25 de janeiro de 2012

Professores japoneses que não se curvam ao Imperador

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Já faz algum tempo que anda circulando pelo Facebook uma frase que indica um suposto comportamento cultural no Japão e que serviria para levantar o moral dos professores brasileiros. Acontece que esta frase, replicada por tanta gente, não condiz com a realidade — e o pior: se condissesse, ainda assim não deveria servir de exemplo.
 

Eis a mensagem em questão:
“No Japão, o único profissional que não precisa se curvar diante do imperador é o professor, pois segundo os japoneses, numa terra que não há professores não pode haver imperadores”.
Esse boato começou esse ano na rede social do Brasil, e de repente virou uma grande verdade. Mas — eis o grande mal do brasileiro — parece que mais uma vez as pessoas estão engolindo e replicando uma mentira sem refletir sobre o assunto, fato que não é nenhuma novidade no Facebook.
 
É fato altamente verificável que em muitos outros países, a profissão de professor é respeitada, valorizada e admirada pela população e pelos governantes. Certamente é o caso do próprio Japão. Mas esse boato de que é o único profissional que “não precisa se curvar diante do Imperador” é um tanto problemática. Primeiro, porque eu nunca ouvi falar dessa situação, e esse rumor só começou a existir há poucas semanas em blogs e algumas poucas páginas brasileiras, cuja fonte é... o próprio Facebook. Fiz uma pesquisa em sites de língua inglesa e espanhola, e nada comprova essa situação; e segundo: bem, esse é o problema mais sério...
 
Segundo o texto, a justificativa dos professores não precisarem se curvar diante do Imperador é porque “numa terra que não há professores não pode haver imperadores”. Isso tem sido divulgado como um ponto positivo a nosso favor...
 
Obama_bowing_in_Tokyo Se o “imperador” americano se curva diante do imperador japonês, imagine o professor
 
Não sei se mais alguém percebeu o mal-estar dessa afirmação, mas o que está bem explicito ali é: “se não fossem os agentes do ensino em sala de aula pregar as maravilhas do nosso Império, a bondade, a lealdade e a firmeza do nosso querido Imperador, se não fosse por eles que desde cedo implantam nas cabeças de nossas crianças a ideologia do império japonês, eu não poderia estar sentado neste trono agora, obrigado professores!
 
Em nenhum lugar do planeta tal atitude deveria ser louvada, mas no Brasil... a gente vai passando adiante as coisas sem nem ao menos pensar sobre o assunto...
 
É claro que o ato de ensinar não prima pela neutralidade. Todo professor carrega consigo os seus valores e as ideias de seu tempo. Também já foi o tempo da escola tradicional onde o aluno assimila passivamente os ensinamentos do mestre. Mas uma postura francamente direcionada para a louvação de um sistema de governo, o Império japonês ou próprio imperador, não me parece algo digno de exemplo, nem que seja para evitar uma leve inclinação de cabeça.
 
Aparentemente é uma questão sem maior importância, mas esse é um exemplo modelar de como boatos e pensamentos irrefletidos e replicados podem criar uma verdade que não tem a menor base de credibilidade, e que, ainda pior, podem esconder uma característica nociva. Pense nisso.

14 de janeiro de 2012

Occupy Wall Street. A batalha não acabou.

OCCUPY WALL STREET BLOOMBERG 13-10-11 2011 acabou, mas 2012 começou e ao contrário do que se poderia imaginar, o desejo de mudança no mundo continua. Todos os sprays de pimenta, violências e prisões arbitrárias não são suficientes para destruir o sonho de um mundo livre desse sistema absurdo que tem em Wall Street o seu centro nervoso. Continuamos acompanhando os passos das manifestações mundiais, já que por aqui, como já dizia o general Médici, “no noticiário da Globo, o mundo está um caos, mas o Brasil está em paz."

Pensou que eu tinha esquecido do movimento “Ocupe Wall Street” não é? De jeito nenhum. Seus membros também não esqueceram. Estão firmes na luta por um mundo mais justo e menos desigual. A mídia oligárquica de lá é farinha do mesmo saco da mídia oligárquica de cá, e assim como nossa imprensa faz de tudo para boicotar o livro Privataria Tucana, que é um golpe na boca do estômago das classes dominantes brasileiras (incluindo boa parte das famiglias donas de jornais, revistas e emissoras de televisão) a imprensa deles passou o ano todo de 2011 tentando boicotar o movimento legitimamente social (o que alguns críticos mais conservadores sempre confundem com “socialista”). Aliás, 2011 foi um ano para entrar para a história. Talvez historiadores do futuro, ao relatarem a virada para o século XXI, digam que ela começou de fato em 2011, do mesmo modo que para Hobsbawm, o século XX começou em 1914. Ano passado, o mundo virou de cabeça pra baixo com as revoluções da Primavera Árabe e com os protestos em torno do mundo, tudo isso potencializado por uma crise do capitalismo de proporções colossais. Grande parte das pessoas começou a perceber o quanto elas tem vivido uma mentira, enquanto os manipuladores de marionetes mundiais controlam o mundo.

