplicado derrotas vexatórias nas burguesias da América Latina, todas elas através do voto – inclusive no Brasil. Ou será que a própria vitória do Lula em 2002 não foi um desses casos? (a virada para o centro que o PT deu logo depois é outra história). 

Infelizmente, essa foi a má impressão geral que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ajudou a disseminar. Outros políticos foram apenas ruins, mas não se esperava muito deles. Mas Lula chegou ao poder carregado de expectativas que não foram cumpridas. Fortaleceu-se a ideia de que, tal como ele, todos os políticos progressistas tendem a amenizar o discurso quando alcançam o poder.

Mas nem sempre isso acontece – e mais: em alguns casos, o político muda para melhor. Vejamos dois exemplos:

  1. Getúlio Vargas, que tomou o poder para satisfazer os interesses da burguesia industrial em 1930, mas em 1950 retornou pelo voto e teria revolucionado a questão social brasileira, não fosse seu suicídio em 1954 devido a pressão dos setores reacionários ao seu alinhamento com os trabalhadores.
  2. João Goulart chegou ao poder de forma indireta, com a renúncia de Jânio em 61, mas durante seu mandato lutou pelas tão esperadas Reformas de Base, contrariando os interesses das elites e sendo deposto em 1964 também por se alinhar aos interesses sociais.

É verdade que, naquela época, as elites ainda tinham mais condições de “corrigir” um resultado eleitoral indesejado através de pressões e golpes, mas apesar desse risco ainda existir hoje, é muito mais difícil, porque as Forças Armadas perderam seu pretexto para isso: a Guerra Fria já não existe mais.

O que acontece com uma maioria de votos nulos: nada

A virada de postura do PT no poder, de quem muito se esperava, não passa de um pequeno mau exemplo. Outras pessoas alegam que votar nulo anula a eleição. Esse boato foi espalhado na internet em 2004 e até hoje há quem o leve a sério. Só que este pobre infeliz não sabe é que a única coisa que ele fez foi jogar o próprio voto no lixo.

Na hora da contagem, esses votos são considerados inválidos e simplesmente descartados junto com os votos em branco. Aí vem o segundo problema: quanto mais pessoas votarem nulo, menos votos um mau candidato precisará para se eleger. Vejamos: se todo mundo votasse, o candidato X precisaria de 50 por cento de votos mais 1 para se eleger. Mas se 60 por cento dos eleitores votarem nulo (o mito diz que, com mais de 50 por cento de votos nulos, a eleição é anulada) sobram 40 por cento dos votos válidos, e aquele candidato precisará apenas de 20 por cento mais 1 para se eleger. E isso favorece a eleição dos representantes das alas mais conservadoras da sociedade, porque essas votam e votam nos seus.

É por isso que eu digo: as pessoas precisam, de uma vez por todas, parar de repetir e de engolir tudo o que escutam por aí. Essa é mais uma mentira inventada maldosamente para enganar os eleitores e que acaba servindo a interesses de terceiros.

As pessoas têm todo o direito de votar nulo ou em branco porque não encontraram nenhum candidato que representasse seus anseios. Mas é difícil isso acontecer, tendo em vista o amplo espectro ideológico abrangido pelos atuais candidatos – desde a extrema-esquerda, passando pelo centro até a extrema-direita.

O problema de quem prega o voto nulo em nome de uma suposta revolução, é que nem vota e nem faz uma revolução.

2 de agosto de 2012

“Mensalão” do PT: relembrando o caso (parte 3/3)

Essa postagem é a terceira e última parte da matéria sobre o Mensalão do PT, que começou a ser julgado hoje.

