30 de maio de 2012

27 de maio de 2012

Como as mídias influenciam nossas opiniões e interferem na democracia

Como as mídias influenciam nossas opiniões e interferem na democracia

Todos nós estamos muito acostumados a culpar a falta de interesse do povo na política como causa principal de todos os nossos problemas. De fato, o brasileiro médio é passivo, alienado e alheio qualquer tipo de participação e envolvimento com a política. Mas até que ponto ele é o vilão da história? Será que ele não é vítima de um sistema que subverte o papel dos meios de comunicação, que molda a sua forma de ver o mundo?

Muitas pessoas têm a tendência de acreditar que as mídias apresentam os fatos de forma neutra, imparcial, sem nenhum interesse no que é veiculado. Essa crença é o primeiro passo rumo a uma perda de autonomia crítica frente ao mundo. Delegamos a terceiros a tarefa de pensar por nós sobre o que queremos.

As mídias estão completamente inseridas no jogo comercial do mercado. Sua função básica há muito tempo deixou de ser a informação e passou a ser o controle da opinião pública, para domesticar nossa visão de mundo, criando o consenso e o consumidor dos produtos que são anunciados em suas páginas ou em sua programação. E os anunciantes, aqueles que bancam de 70 a 90 por cento da receita de um jornal, de uma TV ou de uma revista, se não chegam a determinar diretamente o que será veiculado na programação, influenciam a decisão, ao colocar ou retirar patrocínio em determinada linha jornalística, de acordo com seus interesses mercadológicos.

Moldar a opinião pública norte-americana, o começo dessa tendência

É obvio que, para que essa tática funcionasse, era preciso transformar a própria ideia que as pessoas tinham sobre democracia. O cidadão deveria deixar de se interessar em participar das decisões sobre todos os assuntos que lhe dizem respeito, desde em quem votar até o que comprar, deixando tudo a cargo de especialistas em relações públicas.

Foi nos Estados Unidos, durante a Primeira Guerra Mundial, que nasceu essa subversão do cidadão atuante em consumidor passivo. Durante o conflito armado, foi criada a Commission on Public Information [1] — ou Commission Creel — para convencer a opinião pública americana, tradicionalmente isolacionista com relação aos problemas europeus, de que era importante os Estados Unidos entrarem na guerra. Através de uma série de métodos apelativos de patriotismo, emoção, amor à “liberdade”, ideia de predestinação, eles conseguiram.

Walter Lippmann [2], jornalista e membro da comissão, externou os objetivos do grupo, e é importante que saibamos reconhecer suas intenções, porque esse modelo foi posteriormente adotado em diversos países do mundo — e continua sendo até hoje. Segundo ele, essa comissão era uma “revolução na prática democrática”, em que “uma minoria inteligente” é encarregada de “fabricar cientificamente o consentimento do povo”, o que formaria uma população com uma opinião pública “saudável”, cujo papel seria a de “expectador” e não de participante nas decisões.

Já conhecemos aqui no Panorâmica Social um dos principais mentores dessa manipulação: o sobrinho de S. Freud, Edward Bernays, um dos maiores aliados das grandes corporações na função de criar psicologicamente o consenso e o desejo de consumo. Nos anos 50 ele ajudou a criar o mito, através de falsa propaganda, do perigo comunista na Guatemala, em favor dos interesses da corporação norte-americana United Fruits. O resultado foi o golpe de Estado com o apoio da CIA em 1954, que derrubou o governo democraticamente eleito do país.

Dez anos mais tarde, o mesmo método, a mesma mentira, a mesma propaganda, a mesma CIA ajudaram a derrubar outro governo democrático latino-americano: o de João Goulart no Brasil. Um ano mais tarde, em 1965, com apoio e investimento da empresa norte-americana Time-Life, nascia a Rede Globo de Televisão. Coincidência?

Vamos ver no próximo post como a mídia controla desde então a opinião pública no Brasil.

Próximo post: Como as mídias controlam a opinião pública no Brasil

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[1] BAILLARGEON, Normand. Pensamento Crítico. Um curso completo de autodefesa intelectual. Rio de Janeiro: Ed. Elsevier, 2007
[2] Idem

8 de maio de 2012

Superação do capitalismo: uma certeza, muitas dúvidas

 Nós somos 99 por cento
 
Fechando as postagens que pretenderam mostrar até aqui como começou e para onde está indo o atual movimento mundial de contestação ao capitalismo, chegou a hora de ver as características das reivindicações, suas formas de atuação, suas conquistas e seus rumos daqui por diante.
 