A maior surpresa do ano passado foi, sem dúvida, o movimento Ocupe Wall Street. Jamais se poderia imaginar que bem no coração do capitalismo mundial, poderia haver milhares de pessoas indignadas com o sistema que seu governo apregoa pelo mundo como o melhor, o único e o mais justo. Movimento puramente espontâneo, nascido da indignação popular. Esse ano os protestos continuam, e eu já vou adiantando aqui que amanhã (15/1), dia de nascimento de Martin Luther King Jr. haverá uma manifestação mundial. Uma vigília com velas está programada, no intuito de unir simbolicamente todas as pessoas no pensamento de mudar o mundo.

A partir das 19 horas, onde quer que estejamos, seja no trabalho, em casa, na rua, devemos acender uma vela, numa mensagem de esperança e confiança na força da mobilização mundial. Diversos países estão organizando vigílias. É um ato meramente simbólico, mas que mostra a força de mobilização a que podemos chegar.

Eu vou acender a minha. Para muitos, é um ato inócuo, mas para mim, é um puro ato simbólico. E este símbolo significa que eu estou em paz com a minha consciência, sabendo de que lado eu estou na história. Acender uma vela pode não derrubar governos, nem mudar as desigualdades diretamente, mas mostra a intenção de ver o mundo mudar, de ver a justiça vencer a mentira, a igualdade vencer os privilégios. Toda utopia é uma utopia, até o dia em que se realiza.

11 de janeiro de 2012

A lavagem de dinheiro e a corrupção chegam em José Serra

jose_serra Esta é a última parte do relato de um assalto ao patrimônio público brasileiro. Até aqui, relembramos como foi o escândalo das privatizações, por si só algo digno de revolta. Depois, mostramos como é feita a transação em paraísos fiscais, que os tucanos utilizaram para enriquecer e viver no luxo. Agora vamos mostrar como toda essa sujeira chega no ex-candidato a presidente da República, José Serra -- uma das (ex-)cabeças coroadas do tucanato -- através de seus parentes e amigos.
 

Preciado, o primo de Serra que ama o (Banco do) Brasil

O empresário espanhol naturalizado brasileiro Gregorio Marín Preciado, casado com uma prima do tucano José Serra, costuma propor brindes em suas festas dizendo “Viva el Brasil!”. Talvez ele devesse dizer, na verdade, “Viva el Banco do Brasil!”. E não é pra menos. Você também amaria um país cujo banco nacional abatesse de forma amiga R$ 448 milhões em pendências financeiras suas, convertendo para R$ 48 milhões -- uma redução de 109 vezes o valor da dívida... Foi a proeza que conseguiu Preciado na época em que o PSDB governava o país. Em gratidão, Preciado doou quase R$ 90 mil para a campanha do primo ao Senado. Uma mão lavando a outra.
 
Mesmo inadimplente e com uma dívida monstruosa, Preciado teve mais um empréstimo aprovado pelo banco. Consegue R$ 2,8 milhões. Quando começou a farra das privatizações no Brasil, o primo de Serra entrou na brincadeira. Montou o consorcio Guaraniana, que adquiriu três estatais de energia elétrica do nordeste. Mais uma vez, lá estava Ricardo Sergio de Oliveira colocando sua influência junto ao Previ e ao BB em cena para favorecer com bilhões de Reais o consórcio do amigo.
 

A filha e o genro de Serra aprendem muito bem como internar dinheiro sujo no país

Alexandre-Bourgeois-Veronica-Serra Verônica Serra -- filha de José Serra -- e seu marido, Alexandre Bourgeois (imagem à esquerda), se conheceram nos Estados Unidos nos anos 90. Logo se casaram e tornaram-se sócios na IConexa S.A. em 1999. Essa empresa tinha a finalidade de receber dinheiro procedente da IConexa Inc., uma offshore sediada nas Ilhas Virgens Britânicas. O acionista e procurador da IConexa Inc. é Alexandre Bourgeois, que assina nas duas empresas — a que envia o dinheiro, e a que recebe no Brasil. Parece que Verônica Serra e seu marido aprenderam direitinho com o ex-tesoureiro do pai como trazer de volta ao país dinheiro lavado.
 
