13 de dezembro de 2011

As contradições das áreas econômica e social do Brasil nos dez anos de BRICS

brics Nos últimos dez anos o Brasil é tido e havido como um país que vem assumindo a cada dia a sua condição de potência econômica. Mas até que ponto este otimismo é sentido pela grande maioria da população comum do nosso país, que não faz transações bancárias, não compra ações na Bolsa e não participa diretamente dos ganhos da economia?


vende-se-o-brasil Havia um tempo em que as pessoas, confiantes no potencial do nosso país, bradavam que o Brasil era o país do futuro. No entanto, as promessas e as esperanças da era pós-ditadura-civil-militar pareceram se dissolver em pessimismo, com a desastrosa década de 90, que começou com o fim do mandato do governo Sarney, cuja política econômica legou uma inflação estratosférica que tirava o poder de compra do brasileiro em questão de horas. A seguir veio o governo corrupto de Collor de Mello, impedido pelo Congresso e substituído pelo governo-tampão de Itamar Franco, antes da chegada da onda neoliberal comandada por Fernando Henrique Cardoso. Este, se por um lado, ganhou os louros da estabilização da moeda, também ficou marcado por crises econômicas incontroláveis, sucateamento dos serviços públicos, desempregos em massa, apagões, e agora também por conta de um dos maiores esquemas de corrupção jamais vistos no Brasil e que acaba de vir à tona, durante o processo de entrega do patrimônio público a estrangeiros a troco de propinas, conforme é denunciado no bombástico livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr: A Privataria Tucana, cuja resenha estará estampada aqui no Rama em breve.

A virada de rumo na política

lula povo A chegada do século XXI e da rejeição do modelo econômico neoliberal de FHC por parte dos brasileiros na eleição presidencial de 2002 fez bem ao Brasil. Se o governo do PT também teve problemas sérios de corrupção a partir de então e também não foi capaz de aprofundar as mudanças que o povo queria, por outro lado conseguiu dinamizar a distribuição de renda, a ascensão de milhões de pobres para a classe média, o fortalecimento do mercado interno e a diversificação de países importadores de nossos produtos. O vislumbre desse novo país que surgia contribuiu para que o economista inglês Jim O’Neill incluísse o Brasil no seleto grupo de países emergentes que, num futuro próximo, se tornariam as novas potências mundiais. Os outros eram Rússia, Índia e China, que em 2010 ganharam a companhia da África do Sul, acrescentando assim um “S” (de South Africa) no acrônimo BRICS. Passados dez anos, parece que o futuro profetizado finalmente chegou para nós. Chegou?

A contradição entre o capital e o social

pobreza Existe uma grande contradição nos números do Brasil. Somos a segunda economia do bloco, atrás apenas da China. Nosso PIB hoje é de impressionantes 2 trilhões de dólares e em breve, segundo algumas projeções, seremos a quarta ou a quinta economia mundial. O que isso representa para a maioria dos cidadãos?
Por enquanto, muito pouco. É claro que os programas de ajuda governamental a casos mais imediatamente prioritários, como o Bolsa-Família, têm contribuído; o país vem crescendo, empregos têm sido gerados, mas o foco das análises sempre tem um cunho econômico, e não social. Por conta desse tipo de análise, não se chama a atenção sobre o fato de que ainda somos o 84º país no índice de desenvolvimento humano (IDH), que mede quesitos como qualidade de vida e educação. Algo está muito errado nesta discrepância.
Se o Brasil não corrigir essa calamidade social o mais rápido possível, apenas aumentará o já profundo fosso entre ricos e pobres no país. De acordo com o Índice de Gini, que calcula a desigualdade social, o Brasil passou de 0,61 pontos na escala para 0,55 entre 1993 e 2008 (quanto menor o valor, melhor o índice), uma pequena e razoável melhora. Nosso país foi o único do BRICS que conseguiu diminuir a desigualdade social na última década, mas mesmo assim, o Gini do Brasil é o maior entre todos os membros do BRICS e o dobro da média dos países ricos: no Brasil, 10% dos mais ricos ganham 50 vezes mais do que os 10% mais pobres.
Dessa maneira podemos perceber que o futuro chegou, mas apenas para alguns poucos setores da sociedade brasileira, não para todos. O tempo, como já dizia Einstein, é relativo, diriam os cínicos como Delfim Netto, ministro da economia da época da ditadura, que defendia que era preciso deixar o bolo crescer primeiro para depois reparti-lo. Pois já se passaram quase trinta anos desde então, o bolo cresceu e as classes dominantes do Brasil continuam se lambuzando de glacê, enquanto a maioria da classe trabalhadora ainda aguarda diante da mesa a sua devida parte. Afinal, quem é que faz o bolo?


4 de dezembro de 2011

A psicologia e o perigo das bombas e fogos de artifício natalinos

foguetes de fim de ano
 
Você deixaria seu filho brincar com uma granada? Certamente que não. No entanto, milhares de pais no Brasil não tomam conhecimento de que seus filhos compram explosivos com poder de destruição equivalente.Todos os anos são contabilizadas dezenas de vítimas das bombas e dos fogos de artifício, que ficam cegas, queimadas e mutiladas, um problema que não chama a atenção das autoridades.
 
O que leva uma pessoa a comprar um artefato cuja única função é explodir e fazer enorme barulho? É uma das coisas difíceis de compreender da psicologia humana. Desde tempos remotos os homens digladiam entre si, seja por comida, por território, por acasalamento, entre outras coisas. Com o tempo, nós fomos capazes de criar armas cada vez mais letais, que desde então vêm se aperfeiçoando no poder de fogo e de destruição. O ápice dessa corrida armamentista foi a bomba atômica, lançada nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki em 1945.

As bombas sempre foram associadas ao poder e a intimidação. A explosão, o barulho aterrador, a destruição arrasadora intimidavam os inimigos muito mais do que as metralhadoras, e quem viveu numa cidade bombardeada numa guerra jamais esquece o trauma das bombas que explodiam em grande estardalhaço.

Mas o que isso tem a ver com as bombinhas natalinas?
 

A psicologia das bombas

Tudo a ver. De alguma forma, sobrevive no subconsciente das pessoas o poder sedutor de uma explosão. Quanto mais barulhenta e chamativa, mais satisfaz o ego de quem a solta. O perigo de manipulá-la, a tensão dos segundos do pavio aceso antes da explosão, o barulho ensurdecedor que causa, tudo isso provoca uma catarse nos indivíduos envolvidos. Tal como uma droga, essas pessoas vão em busca de mais uma dose, quem sabe de uma bomba ainda mais destruidora.
 
Essa pirotecnia ocidental não é novidade, vem de uma antiga cultura de guerra. Mas que diabos isso tem a ver com a celebração do suposto nascimento de Jesus Cristo no Natal?
 

O perigo das bombas

Segundo dados da Associação Brasileira de Cirurgia da Mão Hospital Samaritano de São Paulo, “uma em cada dez pessoas que mexe com estes artefatos tem membros amputados, especialmente, os dedos”. Setenta por cento delas são crianças. Ainda de acordo com o site,
A recuperação de alguém atingido por estes artefatos é extremamente difícil. Em casos extremos, uma pessoa pode perder até a mão inteira, além de apresentar queimaduras graves e perda de partes moles e ósseas. Para garantir uma recuperação adequada, o paciente passa por um longo trabalho de reabilitação funcional.
Vítima de fogos  Acidente-com-fogos-crianca  images
No Brasil, ainda há a situação de que muitos destes artefatos são produzidos em fundos de quintal, em condições precárias. Em 1998 Gabriel Metzler era uma criança fascinada por fogos numa pequena cidade de Santa Catarina. Ao tentar fabricar uma bomba com a pólvora de um foguete, foi vítima de uma explosão que o deixou cego e que matou seu amigo. Hoje ele coordena o Grupo Alerta Vida que tenta orientar as pessoas sobre os perigos dos explosivos. Sobre a fabricação de explosivos no Brasil, ele afirma,

O trabalho todo é manual e é realizado muito rápido, já que os funcionários recebem de acordo com a quantidade que produzem. Além disso, tudo é feito sem que haja controle de qualidade e segurança. Para se ter uma ideia, um perito nos forneceu dados de um teste minucioso realizado com 100 foguetes produzidos aqui no Brasil, e 83 deles estavam irregulares.