Uma certeza que marca os protestos dos diversos movimentos sociais pelo mundo: o capitalismo e o mercado fracassaram rotundamente em suas promessas de gerar riquezas e prosperidade para todos. As dúvidas: qual das dezenas e dezenas de propostas é ideal para superar este modelo? Existe alguma? Deveria haver uma conjunção de propostas? O que manter? O que descartar? Infelizmente, parece que as pessoas que contestam o sistema andam falhando em deixar claras essas respostas.
 
Conforme foi mostrado na segunda postagem sobre a série, a grande maioria desses novos movimentos, fragmentários e diversificados, teve inspiração no movimento zapatista, cuja figura mais destacada é a do subcomandante Marcos, chamado de “Che Guevara pós-moderno” (como se isso fosse um elogio...). Os zapatistas, conforme deixaram claro no encontro internacional promovido em Chiapas em 1996, se recusaram a propor soluções globais ou modelos para a crise global. Eles propõem soluções locais, e cada local teria suas próprias e especificas demandas. A deles, por exemplo, é autonomia política.
 

O Culture Jamming

 

coca-cola A Coca-Cola ama (“o lucro”)

 
Por se inspirarem em tal exemplo, os atuais movimentos sociais se recusam a admitir quaisquer ideologias como forma de confrontar o capitalismo; seus líderes recusam o papel de líder, como vemos nos atuais protestos na Espanha e em Nova Iorque, e cada qual aponta soluções diversas para a superação do atual modelo político-econômico. Vejamos alguns exemplos, de forma bem resumida:
 
· Nos Estados Unidos, o irreverente “pastor” Billy (na verdade, o ator Bill Talen) fundou a Church of Stop Shopping (Igreja Pare de Comprar), que critica o consumismo absurdo da sociedade norte-americana, indo nas lojas Starbucks “pregar” contra as grandes corporações.
· O California Department of Corrections é uma coalizão secreta de sabotadores da publicidade, dedicada a “corrigir” os anúncios de propaganda. Com tinta, spray, papel, etc. eles “retrabalham” os outdoors, revelando a verdade por trás de slogans que te induzem a comprar. (clique nesse link para ver algumas de suas “correções”) 
· Uma rede global anticapitalista chamada Fanclubbers tem uma tática que consiste em comprar produtos de grandes marcas — especialmente em locais cheios — e logo em seguida devolvê-los, com uma mensagem. Em Londres, dezenas de militantes do Fanclubbers compareceram em uma loja da Nike, compraram lotes de camisas da marca e logo em seguida devolveram, para o espanto dos demais consumidores e dos vendedores. A alegação era que todas as camisas vieram com marcas de sujeira — as marcas eram o logo da Nike...
· O Biotic Baking Brigade (BBB) é um movimento californiano voltado para a justiça social, os direitos da mulher, da natureza e dos animais. Sua forma de protesto é esfregar, em atos públicos, tortas de coco orgânico no rosto de políticos, economistas e celebridades que consideram inimigos.
 
Tais movimentos são criativos e interessantes, podendo apresentar resultados imediatos, mas e a longo prazo?
 
Não sei até onde vai esse movimento internacional de contestação ao capitalismo. O sistema tem o poder de absorver e domesticar todos os movimentos de contestação desse tipo, tornando-os parte do próprio sistema. A GAP, um dos alvos favoritos dos ativistas, chegou a exibir bandeiras vermelhas e falsas pichações em suas vitrines como forma de publicidade. O símbolo da Anarquia, as camisetas de Che Guevara e os moicanos são exemplos claros disso.
 
Ao descartarem todas as ideologias e as lideranças como algo ultrapassado, eles fazem um favor ao capitalismo. Combater a ideologia capitalista-liberal-burguesa sem um quadro determinado de reivindicações de superação do próprio capitalismo, e sim com uma miríade de pequenas reformas e protestos inusitados, me parece uma medida bastante superficial e totalmente inócua. Qual o problema dos líderes? Liderança não tem que ser uma imposição de cima para baixo, mas um posto conquistado de baixo para cima. Seguir uma liderança conscientemente, seguir uma grande ideia, não é submeter-se passivamente, é fortalecer ideais e centralizar ações num objetivo claro. Do jeito que está, o capitalismo agradece.