Em 2001 Verônica abre outra empresa, a Decidir.com.inc em sociedade com a xará Verônica Dantas, irmã do banqueiro Daniel Dantas, do banco Opportunity. A empresa passa a atuar com um capital de 5 milhões de dólares, investido pelo grupo Citicorp, ligado a Ricardo Sergio, e pelo próprio Opportunity. A ligação das duas Verônicas é negada até hoje pela filha de Serra, ambas  denunciadas por expor o sigilo bancário de 60 milhões de brasileiros em 2001, mas Amaury Ribeiro traz em seu livro novos documentos que provam a sociedade.
 
Pouco depois, Decidir é transformada em offshore e se muda de Miami para... as Ilhas Virgens Britânicas, é claro, e rebatizada como Decidir International Limited. Atua como uma “empresa-ônibus”, cuja finalidade é transportar dinheiro sem origem justificada entre contas bancárias pelo mundo. A offshore Decidir interna dinheiro na Decidir do Brasil. De uma só vez, a offshore derrama R$ 10 milhões na sua homônima brasileira em 2006. Apesar de todo esse investimento, a empresa vai muito mal. Logo no primeiro ano a Decidir brasileira acumula um prejuízo de R$ 1 milhão. Em compensação, a dona da empresa, Verônica Serra, vai muito bem. Ela compra uma casa de praia em Trancoso, na Bahia, área de luxo, e também uma mansão numa área nobre de São Paulo por R$ 475 mil, na qual José Serra mora até hoje.
 
O genro do ex-candidato à presidência do Brasil também aprendeu com Ricardo Sergio o caminho das pedras. Alexandre Bourgeois é dono, além da IConexa Inc., também da Vex Capital Inc., ambas abrigadas no paraíso fiscal do Citco Building, nas Ilhas Virgens Britânicas. Ambas as empresas internam R$ 8 milhões em duas outras empresas abertas em São Paulo pelo próprio genro de Serra, a Orbix AS e a Superbid.com.br, que mais tarde vai se transformar na já citada IConexa S.A.
 

Conclusão

amaury-ribeiro Esse foi um pequeno relato da série de crimes contra o patrimônio público, contra a Receita Federal, e principalmente contra a ética política, cometida por uma gangue de políticos do alto escalão do PSDB na época das privatizações. É preciso reverenciar a pesquisa e agradecer ao jornalista investigativo Amaury Ribeiro Jr (imagem à direita) pelos 10 anos de trabalho árduo, paciente, minucioso, para desvendar os caminhos da sujeira e da corrupção numa das eras mais negras da história brasileira. Numa área em que tudo é feito para mascarar a procedência e as negociatas das propinas e da corrupção, o autor conseguiu mostrar de forma clara como funcionou a lavanderia montada por membros do PSDB e seus familiares durante a farra das privatizações. O autor aponta ainda a solução simples para que coisas como essas jamais voltem a acontecer no Brasil: bastava o governo proibir a sociedade de offshores com firmas brasileiras, caso não fosse identificado o nome de seus verdadeiros donos em seus balanços contáveis. Mas ainda assim é pouco. É preciso punir os casos já descobertos, e por isso é crucial a sociedade brasileira exigir e acompanhar a implementação da CPI da Privataria, com previsão para os próximos meses.
 
Infelizmente a mobilização nacional não contará com o apoio da mídia brasileira. Mas ao menos, se você ainda tinha dúvidas, este silêncio constrangedor serviu para expor de maneira insofismável, de uma vez por todas, de que lado a imprensa oligárquica neste país, representada por empresas como a Folha, as Organizações Globo, a Revista Veja, o Estadão, entre outros, está. Espero que os próximos anos sejam de mudança de mentalidade no Brasil. A mudança, aliás, já começou. Os participantes desse banditismo nacional e a mídia estão acuados, sem saber o que fazer a respeito, por conta da força da divulgação dos blogs e das redes sociais. Nós sabemos o que fazer.
 

A Privataria Tucana, maior escândalo de corrupção da história brasileira.

