24 de novembro de 2019

Google ajudou blogueiros de direita a lucrarem com fake news

Gigante da internet ajudou blogueiros a melhorarem suas estatísticas. E ele espalharam fake news...


Cada vez mais, está claro para as pessoas que a direita só se sustenta com mentiras, hoje chamadas de fake news. Mas, para que essas mentiras se tornem de fato "news" (notícias) é preciso que haja poderosos veículos de comunicação que possam disseminar para um maior número possível tais mentiras ao grande público.

Durante décadas a televisão foi o maior veículo de comunicação do Brasil, e a maior empresa dentro do maior veículo de comunicação era (e ainda é) a Rede Globo de Televisão. Não por acaso, a Globo também era a maior divulgadora de fake news em tempos passados, antes do termo ser cunhado.

Por isso, políticos da esquerda eram difamados e sofriam ataques contra a sua reputação, no intuito de prejudicar suas popularidades perante as massas, e consequentemente atrapalhar suas carreiras políticas.

Nos tempos da TV, podemos dizer que Lula e Brizola foram dois dos principais alvos de mentiras por parte desta emissora. Quem não se lembra do hoje clássico direito de resposta de Brizola no Jornal Nacional, para se defender de alguns dos ataques mentirosos que o próprio dono da emissora, Roberto Marinho, fazia pessoalmente? Fora as imagens tendenciosas e desgastantes de arrastões pelas praias do Rio, ou a ideia de que Brizola era amigo de traficantes por não permitir que a Polícia Militar usasse de truculência nas incursões em comunidades carentes.

Lula, por seu turno, foi vítima de uma das maiores manipulações na edição de um debate eleitoral que esse país já assistiu. Em 89, quando a Globo bombava com audiências estratosféricas, foi ao ar um resumo do debate presidencial onde Fernando Collor de Mello se sobressaía com seus melhores momentos, enquanto Lula era apresentado em seus momentos mais frios e claudicantes. Um crime jornalístico da mais alta estirpe.

Hoje a TV já não tem a mesma força de outrora, transferida para a rede mundial de computadores. E dentro dessa rede, a gigante incontestável é o sistema de buscas conhecido como Google. E de acordo com o site Intercept, nada mudou com relação a gigantes da comunicação continuarem incentivando, até diretamente, a propagação de fake news com intenções econômicas ou políticas.

Temos a clara sensação de que há um verdadeiro descompasso entre a vontade das populações do mundo e o que as mídias pretendem que nós pensemos.

Enquanto nos últimos anos, as pessoas mais pobres e trabalhadoras têm se mobilizado para defender nas ruas os seus direitos, que muitas vezes são destruídos com golpes de Estado fomentados por fake news e manipulações, as mídias têm trabalhado constantemente de forma bastante reacionária para defender o status quo. O mundo quer se libertar, mas os aparatos ideológicos das classes dominantes não permitem. E pra isso jogam sujo, mentem, rasgam constituições, destroem democracias e interferem diretamente no senso comum, nas eleições e nas informações disseminadas.

Só surpreende que o Google no Brasil, uma empresa que cultiva uma imagem de modernidade e progressismo, tenha se prestado a esse papel ridículo, cooperando com blogueiros de direita, espalhando mentiras que ajudaram a derrubar o governo Dilma do poder e a criar essa onda reacionária de pós-verdade que vivemos atualmente.


14 de novembro de 2019

A ciência brasileira a serviço das desigualdades

Copacabana e seus contrastes, símbolo da severa desigualdade social no Brasil

Eu demorei a conhecer o trabalho do sociólogo Jessé Souza. Foi somente em julho de 2013 que eu me deparei com uma publicação sua: A Ralé Brasileira. Foi amor à primeira vista, e de lá pra cá eu venho acompanhando mais de perto a produção deste acadêmico crítico e mordaz das injustiças sociais brasileiras*. Por isso mesmo, seu mais novo trabalho, intitulado A Tolice da Inteligência Brasileira, servirá de base para comentarmos agora e em outras postagens como a intelectualidade brasileira, em vez de criticar o senso comum que oculta a razão da imensa desigualdade social do país, ajuda a reforçá-la, com teorias falsas que demonstram a síndrome de vira-latas de nossa elite pensante.

Segundo Jessé Souza, as ideias do senso comum não brotam do nada; elas são pensadas por grandes autores até ganharem as ruas, as universidades, as conversas de botequim e o bate-papo na fila do banco. Elas ocultam e distorcem a realidade, selecionando o que é legítimo e o que não é legítimo pensar. Isso porque quem alcançou a riqueza e o status, bens escassos em qualquer sociedade, precisa defender a ideia de que tem direito a esses bens. A riqueza — e consequentemente a pobreza — precisa ser legitimada, aceita como um dado natural.

Dessa forma, a riqueza e a boa posição social não aparecem como privilégios, são ocultados no senso comum através da falsa ideia da meritocracia, que camufla os meios que fizeram tal pessoa alcançar o sucesso. É o que o autor chama no livro de “violência simbólica”, que atua no âmbito da ideologia, em substituição à violência física, agora o último recurso.

É por conta disso que os privilegiados são os donos dos jornais, das editoras, das universidades, das TVs e do que se decide nos tribunais e nos partidos políticos. Apenas dominando todas essas estruturas é que se pode monopolizar os recursos naturais que deveriam ser de todos. (p.10)

A tese do autor, que perpassa toda obra, é que tamanha violência simbólica só é possível graças ao empenho de setores da intelectualidade brasileira, que trabalham a serviço da manutenção do privilégio dos poderosos. Em vez de usar a ciência de forma imparcial e crítica, usam para legitimar a desigualdade social.

Os poucos que controlam tudo precisam desses intelectuais e especialistas do mesmo modo que os coronéis de antigamente necessitavam de seu pequeno exército de cangaceiros. Eles são o seu “exército de violência simbólica” assim como os coronéis do passado possuíam o seu “exército de violência física”(p.11)

Jessé pretende desvendar as chamadas ideias-força produzidas e disseminadas por intelectuais brasileiros em conexão com os interesses dos poderosos, que se institucionalizam como verdades naturais. Vamos esmiuçar aqui algumas dessas ideias, e seus autores proponentes.


