O discurso hipócrita de José Dirceu quer apagar a colaboração dos governos petistas com a alta burguesia


Aqueles membros do Partido dos Trabalhadores que foram expulsos logo após a vitória de Lula no pleito eleitoral de 2002 — muitos dos quais vieram a fundar o PSOL mais tarde — afirmam que José Dirceu foi o grande arquiteto da guinada do PT para o centro da política, abandonando assim compromissos históricos com as bandeiras da esquerda.

No poder, Lula, o PT e José Dirceu nos bastidores lançaram mão de práticas que até então criticavam na política dos outros, sendo a mais notória delas o chamado Valerioduto, um esquema de propinas a deputados herdado praticamente intacto do PSDB, que estava na raiz do que os petistas chamavam de "governabilidade": a necessidade de angariar (comprar, literalmente) apoio no Congresso para propostas que nem sequer eram das mais progressistas.

José Dirceu não lembra que o PT no poder teve chance de fazer tudo o que ele pede agora?

Naquela época, Dirceu e o PT, recém-chegados ao poder, acreditavam que seriam recebidos como iguais nas festas do "Grand Monde". Ledo engano. Os petistas sempre foram tratados como indesejáveis pelos altos círculos do poder e do dinheiro, como o pobre que viaja de avião pra Nova Iorque do lado do rico. Nem sequer o julgamento do Mensalão mostrou ao PT que ele não fazia parte do baile da alta burguesia, tendo em vista que até os estertores do governo Dilma, continuou governando com e para a direita, trazendo elementos da estirpe de um Eduardo Cunha e um Michel Temer para dentro do governo, pra ficar só nos mais notórios.

Agora, escorraçados, jogados na lata do lixo e varridos dos altos salões, José Dirceu, Dilma e Lula — um preso, outra "impitimada" e o terceiro lutando para não ser condenado — além de outros petistas, de repente se lembram de suas raízes pré-governo. É o que tenta demonstrar José Dirceu em vídeo gravado para o site pró-Lula Nocaute.

Nessa gravação, Dirceu convoca presidenciáveis de esquerda, artistas, partidos políticos, intelectuais, movimentos sociais e outros setores progressistas para o que ele chama "defesa da democracia", ou seja, de Lula ser candidato, "porque essa é a vontade do povo".



Dirceu pretende derrotar os golpistas, os bancos, os rentistas, a direita e os tucanos. Esqueceu-se da Globo, dos militares e importantes setores do cristianismo. Todos, de alguma forma, favorecidos nos governos petistas. Além disso, conclama aqueles grupos de esquerda a mobilizar o povo e cita o aniversário do PT em 19 de fevereiro como uma data de mobilizações. No fim afirma querer uma mudança radical no Brasil.

Tudo isso me soa um tanto surreal. Com este discurso, Dirceu tenta minimizar ou quem sabe até apagar da memória do cidadão brasileiro os quase quinze anos que o PT passou no poder sem tocar em nenhum privilégio dos ricos. Quinze anos despolitizando o conflito de classes em favor dos mais ricos. Quinze anos anabolizando uma direita outrora raquítica e derrotada, que agora cresceu e se voltou contra os mesmos que a ajudaram a se consolidar. E agora, depois de um projeto hegemônico de poder que excluiu todos os principais partidos e representantes da esquerda, depois de governar de mãos dadas com o que há de mais promíscuo nesse PMBD eivado de gângteres, pedem a união dos mesmos que foram ignorados e até massacrados nas ruas com o apoio das leis de repressão policial sancionadas pelo PT?

José Dirceu, vai te catar. O projeto de conciliação de classes que você criou e que degenerou nessa realidade angustiante que vivemos precisa ser derrotado, pelas esquerdas, sem o PT. Ou, pelo menos, sem a cúpula do PT que você representou na política.

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