O político brasileiro que se tratou no hospital público

Nos tempos em que políticos brasileiros correm ao Sírio-Libanês para tratarem seus problemas, lembramos aquele que recusou tal privilégio, indo se tratar no hospital público


Nesses tempos em que os políticos vão se tratar  no Sírio-Libanês e as pessoas sugerem que tratem de seus problemas em hospitais públicos para verem o que é bom pra tosse, o que elas pensariam se soubessem que um deles realmente fez isso? Diriam “ah, você está brincando não é? Político brasileiro se tratando em hospital público? Conta outra...”. Pois foi exatamente isso o que fez o sociólogo e deputado federal Florestan Fernandes.

Neoliberalismo destruidor de serviços públicos

Hoje em dia há campanhas pelas redes sociais pedindo para que políticos sejam atendidos pelo SUS. Demagogias ou sinceridades à parte, o fato é que o sistema público de saúde no Brasil é bastante falho.

Há um quarto de século, quando o governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso sucateou todo o serviço público em nome do estado mínimo (nessa época órgãos de imprensa, engajados no projeto neoliberal, passaram a diminuir o Estado até no nome, grafando-o com “e” minúsculo), a coisa era ainda mais alarmante.

Pois foi justamente nessa época que Florestan Fernandes foi diagnosticado com uma hepatite, adquirida numa transfusão de sangue, em 1995.

Florestan, da Academia para o Congresso

Florestan nasceu na cidade de São Paulo em 1920, filho de uma lavadeira e de pai desconhecido. Logo teve que trabalhar como engraxate e garçom desde os seis anos, entre outras coisas, mas se interessou pelos estudos. Licenciou-se pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras na Universidade de São Paulo-USP em 1943 depois de muitas dificuldades.

Nos anos da ditadura foi preso e exilado político. Ao voltar ao Brasil no período pós-ditadura, elegeu-se deputado federal constituinte em 1986 pelo PT, tendo papel de destaque na defesa da Educação pública de qualidade.



Florestan ficou marcado pela defesa da população pobre, não apenas nos trabalhos acadêmicos ou nos debates parlamentares, mas também no dia a dia. Tinha aversão a privilégios, e fazia questão de lembrar suas origens humildes.

E foi assim até os seus últimos dias de vida, quando era bastante reconhecido em todo o mundo como um dos maiores sociólogos do Brasil e um político de renome nacional.

Um político diferente

Em 1995, depois de uma transfusão de sangue, Florestan contraiu hepatite C, tendo ficado bastante debilitado. Depois de uma severa crise hepática, ele foi sozinho buscar atendimento num hospital público.

Seu filho o encontrou mais tarde na fila de atendimento, do mesmo jeito que qualquer pessoa “comum”. Apesar dos apelos, Florestan se recusou a sair da fila, sendo convencido a muito custo por um médico a ser atendido imediatamente.



Mais tarde, em estado mais grave, o médico afirmou que a única solução seria um transplante de fígado. Fernando Henrique Cardoso, que fora seu aluno (fato que causaria grande desgosto a Florestan anos depois quando FHC tornou-se presidente) ofereceu até a possibilidade de um tratamento nos Estados Unidos.

Florestan recusou, alegando que tinha muitas pessoas na fila antes dele. Só aceitaria se fosse para todos.

Florestan conseguiu afinal ser operado no Hospital das Clínicas, mas seu transplante de fígado foi mal sucedido. Florestan veio a falecer seis dias depois, aos 75 anos de idade. Seu legado como sociólogo e como político já era consagrado, mas seu exemplo de coerência coroou uma vida dedicada à causa dos desfavorecidos, fator que era refletido em seus trabalhos acadêmicos e em sua luta pela educação.

Quem dera que nosso país contasse com mais homens dessa honradez, pois assim, quem sabe, esses exemplos de vida não fossem tão raros.

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O político brasileiro que se tratou no hospital público
Nos tempos em que políticos brasileiros correm ao Sírio-Libanês para tratarem seus problemas, lembramos aquele que recusou tal privilégio, indo se tratar no hospital público
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