Voltando a Roberto Jefferson

roberto-jefferson Dos 20 milhões de reais prometidos pelo PT em troca de “aliança política”, o PTB de Jefferson recebera “apenas” 4 milhões. O ex-deputado petebista estava perdendo a paciência.
Roberto Jefferson foi procurado por um dos arapongas de Artur Wascheck, que relatou ao então deputado a existência do vídeo que mostrava Mauricio Marinho recebendo propina e denunciando o esquema de corrupção nos Correios. Jefferson sentiu que ali tinha o dedo do governo para tentar calá-lo. Logo depois, a revista Veja publica uma matéria sobre o esquema de corrupção nos Correios supostamente comandado pelo PTB e gerenciado por Jefferson. O vídeo chegou às mãos do repórter Policarpo Júnior — o mesmo que hoje é suspeito de envolvimento com Carlinhos Cachoeira.
Sentindo-se abandonado e jogado aos leões, Roberto Jefferson resolveu falar. Em 6 de junho de 2005, o então deputado dá uma entrevista à Folha de São Paulo e revela o esquema do chamado mensalão do PT. Seis dias depois, outra entrevista no mesmo veículo, com mais detalhes do esquema. Nessa segunda entrevista, surge o nome de Marcos Valério, até então uma figura anônima no cenário nacional.

Mais dinheiro para evitar a CPI

Os partidos de oposição e a mídia se eriçaram com a oportunidade de atacar o governo. Para evitar a criação de uma CPI, primeiro o PT e seus aliados cheios de dinheiro do mensalão tentaram desqualificar o acusador. Não colou. As acusações eram bastante concretas.
Restou ao governo apelar para o velho plano B, ou seja, abrir o cofre. Segundo Figueiredo, para evitar que um terço dos senadores e deputados assinasse a criação da CPI, “o Planalto despejou 400 milhões de reais no Congresso, na forma de emendas parlamentares”. Não adiantou.

No dia 9 de junho de 2005, a CPI dos Correios deu início aos seus trabalhos

cpi-dos-correios Apesar de ter sido transformada em show, passando ao vivo nas TVs, a CPI não foi tão longe quanto deveria. Apesar de ter criado o valerioduto e de ter se servido dele de 1998 a 2004, o PSDB passou ileso. Apesar de haver dezenas de razões para colocar o então governador de Minas, o tucano Aécio Neves, sentado no banco dos réus, a CPI nunca o fez. Deixaram passar a oportunidade de perguntar ao tucano mineiro por que seu governo tinha tantos laços financeiros com Marcos Valério.
Na verdade, essa omissão é explicada como fruto de mais um dos acordos subterrâneos entre o governo e a oposição: a comissão deixaria de investigar a conexão tucana de Minas com o valerioduto e, em troca, não levou a fundo as investigações sobre o esquema milionário de caixa dois e propinas do PT. Há muito tempo eu já dizia que PT e PSDB eram farinha do mesmo saco.
Dessa maneira, por mais que produzisse boas manchetes, a CPI não conseguiu responder dúvidas que assolavam o país: de onde vieram os 55 milhões de reais movimentados pelo PT no valerioduto, e quem foram os beneficiados com esse dinheiro?
Se fosse a fundo, a CPI poderia revelar uma lista de corruptos brasileiros que certamente passaria dos cem. Em vez disso, a Comissão Parlamentar de Inquérito ofereceu à opinião pública apenas 38 nomes. Mesmo assim, figuram ali nomes importantes como o próprio Roberto Jefferson, José Dirceu, José Genoíno, Bispo Rodrigues, Duda Mendonça, Marcos Valério, entre outros. Pela primeira vez na história desse país, pessoas investigadas por uma CPI podem ir presas. Não pretendo que se faça um linchamento público das pessoas envolvidas no julgamento que começou hoje no Supremo. Desejo apenas que o STF cumpra seu papel e puna quem merecer, pois a sociedade não aguenta mais tanta impunidade nesse país. Agosto promete grandes expectativas.
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Fonte: FIGUEIREDO, Lucas. O Operador – Como (e a mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e do PT. Ed. Record: Rio de Janeiro, 2006.
“Mensalão” do PT: relembrando o caso (parte1/3)
“Mensalão” do PT: relembrando o caso (parte2/3)