A ciência como legitimadora dos privilégios

“Não existe ordem social moderna sem uma legitimação pretensamente científica desta mesma ordem”

Segundo Jessé, nos últimos 200 anos as interpretações e as explicações sobre o mundo e como devemos agir nele foram obras de filósofos, sociólogos e historiadores, em substituição aos clérigos. Todas as ideias dominantes que circulam na imprensa, nas salas de aula, nas discussões e nas conversas de botequim não passam de versões mais simplificadas das ideias produzidas pelos grandes pensadores.

O racismo velado do culturalismo científico

A tese do culturalismo científico cria a dicotomia tão naturalizada entre sociedades ditas avançadas e atrasadas, no âmbito tanto cognitivo quanto moral, quer dizer, as sociedades avançadas — e por tabela os seus cidadãos — são percebidos idealmente como mais racionais (dado cognitivo) e superiores (dado moral). Como consequência, nós, dos países “atrasados”, somos vistos negativamente como “afetivos”, “emocionais” (cordiais, no sentido de coração) e portanto mais propensos à corrupção.

Essa divisão é racista pois vê o europeu e o branco de modo geral como dono da civilização perfeita, enquanto nós, os mestiços da periferia, sofremos com nossas imperfeições que refletem na política e na economia. O que antes era legitimado pela suposta superioridade racial agora é explicado pelo “estoque cultural” superior das sociedades do Atlântico Norte.

Jessé aponta no Brasil os sociólogos Gilberto Freyre e Sérgio Buarque como autores que reproduzem com fidelidade essa corrente culturalista. Com o aporte de vastas quantias de dinheiro norte-americano em apoio para pesquisa, legitimou-se o culturalismo em crítica ao “racismo científico”. Mas no fundo, essas pesquisas dirigidas levaram ao predomínio da ideia de uma hierarquia mundial onde os Estados Unidos estariam no topo como exemplo da máxima perfeição.

Esse esquema foi usado até pelos pensadores dos países periféricos, convencidos (ou financiados) de que os Estados Unidos são de fato o El Dorado na Terra.


Gilberto Freyre e o culturalismo à brasileira.


A gênese do culturalismo brasileiro se deu nos anos 30 do século XX com Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre. Nessa obra, Freyre fundou a forma dominante como o Brasil contemporâneo percebe a si mesmo. Ele inverte a fórmula racista científica para tornar positiva o que até então era visto como nosso principal problema: a miscigenação racial.


Sérgio Buarque e a tese do patrimonialismo

Freyre fundou a concepção dominante de como o brasileiro se percebe no senso comum, mas foi Sérgio Buarque de Holanda que deu, três anos depois de Freyre, a chancela de ciência ao senso comum em Raízes do Brasil. A ideia-força mais poderosa que Buarque nos legou foi a da relação entre mercado, sociedade e Estado. Nessa tese, hoje claramente em voga, o Estado é tido como fraco, incompetente e propício a todo tipo de desvios, enquanto o mercado é o reino da virtude e da racionalidade.

O que Buarque acrescenta em relação a Freyre é a ideia do personalismo —”a emotividade como um dado psicossocial que guia as relações interpessoais de favor/proteção” — institucionalizado, ou seja, patrimonial. O patrimonialismo, por sua vez, é o nível institucional do personalismo, o homem cordial de Buarque, emotivo, pré-racional, pré-moderno, que leva essas características para o Estado. No Estado o homem cordial divide tudo com os amigos, pune com rigor os inimigos, não existe imparcialidade.

O dado curioso reparado por Jessé é que o homem cordial de Buarque está presente em todas as esferas da vida, mas as atenções de Buarque se concentram apenas na sua atuação corrupta no Estado. O mercado, apesar de ser operado pelo mesmo tipo de homem, é visto, por outro lado, como o local da racionalidade, da virtude e da impessoalidade…

Uma jogada sensacional dessa teoria é a associação implícita, nunca demonstrada, entre mercado e sociedade. A teoria nos convida sutilmente a embarcar na crítica ao “Estado corrupto”, e assim nos sentirmos tão virtuosos e imaculados quanto o próprio mercado… É assim que amplos setores da sociedade acabam conquistados pela ideia da mercantilização da vida como um todo, embora as camadas populares não tenham efetivamente nada a ganhar com isso. Na verdade acabam por defender uma tese que de fato é a favor apenas de uma pequena camada da sociedade (a dos ricos), que assim universalizam seus interesses particulares como se fossem de todos nós, e ainda demonizam o Estado que tem como uma de suas principais funções a de equilibrar as desigualdades com ações de redistribuição da riqueza, por exemplo.

Enquanto se perde tempo nessa falsa dicotomia entre mercado virtuoso e Estado sempre corrupto, deixa-se de prestar atenção no verdadeiro drama brasileiro: a desigualdade social, que é produto histórico muito mais de um mercado mundial que gera tanto riqueza quanto miséria, aumentando o fosso de desigualdade, do que da suposta corrupção unicamente concentrada no Estado.


* Você pode acompanhar diversas postagens baseadas neste livro por aqui, como

  1. Conflitos de classes nos hospitais públicos brasileiros;
  2. O economicismo e suas consequências para a desigualdade social;
  3. Os mitos da meritocracia e da brasilidade a serviço dos privilégios no Brasil
  4. Como se perpetuam os mitos da sociedade brasileira




12 de novembro de 2019

Bolívia: extrema-direita + cristãos: golpe

Luis Fernando Camacho (centro) junto a policiais e apoiadores do golpe
Dia 30 de setembro de 2019: Evo Morales, então presidente da Bolívia, testa um carro elétrico cem por cento produzido naquele país, uma façanha que simboliza o momento econômico altamente positivo por que passa o país sob seu comando.

Dia 10 de novembro: Fernando Camacho, líder do movimento golpista que ora irrompe no país vizinho, adentra o Palácio de Governo e sobre a bandeira boliviana abre uma bíblia.

Não chega a ser grande novidade que a extrema-direita de qualquer país ocidental lance mão do cristianismo como arma reacionária contra povos nativos, pobres e periféricos. O que ainda causa espanto é que discutir a participação de católicos e evangélicos em movimentos racistas e xenófobos ainda seja um grande tabu entre as esquerdas, inclusive na Academia.