Ricardo Sérgio de Oliveira mostra aos tucanos como lavar dinheiro sujo

Fonte: RIBEIRO JR, Amaury. A privataria tucana. Ed. Geração Editorial. São Paulo, 2011

8 de janeiro de 2012

Ricardo Sérgio de Oliveira mostra aos tucanos como lavar dinheiro sujo

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Dando sequência no relato de enriquecimento ilícito, propinas, corrupção e entrega do patrimônio público baseado no livro A Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Jr, vamos agora mostrar como foi montado todo o esquema, que envolvia a abertura de empresas em paraísos fiscais para trazer dinheiro lavado do exterior. Também vamos mostrar quem era o homem forte das privatizações no governo do PSDB que montou o esquema da lavagem de dinheiro: o ex-tesoureiro das campanhas a presidente de Fernando Henrique Cardoso e José Serra, Ricardo Sérgio de Oliveira (imagem acima).

 

Corrupção, propinas e lavagem de dinheiro

 
lavagem-de-dinheiro
 
Um paraíso fiscal é atrativo porque tem poucas taxas e poucos impostos, mas o principal motivo que as pessoas têm para depositar dinheiro em lugares como esse, é o anonimato garantido. Lá, as empresas têm o tamanho de uma mera caixa postal, e as contas em bancos não identificam os donos a não ser por uma série de números. É o lugar preferido para a lavagem de dinheiro sujo. Para isso, basta abrir uma empresa de fachada, conhecida como offshore, cuja finalidade é movimentar o dinheiro do narcotráfico, da corrupção, de propinas, etc sem que se descubra sua origem.
 
O modus operandi dos fraudadores e corruptos consiste em abrir uma offshore num desses paraísos fiscais, para receberem depósitos com procedência desconhecida. Então abrem outra empresa no Brasil, que vai receber o dinheiro vindo da offshore, disfarçado como “investimento” de uma empresa estrangeira em outra nacional. Curiosamente, o que acontece com frequência é uma mesma pessoa assinar nas duas pontas do negócio: como procuradora da empresa estrangeira e como dona da empresa nacional que vai receber o “investimento”. Fraude na certa. Essa processo é apenas e tão somente o retorno, devidamente lavado, do dinheiro sujo da corrupção, que estava hibernando no paraíso fiscal.
 

Ricardo Sergio de Oliveira, tesoureiro do PSDB, inventa o esquema

“Na hora que der merda, estamos juntos desde o início”
Ricardo Sergio de Oliveira a Mendonça de Barros
 
Desde que começaram as investigações, o jornalista Amaury Ribeiro notou que muitos tucanos e seus parentes usaram o mesmíssimo método narrado anteriormente. Quem mostrou a eles o caminho das pedras foi o ex-tesoureiro das campanhas de Serra e FHC, Ricardo Sergio de Oliveira.
 
 
Localizada no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas, o Citco Building é o escritório encarregado de lavar dinheiro sujo através das offshores. Esta instituição ajudou muitos tucanos e seus familiares a repatriar propinas das privatizações. Dentre eles, Verônica Serra, filha de José Serra; seu marido Alexandre Bourgeois; Gregório Marín Preciado, casado com uma prima de Serra; o próprio tesoureiro do PSBD e outro figurões do partido, conforme veremos no último post dessa série. Amaury Ribeiro relata:
Todos mandaram dinheiro para o mesmo escritório [o Citco Building]. A grande maioria enriqueceu pós-privataria... Uma década depois da avalanche privatista, são proprietários de empresas no Brasil e no exterior, possuem gordas contas bancárias, moram em mansões e são donos de terras.
Como colegas do Citco das Ilhas Virgens, este distinto grupo da alta sociedade de tucanos paulistas tem outras pessoas, digamos, “menos distintas”, como João Arcanjo Ribeiro, chefão do crime organizado do Mato Grosso; o traficante Fernandinho Beira-Mar e o corrupto presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Todos eles colegas de escritório.
 
Ricardo Sergio foi o grande arquiteto dos consórcios que disputaram o controle das empresas estatais que foram privatizadas no governo FHC. Foi indicado em 1995 por José Serra para dirigir a área internacional do  Banco do Brasil (BB), o que facilitou o seu trânsito em meio às maiores fortunas do país. Do seu gabinete ele articulava a participação do banco e dos fundos públicos em consórcios privados dos amigos. Ou seja, “dinheiro público financiava a alienação de empresas públicas”. Depois de vencidos os leilões, as empresas vencedoras expressavam sua gratidão através de propinas e de financiamento das campanhas eleitorais do PSBD. E aí que entravam as offshores.
vale
Dois pequenos exemplos ajudam a ilustrar essa promiscuidade:
 

