27 de agosto de 2010

Cristina Kirchner anuncia Relatório contra grupos de mídia na Argentina. O Globo reage.

Cristina Kirchner anuncia Relatório contra grupos de mídia na Argentina.  O Globo reage.

Relatório da presidente argentina acusa jornais de se beneficiarem da ditadura para conseguir o controle da empresa Papel Prensa. Jornais do Brasil atacam a presidente.

Os grandes grupos de mídia do Brasil estão acompanhando com apreensão o desenrolar da disputa entre a presidente argentina, Cristina Kirchner, e o jornal Clarín, que faz parte do maior conglomerado de mídia do país, e La Nación.

A presidente teve coragem de colocar o dedo numa ferida que parecia cicatrizada, mas só para aqueles que se julgaram isentos de todos os males que as ditaduras na América Latina foram capazes de gerar. Ao mexer na memória dos horrores da ditadura, Kirchner fez tremer do lado de cá da fronteira aqueles que também foram beneficiados durante o período da nossa ditadura. Quem lê o tom das manchetes do jornal O Globo, pode perceber isso de forma muito clara.

A presidente argentina resolveu acusar os ditos jornais por "crime de lesa-humanidade". Durante a ditadura argentina, o dono da empresa Papel Prensa, que fornecia papel de impressão para os jornais, o empresário David Graiver, bem como sua esposa Lidia Papaleo, foram brutalmente torturados, e assim como outros empresários na época, obrigados a se desfazer de sua empresa, que foi repassada a um valor muito abaixo do valor de mercado para os grupos Clarín e la Nación (La Razón, outro jornal agraciado, hoje não existe mais). São empresas de mídia que estiveram desde a primeira hora com os golpistas, e ganharam um prêmio por isso.

Outra versão da história nos é contada pelo braço impresso do nosso maior grupo de mídia no Brasil, o jornal O Globo: segundo essa fidedigna e confiável fonte de informação imparcial, Cristina Kirchner estaria apenas intentando controlar a mídia do país.

Segundo o jornal, "a divulgação do documento [um relatório de centenas de páginas que contém provas do envolvimento dos jornais no caso Papel Prensa] provocou reações de entidades de imprensa, da oposição e dos principais jornais do país, que manifestam preocupação com a liberdade de expressão argentina".

É preciso acabar com esta falácia e hipocrisia que se chama "liberdade de expressão" dos meios de comunicação, como se fossem órgãos intocáveis, acima do bem e do mal, sem nenhum tipo de interesse político por trás de suas opiniões.

Liberdade de expressão quem tem que ter é o cidadão, como eu, que tenho o direito de dizer o que penso por mim mesmo. Órgãos de mídia tem que ter é responsabilidade. Conforme Marco Aurélio Weissheimer, colaborador do site Carta Maior exprime de forma muito feliz:

"As empresas de comunicação têm o hábito de se apresentarem como porta-vozes do interesse público. Em que medida uma empresa privada, cujo objetivo central é o lucro, pode ser porta-voz do interesse público? Essas empresas participam ativamente da vida política, econômica e cultural do país, assumindo posições, fazendo escolhas, pretendendo dizer à população como ela deve ver o mundo. No caso do Brasil, a história recente de muitas dessas empresas é marcada pelo apoio a violações constitucionais, à deposição de governantes eleitos pelo voto e pela cumplicidade com crimes cometidos pela ditadura militar"

Quando a empresa privada de comunicações venezuelana RCTV batia de forma escandalosa no presidente Hugo Chavez, desrespeitando o princípio básico da imparcialidade jornalística, ele não fechou a empresa, como foi divulgado aqui no Brasil pelos meios de comunicação. Ele simplesmente não renovou a concessão pública, o que é perfeitamente compreensível, tendo em vista os propósitos políticos desta emissora.

Foi acusado de ferir a "liberdade de expressão", a velha falácia de sempre. Agora o mesmo acontece com o ato corajoso da presidente argentina. Considero essas acusações um ato de preocupação dos poderosos grupos midiáticos no Brasil, com medo de que estes saudáveis ventos da justiça cheguem da América Latina ao plutocrático Estado Brasileiro.

Parabéns Cristina Kirchner, força Lidia Papaleo. A Justiça será feita.




26 de agosto de 2010

Que a paz no Rio não seja coisa apenas pra inglês ver...

Que a paz no Rio não seja coisa apenas pra inglês ver...
 Esses dias, eu lembrei de um documentário que eu assisti há uns 10 anos, que tratava da violência na cidade do Rio de Janeiro, na ótica de uma moradora de comunidade carente, de um traficante e de um policial. Era o "Notícias de Uma Guerra Particular"...





Truculência policial, traficantes que ajudam a comunidade e comunidade que ajuda a encobrir os traficantes...Tudo isso é bastante conhecido de quem mora nessa cidade. O grande mérito deste documentário, é o depoimento sincero e lúcido do então chefe de polícia civil, Hélio Luz, que dá um panorama corajoso de como o Estado funciona e para quem funciona. Talvez por mera coincidência, três meses depois de falar sobre isso, tenha se sentido na obrigação de entregar o cargo...



Exatamente 10 anos depois deste documentário, foi produzido outro, em 2009, bastante similar, dessa vez pela mídia estrangeira, intitulado "Dancing with the Devil". Mais uma vez a violência produzida pelo tráfico de entorpecentes foi narrada através das impressões de três personagens: um pastor, um policial civil e um traficante.



O período de 10 anos, embora possa parecer curto, foi suficiente para perceber algumas situações: o poder de fogo dos bandidos e a violência aumentaram vertiginosamente. Bem como a resposta da polícia, com seus caveirões intimidadores e seu poder de fogo também maior.



Neste ano de 2010, porém, parece que as autoridades perceberam que não adianta o mero confronto armado, a execução de um ou outro líder do tráfico, a apreensão de meia-dúzia de sacolés de cocaína. Era preciso uma ação contundente e profunda para erradicar de vez esse mal pela raiz. A resposta dada veio na forma das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP's), que até o presente momento, têm sido um grande sucesso.



Neste ponto é preciso fazer algumas avaliações: eu conheço grupos de esquerda, movimentos sociais, que são contra a ação, por N motivos, a maioria ligada a questão de supostos preconceitos. Quero crer que essas pessoas, apesar de equivocadas, agem por boa-fé e não por politicagem. Ora, a promessa das UPP's é a melhor possível. Depois da pacificação, vem outras ações do Estado, que foram negligenciadas em parte por descaso mesmo, em parte pelo apoio que os traficantes sempre tiveram em seus respectivos nichos, o que dificultava os serviços mais básicos, como instalação elétrica. Apesar de ser crítico deste sistema e especialmente da política do Governador, não devemos ser desonestos e deixar de admitir coisas positivas do adversário político.



Minha única preocupação é a seguinte: é muito notório que este repentino movimento de interesse do Estado por áreas carentes e violentas tem relação com os futuros eventos internacionais que acontecerão na cidade nos próximos anos: a Copa do Mundo e as Olimpíadas. A população tem que cobrar a continuidade deste programa após o fim dos ditos eventos, pois assim que os holofotes da mídia mundial se desligarem, não será surpresa se o habitual abandono volte a imperar nas áreas pobres da cidade. Estamos de olho.