Por que caiu Evo Morales? Certamente não foi por crise econômica. Precisamos enxergar mais um golpe na América Latina através de um contexto maior, dentro do quadro dos diversos golpes que têm ocorrido na região.

Os grupos de direita, na América Latina especialmente, perceberam que o jogo da democracia tem levado o eleitor a escolher políticos alinhados com o campo progressista. Se eles respeitassem a democracia, lutariam na oposição para convencer o eleitorado de que seus candidatos são os melhores, como todo partido de esquerda sempre aprendeu a fazer, pacientemente, durante anos, muitas vezes décadas, até conseguir furar todo o bloqueio que a própria democracia impõe a estes partidos.

Mas, para a direita, a democracia só vale a pena enquanto mantiver no poder seus representantes. Do contrário, diversas revoltas, sabotagens, campanhas difamatórias, perseguições políticas, prisões e acusações levianas são produzidas com o apoio dos diversos aparatos burgueses que instrumentalizam para esta intenção, como o judiciário, o parlamento, as igrejas e as forças armadas.

Pressionado por suspeitas em torno da sua vitória apertada no primeiro turno das recentes eleições bolivianas, Evo Morales se colocou à disposição para novas eleições, ou recontagem de votos. Nada disso foi aceito. Para o analista internacional Amauri Chamorro,

A direita boliviana não aceitou a realização de uma nova eleição e não quis sequer recontar os votos da eleição [...]. Se a direita  tivesse capacidade de vencer uma eleição, teria ido pra eleição. Só que o que eles querem nesse momento, é impedir a continuidade de um processo de transformação que foi implementado na Bolívia depois de 12 anos de governo Evo Morales

Chamorro confirma que o golpe no governo não tem tanto a ver com questões econômicas, e sim de classe. A extrema-direita racista da Bolívia saiu do armário com o mesmo pretexto que desencadeou a crise das instituições brasileiras, a partir do momento que Aécio Neves (por onde tem andado?) se recusou a aceitar a derrota apertada para Dilma Rousseff nas eleições de 2015. A partir daí, todo descalabro e loucuras passaram a fazer parte da nossa vida política, culminando com a eleição de um dos maiores boçais que este país já foi capaz de produzir — e olha que não foram poucos.

Agora existem suspeitas, a partir do vazamento de um áudio divulgado pelo jornal El Periódico, da participação de grupos evangélicos e do governo Bolsonaro neste evento golpista no país vizinho.

Sabemos que a família Bolsonaro tem ligações estreitas com Steve Bannon, o artífice da ascensão da direita no mundo através de mentiras, baixarias e jogo sujo. Aliás, teria outra forma? O hipócrita moralismo conservador é a nova arma da direita para conquistar o apoio das classes médias urbanas e dos pobres doutrinados pelo mundo, incomodados com a conquista de espaço cada vez maior de populações minoritárias. São grupos xenófobos, preconceituosos, medrosos de perder status social, que sentem raiva do outro, e que encontram muitas vezes respaldo para o seu modo de vida no seio do cristianismo. Exatamente como o líder golpista boliviano, saído diretamente das hostes católicas. Segundo recente reportagem do Globo,

O ativismo de Camacho começou aos 23 anos, como vice-presidente da organização cívica União Juvenil Cruceñista, descrita por organismos de direitos humanos locais como uma espécie de grupo paramilitar que realizava atos de racismo e discriminação contra indígenas

Recusa em aceitar derrota na eleição; protestos nas ruas dos bairros das classes médias brancas de Santa Cruz; ameaça de prisão do presidente; milícias policiais, Forças Armadas e religião unidas no golpismo. Esse filme que acaba de começar na  Bolívia também passou no Brasil.

Podemos prever agora algumas partes da metade desse filme que ora se desenrola: eleição de um capacho local do sistema financeiro apoiado pelos Estados Unidos, provavelmente Carlos Mesa; desmonte do estado de bem estar, dos direitos dos pobres; privatização das riquezas naturais bolivianas e paralisação do crescimento recorde do país nos últimos anos para transferir renda aos mais ricos.

Como será o final deste filme? O povo do  Chile nos dá spoilers...

29 de outubro de 2019

Por que precisamos superar o capitalismo





Desde o começo dos anos 90, nós já tivemos importantes conferências sobre o clima e o meio-ambiente no mundo. Mas nosso planeta continua indo de mal a pior. Apesar dos esforços e da boa vontade de ativistas, ecologistas e políticos, não existe saída para o meio-ambiente dentro desse sistema destrutivo chamado capitalismo em que vivemos atualmente. É preciso discutir alternativas de superá-lo. E cada vez mais pessoas estão se mobilizando para isso.

Thomas L. Friedman, famoso jornalista norte-americano, ganhou maior notoriedade após a publicação de seu livro Quente, Plano e Lotado – desafios e oportunidades de um novo mundo. O livro apresenta críticas tanto ao sistema financeiro quando à devastação do meio-ambiente que, segundo ele, são resultado de um desvio do sistema, não do próprio sistema em si. Ele defende a correção desses abusos para que o capitalismo possa trazer riqueza e benefício para todos. Mas alguém, a essa altura do campeonato, ainda é capaz de acreditar nesse conto de fadas?

Cada vez mais temos a exata noção de que o capitalismo é realmente destrutivo, não só dos recursos naturais, como das pessoas, dos seres humanos, na medida em que é responsável pelo fomento de uma brutal desigualdade social. É contra esses efeitos nefastos que o mundo mais uma vez se levanta em protestos, como por exemplo, no Chile. E que também se volta mais uma vez a políticos de viés progressista, como na Argentina. O fôlego da direita parece estar acabando na medida em que mais uma vez seu receituário neoliberal não apresenta os resultados esperados pela maioria dos trabalhadores.

O estranho é que o jornalista supracitado parece se mostrar contraditoriamente muito mais preocupado com o crescimento do mundo pobre — o que levaria a população mundial a uma condição que ele denomina “plana”, ou seja, cada vez mais pessoas ascendendo a uma classe mediana (não média, na acepção que conhecemos), na mesma faixa econômica, saindo da pobreza, elevando a média do consumo de energia e recursos naturais — do que com o maior vilão do meio-ambiente: seu próprio país, os Estados Unidos, baluarte do consumo e do desperdício.