A legislação no Brasil sobre o assunto, de 1948, é ultrapassada, pois “apenas limita a idade do comprador, mas não há fiscalização alguma — qualquer criança pode comprar fogos. E a lei também não restringe a quantidade”. A quem cabe a responsabilidade de fiscalizar e controlar essas bombas? Metzler foi no Exército para saber, mas lá, lhe disseram que é a Polícia que deve controlar. Quando conversou com a Polícia, foi informado de que o Exército é o responsável, num jogo de empurra digno das autoridades brasileiras.

Bombas deveriam ser condenadas severamente. Estressam as pessoas que não têm nada a ver com isso, os animais, atrapalham a paz e o sossego, causam graves acidentes e não servem para nada. Fogos de artifício, controlados por especialistas, ainda são bonitos de se ver, mas essas bombas explosivas de fim de ano deveriam ser erradicadas das cidades brasileiras de uma vez por todas.
 

24 de novembro de 2011

Pela primeira vez, Brasil poderá ter imposto sobre fortunas para financiar a Saúde Pública.

esmola_saude_publica Você está cansado de pagar impostos? Você tem razão. O Brasil é o país onde a carga tributária é uma das mais pesadas no mundo. Mas os ricos até pouco tempo não contribuíam proporcionalmente à sua renda, ficando livre de grandes impostos sobre a fortuna. Mas isso está prestes a acabar.


kassab_saudejt Todo mundo sabe que a Saúde Pública no Brasil vai de mal a pior. Quem precisa de atendimento nas emergências e nos postos de saúde sabe muito bem o que é passar um inferno em busca de atendimento. Pra piorar, o Ministério da Saúde acaba de informar que existe a estimativa de que 1 milhão de brasileiros tenham algum tipo de câncer nos próximos dois anos — e é justamente nos hospitais públicos de alta complexidade que estas pessoas recorrerão.
Para arcar com os custeios de toda essa demanda, o governo está propondo a criação de alguns impostos — e isso já começa a causar alvoroço entre alguns setores da burguesia brasileira.
A classe média brasileira está tão impregnada da ideologia das elites, está tão submetida aos caprichos das classes dominantes, que ecoa roboticamente os protestos dos ricos e poderosos neste país. Nesta última quarta-feira, a Comissão de Seguridade Social e Família aprovou um relatório que traça as mazelas do Sistema Único de Saúde (SUS) bem como algumas possíveis soluções, como aprovar novos tributos para financiar o setor.
Aí você há de pensar, engrossando o grito das elites: “mais um imposto? Já pagamos muitos impostos, não aguentamos mais!!” Quem paga muitos impostos, cara-pálida?
Historicamente, o Brasil resolveu colocar todo o peso de sua carga tributária no consumo, e não na renda. Isso quer dizer que todo brasileiro, seja ele um trabalhador que ganhe um salário mínimo ou o bilionário Eike Batista, paga o mesmo valor de imposto quando consome, por exemplo, um quilo de arroz ou um litro de leite, alimentos essenciais. Se o Brasil optasse pela forma mais justa de tributação, o pobre pagaria menos pelos alimentos básicos, e pelos seus luxos o Eike pagaria mais.
O que o governo pretende agora, caso não recue ante a choradeira das elites reverberadas pela classe-média, é tributar…
…grandes fortunas, como, por exemplo, o patrimônio sobre jatinhos, helicópteros, iates e lanchas, a tributação de remessa de lucros para o exterior, além da criação de um imposto sobre grandes movimentações financeiras (similar à extinta CPMF) para transações acima de R$ 1 milhão. (fonte)
Hoje na rádio CBN, a jornalista Roseann Kennedy disse que acha o assunto “polêmico”, porque o governo “não vem fazer publicamente esta discussão”, o que não é verdade. A jornalista está é muito apreensiva. A seguir, de forma totalmente cínica, afirma que “vem de novo esse fantasma (sic) de tributar novamente mais ainda a população” (!?) (ouça o áudio abaixo)


Tem que ser muito cara-de-pau para tentar jogar uma falácia dessas pra ver se cola. “População”? Que população é essa que tem jatinho particular, grandes fortunas acumuladas, que faz transações acima de 1 milhão e remete lucros para o exterior?? Essa jornalista pensa que nós somos otários não é?
É preciso estarmos atentos a essas mentiras que serão contadas nas redes tradicionais de mídia daqui por diante, para que não sejamos iludidos e possamos defender essa medida importante, que pretende fazer quem ganha mais pagar mais, como deveria ser a lógica. Fique de olho para não cair na conversa das classes dominantes.

8 de novembro de 2011

Cinegrafista foi vítima do jornalismo-espetáculo da imprensa brasileira

cinegrafista_band Nesse domingo passado (6/11) aconteceu aquilo que mais cedo ou mais tarde era esperado: um cinegrafista morreu na cobertura de uma ação policial no Rio de Janeiro. A cada ano que se passava, os jornalistas estavam mais envolvidos nas operações, participando ao vivo direto do confronto. Agora, com a morte de Gelson Domingos, emissoras e órgãos representativos de jornalistas prometem rever esse tipo de cobertura.


embedded reporter A tendência de levar o telespectador para dentro dos acontecimentos começou na terra do show business. Nos Estados Unidos, grandes tragédias naturais, perseguições policiais e guerras são cenários perfeitos para repórteres eloquentes e sensacionalistas prenderem a atenção dos telespectadores ávidos pelo jornalismo de espetáculo. Essa tendência foi levada à Guerra do Golfo pela CNN em 1991, seguidas por outras redes como a ABC. Na Guerra do Iraque em 2003, os bombardeios às cidades iraquianas eram aguardados com grande expectativa por câmeras estrategicamente localizadas para mostrar o que mais parecia o show de fogos do Réveillon de Copacabana. E os âncoras da TV narravam com entusiasmo cada explosão que transformava a noite em dia no Iraque. Nos dias seguintes diziam: “Se você perdeu, daqui a instantes repetiremos as imagens do bombardeio”. E repórteres com coletes à prova de bala e capacetes de guerra (os chamados embedded reporters) davam o tom dramático do “showrnalismo” direto do front de batalha. Não ia demorar muito para que essa tendência americana chegasse à imprensa do nosso país.
Em 2010 a Globo tirou Fátima Bernardes do frio e informal estúdio do Jornal Nacional e a levou para o Morro do Bumba, em Niterói-RJ, logo após o deslizamento que matou mais de 500 pessoas. Enquanto as noticias eram dadas, ao fundo podia-se conferir toda a tragédia, destruição e desespero dos sobreviventes, que deixaram de ser vítimas por alguns instantes para se tornarem pano de fundo do Jornal. Mas essa tendência de jornalismo sensacionalista ficou mais evidenciada na cobertura dos confrontos entre traficantes e policiais nos morros do Rio de Janeiro.
Para James Fallows, jornalista americano, autor de "Detonando a Notícia" (Civilização Brasileira):
"Há um dilema para o jornalismo do mundo ocidental capitalista. Por um lado, trata-se de um negócio. É preciso gerar lucro com as agências, revistas, emissoras e jornais. Temos que ser pagos pelo nosso trabalho. Por outro lado, sempre foi mais que um simples negócio. Sociedades democráticas exigem um jornalismo atuante que passe às pessoas as informações necessárias para que tomem suas decisões e possam ter uma visão crítica das fontes de poder. O problema ocorre quando a visão de negócios atropela a função democrática. Aí começa o desequilíbrio".
jornalismo-espetaculo Deixando de lado seu papel na informação dos fatos necessários à sociedade e seguindo a influência das TVs comerciais americanas, inseridas na lógica de disputa concorrencial por audiência baseadas no jornalismo espetáculo, as TVs brasileiras passaram a colocar repórteres e cinegrafistas dentro dos confrontos, em busca dos episódios mais dramáticos. Cenas de pessoas desesperadas correndo dos tiros enquanto repórteres com coletes e cinegrafistas trêmulos (os embedders cariocas) trazem para dentro de nossas casas os desesperos dos conflitos armados nos morros cariocas. Balas traçantes de fuzil, pistolas, metralhadoras e gritos fazem parte da trilha sonora desse show de horrores. No último domingo, a vítima dessa tragédia social não foi o policial, nem o traficante, nem o inocente: foi o cinegrafista Gelson Domingos, colocado dentro do conflito armado em nome do nosso jornalismo-espetáculo.
Agora as associações de jornalistas e ONGs fazem protesto, mas nunca questionaram a intenção desse tipo de jornalismo. Transformar a tragédia em show é imoral e não serve aos interesses da sociedade brasileira, só atende a expectativa de uma mídia cada vez mais comercial e voltada apenas e tão somente para os índices de audiência. Que a morte de Gelson sirva ao menos para que as emissoras revejam esse tipo de conduta da imprensa brasileira, para que ela volte a servir à sociedade da melhor maneira.