Leia também:
Mundo sustentável não combina com capitalismo
Movimento Zapatista, o embrião do movimento anticapitalista atual

3 de maio de 2012

Movimento Zapatista, o embrião do movimento anticapitalista atual

Movimento Zapatista
 
A onda neoliberal que varreu diversos países da América Latina nos anos 90 foi ainda mais destrutiva no México. O acordo de livre comércio dos países da América do Norte (NAFTA) e a revogação do Artigo 27 da Constituição revolucionária mexicana de 1917 selou o desmonte dos ejidos, uma conquista dos tradicionais indígenas camponeses mexicanos. A solução encontrada foi a revolta, o protesto, a guerrilha. Mas de uma forma diferente do que até então se conhecia.
 
Em 1º de janeiro de 1994, à meia-noite, o presidente mexicano Carlos Salinas brindava com correligionários num resort particular na costa do Pacífico a entrada em vigor do NAFTA (Salinas assinando o acordo na imagem à direita). No mesmo dia, na mesma hora, a 800 quilômetros dali, 3 mil camponeses indígenas com máscaras de esquiar saíram das florestas de Chiapas e marcharam sobre 7 cidades do estado mais pobre do México. Em San Cristóbal de las Casas, fincaram a bandeira preta com quatro letras vermelhas do movimento: EZLN, Exército Zapatista de Libertação Nacional. Era o começo do que para muitos foi considerada a primeira revolução pós-moderna.

A resposta do governo Salinas foi rápida e violenta. Quinze mil soldados foram para Chiapas, matando 150 pessoas, e em 24 horas os guerrilheiros foram dispersados para as florestas. Mas o apoio inesperado da população aos zapatistas fez o governo cessar-fogo contra o movimento. Mais do que isso: depois de dois anos de negociações, os zapatistas conseguiram um conjunto de medidas conhecido como Acordos de San Andrés [1], e o reconhecimento mundial da sua causa. Esse tratado estava longe de ser uma maravilha, mas garantia que as comunidades indígenas tivessem autonomia, na forma política e social que bem entendessem, com base em suas tradições. No futuro, vários movimentos internacionais iriam se inspirar nesse modelo para criticar o neoliberalismo, entoando pelo mundo o “Já Basta!”, famoso lema dos zapatistas.

Em 2001, repleto de esperanças, o exército zapatista marchou mais de 3 mil quilômetros das selvas de Chiapas até a Cidade do México, para acompanhar a votação do Acordo. Infelizmente, o Congresso o aprovou com tantas emendas que os zapatistas a rejeitaram prontamente. Consideraram uma traição do governo e se retiraram de volta para a selva Lancadona, onde estão até hoje.
 

O que há de diferente no movimento zapatista

Apesar disso, desde 1994 as zonas autônomas continuam funcionando. Elas elegem seus próprios governantes, fazem suas leis e recusam ajuda do governo até que os Acordos de San Andrés se tornem lei. Mas o que esse movimento tem de tão diferente que chamou a atenção do mundo?
 
Os zapatistas surgiram com ideias novas, diferentes dos movimentos políticos de derrubada de governo e revolução violenta. Eles acreditam que o poder não deve simplesmente ser trocado de mãos, saindo do controle das elites para o povo e sim ser dissolvido ao nível das comunidades. Seria um resgate de uma “verdadeira democracia”, um modelo fragmentário de política bem ao gosto pós-moderno.

A revolução zapatista chamou a atenção do mundo quando em 1996 os guerrilheiros convidaram rebeldes e insatisfeitos do mundo a encontrá-los em Chiapas, para um “Encontro Internacional pela Humanidade e contra o Neoliberalismo”. Mais de três mil pessoas de todos os cantos do planeta compareceram. O Encuentro espalhou os ideais zapatistas pelo mundo, e no ano seguinte, foi realizado outro Encuentro dessa vez na Espanha. Era o nascimento do movimento antiglobalização que conhecemos hoje. No próximo post vamos ver mais de perto a repercussão desse movimento nas recentes manifestações contra o capitalismo pelo mundo. (leia aqui em: Superação do Capitalismo: uma certeza, muitas dúvidas)
 
 

[1] KINGSNORTH, Paul. Um não, muitos sins – uma viagem aos centros de antiglobalização. Ed. Record: Rio de janeiro, 2006