Sozinhos, os estadunidenses, que perfazem apenas 4 por cento da população mundial, consomem 25 por cento de todos os recursos do planeta Terra. O medo do jornalista é de que os demais povos cresçam e passem a querer viver o modo americano de consumo destrutivo e desperdício exacerbado. Propõe que o país lidere uma mudança de comportamento, reformulando o capitalismo. Mas o capitalismo é isso. Não há reformas possíveis. O que há é a necessidade de superá-lo. E o mundo já começa a entender isso.

Cada vez mais, a população mundial quer um outro mundo.





Desde que o modelo neoliberal se tornou mais uma vez hegemônico, pelo menos no Ocidente, temos assistido a uma série de fracassos no campo social, com a desigualdade aumentando drasticamente em regiões antes estáveis. Benefícios históricos dos trabalhadores vem sendo cortados como forma de facilitar demissões (quem não lembra de FHC dizendo que iria destruir o legado de Vargas?, finalmente destruído por Temer e Bolsonaro), e o cassino especulativo das bolsas de valores vem jogando países inteiros na bancarrota, como vemos em diversos países, como a Argentina de Macri.

Mas — confirmando a velha ideia marxista — assim como os magnatas das finanças e dos negócios nos impuseram um sistema altamente destrutivo, também plantaram a semente da sua superação. Desde meados dos anos 90, assistimos ao crescimento espontâneo de movimentos sociais de combate ao capitalismo. Em todos os cantos do planeta (hoje com ímpeto renovado), milhões de pessoas se reúnem, planejam e vivem a mudança que esperam no mundo. Defendem uma alternativa mais democrática para os povos, o respeito à diversidade e ao meio-ambiente, sem submissão à ditadura do capital. No próximo post nós vamos conhecer um pouco a história desses movimentos. Você pode ler clicando em Movimento Zapatista, o embrião do movimento anticapitalista atual.


19 de agosto de 2019

Mercado livre só pros outros: por que o Brescia conseguiu levar Batotelli

Mesmo com menor poder financeiro, Brescia vence disputa com Flamengo e leva Mario Balotelli


Recentemente, o Clube de Regatas do Flamengo chamou a atenção do mercado internacional de negociação de jogadores pela sua grande capacidade de investimento. Depois de fazer algumas grandes contratações no mercado interno, como do uruguaio De Arrascaeta e do zagueiro Rodrigo Caio, pagou alguns milhões de euros para repatriar jovens jogadores como Vitinho e Gerson direto da Europa.

Mas a capacidade de contratar do rubro-negro foi ainda mais longe, a ponto de negociar recentemente a vinda da estrela do futebol internacional Mario Balotelli. No entanto, apesar de ter a melhor oferta do rubro-negro carioca, o jogador decidiu ir jogar no modesto Brescia da Itália, ganhando apenas 30 por cento do que ganharia no clube carioca.




A princípio, questões pessoais foram dadas como justificativa pela escolha do jogador, como por exemplo, voltar à cidade onde cresceu, o que seria compreensível. Mas, recentemente, a verdade veio à tona, de acordo com a publicação de um jornal italiano. Graças ao desconto de impostos previsto pela nova lei italiana sobre a chamada "fuga de cérebros", Massimo Cellino, empresário e dono do Brescia, economizará muito dinheiro em descontos de impostos para o governo italiano.

Em 29 de junho a lei foi aprovada na Itália. É assim que funciona: de agora em diante, para jogadores estrangeiros ou para quem volta do exterior depois de pelo menos dois anos, apenas 50% do lucro tributável é tributado. Simplificando: metade dos ganhos dos jogadores não está mais sujeita a tributação.

Saiba mais: 
Como o livre mercado prejudica países em desenvolvimento: o caso do futebol 

Uma enorme poupança que permite aos clubes italianos oferecer salários líquidos mais altos, como foi o caso da Espanha com a lei de Beckham. Uma grande assistência para as equipes da Série A. A Juventus se beneficiou, por exemplo, no caso De Ligt. Sem o desconto do imposto, o Brescia nunca poderia ter garantido a Balotelli 3 milhões de euros líquidos para a primeira temporada e 4,5 para os outros dois.

O acordo é de um ano com renovação automática. Porém, para acessar a facilitação, o jogador deve permanecer na Itália por pelo menos dois anos. E como a regra entrará em vigor em 1º de janeiro de 2020, Mario deve jogar pelo menos três temporadas de futebol. Se sair antes, o valor economizado deve ser devolvido às autoridades fiscais italianas. Resumindo: você terá que, por um tempo, permanecer no clube. O que no caso de Balotelli, não deixa de ser uma grande dúvida.




O que temos então aqui é a interferência de uma lei estatal sobre os pressupostos da livre concorrência do mercado. O Flamengo, por seus próprios esforços e mérito, depois de 6 anos colocando as finanças em ordem, foi capaz de propor um contrato a nível europeu a Balotelli, coisa que ele não teria igual, a não ser com a mãozinha do governo italiano, que teve em vista proteger o mercado do futebol naquele país e dar capacidade de investimento a clubes que, de outra maneira, não teriam essa capacidade.

O que europeus e americanos, ou dito de outra maneira, os principais países capitalistas defendem, na verdade, é o mercado livre para os outros. Para si, não se furtam a lançar mão de leis e determinações especiais de protecionismo, ferindo os preceitos do livre mercado. Não só no futebol, haja vista os fazendeiros franceses estarem com medo do acordo UE-Mercosul porque vai abrir o mercado europeu para os competitivos produtos agrários brasileiros. Vão perder os subsídios do governo.

Está na hora dos clubes brasileiros demandarem condições iguais de competição no mercado, seja exigindo que a FIFA tome providências contra interferências externas nas livres negociações econômicas, ou que o governo do Brasil crie também facilidades fiscais para aumentar o poder de investimento dos clubes nacionais, uma espécie de Lei de Beckham nacional.

O mercado livre, se tem que existir, que seja para todos. Ou então que sejamos capazes de proteger nossa maior matéria-prima, os jogadores brasileiros, para que, em vez de brilharem nas ligas europeias, possam cada vez mais reforçar os times brasileiros.