Propina para vender a Vale

 
Em 1997 o empresário Benjamin Steinbruch, diretor do grupo Vincunha, arrematou a Vale por 3,3 bilhões. A empresa foi privatizada de forma criminosa: atribuiu-se valor zero às suas imensas reservas de minério de ferro, capazes de suprir a demanda mundial por 400 anos. O consórcio de Steinbruch contava com o aporte de dinheiro da Previ, fundo de pensão dos funcionários do BB. A influência de Ricardo Sergio foi fundamental, e sem a sua ajuda, o consórcio não venceria. Qual foi o custo dessa mãozinha amiga? Segundo o próprio Steinbruch, “R$ 15 milhões em propinas em nome de tucanos”.
 
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Propina para vender a Telebrás

 
Em 1998, o megaempresário Carlos Jereissati (imagem acima), irmão do ex-senador tucano Tasso Jereissati (PSDB-CE) venceu o leilão de privatização da Telebrás. Através do consórcio Telemar, ele adquiriu a Tele Norte Leste. Por conta disso, Ricardo Sergio recebeu propina de Carlos Jereissati através da Infinity Trading, com sede nas Ilhas Cayman, de propriedade de Jereissati, que depositou US$ 410 mil em favor da Franton Interprises, de Ricardo Sergio, no MTB Bank.
 
No próximo e último post, vamos ver como a sujeira, a corrupção e a lavagem de dinheiro vai chegando cada vez mais perto do ex-governador paulista e ex-candidato a presidente do Brasil, José Serra, através dos seus familiares.

  1. A Privataria Tucana, maior escândalo de corrupção da história brasileira (1/3).

  2. A lavagem de dinheiro e a corrupção chegam em José Serra (3/3)

4 de janeiro de 2012

A Privataria Tucana, maior escândalo de corrupção da história brasileira.

 A Privataria Tucana
 
Tem início a década de 90. A ideologia do neoliberalismo, formulada pelo Consenso de Washington começa a infestar os governos do mundo, e seus resultados podem ser acompanhados hoje, mais de 20 anos depois, com a destrutiva crise econômica mundial, que desde 2008 joga países inteiros na bancarrota. Faz, porém, um estrago bem maior nas frágeis economias da América Latina.
 
A Nova Ordem Mundial, assim batizada pelo então presidente norte-americano George Bush, teve nas privatizações de empresas estatais a sua maior bandeira. No Brasil, Fernando Collor falhou em levar adiante o projeto das classes dominantes. Coube a Fernando Henrique Cardoso e sua turma do PSDB fazer o trabalho sujo das privatizações para os americanos a partir de 1995, com todo o apoio da imprensa. Mas eles não sairiam disso de mãos vazias. Não bastasse a sujeira que foi o modelo de privatização à brasileira — uma mera entrega do patrimônio público aos amigos empresários nacionais e estrangeiros — vários tucanos de alta penugem e seus familiares estiveram envolvidos em fraudes na composição dos consórcios que disputavam as empresas estatais, bem como em recebimento de propinas, evasão de divisas e corrupção. É essa história que é contada em todos os detalhes e com farta documentação no livro A Privataria Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Jr.
 
Pra você, que ainda não leu o livro, vai começar aqui o relato resumido nos principais fatos do maior escândalo da história recente brasileira. A partir de hoje, o Panorâmica Social traz os fatos mais importantes contidos no trabalho de 10 anos de investigação do jornalista. Os fatos que serão narrados em 3 postagens aqui não são fáceis de digerir, nem é uma leitura agradável aos olhos, mas trata-se de um serviço de utilidade pública e plena confiança na política e na Justiça do nosso país, que não podem deixar todos os crimes cometidos pelos membros do PSDB impunes.
 
Vamos aos fatos.
 

Relembrando o escândalo das privatizações brasileiras

“É preciso dizer sempre, e em todo lugar, que este governo não retarda privatização, não é contra nenhuma privatização e vai vender tudo o que der para vender”
Fernando Henrique Cardoso
 
Fazendo um levantamento em cartórios de títulos, CPIs e Juntas Comerciais, Amaury Ribeiro conseguiu reunir dezenas de documentos que atestam todas as afirmações contidas no livro e que serão relatadas aqui. Primeiro vamos relembrar alguns dados sobre as criminosas privatizações brasileiras.
 