5 de novembro de 2011

O político brasileiro que se tratou no hospital público


Nesses tempos em que os políticos vão se tratar  no Sírio-Libanês e as pessoas sugerem que tratem de seus problemas em hospitais públicos para verem o que é bom pra tosse, o que elas pensariam se soubessem que um deles realmente fez isso? Diriam “ah, você está brincando não é? Político brasileiro se tratando em hospital público? Conta outra...”. Pois foi exatamente isso o que fez o sociólogo e deputado federal Florestan Fernandes.

Neoliberalismo destruidor de serviços públicos

Hoje em dia há campanhas pelas redes sociais pedindo para que políticos sejam atendidos pelo SUS. Demagogias ou sinceridades à parte, o fato é que o sistema público de saúde no Brasil é bastante falho.

Há um quarto de século, quando o governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso sucateou todo o serviço público em nome do estado mínimo (nessa época órgãos de imprensa, engajados no projeto neoliberal, passaram a diminuir o Estado até no nome, grafando-o com “e” minúsculo), a coisa era ainda mais alarmante.

Pois foi justamente nessa época que Florestan Fernandes foi diagnosticado com uma hepatite, adquirida numa transfusão de sangue, em 1995.

Florestan, da Academia para o Congresso

Florestan nasceu na cidade de São Paulo em 1920, filho de uma lavadeira e de pai desconhecido. Logo teve que trabalhar como engraxate e garçom desde os seis anos, entre outras coisas, mas se interessou pelos estudos. Licenciou-se pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras na Universidade de São Paulo-USP em 1943 depois de muitas dificuldades.

Nos anos da ditadura foi preso e exilado político. Ao voltar ao Brasil no período pós-ditadura, elegeu-se deputado federal constituinte em 1986 pelo PT, tendo papel de destaque na defesa da Educação pública de qualidade.



Florestan ficou marcado pela defesa da população pobre, não apenas nos trabalhos acadêmicos ou nos debates parlamentares, mas também no dia a dia. Tinha aversão a privilégios, e fazia questão de lembrar suas origens humildes.

E foi assim até os seus últimos dias de vida, quando era bastante reconhecido em todo o mundo como um dos maiores sociólogos do Brasil e um político de renome nacional.

Um político diferente

Em 1995, depois de uma transfusão de sangue, Florestan contraiu hepatite C, tendo ficado bastante debilitado. Depois de uma severa crise hepática, ele foi sozinho buscar atendimento num hospital público.

Seu filho o encontrou mais tarde na fila de atendimento, do mesmo jeito que qualquer pessoa “comum”. Apesar dos apelos, Florestan se recusou a sair da fila, sendo convencido a muito custo por um médico a ser atendido imediatamente.



Mais tarde, em estado mais grave, o médico afirmou que a única solução seria um transplante de fígado. Fernando Henrique Cardoso, que fora seu aluno (fato que causaria grande desgosto a Florestan anos depois quando FHC tornou-se presidente) ofereceu até a possibilidade de um tratamento nos Estados Unidos.

Florestan recusou, alegando que tinha muitas pessoas na fila antes dele. Só aceitaria se fosse para todos.

Florestan conseguiu afinal ser operado no Hospital das Clínicas, mas seu transplante de fígado foi mal sucedido. Florestan veio a falecer seis dias depois, aos 75 anos de idade. Seu legado como sociólogo e como político já era consagrado, mas seu exemplo de coerência coroou uma vida dedicada à causa dos desfavorecidos, fator que era refletido em seus trabalhos acadêmicos e em sua luta pela educação.

Quem dera que nosso país contasse com mais homens dessa honradez, pois assim, quem sabe, esses exemplos de vida não fossem tão raros.

1 de novembro de 2011

Sete bilhões de bocas para alimentar

Sete bilhões de bocas para alimentar

No dia 31 de outubro de 2011, conforme noticiado em todo o mundo, chegamos à marca de 7 bilhões de pessoas no planeta. Está achando muito? Na época os debates causavam grande alarde, levantavam possibilidade de catástrofe e guerras, ressuscitavam teorias malthusianas, um cenário terrível para o futuro. Pois saiba que em 2050 seremos 9 bilhões, e a primeira preocupação que surge é: como alimentar tantos seres humanos? Será que vai faltar comida?

Se hoje já existem 1 bilhão de pessoas famintas no mundo — você há de pensar — o que será daqui a 40 anos, com 9 bilhões de pessoas? Pois fique você sabendo que hoje o planeta já seria capaz de alimentar todo esse contingente de pessoas e muito bem. Segundo documentário de Silvio Tendler, (O veneno está na mesa), hoje produzimos três vezes mais comida do que somos capazes de consumir. Então onde está o problema?

Má distribuição e desperdício

É fácil deduzir: primeiro, o problema está principalmente no sistema econômico mundial, que permite que haja uma monstruosa perda de comida por um lado, e escassez brutal de outro. Porque comida é mercadoria, lógico. E está onde se pode pagar mais por ela.

E mais: de acordo com o economista norte-americano Mancur Olson, tanto no mundo rico quanto no pobre, uma proporção impressionante de alimento apodrece antes de chegar às mesas. O número varia entre 30 e 50% de toda comida produzida. Nos países pobres, investir na infraestrutura do setor agrícola exigiria gastos, o que afetaria, num primeiro momento, a fatia dos lucros. Aí não pode. Conclusão: ratos, camundongos e gafanhotos comem as colheitas nos armazéns — em vez de silos refrigerados, os grãos são amontoados no chão e cobertos com uma lona; leite e vegetais estragam ou vazam durante o transporte. Nos países ricos o desperdício é diferente. A fartura faz a metade da comida dos mercados, lojas e restaurantes irem para o lixo antes de ser consumida. Só nos Estados Unidos este desperdício somou (pasmem!) 43 milhões de toneladas de alimentos em 1997! Cem quilos de comida por pessoa indo pro lixo todo ano na América!