16 de agosto de 2019

Guia prático do posicionamento político

Tem circulado nas redes sociais um interessante e controverso "meme", definindo, aparentemente de forma irônica, mas certamente crítica, os posicionamentos políticos mais relevantes no Brasil.



Muitas pessoas não acreditam que seja dessa forma, que é apenas uma postagem tendenciosa de algum militante da esquerda. Mas o meme, de fato, reflete exatamente a realidade. Vejamos.

Por que ser de centro é ser de direita

Primeiro, o que é ser "de direita"? Poucas pessoas costumavam se referir a si mesmos como de "direita" até recentemente. Afinal, além de ter uma carga pejorativa desde há muito tempo, por conta de estar atrelada a uma tendência reacionária a qualquer tipo de mudança na ordem social, piorou muito com o advento da ditadura militar no Brasil (de direita, com todos os seus crimes e autoritarismos assassinos no período).

Poucas pessoas gostariam de assumir esse fardo, e portanto, era mais sutil se dizerem "de centro".

A definição esquerda e direita na política começou, como a maioria das pessoas sabe, durante a Revolução Francesa. Conservadores, fossem eles burgueses ou nobres, sentavam-se à direita na Assembleia. "Radicais", jacobinos e progressistas à esquerda.

De lá pra cá, pouco mudou nessas características iniciais. Já naquela época, quem era de centro era mais identificado com a direita, com medo da revolução sair do controle das elites e ir parar na mão do povo, como acabou acontecendo durante um certo período, pelas mãos de Robespierre.

Quando o povo foi fazer valer a revolução de fato, as elites a chamaram de Terror. Porém, isso é outra história.

Mas existe alguém realmente de centro na política?

Óbvio que não. É diferente ser de centro em países governados pela social-democracia, pelo socialismo ou pelo capitalismo, como é o caso notório do Brasil. Mas todos eles acabam corroborando sempre um lado, o lado que estiver no poder.



Ser de centro na Finlândia é achar que as políticas públicas estão indo muito bem, que a sociedade é bem servida pelos órgãos públicos, que não existe nenhuma demanda muito séria a que se envolver, tomar partido, como por exemplo a diminuição da desigualdade ou a taxação de grandes fortunas, coisas que eles já resolveram há muito tempo.

Ou seja, ser de centro é apoiar a social-democracia do governo.

O Brasil é um país capitalista (ou seja, de direita), embora periférico, e ostenta centenas de problemas mal resolvidos causados por este mesmo sistema, dentre eles o autoritarismo e a violência do Estado contra pobres. Ser de centro, "neutro", defender apenas algumas pequenas reformas diante da colossal mudança estrutural que precisamos, é não querer mexer nas estruturas do governo de direita do sistema, ou seja, é ser de direita.

"Não sou de esquerda nem de direita"


Hoje esse tipo é conhecido como o "isentão", aquele que do alto da torre de marfim em que se colocou, aponta o dedo para ambas as vertentes políticas e se diverte criticando-as, colocando, por exemplo, bolsominions e lulistas no mesmo pé de igualdade, embora em polos opostos.

Nada mais nocivo para a sociedade do que o isentão.

A política perpassa todas as esferas de nossa vida. O isentão acredita ser tolice tomar partido, defender uma causa, já que, em sua visão, todas as causas são iguais, inúteis ou perdidas.

Quando diz não ser nem de esquerda e nem de direita, ele levanta essa bandeira como mérito. Mas não sabe que é apenas um tolo com preguiça de pesquisar sobre o tema, se inteirar das coisas, e está fadado a ser governado por aqueles que ele justamente detesta.

Os políticos da direita, aqueles que se aproveitam dos menos engajados para destilar e emplacar suas fake news, suas mentiras e suas propagandas, encontrando terreno fértil de manipulação das mentes menos politizadas, são os que estão no poder no Brasil.

Ou seja, não tomar partido, não se envolver, não ser "nem isso nem aquilo", só ajuda a quem tira proveito dessa atitude: a direita, que está no poder e quer continuar.

"Não tenho preferência / "Não gosto de política"


Essas são vertentes irmãs, idênticas nos resultados práticos. Na verdade, podem se equiparar também ao isentão, com a diferença de que este ainda se interessa um pouco por ironizar a política, embora não de forma efetiva e sim para criticar, se colocar acima das disputas.

Enquanto isso, os que não têm preferência nem gosto por política nem sequer se importam com ela. A não ser naquelas semanas da época de campanha eleitoral, onde esta personagem subitamente descobre por vias mágicas (mentira, é induzido através das mídias mesmo) qual é o melhor candidato, aquele que vai salvar o Brasil da lama da corrupção e das safadezas, o herói, o mito... E logo depois de ter feito a cagada eleito um presidente despreparado e tosco que vai lhe tirar todo e qualquer resquício de direito social que ainda tenha restado, este ser volta tranquilamente a seu estado de hibernação política, como quem não é com ele, proferindo frases secas, como "não tenho preferência", "não gosto de política".

Pelo menos até a próxima eleição, onde talvez descubra com toda a certeza do mundo que o melhor para o país agora é Luciano Huck...

E assim, o Brasil vai caminhando a passos largos rumo a uma realidade onde as políticas econômicas da direita seguem fazendo seus estragos por onde passam, às vezes numa espécie de segundo round, depois de terem feito um primeiro estrago (como os tucanos no poder nos anos 90); terem sido derrotados e agora trazidos de volta à baila na carona de um golpe e de um afastamento ilegal de um ex-presidente, preso para não impedir o cataclismo que hoje o governo atual nos causa.

O que diriam aqueles centristas, isentões e desgostosos da política ao serem cobrados por terem ajudado a eleger um governo de (extrema-)direita, mesmo ele, o cidadão, "não sendo" de direita?

"Mas e o PT?". É o que diriam. Claro que isso não tem nada a ver com ser de direita...







12 de julho de 2019

O perigoso evangelismo xiita brasileiro

Por que as seitas neopentecostais no Brasil são tão xiitas? Por que os evangélicos flertam com tanta alegria com a extrema-direita? Essas são perguntas nada fáceis de responder.

Mas suas consequências nefandas são bastantes claras.

