12 de março de 2012

Que tipo de Ordem? Para o Progresso de quem?

brasil São perguntas que deveríamos fazer para compreender os nossos problemas. Também perguntar como estas duas ideias foram parar na nossa bandeira, porque, saibamos ou não, elas tem um peso enorme naquilo que diz respeito a tudo que nos caracteriza como sociedade brasileira hoje, com todas as injustiças e desigualdades que representam.


comte

Ordem e Progresso é o lema do positivismo, escola de pensamento fundada pelo francês Auguste Comte (imagem ao lado) no século XIX. Desde sua origem, teve como característica a essência aristocrática, intelectual e elitista, que tanto caiu no gosto das nossas classes dominantes desde o Império.
Haviam três correntes republicanas então. Duas delas — liberal-federalista e jacobina — admitiam uma maior participação política do povo. A outra — positivista — era a única que não previa nenhum papel ativo para a população na República. Em 1889, com o golpe que derrubou a Monarquia, prevaleceu a tendência elitista.
Os políticos positivistas brasileiros e os empresários seriam os protagonistas do novo regime. Essa corrente não compartilhava os ideais democráticos; na verdade, os positivistas tinham até certa aversão a eleições. Julgavam que o povo jamais tinha capacidade de eleger os melhores representantes para dirigir o país, atividade que deveria ficar a cargo de especialistas e de gente preparada — eles, da elite, lógico. Essa característica antidemocrática sempre esteve presente em nossos dirigentes em suas diversas eleições de fachada na República Velha e em seus diversos golpes ao longo do século XX.

Positivismo Funcionalista

Outro grande teórico do positivismo foi o sociólogo francês Emile Durkheim. Sua sociologia “funcionalista” inspirada na biologia defendia que a sociedade era como um organismo composto por diversos órgãos diferentes, todos trabalhando em conjunto para o bem do corpo. Qualquer tentativa de mudança, reivindicação, protesto, era vista como uma “doença” que precisava ser tratada, em nome da “ordem”, para o bom funcionamento da sociedade. Nada mais atrativo para as elites que, claro, se consideram o cérebro que dirige as ações do corpo, cabendo aos outros órgãos a mera obediência. Por essa razão, as classes dominantes não consideram a história como uma luta de classes, e sim trabalham com conceitos como “conciliação”, “pacto-social”, “consenso”, etc.
Estes esquemas ilusórios estão na ideologia positivista, que por sua vez é a ideologia das classes dominantes brasileiras, manifestem elas abertamente ou não. E como dominantes, estas ideias são assimiladas pela grande maioria da população, aceitas e praticadas inconscientemente através do senso-comum: todos se supõem igualmente beneficiados pela ordem e pelo progresso, o que está longe de ser verdade.
voto O resultado disso é um povo que hoje decidiu não participar da política. A ordem estabelecida parece-lhe perfeitamente natural e algo que não lhe interessa. Por outro lado, temos aqueles que, inconformados com a “bagunça” e a “desordem”, sentem saudade da época autoritária dos regimes militares, pois “naquela época não tinha essa sem-vergonhice”. Tudo isso é positivismo e um verdadeiro tiro no pé. Uma prova da eficiência da ideologia que estampa a nossa bandeira.
Está bem clara a herança que carregamos até hoje, fruto das escolhas políticas que as classes dominantes fizeram no passado, quando resolveram criar uma República sem povo. Por isso temos esse país de excluídos convivendo com uma pequena elite com padrões de vida de primeiro mundo, uma elite tão conservadora e egoísta que mistura interesses privados e públicos. Portanto, agora podemos responder a pergunta do título desta postagem: toda vez que olhar a bandeira do Brasil, pense: ordem doutrinária e autoritária para o povo; progresso ilimitado para as classes dominantes.

9 de março de 2012

Por que precisamos de uma Lei da Palmada

violencia-contra-crianca É bastante sintomático o fato da maioria dos parlamentares que se opõem à chamada Lei da Palmada fazerem parte das alas mais conservadoras do Congresso. Jair Bolsonaro e a bancada religiosa são representantes de uma tradição arcaica no Brasil e veem com grandes reservas a lei que proíbe os pais de baterem nos filhos. Mas isso não pode ser mais tolerado em nossa sociedade


violencia-domestica É fato que, no Brasil, o peso da tradição cultural de certas práticas faz com que demoremos a nos adaptar a novos tempos. É por isso que ainda temos tanto preconceito, tanto machismo entre nós, tanta violência contra a criança e contra a mulher. É por isso também que certos comportamentos, que em outros países seriam naturalmente descartados em favor de outros mais condizentes com nova realidade, aqui precisam de leis para serem postos em prática. Será que alguém precisa de lei para saber que usar cinto de segurança salva vidas? Será que precisamos de multa para saber que não podemos beber e dirigir? Será que precisamos de punição para entender que racismo é deplorável? Infelizmente, para todos estes casos, a resposta é sim se você for brasileiro. E a Lei da Palmada está neste contexto.

