17 de abril de 2012

NSA: diga adeus aos dias de liberdade e privacidade na internet

200px-National_Security_Agency.svg Cuidado, muito cuidado... Nós sempre desconfiamos de que todos os nossos passos estavam sendo rastreados na internet pelos órgãos de espionagem governamentais. A partir de agora, isso sai do terreno da especulação e entra no da certeza: está sendo construída no deserto de Utah a sede da NSA (Agência Nacional de Segurança) dos Estados Unidos, cuja função é saber tudo o que fazemos na rede mundial de computadores.


A internet começou promissora. Livre, democrática, espontânea, era o símbolo dos novos tempos pós-modernos (sejam eles louváveis ou não), onde as barreiras vão sendo quebradas — a começar pelo Muro de Berlim. Mas nos últimos tempos, a sanha do autoritarismo e da patrulha dos governos do Ocidente ameaçou a privacidade dos internautas pelo mundo afora. O Congresso americano, logo ele, bastião da retórica da liberdade e da democracia, discute leis com acrônimos esquisitos — PIPA e SOPA — para censura e controle da internet sob o pretexto de defender a propriedade intelectual.

Megaestrutura de espionagem está sendo construída nos Estados Unidos

Mas agora a coisa ficou séria pra valer: os Estados Unidos estão criando no meio de deserto de Utah, ao custo de 2 bilhões de dólares, um sistema de controle oficial do governo, com previsão de pleno funcionamento para setembro de 2013, cuja função é monitorar e armazenar dados de governos, entidades, e até de pessoas como você e eu. É o novo complexo da Agência Nacional de Segurança (NSA)
spy Mas que “dados” seriam esses? Tudo, isso mesmo, tudo o que fazemos na internet. Fez compras com o cartão? Eles saberão quando e o quê; fez algum comentário “perigoso” numa rede social? Vai direto pros computadores da agência. Mandou um e-mail? Idem. Acessou um site? Eles saberão.

Essa onda de controle à la Big Brother (não o idiota programa da Globo, mas o sistema de vigilância de George Orwell no livro 1984) que faz os EUA não ficarem devendo nada às teocracias islâmicas começou justamente com o ataque às torres gêmeas do WTC. A partir de então a vontade irresistível de invadir a privacidade das pessoas tomou conta do governo, sob o pretexto de caçar “terroristas”.
Até que ponto devemos permitir que nossas vidas sejam fuçadas e reviradas desse jeito? Tudo bem que um número não pequeno de pessoas por livre e espontânea vontade já expõe suas vidas na rede, informando desde onde estão neste momento até a cor das suas peças íntimas de roupa. Mas me parece que liberdade e democracia — mesmo que em muitos casos estejam apenas no campo da retórica —, conquistas tão caras de um passado não muito distante ao custo de sangue, estão sendo atacadas todos os dias por quem alega defendê-las. Parece que os dias de internet livre, se é que um dia elas foram livres de controle, estão prestes a virar coisa do passado. Bem vindos à sociedade de vigilância.

2 de abril de 2012

Trabalho, senso-comum e ideologia dominante

 TEMPOS MODERNOS
 
Muitos de nós temos nossas opiniões sobre diversos assuntos do dia-a-dia. Damos nossos pitacos sobre futebol, falamos sobre nossos gostos, apoiamos ou criticamos alguma religião... até aí, tudo bem. Uma sociedade multicultural é uma sociedade com muitos pontos de vista. Como já dizia o jornalista Walter Lippmann, “Quando todos pensam igual, ninguém está pensando”. Mas quantas vezes paramos para analisar até que ponto nossas opiniões são realmente nossas, fruto de uma reflexão e uma conclusão bem feitas, ou apenas meras reproduções da opinião geral, conhecida como senso-comum?
 
O senso-comum é recheado de frases feitas, que são consideradas “verdades da sabedoria popular”. Mas essas frases muitas vezes escondem uma visão de classe, contendo uma ideologia por trás da sua fachada neutra. Vamos ver um exemplo muito conhecido:
 
“O Trabalho dignifica o homem”
Avenida_Paulista
 
De fato, esta afirmação não é falsa. Olhe para uma cidade: agora imagine que você possa retirar mentalmente tudo o que não é natural. Retire as ruas, os postes de luz, os carros, as lojas, as fábricas, os prédios, as casas... O que sobra é um terreno vazio, a Natureza em seu estado original. Tudo o que você retirou mentalmente é trabalho, a mão do homem modificando a Natureza, e assim distinguindo-se do restante dos animais. Isso é positivo, mas essa frase pode se tornar ideológica quando mascara relações de exploração do trabalho alheio por outros homens. Defender que o trabalho, deste tipo, o alienado (no sentido de que o resultado do trabalho não pertence a quem produziu a riqueza), dignifica o homem, é um sinal de que você não refletiu bem sobre o que isso significa.
 
Segundo a professora Maria Lúcia de Arruda Aranha[1]:
O trabalho alienado não dignifica, mas degrada o homem, porque além de retirar dele o fruto de sua produção, reduz suas possibilidades de crescimento. Quando a característica pervertida do trabalho não é reconhecida, esse ocultamento beneficia não o trabalhador, já prejudicado, mas aqueles que se ocupam com as atividades menos penosas.

Como a ideologia atua no senso comum

Dessa maneira, é muito fácil vermos a sociedade aprovar (senso-comum) e as mães se orgulharem de seus filhos que acordam às 4 da manhã, que pegam o trem de Japeri lotado, que dão duro no trabalho o dia inteiro, para à noite pegar outro trem lotado até seus bairros-dormitórios, para chegarem perto de meia-noite, tendo que acordar novamente na manhã seguinte às 4 horas. Porque “o trabalho dignifica o homem”, é o que se escuta por aí. Em casos assim, a ideologia está trabalhando fortemente. Para onde está indo o fruto deste trabalho tão intenso? 

A ideologia naturaliza a realidade, faz parecer que tudo tem que ser assim mesmo, ocultando o fato de que não é natural que haja ricos e pobres, exploradores e explorados. Tudo o que as classes dominantes pretendem é criar o consenso, quer que “todos pensem igual”. São estas as partes silenciadas por trás do senso-comum, e você encontra uma série de outros exemplos por aí. Quando repetimos essas coisas sem refletir, ajudamos a manter as coisas “do jeito que tem que ser”. Mas é preciso mudar.
 
Portanto, O trabalho dignifica o homem, desde que a riqueza gerada pelo seu trabalho não seja apropriada por terceiros. Aí a coisa começa a mudar.

[1] ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofia da educação. São Paulo: Moderna, 1998.