Para alguns setores da esquerda brasileira, o campo progressista perdeu terreno no momento em que abandonou as demandas mais urgentes da população carente — "terras devolutas", por assim dizer, que foram ocupadas pelos pastores evangélicos. Até aí nenhum problema em princípio.

Mas... o trabalho que estes pastores têm feito, para além do assistencialismo imediato, é afastar a população de uma verdadeira emancipação social. As igrejas evangélicas, em sua esmagadora maioria, funcionam pelo viés da ideologia da direita política. O conservadorismo implícito, inerente, inato, em todas as religiões, que na verdade define a sua razão de existir, cumpre um papel tão bem feito, que faz os pobres e miseráveis defenderem posições políticas que só beneficiam aqueles que são os privilegiados do poder politico e econômico.

Seria natural que pastores milionários, beneficiários, eles próprios, do status quo em que vivem, fossem eles mesmos ferrenhos defensores do liberal-conservadorismo que oprime as massas. Mas o que assistimos é um fenômeno ainda mais lamentável. Qualquer pastor de igreja evangélica de esquina em qualquer subúrbio defende, com unhas e dentes, o mesmo status quo que mantém a maioria esmagadora dos seus fiéis na ignorância e na pobreza.

É fácil imaginar as razões.

Tais religiões exploradoras, seja das economias populares, seja da ingenuidade do povo, só sobrevivem enquanto o país grassar na alastrada ignorância em que se encontra. Alguém haveria de dizer: "mas onde estão as autoridades que não tomam uma providência?"

Autoridades em diversos escalões têm seus motivos para não se meter nisso. Os de baixo nível, digamos, polícias e ministério público, não querem sofrer o desgaste de combater picaretas que tem o poder de transformar quaisquer investigações em perseguições religiosas.

Por outro lado, no alto escalão, os políticos aprenderam a tirar proveito próprio do domínio que os evangélicos detêm sobre as massas. Veja o caso do presidente Jair Bolsonaro, por exemplo.

Sempre fora um declarado católico, até o dia que percebeu, com a sua inegável astúcia, que ser evangélico era bom negócio. Levou a coisa a níveis tão extremos que hoje prega a indicação de um ministro "terrivelmente evangélico" para o Supremo Tribunal Federal.

Levar as coisas às raias do extremismo é uma especialidade de Bolsonaro, afinal de contas. Com apoio de fake news, tão apreciadas por aqueles cuja credulidade em mitos e fantasias religiosas já é uma porta de entrada natural para as mentiras do campo político, o presidente soube encantar essa grande parcela moralista da população.

Afinal, o (falso) moralismo é outro grande pilar do conservadorismo religioso. Tantas conquistas sociais que se pode destruir; tantos adversários políticos que se pode derrubar; tantas ideias progressistas que se pode demonizar em nome de deus e da família e dos valores cristãos que não é brincadeira.

Hoje vivemos a vitória do evangelismo xiita através da vitória de Jair Bolsonaro. Vitória que se reflete na matéria recém publicada: Brasil vota junto com ditaduras islâmicas contra os Direitos Humanos na ONU. Segundo a reportagem:

O governo federal acompanhou ainda a ditadura militar do Egito e o Iraque em texto sobre “direito à saúde sexual e reprodutiva”. O país concordou com proposta do Paquistão de eliminar a educação sexual de resolução da ONU.

E ainda continuou dizendo que o país vai lutar para abolir a chamada “ideologia de gênero”. O político defendeu os termos ‘pai’ e ‘mãe’ e completou, “todo o mundo nasceu do homem e da mulher” — sem sombra de dúvidas, para a estupefação geral da plateia civilizada.

Quando as esquerdas — essas esquerdas pós-modernas, fique bem claro — defendem que é preciso respeitar as religiões, devem levar em conta esses fatores. O evangelismo tem um nítido viés reacionário, não obstante os exemplos aqui e acolá que se possa citar em benefício da instituição. Sejamos claros e digamos em alto e bom som, como a nossa tradição requer: a religião é o ópio do povo e deve ser criticada até que recue ao âmbito privado, como deve ser, e não ditando políticas públicas reacionárias e retrógradas.

3 de julho de 2019

O cinismo de Sérgio Moro

O costume de juízes participarem das investigações é um ato isolado de Moro ou uma prática normal na justiça, como ele disse? 

Não sei se o cinismo, que os gregos antigos definiam como "a busca de uma vida simples e natural através de um completo desprezo por comodidades, riquezas, apegos, convenções sociais e pudores", mas que o mundo moderno traduziu como "atitude ou caráter de pessoa que revela descaso pelas convenções sociais e pela moral vigente", é inata ou pode ser adquirida. O fato é que Sérgio Moro o tem de sobra.

Ontem assisti pedaços de seu depoimento na Comissão de Constituição e Justiça — não todo, pois muitas das questões o inquirido recusou-se a responder objetivamente, sendo então repetidas várias vezes, e várias vezes ele teve respostas dissimuladas. Mas algumas de suas afirmações chamaram atenção.

Umas delas foi quando disse jamais ter vazado escutas ilegais durante a Lava Jato. Afirmou que o vazamento da conversa entre Lula e Dilma em 2016 tinha interesse público, e por isso resolveu soltar os áudios ilegais. Ilegais sim, porque o ministro do Supremo Teori Zavascki, que pouco depois sofreu um acidente fatal de avião até hoje mal explicado, repreendeu o então juiz de primeira instância pelo ato extrajurídico, tendo em vista o foro privilegiado da presidente Dilma na ocasião. De tanto que reconheceu a ilegalidade, Sérgio Moro cometeu um de seus primeiros atos públicos de cinismo, pedindo desculpas, desculpas inúteis e infames, tendo em vista o estrago já feito premeditadamente.

Também ontem, foi perguntado por que — se tem, realmente, convicção de que as suas conversas agora reveladas foram obtidas de maneira criminosa — ainda não entrou na Justiça alegando injúria, calúnia ou difamação. A pérola do cinismo do dia veio na resposta "porque eu sou a favor da liberdade de imprensa" (!!). Isso ao mesmo tempo em que a Polícia Federal, sob seu comando direto, faz ameaças de coação, segundo alguns deputados, solicitando ao Coaf a abertura de dados financeiros do jornalista Gleen Greenwald, autor das denúncias contra Sérgio Moro.