Os problemas são bem outros

Antes de sair por aí defendendo ideias malthusianas e bolsonarianas, saiba que a agricultura já produz alimento para todo mundo, como já foi dito. Um estudo de 1996 da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) estimou que o mundo produzia alimentos suficientes para fornecer a cada homem, mulher e criança do planeta, 2.700 calorias diárias, várias centenas a mais do que o necessário (por volta de 2.100). Hoje o número é mais otimista, e teríamos capacidade de alimentar 21 bilhões de bocas existentes  -- três vezes mais do que o necessário.

Fascistas aproveitam para propor controle de natalidade autoritário (para pobres)

Defender medidas fascistas como a castração de seres humanos pobres como uma medida razoável de controle populacional é algo, no mínimo, canalha de se fazer. Pode-se discutir se 7 ou 9 bilhões de pessoas são números adequados, mas jamais defender medidas autoritárias, simplistas, de cima pra baixo, para a solução do problema. Além de egoísta, a medida é ilusória e ineficiente, já que não ataca o problema na raiz. Via de regra, pessoas mais pobres e com menos estudos têm mais filhos porque, na ausência do Estado, são esses que vão prover a “aposentadoria” dos pais, quando estes não tiverem mais forças para trabalhar no campo, e cada vez mais, nas grandes cidades. Além do mais, está mais que provado que o maior nível de estudo contribui para que as pessoas tenham melhores empregos e seguridade social nas cidades, e com isso tenham também bem menos filhos. Não é outra razão senão esta porque na Europa têm-se até taxas negativas de crescimento vegetativo. Nada de castração, nada de controle de natalidade. Simples opção consciente, como deve ser.

Não se preocupe, sua comida estará garantida para os próximos 40 anos. Felizmente você não vive num país asiático ou africano, onde a exploração capitalista histórica atrasou o desenvolvimento local a ponto de hoje a agricultura incipiente e arcaica dessas regiões não dar conta de alimentar sequer seus habitantes. Não há nada com o que nos preocupar. Ou será que há?

Com informações da revista Carta Capital nº638, pp.42-56

23 de outubro de 2011

Cristina Kirchner e a democracia na América Latina

Cristina Kirchner e a democracia na América Latina
Mais uma vez um país sul-americano dirá “não” ao modelo neoliberal que fracassou na região e em todo lugar, conforme podemos atestar nas recentes manifestações contra o capitalismo mundo afora. Cristina Kirchner será reeleita na Argentina e consolidará um projeto alternativo para o país, seguindo a tendência da América do Sul nos últimos anos.
 
Terminado o período de eleição na Argentina neste domingo, e para desespero dos conservadores de direita do país e da América Latina, podemos dizer que a presidente Cristina Kirchner será reeleita já no primeiro turno. O resultado é sintomático e representa a consolidação do modelo centro-esquerdista na América do Sul e uma derrota acachapante para a direita política argentina. Juntos, Cristina e o segundo colocado, o candidato socialista Hermes Binner conseguirão os votos de 70 a 75 por cento do eleitorado. O povo argentino não esquece a crise terrível produzida pelo governo neoliberal de Carlos Menem tempos atrás e não a quer de volta.

Direita derrotada teme emenda para nova reeleição em 2015

Com a vitória, a ampla legitimidade popular e a maioria no parlamento, Cristina está causando medo nas classes conservadoras. Há quem lembre os argumentos usados pelos mesmos reacionários brasileiros na última eleição brasileira, lançados especialmente na seção de opinião do jornal O Globo contra a vitória do PT: “o governo [na democracia burguesa] precisa de alternância”; “o PT quer se eternizar no poder”; “Lula quer imitar Fidel”; “Dilma é fantoche do Projeto de Poder [esse foi um termo usado diversas vezes] do Lula e do PT”... E por aí vai. Lá na Argentina, mal a presidente se consolida como reeleita, e setores da imprensa burguesa já lançam o temor de que ela patrocine uma emenda constitucional que a permita se reeleger em 2015. Será o alvo a ser martelado pela classe reacionária argentina nos próximos anos.

O que está por trás da sagrada alternância de poder da democracia burguesa

Desde que chegaram ao poder no Ocidente, os burgueses de todos os matizes têm na defesa de alguns ideais algo de sagrado para eles (embora fossem as lutas da esquerda que consolidassem alguns deles mais tarde), como por exemplo, o voto universal e secreto, o pluripartidarismo e a alternância de poder. Para eles, democracia se resume a isso: de dois em dois anos, o cidadão vai lá, aperta uns botões na urna, “faz a sua parte para a cidadania”, e pronto. Tudo continua como está. E aí que entra a questão da alternância de poder.

Para quem já está no poder de fato, e se beneficia dele, é importante que haja rodízio de políticos, não de projetos políticos. A ideia é manter a ilusão democrática de que há alternância de ideias na alternância de poder, o que é uma mentira. Só um determinado viés político/ideológico tem vez na “democracia” das classes dominantes. Pergunte a qualquer eleitor da direita brasileira, por exemplo, se ele gostaria que o PSOL algum dia vencesse as eleições presidenciais em nome da alternância de poder... O que a eleição de Kirchner, Morales, Mujica e Chávez na América do Sul representa é a vitória de um projeto político, que vai de encontro ao que vinha sendo praticado nos últimos séculos pelas elites da região.

Na verdade, a democracia burguesa é unilateral e não admite mudanças bruscas na sua trajetória. Os golpes civis-militares dos anos 60 e 70 na América Latina estão aí para nos mostrar esse fato.

A vitória da presidente Cristina Kirchner consolida o modelo em andamento na região já há alguns anos, mais democrático de fato, humanizado e social, e a atual crise mundial do neoliberalismo do Consenso de Washington mostra que nós, sul-americanos, estamos sim na contramão do mundo, como nos acusavam os economistas neoliberais da direita brasileira. E estamos certos.

21 de outubro de 2011

Por que a pequena corrupção do dia a dia não justifica a grande corrupção política

corrupção política

 A pequena corrupção do dia a dia não é a base para a grande corrupção política

Esta é, sem sombra de dúvidas, a temática mais em voga na política nacional: corrupção. Aliás, não é de hoje que a mídia trata do tema com uma certa persistência, sem, no entanto, apontar claramente os caminhos possíveis para amenizar esse problema. Talvez porque seja conveniente tratar a corrupção superficialmente, como forma de jogar uma cortina de fumaça em nossas visões, para que não enxerguemos outras questões mais profundas e dramáticas da sociedade brasileira, como a desigualdade social, ou a sonegação de impostos dos ricos, como alegamos aqui em “Corrupção como distração de problemas maiores”. 

Além disso, a mídia nacional, bem como a própria Justiça, têm o hábito estranho de tratar casos de grande corrupção política no Brasil com pesos diferentes, dependendo se o político ou o partido em questão são de sua predileção ou não. Só isso pode explicar o fato de alguns notórios bandidos terem estado envolvidos em dezenas de casos escandalosos desde 1994, pelo menos, e ainda assim contarem com o beneplácito desses órgãos — privilégio que o PT, por exemplo, nem de longe, desfruta. 

Mas a questão mais complexa diz respeito à ideia, que circula em forma de crítica acusatória a todos nós, de que a corrupção está enraizada no nosso dia a dia, nas pequenas coisas, nos pequenos gestos, o que acaba funcionando como justificativa para amenizar a grande corrupção política, ao alegar que nossos políticos seriam apenas o reflexo de nossa própria sociedade corrupta por natureza

Mas, no meu modo de entender, isso é bastante equivocado.

Primeiro, porque a pequena corrupção do dia a dia é realmente uma característica inerente a muitas sociedades pelo mundo afora, sejam elas avançadas ou em processo de desenvolvimento, como é o caso do Brasil. Não existe uma única sociedade em que não seja costume tentar se safar de alguma punição ou tirar alguma vantagem com propina. Porque a corrupção é a consequência natural do próprio capitalismo. Mas apesar disso, muitos desses países não apresentam um grande quadro alarmante de corrupção nas altas esferas políticas. Isso quer dizer que a pequena corrupção não leva automaticamente à grande corrupção. 



