O paradoxo Lula


Já estava com saudade de poder escrever aqui no blog minhas humildes impressões sobre o cenário político-social deste país, algo que beira à insanidade, em que a razão e ponderação, tão caras a um bom debate, perdem espaço para a polarização das acusações vazias entre esquerda e direita.

E no centro dessa peleja, se encontra a figura onipresente do ex-mandatário da nação Luis Inácio Lula da Silva.

Muito já foi falado a respeito dos seus dois governos, de suas falhas e de seus méritos, mas pouco sobre seu legado na opinião pública e na política nacional. Lula, com suas contradições, conseguiu a proeza de ser atacado e defendido pelos dois espectros políticos, da direita à esquerda, o que o torna uma figura ímpar no quadro nacional.

Pelo lado da direita, as críticas partem com base num misto de preconceito de classe e medos irracionais, como é do feitio dessa vertente ideológica. Preconceito contra os milhões de miseráveis que ascenderam um modesto degrau na escala social nos governos petistas; e medo de que qualquer ajuda governamental aos menos favorecidos seja sinal de bolchevismo ou bolivarianismo. O foco é o Bolsa-Família e as relações do governo petista com governos internacionais que de alguma forma se rebelam contra o pleno domínio da América do Norte em assuntos de política e economia externas.Os méritos petistas, por outro lado, são reconhecidos de forma discreta, como a manutenção inquestionável do tripé da macroeconomia — resumidamente, inflação baixa, juros altos e pagamento religioso da dívida pública, a mina de ouro da burguesia brasileira — o que garantiu altos ganhos às classes dominantes e uma certa tolerância ao governo do mandatário indesejado.

Por outro lado, a esquerda não-petista se decepcionou bastante com os governos Lula. Suas alianças espúrias e quase pornográficas com elementos do gansterismo político nacional em nome de uma suposta governabilidade, como se não houvesse alternativa, resultou a longo prazo no fortalecimento de grupos de extrema-direita que hoje dominam o discurso político, quando deveriam ter sido esmagados defitinivamente quando estavam fracos, no momento em que Lula contava com sua maior popularidade. Lula também deixou a esquerda na mão ao abandonar pautas caras a este espectro ideológico, como o controle social e plurarização das mídias, taxa sobre riqueza e heranças, etc. Mas o Lulinha Paz e Amor do marketing político preferiu não contrariar as classes dominantes com uma agenda perigosa aos seus seculares privilégios, despolitizou a política, e hoje paga o preço por isso.



A defesa de Lula pelas esquerdas se dá no campo moral. As principais mídias, todas com algum laço ideológico ou econômico com as classes dominantes, massacram Lula diariamente em seus veículos, como se fosse o maior bandido do Brasil. As esquerdas afirmam que, apesar de seus erros do campo político, no campo criminal Lula não é melhor e nem pior do que as dezenas de bandidos que têm ficha corrida de fazer inveja a qualquer Elias Maluco.

Não, o Lula não é pior que eles. As fragéis provas que lhe imputam na tentativa de incriminá-lo são brincadeira de criança perto de helicópteros carregados de pasta de cocaína, ameaças de assassinatos, malas de dinheiro, quartos com caixas contendo milhões de Reais, achaque de megaempresários para financiar campanhas eleitorais, e etc. Acontece que todos estes outros políticos são da direita e contam com um tratamento diferenciado, benevolente das mídias, o que obriga a esquerda a defender Lula dos sistemáticos ataques de viéses claramente políticos que ele sofre.

No fim das contas, nenhuma das defesas de lado a lado compensa os ataques; o fato é que Lula desagradou gregos e troianos no poder.

Mas como um fenômeno paradoxal que é, se deixarem ele ainda leva essa eleição de 2018. Que o digam os mais de 30 milhões de eleitores que o colocam na liderança de qualquer pesquisa de intenções de voto. Para essas pessoas, pouco vale as querelas teóricas sobre os mandatos lulistas. Vale a comparação prática do antes e depois da era Lula nas suas vidas, no dia a dia. E nessa comparação com outros presidentes, inclusive a própria Dilma, ele ganha de lavada. O que é pouco pra quem não tem nada? É muita coisa.

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