30 de junho de 2011

O Conservadorismo Brasileiro

bandeira do império

O Brasil tem uma imagem de país de vanguarda, reino de certa liberalidade, onde as pessoas são felizes e podem fazer o que bem entendem, ser elas mesmas, amando e vivendo do jeito que quiserem. Gostamos de mostrar ao mundo as mulheres brasileiras em seus biquínis ousados na praia, como símbolo deste espírito progressista. Mas será que somos realmente um país assim?

Temos uma melhor compreensão do que é ser conservador se prestarmos atenção na fase em que o conservadorismo esteve mais latente: durante a ascensão dos ideais iluministas do século XVIII, na França. Quando pensadores iluministas lutavam para soltar a sociedade das amarras do atraso, da opressão, da tradição nobiliárquica e religiosa do Antigo Regime, os senhores do clero e da nobreza que gozavam dos maiores privilégios se mexeram, num movimento de reação para a auto-preservação contra a ascensão do Terceiro Estado. Segundo a Mestra e Doutora em História pela UFF, Maria Bernadete Oliveira de Carvalho, “o conservadorismo como estrutura consciente de pensamento segue essa lógica de formação, pois ele é reação à transformação”. A burguesia francesa derrubou o Antigo Regime em décadas de muita luta, mas aliou-se mais tarde aos próprios conservadores contra o povo, quando os trabalhadores lutavam pela prometida Igualdade, que nunca chegou. Mantiveram assim as antigas bases tradicionais da sociedade, tornando-se, a própria burguesia, conservadora, agora que alcança o poder político.

Formou-se de maneira bastante similar no Brasil, o bloco da elite conservadora, que é representado aqui, de modo geral, pelo clero católico, os latifundiários herdeiros dos colonos portugueses, os burgueses industriais, grande parte da mídia e as Forças Armadas. É interessante notar que, em grande medida, a classe média, em todos os seus segmentos, é cooptada pela ideologia conservadora desta elite brasileira contra a população das classes mais baixas, sob o lema lançado nos anos 30 pelo fascista tupiniquim aspirante ao título de Hitler dos trópicos, Plínio Salgado: “Deus, Pátria e Família”.

Vemos, hoje em dia, crentes, políticos e militares serem contra o PL 122 ou ao PNDH-3, e podemos compreender melhor agora a raiz em comum do seu pensamento. “Isto vai contra os ensinamentos de Deus”... “É um perigo à Pátria”... “Mas é um atentado aos valores da Família”... Reparem, são sempre estas as palavras-chave, que são capazes de unir numa mesma ideologia segmentos tão diferentes da sociedade: fazem um político fascista como um Jair Bolsonaro, por exemplo, ser capaz de marchar nas ruas de mãos dadas ao lado de um pobre negro e favelado, se este for cristão, embora não tenham mais nada em comum a não ser o preconceito conservador, e devessem estar de lados opostos da trincheira político-ideológica. Como já definiu bem Tim Maia numa frase que lhe é atribuída: “no Brasil, prostituta goza, traficante cheira, cafetão tem ciúmes… e pobre é de direita.”

Quando vejo este lema ser evocado em algum lugar, já fico logo ressabiado. Lembro da Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade, uma série de passeatas organizadas pela Igreja Católica contra o presidente reformista João Goulart em 1964, usada como justificativa pelas Forças Armadas para o fatídico Golpe Militar.

“Deus, Pátria e Família”. Mas que Deus é esse? É o deus da Igreja Católica, que é a base secular da alienação esociedade-acucareira1 domesticação dos povos em favor das classes dominantes, desde a Idade Média até hoje; que apoiou a escravidão, que diz que o sacrifício do pobre é dignificante e que apóia golpes militares. Que Pátria é essa? É a pátria que herdamos dos portugueses, uma pátria de colonos e colonizados, da Casa Grande e da Senzala, do senhor e do escravo, que as Forças Armadas se arrogaram o direito de tutelar desde o Golpe do Marechal Deodoro em 1889. Mudar para permanecer a mesma coisa. Mas que Família é essa? É a família cristã, burguesa, rígida, patriarcal e machista, que se opõe a qualquer tipo de visão que não seja a sua. Que luta contra o casamento homossexual, a adoção de crianças por estes casais, que se diz moralmente superior, que torce o nariz para matrimônios interraciais.

O Brasil vive sob esta ideologia desde a sua fundação, e estas características começam a florescer na veia agora, na medida em que grupos sociais de movimentos de minorias começam a questionar este comportamento, como os movimentos feminista, homossexual e negro. Daqui a 10, 15 anos, vamos ver se a sociedade brasileira de fato mudou, ou se os conservadores terão vencido de novo.

8 de junho de 2011

Obrigado Petkovic

pet
Quem não gosta de futebol (acredite, há gente assim no Brasil) tem dificuldade de entender a emoção que o esporte — capaz de fazer marmanjos chorarem feito crianças — causa nas pessoas. Não conseguem comprender a idolatria eterna a ídolos do passado e do presente, que são sempre homenageados por seus fãs. O Flamengo é um clube repleto de ídolos históricos de uma torcida exigente e apaixonada, e nossa galeria acaba de ganhar mais um ícone eterno: Petkovic


Não são muitas as ocasiões em que eu me permito chorar em público. Talvez resquício de algum orgulho machista, fruto de uma criação do tipo “homem não chora”. Nos últimos 10 anos, curiosamente, aconteceu apenas duas vezes, e tudo por causa de um jogador: Dejan Petkovic.
27 de maio de 2001, eu em casa com a família, assistindo ao último jogo da final entre Flamengo e Vasco, pela terceira vez em três anos seguidos. O Flamengo precisava vencer por dois gols de diferença, e o placar marcava 2 x 1 para gente, faltando, portanto, mais um gol para o título. Aos 40 minutos do segundo tempo, Fabiano Eller do Vasco faz falta no Edílson perto da grande área. Eu me agarrei à almofada, fechei os olhos, não queria ver... Pet vai bater a falta...