E segundo, ao contrário do que alegam pensadores como Leandro Karnal, os políticos não saem do meio da nossa sociedade, eles saem de uma determinada fração dessa sociedade, a alta burguesia e as classes dominantes, já viciadas, por natureza, em esquemas sofisticadíssimos de sonegação e corrupção que o cidadão comum está longe de conhecer ou participar. É esse know-how que esta determinada fração da sociedade leva para a política.  Não representa o todo da sociedade brasileira. 

O que há de diferente em outros países corruptos é o rigor da legislação proporcional ao tamanho da corrupção para dar conta dos casos descobertos, e a questão cultural da vergonha que a descoberta do crime causa no corrupto. E nisso, é verdade, estamos um pouco defasados. Somo um país em que políticos do alto escalão são constantemente acusados dos mais diversos crimes graves, e não de furar fila no banco ou ter "gatonet". Continuam exercendo seus cargos sem o menor pudor (e sem a menor punição). A impunidade contra a grande corrupção, geralmente praticada por ricos (não por pobres, basta olhar o perfil dos detentos nas cadeias) é a nossa maior fonte de problemas. 

Não é possível comparar o pequeno delito de um cidadão que aceita pagar 10 Reais do “cafezinho do guarda” para não ter seu carro rebocado – ou o próprio guarda que aceita o suborno – com o tipo de grande corrupção sofisticada praticado nas altas esferas do poder nacional. Os governantes envolvidos na direção do país tem alta responsabilidade e obrigação de ter uma conduta exemplar, ser cobrados de acordo com tal dever. Desviar milhões de uma área como a saúde ou a educação pra fazer caixa de campanha, ou aceitar propina de corporações capitalistas para reduzir as exigências de fiscalização em tal produto que pode fazer mal à população, por exemplo, têm consequências desastrosas a longo prazo, afetando, às vezes, a vida de milhões de pessoas. Exige um grau de conhecimento complexo do crime, e não tem nada a ver com o cidadão comum que quer apenas se safar de um inconveniente. Não é possível alegar que a corrupção do dia a dia, lamentável mas inofensiva, esteja na base desses grandes crimes contra o bem comum. Ambas são de naturezas bem distintas.  

Portanto, se a corrupção é um problema que realmente está no seio da nossa sociedade capitalista — como está em todas as outras —, isso não justifica de modo algum que a classe política brasileira pratique tais atos na esfera governamental, com danos muito maiores, para enriquecer às custas do cargo que ocupa

Uma mudança de mentalidade tem que prevalecer no país. Primeiro, colocar o assunto na escala correta, de caráter grave, mas abaixo de outras questões mais decisivas, como as que mencionamos antes (desigualdade social, sonegação de impostos, falta de educação escolar de qualidade, etc.). E depois, que a grande corrupção política cause vergonha nacional em certos deputados, senadores e governantes, o que talvez seja um bom começo. O outro passo é acabar com a desgraça da impunidade para ricos e políticos (e políticos ricos). E assim vamos nos equiparar às outras nações em que a corrupção existe, mas é administrável com punições exemplares de acordo com a gravidade do caso.

4 de outubro de 2011

Educação, royalties e petróleo

Desde 2000 e a cada três anos o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA, na sigla em inglês) se propõe a avaliar o desempenho de estudantes do mundo todo de forma comparada, a partir do 8º ano letivo. Esse programa é desenvolvido e coordenado internacionalmente pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e o Brasil sempre figura nas piores colocações. Enquanto outros países crescem, nós afundamos na Educação. Por quê?
 
A avaliação do PISA de 2009 já foi assunto aqui no Panorâmica Social, (Mau desempenho de alunos brasileiros é entrave para o crescimento do país) mas nos interessa saber o que vem sendo feito para melhorar nossa situação, além de ver qual o motivo do sucesso dos líderes do ranking. Podemos ver no quadro abaixo que países como Coreia do Sul, Finlândia e China estão sempre acima da média em ciências, leitura e matemática — as três áreas avaliadas. Qual será o segredo delas?
 
 
educacao2 Um documento do próprio Ministério da Educação da Finlândia ajuda a desvendar o mistério. De acordo com o texto, não há fórmula milagrosa para melhorar a educação. É preciso a junção de uma série de fatores que convirjam para o sucesso do país na área, e uma delas é que a própria sociedade finlandesa valoriza a educação. O povo de lá leva o assunto a sério e 75 por cento dos adultos no país tem diploma de ensino superior. Apesar do ensino só ser obrigatório até os 16 anos, somente 1 por cento dos estudantes do ensino fundamental (chamada lá de escola compreensiva) não continua os estudos.
 
Outro fator importante é que na Finlândia, o professor é visto com respeito. A sociedade valoriza o profissional, que tem status e reconhecimento do governo. Algo muito diferente de um tal país chamado Brasil, onde os professores são tratados na base do cassetete policial.
 
Outra grande lição vem do outro lado do mundo. A China, numa visão de futuro, prepara seus jovens hoje para o país de amanhã, num grande exemplo de política pública com interesse nacional.
 
educacao-china Na China, os jovens recebem uma educação cada vez mais aberta ao mundo. Os alunos recebem aulas de inglês desde cedo e participam de intercâmbios no exterior. Lá, assim como na Finlândia, a educação é prioridade nas famílias, que chegam a gastar metade do orçamento para financiar a educação dos filhos em programas extracurriculares.
 
No plano governamental, a ideia ousada (e que deveria seguir de exemplo) é se livrar da dependência tecnológica e científica do resto do mundo. A China já produz a maioria da tecnologia de que precisa e pretende alcançar a liderança mundial na área em breve. Enquanto isso, no Brasil...
 
royaltie
 
Nosso país, historicamente, sempre teve uma elite sem visão de futuro. Acomodados na classe privilegiada, pouco se lixaram para o povo brasileiro, se contentando em servir de forma subalterna aos interesses econômicos dos países centrais. O tempo passou, uma reforma ou outra foi implementada, mas nosso país continua sem um projeto nacional que revolucione a condição ridícula que ostenta perante o mundo, sempre nas piores posições de qualquer ranking na educação.
 
Somos levados a acreditar que o país vive uma fase maravilhosa, porque está entre as maiores economias do mundo. Mas o grosso da sociedade brasileira não se beneficia do crescimento do PIB, da oscilação do dólar ou se aproveita dos negócios na Bovespa. Pelo contrário: é ela que paga a conta quando a economia entra em crise.
 
Um exemplo típico da falta de uma visão de futuro de nossas elites se reflete na falta de um projeto nacional de nossos políticos. Recentemente o Brasil conseguiu um bilhete premiado, que foi a descoberta das imensas reservas de petróleo na camada do pré-sal, o que gerará recursos magníficos para o país durante muitos anos. E no momento em que nossos parlamentares deveriam estar discutindo no Congresso um projeto revolucionário para a Educação no nosso país, utilizando estes recursos, ele preferem digladiar para conseguir algumas migalhas a mais de royalties para seus Estados, tirando proveito político da jogada, e só.
 
A sociedade brasileira precisa acordar. Se ela não tomar nas mãos os rumos do Brasil, vamos fracassar mais uma vez enquanto o mundo espera que aproveitemos nossa chance. Que vergonha será se o BRICS, grupo de países em rápido crescimento econômico que pode liderar a economia global, se tornar “RICS” nas próximas décadas, porque o Brasil frustrou a expectativa que se fazia dele. Essa condição de riqueza econômica e calamidade social não vai no levar a lugar nenhum enquanto os beneficiados dela estiverem do comando, enquanto a maioria fica de fora.