Pra fechar, tentou dizer que era perfeitamente normal, no meio jurídico, juízes terem esse tipo de conversa com os advogados e procuradores: "olha, melhora essa prova aí, senão eu não tenho como condenar" ou "acho que não dá pra absolver ainda, convoca aquela fulana pra depor", conforme alguns exemplos baseados nas conversas de Moro com o procurador Deltan Dallagnol que o ex-juiz acha perfeitamente cabíveis.

Como bem disse o filósofo Paulo Ghiraldelli no seu canal do You Tube, se a Justiça brasileira realmente funciona assim, é pra parar tudo, começar do zero, porque tá tudo errado. Se o Moro e apenas o Moro age assim, então é caso de incompetência colossal de quem não tem a menor ideia de como funciona a justiça, e aí tem que exilá-lo, prendê-lo, cassá-lo, puni-lo de alguma forma, porque além de péssimo juiz, cometeu crimes contra os direitos humanos.

Mas o cinismo maior do ex-juiz da Lava Jato e atual ministro da Justiça vem sobre as explicações da autenticidade dos áudios. Dizendo-se vítima de hackers sem nenhuma prova, uma hora ele alega falta de memória para não confirmar o que disse; outra hora diz que as conversas podem ter sido adulteradas; e por fim, afirma que caso tenha realmente falado o que não lembra ou o que foi adulterado, até agora as conversas não mostram nenhuma ilegalidade. (!!)

As últimas semanas não têm sido fáceis para aquele que até recentemente era o herói dos tolos, provável candidato à presidência da República ou a uma vaga no Supremo Tribunal Federal, mas que, ao que tudo indica, terminará seus dias como uma figura medíocre, como um Eduardo Cunha da vida,  um ex-homem público folclórico por sua notória incapacidade de se expressar bem e que alcançou o topo do estrelato político mas que caiu por seus próprios atos deploráveis.

20 de maio de 2019

Os protestos de junho de 2013 e os de 2019. Lições que devem ser aprendidas



Em 2013, o movimento do Passe Livre acabou perdendo as rédeas dos protestos por conta da aposta na horizontalidade da direção. Esse erro não pode ser repetido




Eu sou a prova viva de que, para se compreender um fenômeno social, é preciso haver um distanciamento do objeto de análise, para que se possa enxergar detalhes que não eram acessíveis, ou perceptíveis, no calor dos acontecimentos. No caso da história, o distanciamento é temporal.

Em 2013 eu participei, no Rio de Janeiro, das chamadas Jornadas de Junho, aquela série de protestos que colocaram milhões de pessoas nas ruas do país, e que, até hoje, os analistas se desdobram para entender. Na época eu pensava estar participando de um protesto popular contra o aumento das passagens de ônibus na cidade que houvera mudado espontaneamente para um protesto mais amplo, nacional. Mas eu estava redondamente enganado.

Apesar do relativamente curto espaço de tempo que se passou desde então, já é possível fazer, como fizera muito bem o sociólogo Jessé Souza, uma análise crítica do movimento.

De espontânea, aquela guinada nos rumos do protesto não teve nada. Hoje é mais nítido perceber que setores da mídia burguesa junto com uma mobilização estratégica da classe média nas ruas conseguiram subverter o movimento, direcioná-lo para seus propósitos e esvaziar o conteúdo popular. É preciso reconhecer, a estratégia foi um dos maiores sucessos de manipulação de que eu tenho conhecimento.

Aos poucos, essa massa intrusa conseguiu  emplacar lemas como "sem violência" e principalmente "sem partido", deslegitimando a participação da esquerda organizada. Lembro de, distraído, ser abordado por uma senhora de idade, mas com muita energia, que me pedia para segurar um cartaz contra a corrupção do governo federal (Dilma, na época) num dos já degenerados protestos. Como conseguiram arquitetar essa usurpação do protagonismo da esquerda nas ruas de forma tão bem feita é um dos maiores mistérios que ainda não conseguimos solucionar.

O fato é que todo, todo o nosso infortúnio na política nacional começou aí. A partir disso, o governo Dilma se enfraqueceu; o Congresso se fortaleceu; botou o Impeachment em votação e em prática; Lula foi preso; o PT desmoralizado, e a direita saiu do armário para assumir o vácuo de poder.

Tem sido esse desastre colossal.

Tanto que, dialeticamente, eis que os movimentos de esquerda ressurgem com toda força nas ruas. Estudantes, professores e servidores públicos da Educação deram provas no último dia 15 da potência que a esquerda ainda possui. Colocaram milhões de pessoas na luta contra os cortes na área.

Mas é preciso tomar alguns cuidados para que se não repitam os erros de 2013.

Hoje não moro mais no Rio e não pude participar de um dos maiores protestos recentes, o deste dia 15 que aconteceu na Avenida Presidente Vargas. Mas soube que, durante estes protestos, alguns manifestantes foram censurados quando puxaram o coro "Lula Livre!". Muito preocupante.

A Rede Globo, segundo Jessé Souza, foi a grande responsável por guiar a mudança política dos protestos de 2013. Lembro perfeitamente das críticas ferozes proferidas pelo então comentarista político do JN, Arnaldo Jabor, enquanto as manifestações anda eram contra o aumento das passagens de ônibus, e o quanto ele mudou descaradamente de opinião, quando os protestos já estavam tomados pelos coxinhas verde-amarelos.

À Globo também interessa, hoje, o combate ao governo Bolsonaro. Mas não porque ela esteja a favor dos trabalhadores ou da democracia. Ela é a favor dos seus próprios interesses corporativos. E para isso, ela quer um protesto higienizado, sem apelo popular de esquerda, ou seja, sem "Lula Livre" ou sem contestações à Reforma da Previdência, por exemplo. É a condição para a sua cobertura nos telejornais. Mas os movimentos estudantis, sindicatos e demais setores organizados da sociedade civil não podem ceder a esta tentação, pois 2013 está aí para nos servir de exemplo.