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Desde 1995, Fernando Henrique Cardoso dava continuidade ao programa federal de desestatização. De fato, nenhuma empresa, a priori, estava a salvo de ser repassada ao controle privado dos consórcios que, como veremos, foram montados de forma teatral com dinheiro público para favorecer os amigos dos tucanos.
 
Em 1999, havia um plano para privatizar os bem sucedidos Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. Num memorando de 8 de março do mesmo ano, no item que trata da “venda de componentes estratégicos”, podia-se ver estampada a intenção do governo FHC: “transformações das duas instituições em bancos de segunda linha”.
 
Para conseguir convencer a opinião pública brasileira de que vender patrimônio da União era o melhor que se podia fazer, a imprensa, esta velha aliada dos interesses das classes dominantes, martelou nas cabeças das pessoas a campanha difamatória contra tudo que fosse empresa e serviço público. As estatais foram transformadas em monstros inúteis que deveriam ser curados, transmutados em belos príncipes nas mãos dos empresários amigos. “Era preciso preparar o clima para vender as estatais”. Muita gente, até hoje, cai nessa conversa.
 
 
Em vez das maravilhas prometidas pelo governo e amplificadas pelas manchetes da imprensa, a verdade é que o Estado teve sua dívida aumentada, porque para tornar as empresas mais atraentes para os futuros donos privados, o governo usou dinheiro público para, pouco tempo antes das privatizações, investir em melhorias, coisa que a população sempre exigiu mas que nunca recebeu do governo. Quando FHC fez, foi pra vender.
 
As tarifas dos serviços públicos foram sofrendo progressivos reajustes, para que as empresas privatizadas se tornassem lucrativas e para que o ônus dos aumentos ficasse sobre o governo, não sobre elas. No caso das tarifas telefônicas — serviço sempre lembrado pelos privatistas e seus ingênuos defensores como exemplar — o valor subiu 500 por cento desde 1995 e é hoje uma das mais caras do planeta. Ah, mas pelo menos hoje, todo cidadão tem o direito de pagar essa tarifa...
 
Outros casos ajudam a ilustrar o que foi a inacreditável entrega do patrimônio público no governo PSDB:
 

Caso CSN:

Dos R$ 1,05 bilhão pagos pela CSN, maior siderúrgica da América Latina, o total de R$ 1 bilhão era formado por moedas podres (cujo valor de mercado é bem inferior ao valor nominal). O que entrou de fato nos cofres públicos foi a vergonhosa bagatela de R$ 38 milhões.

Caso Fepasa:

 
Antes de privatizar a Ferrovia Paulista S.A. (Fepasa) Mario Covas do PSDB demitiu 10 mil funcionários e fez o contribuinte de São Paulo assumir os custos dos 50 mil aposentados da empresa.
 

Caso Banerj:

O ex-governador tucano do Rio de Janeiro, Marcelo Alencar, faz algo ainda mais absurdo. Privatizou o Banerj, “doando-o” ao Itaú por 330 milhões de Reais. Antes, demitiu 6,2 mil funcionários do banco estadual. Por conta disso, ele precisava de dinheiro pra pagar todas as indenizações, aposentadorias e o plano de pensões dos servidores. Foi então que pegou um empréstimo de 3,3 bilhões de Reais, dez vezes mais do que arrecadou vendendo o banco! Dez vezes? Na verdade vinte vezes mais, porque o Estado do Rio só recebeu R$ 165 milhões. O resto era formado de moedas podres com metade do valor de face.
 
O resultado dessa brincadeira toda é que no ano de 1998 o Governo do PSDB e a imprensa oligárquica alardeavam que as privatizações haviam arrecadado RS 85,2 bilhões. Só que o jornalista econômico Aloysio Biondi denunciava em seu famoso livro Brasil Privatizado, que para arrecadar essa soma, Fernando Henrique Cardoso teve que gastar R$ 87,6 bilhões em investimentos, indenizações, etc. Ou seja, na verdade, nós pagamos para vender nossas empresas.
 
Esses foram alguns exemplos da farra das privatizações. Estes dados não são novos, e não faria sentido relançá-los agora. Porém, o livro de Amaury Ribeiro é muito mais do que isso: ele traz a denúncia de como membros do PSDB e seus familiares enriqueceram durante as privatizações, através de propinas e operações financeiras em paraísos fiscais. É o que vamos ver na próxima postagem.
 
  1. Ricardo Sérgio de Oliveira mostra aos tucanos como lavar dinheiro (2/3) sujo

  2. A lavagem de dinheiro e a corrupção chegam em José Serra (3/3)