28 de setembro de 2011

Notícias de uma Revolução Invisível

wallst-bull Uma revolução silenciosa, mas que cresce a cada dia, vem tomando lugar nos Estados Unidos. Cansados de sofrer as consequências das sucessivas crises do capitalismo, enquanto assistem os ricos ficarem mais ricos, a população comum, jovens, em sua maioria, sem ligação com nenhum partido, resolveu se unir para protestar no centro financeiro mundial. Pode ser o começo de uma grande revolução na maior nação capitalista do mundo.

A população que mora no país das oportunidades não acredita mais no sonho americano. Há 11 dias seguidos, manifestantes ocupam as ruas de Wall Street, em Nova Iorque, para protestar. A imprensa brasileira finge ignorar as razões do movimento. No sítio d’O Globo na internet, uma busca pelo termo Occupy Wall Street (“Ocupe Wall Street”, nome do movimento) dá resultado zero. Digitar apenas “Wall Street” dá 400 resultados mas a maioria é nestes termos: “Ibovespa volta a subir com melhora em Wall Street”, ou “'The Wall Street Journal' lança aplicativo para Facebook”. Apenas duas manchetes entre 400 fazem menção ao movimento raro de mobilização dos norte-americanos — que até tempos atrás eram naturalmente individualistas demais para se juntar em protestos. Mas dessa vez os ricos foram longe demais.

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A manifestação que é escondida no Brasil (talvez para não servir de exemplo – costumamos imitar tudo que vem dos EUA, de repente imitamos uma revolução também) é formada em sua maioria por jovens americanos que sofrem as maiores consequências da crise que assola o país desde 2008. O lema do movimento é “We are the 99%” (Nós somos os 99%), uma alusão que critica o poder econômico e político dos 1 por cento mais ricos das Estados Unidos. A ideia é que o movimento cresça por toda a América, se transformando na maior revolução norte-americana que o mundo jamais sonhou em ver nos Estados Unidos.


Grandes artistas, filófosos, políticos e cineastas já manifestaram apoio, como a atriz Susan Sarandon, Michael Moore, Noam Chomsky, entre outros.

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Para os próximos dias a agenda prevê uma série de atividades. Dia 6 de outrubro será a vez do movimento “Occupy Portland” (Ocupe Portland). No meu Tumblr pretendo manter atualizada a agenda do movimento, com fotos, vídeos e reportagens. Não deixe de acompanhar. Se depender da imprensa brasileira, você vai viver no mundo da fantasia, enquanto o mundo que conhecíamos é abalado por protestos vigorosos.

Policiais nova-iorquinos agridem covardemente manifestantes pacíficos

15 de setembro de 2011

Faça como Edmundo. Cometa um crime e se beneficie da Justiça

edmundo-preso Existem vários e vários exemplos de como criminosos (dolosos ou culposos) conseguem escapar da justiça através de artimanhas jurídicas. A mais conhecida delas é arrastar o processo ad infinitum — coisa que advogados de má-índole sabem fazer muito bem — até que, um belo dia, o réu tenha "extinta a sua punibilidade" por conta da prescrição do alegado crime. O mais novo beneficiado deste artifício sem-vergonha é o ex-jogador e hoje comentarista Edmundo.
carro-do-edmundo Em 1999 o jogador foi condenado a 4 anos e meio em regime semi-aberto por homicídio culposo de três pessoas e lesão corporal de outras três, por conta do grave acidente automobilístico em que se envolveu enquanto dirigia seu carro na Lagoa Rodrigo de Freitas. Cansado de enrolações judiciais, o juiz Carlos Eduardo Carvalho de Figueiredo, da Vara de Execuções Penais do Rio de Janeiro, expediu o mandado de prisão contra Edmundo em junho deste ano, mas o ex-jogador foi solto no dia seguinte por conta de um desses famigerados habeas-corpus.
Joaquim Barbosa, ministro do Supremo Tribunal Federal, com base nesta nossa justiça de meia-tigela, acabou de sentenciar hoje a prescrição do crime.
Como ficam as famílias das vítimas -- dentre as quais, havia uma jovem de 16 anos -- que ansiavam por justiça? Este país está realmente precisando de um choque de sem-vergonhice e dignidade.
A todos vocês, que por um acaso venham a cometer algum crime que em qualquer outro país do mundo seria passível de condenação severa, fica a dica: contrate um bom advogado, desses que sabem como encontrar as brechas necessárias para burlar a lei, porque ele vai fazer o seu julgamento correr a passos de tartaruga, jogando-o sempre um pouco mais à frente. Passa-se um ano, dois, cinco, dez... talvez em algum momento apareça um juiz chato como esse Carlos Eduardo Carvalho ou como aquela que foi morta recentemente, a Patrícia Acioli, para tentar fazer a justiça e te fazer passar uma noite ou duas na prisão, mas nada que seu advogado não consiga reverter com um belo habeas-corpus. E quando menos você esperar, um ministro do STF estará declarando que sua punibilidade está extinta -- que na linguagem dos plebeus quer dizer: seu crime não será mais julgado, parabéns, está livre, vai curtir a vida rapaz!
Mas se for cometer um crime, cometa logo. Vai que daqui a alguns anos eles resolvam tomar vergonha na cara...
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3 de setembro de 2011

Incentivo à leitura está na pauta do governo brasileiro

Bienal do Livro Rio 2011 Começou a Bienal do Livro no Rio de Janeiro, com discurso de abertura da presidente Dilma Rousseff, que afirmou pretender criar um grande mercado de leitores no Brasil. O desafio é enorme, e passa também por mudar o perfil da própria Bienal, que nos últimos anos se tornou um shopping de mercantilização da cultura.

bienal-do-livro

No último dia 1º de setembro começou a XV Bienal do Livro, no Rio de Janeiro. A presidenta Dilma fez um discurso animador a respeito do programa de incentivo à leitura que pretende implementar no Brasil. A ideia é que se produzam livros baratos para que maiores camadas da sociedade tenham acesso à leitura, pois é sabido que o Brasil figura entre os países com as taxas mais baixas de leitores do mundo.

Recente pesquisa mostrou que nem mesmo entre o seleto grupo de universitários de instituições públicas do país — aqueles que são os mais bem formados, teoricamente — a leitura é uma rotina.  Na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), por exemplo, 23,24% dos estudantes não leem um livro sequer durante o ano.  Na média nacional, o universitário brasileiro não fica muito melhor que isso: lê de um a quatro livros por ano. Imagina como fica esse quadro na outra ponta, ou seja, entre aquela maioria de cidadãos brasileiros que não tem acesso a uma formação educacional adequada...

Pra começar, deveriam mudar o formato desta Bienal do Livro. Ao longo dos anos, esse evento se tornou elitista, sediado num bairro nobre e distante do centro da cidade, dominado pelo marketing das grandes editoras, que ainda cobram ingresso para vender livros. O sociólogo e cientista político Emir Sader traça um cenário que ilustra perfeitamente o quanto a Bienal está deslocada da realidade do povo:

“Dá pena daquelas famílias pobres que vão de longe até o Riocentro, pagam transporte para toda a família, entrada para todos, algo de comer, pegam montões de publicidade, de brindes gratuitos, saem cheios de sacolas, mas sem nem um livro”.

É preciso romper com esta lógica, se quisermos realmente popularizar o acesso do grande público à leitura.

Uma das formas de uma nação em desenvolvimento cortar os laços de dependência com os grandes centros econômicos é através do incentivo ao setor nacional de ciência e tecnologia. A China já aprendeu isso, bem como os países conhecidos como “tigres asiáticos”, que tiveram no incentivo à Educação a mola propulsora de suas economias. Se o Brasil não seguir este exemplo, seu salto desenvolvimentista dos últimos anos não passará de um “voo de galinha” e então voltaremos a sofrer com os nossos males históricos, frutos, em grande medida, do despreparo da nossa população, em grande maioria malformada e semi-analfabeta.