Outra questão muito importante é combater aqueles que querem impedir a vanguarda dos protestos de liderar o movimento. Tivemos exemplos lamentáveis nos protestos de 6 anos atrás de que uma massa sem liderança, sem direção clara e sem hierarquia perde facilmente o controle dos rumos do protesto. A UNE, os sindicatos dos professores e das demais categorias que por ventura vierem a participar dos próximos protestos, como a do próximo dia 15 de junho, devem estar afinados e empenhados em seguir as pautas definidas, combater aqueles oportunistas que vierem se infiltrar com intenções espúrias como baixar as bandeiras dos partidos políticos de esquerda e redirecionar os manifestantes para os interesses da burguesia, já totalmente desiludida do governo Bolsonaro.

O que devemos defender agora, seja o Fora Bolsonaro, seja eleições diretas com Lula livre e candidato, seja outra coisa, cabe a nós decidir. Não à Rede Globo.

14 de maio de 2019

Elites capazes de destruir um país para manter seus privilégios

Nesta "Belíndia" chamada Brasil, autossabotagem e destruição em favor de uma minoria de privilegiados





Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro deu com a língua nos dentes num programa de rádio e revelou a todo o país uma das alianças mais espúrias de que se tem notícia dos últimos tempos: o juiz Sérgio Moro, responsável direto pela condenação questionável do ex-presidente Lula — impedindo a  um candidato favorito o direito de se candidatar e consequentemente vencer a eleição — aceitou o cargo de ministro no governo que ele indiretamente ajudou a eleger, sob a condição de ser nomeado para o Supremo Tribunal Federal (STF).

Ver um homem que foi idolatrado por ser uma espécie não de juiz, mas de justiceiro contra corruptos, ao lado de um presidente atolado em suspeitas de mal feitos na política, junto com seus filhos e de vários membros do governo, não deveria surpreender ninguém. A política é tradicionalmente o fórum das elites, e todos eles têm missões a cumprir em nome da manutenção dos privilégios de uma casta de sanguessugas das riquezas nacionais.

O Brasil já foi definido certa vez, em meados dos anos 70, como Belíndia pelo ex-presidente do BNDES, Edmar Bacha. Uma pequena Bélgica de riqueza e prosperidade cercada por uma Índia de falta de recursos e pobreza (daquela época). E os habitantes desta Bélgica imaginária precisam fazer de tudo, nem que seja destruir a própria Belíndia, desde que isso signifique a manutenção de todos os seus privilégios.

Eles sabem que a riqueza de um país é finita, tem um limite, e para que eles possam usufruir das benesses do capitalismo, precisam manter em vigor a maior característica do próprio capitalismo: a brutal desigualdade sócio-econômica, que gera tais privilégios.  Afinal, eles sabem que qualquer melhoria na distribuição de renda, riqueza e conhecimento significaria menos privilégios e mais concorrência para as classes privilegiadas. Como é, de fato, em qualquer país desenvolvido, onde as desigualdades são menores por conta da melhor distribuição de renda. Mas, no Brasil, nossas elites querem o atraso. Atraso é desigualdade e desigualdade é privilégio.

A destruição por que vem passando o Brasil de 2016 pra cá tem muito a ver com essa questão. E também tem muito a ver com Sérgio Moro e Jair Bolsonaro.

Hoje está cada vez mais clara duas características principais da Lava Jato de Sérgio Moro: uma aliança de juízes e promotores brasileiros com a agenda estadunidense de destruição econômica do Brasil, através da condenação e inviabilização de algumas das maiores empresas brasileiras com destaque  internacional — a JBS, a Odebrecht e demais empreiteiras, a Petrobras, e etc —, e condenação e prisão do presidente Lula.

A hegemonia petista conquistada em sucessivas eleições ameaçava, aos olhos das elites, a manutenção das velhas estruturas de privilégios da Belíndia. Principalmente a longo prazo. Dois fatores foram decisivos: a entrada, cada vez maior, promovida pelos governos petistas, de negros e pobres nas Universidades, tradicional núcleo de ascensão social em benefício das classes médias brancas brasileiras. E segundo, a conversão de 75 por cento da arrecadação do pré-sal para investimentos na melhoria da Educação de modo geral. Isso foi demais para as classes privilegiadas.

A Lava Jato cumpriu o seu papel de liquidar a reputação do maior partido brasileiro, o PT, mas como efeito colateral indesejado, também levou junto os tucanos, tradicional legenda burguesa nacional.

As elites não se fizeram de rogadas, e, para manter e até ampliar os ganhos econômicos às custas da maior pauperização da maioria, fizeram as alianças que levaram um capitão medíocre, imbecil, preconceituoso, boçal e nanico do baixo clero político à cadeira presidencial.

Para o mercado e o setor financeiro em geral, bem como às classes ricas e privilegiadas, tais características lamentáveis pouco importam, desde que se cumpra a agenda econômica que permita, justamente, a manutenção/ampliação dos seus privilégios indevidos. A política econômica neoliberal levada a ferro e fogo pelas mãos do xerife do capitalismo, Paulo Guedes, é apenas o que importa para esses gangsteres sem escrúpulos.

Como conseguem emplacar seus candidatos? Desde sempre, através do engano, da manipulação, das mentiras, em resumo, das famosas fake news. A Justiça, outra superestrutura do Estado burguês onde se acomodam as elites privilegiadas, já decretou sigilo a respeito das investigações da influência das fake news no resultado destas últimas eleições até 2022. Faz parte da aliança das altas classes em favor de si mesmas, que também levou Sérgio Moro para dentro do governo em troca de uma vaga no STF, onde ele mesmo no futuro poderá atuar em favor destes interesses.

E assim o Brasil vai caminhando, através de uma série de sabotagens, golpes e destruições, tudo para que uma pequena fatia da população possa usufruir dos bens e das riquezas da nação, para os quais não contribuíram para gerar através do trabalho.

Nosso único alento é que essas coisas não são novidade na história mundial. E que também não é raro que muitos deles de repente tenham seus pescoços decepados, sejam colocados em paredões de fuzilamento ou campos de trabalho forçado por um povo cuja paciência foi testada ao limite. A história mostra que toda vez que há tensionamentos em qualquer sociedade, também há rupturas. Algumas elites de nações hoje desenvolvidas foram inteligentes durante os últimos séculos e cuidaram para que nunca se chegasse a esse ponto. Outras não, e sofreram com revoltas, violências e revoluções.

E agora, uma população que, graças ao governo, além de revoltada, pode estar armada...