Depois do gol, corri pela casa feito louco, sem saber o que fazer.. .joguei a almofada pro alto, aos gritos, depois desabei no sofá e chorei, chorei de soluçar... incrível, o Flamengo ia ser tricampeão com um gol fantástico aos 43 do segundo tempo!! Pet conquistou ali o coração da maior torcida do país.
Depois disso, alguns desentendimentos com o clube e os colegas fizeram o Pet ir embora. Rodou por diversos clubes, mas nunca se firmou em lugar nenhum. Em 2009, aos 37 anos e debaixo de desconfiança, voltou ao Flamengo para brilhar na conquista do hexa-campeonato brasileiro. Este ano, fora dos planos do novo treinador por causa da idade, Pet treinava à parte do grupo, e resolveu encerrar a carreira.
Neste fim de semana, 10 anos depois do histórico gol de falta, chorei de novo. Lágrimas caíram ao ver Petkovic no seu jogo de despedida do futebol, por tudo o que este jogador representou a milhões de pessoas com seu talento, sua classe e seus golaços nas duas passagens pelo rubro-negro. Encerrava-se assim o ciclo de um dos maiores jogadores do Brasil dos últimos anos. Muito obrigado Pet, por tudo o que você fez pelo Flamengo. A nação não vai te esquecer jamais.


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1 de junho de 2011

Poder econômico vence mais uma no Brasil: presidente da Telebrás é demitido

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Um dos maiores defensores da banda larga a preços populares neste país, o presidente da Telebrás, Rogério Santanna, acaba de ser demitido pelo Ministro das Comunicações, Paulo Bernardo. Rogério mexia com interesses econômicos cruciais das empresas de internet, que oferecem um dos piores e mais caros serviços do planeta e não aceitavam a concorrência da Telebrás. Trata-se de mais uma atitude reprovável deste governo.


A internet brasileira está entre as piores e as mais caras de todo o planeta. Além disso, somente 5 em cada 100 brasileiros possuem acesso à banda larga. Por conta disso, o governo Lula resolveu criar ano passado o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) que tinha a intenção de fazer a reativada Telebrás entrar neste mercado, oferecendo banda larga de qualidade a R$35,00. Com isso, determinaria novos parâmetros de preço, além da expectativa de alcançar a marca de 40 milhões de casas até 2014. Mas o poder econômico das empresas do setor falou mais alto e acaba de derrubar o presidente da estatal, Rogério Santanna, em mais uma demonstração da fraqueza do governo Dilma.
Rogerio-Santanna Enquanto que no exterior a banda larga há muito tempo deixou de ser um luxo, no Brasil, até bem pouco tempo, um mísero mega de velocidade custava 80 Reais por mês pelo serviço da Oi no Rio de Janeiro. No Amazonas, este valor chegava a 400 Reais. Para se ter uma ideia, em dados de 2009, na França, o megabite saía a $0,84 centavos de dólar; no Japão, $0,53; Coréia do Sul, $0,35; no Brasil, $25,03 dólares. Por conta disso, com muita justiça — e com a reclamação das empresas do setor, obviamente — a Telebrás tinha criado o PNBL. Mas com a demissão de Rogério Santanna (imagem à direita), assume hoje o diretor comercial da estatal, Caio Bonilha, com uma visão completamente diferente, ajustada com os interesses das empresas. Defende que a estatal ofereça banda larga apenas no atacado às empresas e não diretamente à população, sabotando o projeto e evitando assim a concorrência direta com a Oi, a Telefonica e outras, que por sua vez poderão comprar os pacotes oferecidos pela própria Telebrás e vendê-los “a preço de mercado”. Uma vergonha e um desrespeito ao povo brasileiro.
Este governo, que mal começa, já derrapou em erros abomináveis. Primeiro, nomeou Antonio Palocci como Ministro da Casa Civil, uma tremenda bomba que mais cedo ou mais tarde iria explodir; depois, substituiu o ex-secretário especial dos Direitos Humanos Paulo Vannuchi, desafeto da mídia, da igreja e das Forças Armadas, pela insossa Maria do Rosário; além disso, mantém no cargo um Ministro da Educação dos mais incompetentes que já se viu; agora, demite o presidente da Telebrás, defensor ferrenho da banda larga a preços populares, não sem antes sabotar as verbas da empresa — segundo Rogério Santanna, estavam previstos R$ 600 milhões para o ano passado e R$ 400 milhões para este ano, mas os recursos foram cortados pela metade e, até agora, só foram liberados R$ 50 milhões.
Pra fechar este primeiro semestre com chave de ouro, só falta a presidente Dilma sancionar o Código Florestal nos moldes que se apresenta à apreciação do Senado. Infelizmente este governo desaponta aqueles que acreditavam que Dilma pudesse aprofundar ainda mais os ganhos sociais do governo anterior. Pelo visto, ela rema no sentido contrário. A maioria da população brasileira será mais uma vez a grandemente prejudicada, em nome dos interesses empresariais mancomunados com políticos corruptos, numa promiscuidade difícil de ser exterminada deste país.
Fonte:
http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2010/05/compare-banda-larga-brasileira-com-do-resto-do-mundo.html