Aqui neste país, é preciso uma lei para que as pessoas entendam que bater numa criança, no próprio filho — o que é ainda mais absurdo — é uma tremenda covardia. Muitas foram as vezes em que eu presenciei cenas de violência e espancamento contra crianças nas ruas, o que me faz ter a certeza de que grande parte das pessoas não está preparada psicologicamente para o ato de ser pai ou mãe. E isso não é característica das classes menos favorecidas.

Hoje (9/3) os telejornais mostraram um pai da classe média preso em flagrante por espancar o próprio filho, porque este não queria ir para a escola. E quem não se lembra daquela procuradora acusada de bater frequentemente na filha adotiva de dois anos de idade? Tenha certeza que casos como estes acontecem aos montes todos os dias, em todo o país, em todas as faixas de renda e de educação. Não dá pra tolerar.

É por isso que eu apoio a chamada Lei da Palmada, que mais corretamente seria chamada de Lei contra o Espancamento. Talvez as pessoas a apoiassem mais, se não estivessem com a ideia equivocada espalhada por alguns setores da sociedade, de que “umas palmadas não fazem mal, pois eu fui criado(a) assim e não tive nenhum problema”. Curioso como a pessoa que diz isso geralmente reproduz violência contra o próprio filho...
Existem muitas formas de se criar os filhos. Saiba que a grande maioria delas, não tem nos castigos corporais a sua base.

5 de março de 2012

Um pé que dói na bunda errada

jerome-valcke

Era só o que estava faltando. Depois de nos impor uma série de medidas que passam por cima inclusive da nossa constituição, o secretário-geral da Fifa, Jerome Valcke (imagem), andou pegando pesado nas suas declarações sobre o país.


copa_brasil_pe-na-bunda De fato, a grande maioria de nossos representantes merece “um pé na bunda” não para acordar da lerdeza, mas para serem jogados longe da política nacional. Apesar disso, não dá mesmo para aceitar o comentário desrespeitoso desse cidadão da Fifa ao Brasil, dentre tantos outros absurdos cometidos pelas nossas próprias autoridades das quais já somos vítimas. Nas mesas de cassino, nos nobres salões em que ele deve se reunir com os amigos para tomar uísque e fumar charutos relaxadamente, tudo bem que ele fale assim do país, mas não pode publicamente dizer uma merda dessas e achar que está tudo bem. Não vou chegar ao ponto de levantar antigos ressentimentos que remetem à tradicional postura arrogante dos colonialistas europeus quando isso daqui era terra de ninguém (“O Brasil não é um país sério”), quando podiam mandar e desmandar a torto e a direito, porque a gente não tinha amor próprio, como fizeram alguns analistas recentemente. Os tempos são outros. Hoje o Brasil é grande e respeitado lá fora, apesar de uma série enorme de graves deficiências que todos estão carecas de saber. Esse teatro de bufonaria não podia ficar barato e o secretário já foi até chamado de vagabundo por um representante do alto escalão brasileiro.
Essa Copa é um absurdo do começo ao fim e não poderia acontecer num país cheio de mazelas. Agora, alguém acha realmente que a essa altura do campeonato, os magnatas da Fifa vão aproveitar que têm até junho para decidir, e cancelar a Copa no país? Em que outro lugar do mundo eles encontrariam uma classe política e empresarial tão manipulável, tão benevolente e tão disposta a jogar rios de dinheiro público no ralo das obras faraônicas superfaturadas? A se observar a justa indignação das classes políticas, é como se as autoridades brasileiras dissessem: “levem nosso dinheiro, imponham as suas regras, critiquem nossa morosidade, mas deixem minha bunda em paz!”. A Copa do Mundo no Brasil é uma mina de ouro para a Fifa e para meia-dúzia de brasileiros que controlam o país. No fim das contas, a única bunda que sofre com todos esses absurdos é a nossa.