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29 de agosto de 2011

32 anos da Lei de Anistia

anistia-de-torturadores Na mesma semana em que a Anistia Internacional pediu que a presidenta Dilma Rousseff simplesmente a revogue, a Lei da Anistia completa 32 anos sob um clima de contestação. A princípio, com a finalidade de ser o primeiro marco legal da transição democrática no Brasil, serviu para acobertar diversos criminosos de farda a serviço da Ditadura. Cada vez mais a sociedade exige que ela seja revista.


Neste domingo (28/8), completaram-se 32 anos da lei 6.683, mais conhecida como “Lei de Anistia”. Promulgada em 1979 pelo então presidente da ditadura civil-militar, João Baptista Figueiredo, ela tinha por finalidade perdoar de quaisquer sanções os exilados e perseguidos políticos do regime militar, depois de anos de severa e cruel perseguição, tortura e morte, dentro do projeto de abertura política lenta, gradual e segura. Mas, malandramente, com medo de revanchismos, os militares trataram de se proteger juridicamente, dando um jeito de colocar a si mesmos, algozes torturadores, como beneficiários da lei.

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Por conta da forma como foi elaborada, beneficiando tanto os perseguidos quanto os perseguidores, tanto as vítimas quanto os agressores, a sociedade brasileira, nos últimos anos, com o apoio de entidades internacionais, vem amadurecendo questionamentos a esta forma ilegítima de aplicação da justiça. Para a Corte Interamericana de Direitos Humanos (vinculada à Organização dos Estados Americanos), Ordem dos Advogados do Brasil e entidades de defesa dos direitos humanos como a Anistia Internacional, a lei perpetua a impunidade a torturadores e assassinos ligados à ditadura. De fato, não podemos equiparar todo o aparato de repressão militar, que agia de forma leviana, acima da lei, com crueldade desumana e em desacordo de qualquer convenção internacional, com as passeatas, os gritos de liberdade, os grupos de guerrilhas armadas e as manifestações de jovens, muitas vezes na casa dos 19, 20 anos, que eram brutalmente torturados, assassinados, estuprados e com os restos mortais destruídos. Essa mancha negra no passado brasileiro, tão recente do ponto de vista histórico precisa ser passada a limpo, ao contrário do que as viúvas da ditadura e os reacionários de plantão alegam.
Poucos meses depois do Supremo Tribunal Federal confirmar que a Lei de Anistia pode continuar a proteger os crimes contra a humanidade, a Corte da OEA condenou o Brasil por não punir os responsáveis pelas mortes de 62 guerrilheiros do PC do B executados pelas forças do governo na região do Araguaia, numa das carnificinas mais covardes de que se tem notícia no país. Jovens famintos, perdidos e isolados na mata, carregando um ideal de sociedade, o sonho de libertar o Brasil das garras da opressão, sendo caçados e mortos, esfolados como bichos ao arbítrio da lei e com seus restos mortais desaparecidos até hoje.
araguaia Existe a possibilidade do Supremo reavaliar o caso. Para isso é preciso contar com a vontade e o apoio de toda a população brasileira para que a Comissão da Verdade, uma das tentativas mais ousadas de se esclarecer crimes do período militar, possam ir a fundo e resgatar a história não contada destes nobres heróis brasileiros, que aguardam que os crimes dos quais foram vítimas sejam esclarecidos e seus algozes finalmente condenados pela Justiça brasileira. Na próxima quarta-feira (31/8) a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados realizará audiência pública para avaliar estes 32 anos da promulgação da lei. Esperamos que seja um primeiro passo para que este debate ganhe projeção nacional, conscientizando a opinião pública de que esta mácula na história brasileira precisa ser passada a limpo, mostrando que o Brasil quer mesmo entrar numa nova fase de plena democracia e justiça.

18 de agosto de 2011

Você tem alguma ideia do que seja 114,5 trilhões de dólares em dívida?

Estatua mendigaEsse é o valor do montante do passivo a descoberto* dos Estados Unidos. Recentemente o mundo entrou em pânico ante a possibilidade do calote americano na dívida pública, mas a negociação no Congresso elevou o teto da dívida, salvando momentaneamente a economia mundial da bancarrota. Mas existe a possibilidade de algum país desse mundo conseguir pagar o montante de 114,5 trilhões de dólares algum dia? O sítio usdebt.kleptocracy.us preparou uma série de ilustrações para termos uma ideia clara do que significa tanto dinheiro.



Antiganota-100-dolares  100 Dólares:a nota mais falsificada do planeta. Mantém o mundo em movimento.
 
 
 
10mildolares
10 mil dólares: é o suficiente para boas férias ou para comprar um carro usado. Aproximadamente um ano de trabalho para a média da população mundial.
 
 
1milhaopng
1 milhão de dólares: não é uma pilha tão grande quanto você imaginava, não é? Mesmo assim corresponde a 92 anos de trabalho para a média da população mundial.



100png
100 milhões de dólares: o bastante para distribuir ao redor para muita gente. Ainda dá para ser erguida por uma empilhadeira comum.
 
 
 
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1 bilhão de dólares: você precisaria de alguma ajuda se fosse roubar um banco. Agora está começando a ficar sério…


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1 trilhão de dólares: são palhetas duplas empilhadas, com 100 milhões de dólares cada, cheia de notas de 100 dólares. Precisaria de muitos caminhões para transportar todo esse dinheiro. Se você gastasse 1 milhão de dólares por dia desde que Jesus nasceu, você não teria chegado a gastar todo esse dinheiro neste momento (em agosto de 2011, quando o post foi publicado), mas “apenas” 700 bilhões – a mesma quantia doada pelo Congresso americano para salvar bancos da falência em 2008.




15trilhoes
15 trilhões de dólares: compare o montante desse dinheiro, com campos de futebol e com a Estátua da Liberdade. A menos que o governo dos EUA regule o orçamento, dívida nacional dos EUA (fatura de cartão de crédito) vai chegar a 15 trilhões até o Natal de 2011.
 
 
 
 
divida
114.5 trilhões de dólares: a coluna maior da direita representa uma pilha de 114,5 trilhões em notas de 100 dólares que supera os antigos prédios do World Trade Center e o Empire State Building. Se você olhar com cuidado você pode ver a Estátua da Liberdade ali embaixo. Esse super arranha-céu de notas é a quantidade de dinheiro que o Governo dos EUA sabe que não tem para financiar a totalidade do sistema Medicare e do “Programa de medicamentos de prescrição”, Segurança Social, as pensões dos servidores Militares e civis, etc. É o dinheiro que os EUA sabem que não vão ter para pagar todas as suas contas. Uma hora, essa bomba vai estourar. Você acha que este sistema, a continuar desse jeito, vai levar o mundo para onde?

 

Nota: Na imagem acima, o tamanho da base da pilha de dinheiro é meio trilhão, não 1T como na imagem 15T.
A altura, portanto, é o dobro. Isto foi feito para refletir a base de Empire State e WTC mais de perto.

* No caso de Patrimônio Líquido negativo (quando o valor das obrigações para com terceiros é superior ao dos ativos) utiliza-se a expressão "Passivo a Descoberto".
fonte: http://usdebt.kleptocracy.us/

 

16 de agosto de 2011

Por que o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa não “pega” em Portugal?

Dizem que no Brasil, certas leis “pegam” e outras não. Ao que parece, podemos dizer o mesmo com relação ao Acordo Ortográfico, só que em Portugal. O projeto, que tem também o seu viés político e não apenas linguístico, tem críticos de ambos os lados do Atlântico, mas os portugueses apresentam razões muito mais conservadoras e anacrônicas para não apoiarem o acordo.
 
No processo de Independência do Brasil, foi preciso criar os fundamentos da nação brasileira, tal como a noção de pertencimento a uma coletividade nacional, a bandeira, o hino, a literatura em comum e, é claro, a língua. Precisando se distanciar de seu passado português, o Brasil jamais se sujeitou às normas ortográficas portuguesas, preferindo criar as suas próprias. Com o tempo isso deu origem ao “português brasileiro” que temos hoje, e houveram algumas tentativas frustradas de acordo com os lusitanos, como a de 1911, e de 1945, mas nenhuma delas foi tão ampla e consensual como este de 1990. Em 2009, o Acordo entrou em vigor no Brasil, mas em Portugal, amplos setores da sociedade resistem à sua implementação. Por quê?
 
nova-ortografia
 
Ao que tudo indica, muitos portugueses ainda se fiam em seu passado conservador e colonialista para defender o que consideram uma “manutenção da pureza da língua original”, da qual Portugal seria a guardiã por direito. Além disso, rechaçam a “brasilianização da ortografia” e o “colonialismo dos ex-colonizados”, que pretendem impor uma “humilhação estatística a Portugal: 1,4% de alterações para Portugal contra uns míseros 0,5% do Brasil” (José Luiz Fiorin, USP). Um dos mais ferozes críticos do Acordo Ortográfico é o escritor português Vasco da Graça Moura, que lança uma vasta coleção de pérolas contra o tratado, dentre os quais:
 
1) “o acordo serve interesses geopolíticos e empresariais brasileiros, em detrimento dos interesses inalienáveis dos demais falantes de português no mundo, em especial do nosso país”;
 
2) “é uma lesão de um capital simbólico acumulado e de projeção planetária”;
 
3) “vai homogeneizar integralmente a grafia portuguesa com a brasileira (....) desfigurando a escrita, a pronúncia e a língua, que são nossas”
 
acordo pnr A língua é “deles”. Propaganda contra o acordo, do Partido Nacional Renovador, da direita portuguesa
 
Por trás destes argumentos “patrioteiros”, estão também os interesses dos editores e livreiros portugueses, com medo de perderem sua fatia no mercado editorial do mundo lusófono para os brasileiros.

O Novo Acordo Ortográfico não visa tirar a soberania, nem desfigurar a língua de nenhum país. Ele apenas sugere que a ortografia da língua portuguesa seja unificada, respeitando as características regionais (e daí vermos por exemplo a possibilidade de se grafar a mesma palavra de formas diferentes, o que muitos críticos, inclusive brasileiros, interpretaram equivocadamente como “falta de acordo”) para criar uma Comunidade Lusófona. Mas será preciso romper com a resistência de setores da extrema-direita portuguesa, que tal como seu patrono máximo, Salazar, sofrem da “síndrome salazarista de Badajoz”*, que tanto mal causou ao país nos últimos anos, por sustentarem firmemente o lema do ditador: “orgulhosamente sós"!
 
* alusão ao fato de Salazar nunca ter ido, simbolicamente, além daquela cidade fronteiriça de Badajoz e que, também simbolicamente, traduz a estreiteza das suas vistas e visões conservadoras

30 de julho de 2011

R$ 30 milhões para sorteio de bolinhas num jarro de vidro

marina da glória Realmente, as autoridades resolveram testar até onde vão as raias de nossa paciência e de nossa letargia, com os sucessivos episódios abusivos envolvendo a Copa do Mundo no Brasil. Desta vez, Prefeitura e Governo do Estado do Rio resolveram bancar com nosso dinheiro a organização do sorteio dos grupos das Eliminatórias na cidade, ao custo de 30 milhões de Reais. Não há limites para a desfaçatez inescrupulosa de nossos políticos. 


O pior é que, durante horas, será fechado o espaço aéreo bem ao lado do Aeroporto Santos-Dumont, e centenas de pessoas não sabem se poderão decolar mais tarde, ou se os voos foram transferidos para o Galeão... uma tremenda falta de respeito com o cidadão.
Não dá pra culpar a população por ela estar tão songa-monga, enquanto os larápios vão roubando tudo o que podem. Durante décadas ela foi condicionada a ficar colada na frente da TV assistindo a Rede Globo, esta mesmo que apoia e lucra com o evento. A única que vem sistematicamente denunciando toda a falcatrua que acontece bem na frente de nossos olhos é a Record. Não porque ela seja boazinha ou honesta, mas porque a ela interessa denunciar os desmandos do evento que é carro-chefe da concorrente. A Record mostrou, por exemplo, que com os 30 milhões de reais gastos só para este sorteio de hoje, o governo poderia construir dezenas de Unidades de Pronto Atendimento (UPA) ou 600 casas populares. Mas não... em vez disso patrocina o empreendimento privado do Ricardo Teixeira, sob a desculpa descarada do nosso prefeito de que "mais de 600 milhões de pessoas assistirão o evento pela TV"... É mesmo? Isso quer dizer o quê, senhor prefeito? Que essas pessoas se encantarão de ver uma lona branca improvisada na Marina da Glória e virão aqui correndo nas próximas férias gastar dinheiro, dando-nos o retorno financeiro do seu investimento? É querer muito duvidar da inteligência alheia...
Mais duas coisas: 1) não precisa ser gênio para perceber que Péle foi chamado agora para ser garoto-propaganda da Copa, pra ver se alivia um pouco a imagem do evento, que cada dia perde credibilidade no país; e 2) não adiantam essas manifestações de internet do tipo "fora Teixeira". Seria o mesmo que dizer "fora Eike Batista" quando vemos irregularidades em seus empreendimentos. A CBF é uma empresa particular, não tem nada que ver com serviço público. Devemos cobrar, isso sim, que nossos governantes não façam tratos nem andem em helicópteros particulares com essa gente, esbanjando o nosso dinheiro. E se é pra gritar "fora" alguém, então que seja Sérgio Cabral, Eduardo Paes ou Dilma Rousseff, esses sim, que são os culpados por este roubo escandaloso que está sendo a organização da Copa do Mundo. 


20 de julho de 2011

Se os tubarões fossem homens

bertolt-brecht Não existe analogia mais precisa, verdadeira e abrangente da pobre condição humana sob o domínio da ideologia capitalista, do que a criada pelo escritor e dramaturgo alemão, Bertold Brecht (1898-1956). Nesta nossa sociedade de desigualdades extremas, somos como pequenos peixes vivendo uma vida de ilusão, enquanto somos adestrados pelos grandes tubarões a acreditar no mundo que criaram para nós. Imprensa, igreja, escola... todas as instituições burguesas trabalham para não deixar que enxerguemos a verdadeira realidade a que somos submetidos, trabalhando noite e dia para a manutenção deste sistema que nos faz cair felizes nas goelas dos tubarões. Acompanhe e reflita sobre.







Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentis com os peixes pequenos. Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais.
Eles cuidariam para que as caixas sempre tivessem água renovada e adotariam todas as providências sanitárias, cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim que não morressem antes do tempo.
Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.
Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões.
Eles aprenderiam, por exemplo, a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. Aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos.
Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos.
Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência.
Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista e denunciaria imediatamente aos tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.
Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros.
As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que entre eles os peixinhos de outros tubarões existem gigantescas diferenças, eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo por isso impossível que entendam um ao outro.
Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.
Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, havia belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas goelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nos quais se poderia brincar magnificamente.
Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as goelas dos tubarões.
A música seria tão bela, tão bela que os peixinhos sob seus acordes, a orquestra na frente entrariam em massa para as goelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos .
Também haveria uma religião ali.
Se os tubarões fossem homens, ela ensinaria essa religião e só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida.
Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros.
Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar e os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiros da construção de caixas e assim por diante.
Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.