José Dirceu faz apelo ao sentimento nacionalista das Forças Armadas. Mas isso existe?

Com base em artigos da revista do clube militar, os oficiais militares não só pouco se importam, como se identificam com o governo Temer

Mais do que não tomar partido, os oficiais se identificam com o governo Temer

O mês de outubro termina com um apelo do abnegado José Dirceu aos supostos sentimentos nacionalistas das forças armadas brasileiras, inclusive às suas facções de direita, perante o desmonte do Estado, o convite às forças armadas estadunidenses brincarem de guerra contra a Venezuela na nossa Amazônia, à entrega do pré-sal, e outras medidas lesa-pátria do governo Temer.

Dirceu se pergunta:
O que determina e o que expressa hoje o ativismo político entre militares de alta patente? Que sentido teriam as Forças Armadas brasileiras se não defendessem um projeto de nação, de desenvolvimento, a soberania nacional, o pré-sal, a Amazônia, a Amazônia Azul, a indústria de defesa nacional, nossas fronteiras, nosso papel na América do Sul? Nenhum! Seriam apenas polícias a serviço de facções que detêm ou disputam o poder.

Aos militares praças é vedado o direito de opinar sobre questões políticas em nome das forças armadas. Esse papel cabe aos oficiais. E o canal oficial destes "militares de alta patente" é a Revista do Clube Militar, disponível em versão eletrônica na internet. Se José Dirceu tivesse tido o trabalho de ler as últimas edições desta revista, desde meados do ano passado, quando o golpe foi instituído, não teria desperdiçado palavras ao vento.

Pois a alta cúpula militar é justamente isso que ele afirma, "polícias a serviço de facções que detêm ou disputam o poder", se levarmos em conta as visões recheadas de preconceito, conservadorismo, antipetismo e contra o social que são características daqueles artigos.

Na edição 460 de abril-maio-junho do ano passado, em editorial chamado "O fim do princípio" na seção denominada O Pensamento do Clube Militar,  lemos estas palavras:
São cada vez mais frequentes as referências ao final da Operação Lava-Jato. Uns atribuem o pretenso final a uma trama dos políticos que veem as investigações chegando cada vez mais próximas de seu nome. Outros, a certa manobra maquiavélica de cabeças coroadas para evitar novos desdobramentos, envolvendo outras estatais e fundos de pensão das mesmas, ou o BNDES, ou repasses para “movimentos sociais” esquivos e quase fantasmas, abastecidos no caixa do Tesouro, que o governo do PT julgava inesgotável. 

Numa só tacada o autor do texto acusa o governo petista de financiar "movimentos sociais" e acusa diretamente o PT de corrupção nas estatais, sendo por isso conveniente ao PT o fim da Lava-Jato, não obstante ser Romero Jucá e seus asseclas da direita os preocupados com as investigações, conforme gravação divulgada.



Outro artigo sobre Direitos Humanos é assinado pelo general Rômulo Bini Pereira, que está muito preocupado com o governo Michel Temer. A razão? A "herança maldita dos governos petistas".

No mesmo artigo, ele elogia a competência da nova secretária dos Direitos Humanos, Flávia Piovesan, apesar de discordar dela em assuntos-chave como a necessidade de rever a malfadada lei de anistia de 79. Mas, pelo menos, segundo ele,
 ... a Dra. Piovesan demonstrou inteligência e equilíbrio em sua exposição, bem superiores aos de sua antecessora, a deputada Maria do Rosário; esta, sempre com um posicionamento ideológico radical e uma visível incapacidade para atuar em debates que exigem equilíbrio e civilidade.
Duas mulheres com posicionamentos que o general discorda frontalmente. Mas uma é inteligente e equilibrada. A outra é do PT.

Também nessa edição, um artigo do filósofo Luiz Felipe Pondé, que sobre a batalha do dircurso sobre o Impeachment da Dilma, afirma que
Mesmo após o teatro do impeachment, a história do Brasil narrada pelo PT continuará a ser escrita e ensinada em sala de aula. Seus filhos e netos continuarão a ser educados por professores que ensinarão esta história. Esta história foi criada pelo PT e pelos grupos que orbitaram ao redor do processo que criou o PT ao longo e após a ditadura. Este processo continuará a existir. A "inteligência" brasileira é escrava da esquerda e nada disso vai mudar em breve. Quem ousar nesse mundo da "inteligência" romper com a esquerda, perde "networking". 
Além de um ressentimento pessoal por não contar com o mesmo prestígio acadêmico de outros professores e pensadores do campo da esquerda, o artigo é eivado de preconceitos antipetistas, insinuando que existe mesmo aquilo que o "filósofo" queridinho da direita Olavo de Carvalho chama de "marxismo cultural" e que degenerou na mal fadada campanha da "escola sem partido". Não por acaso, no mesmo artigo ele entrega:
Nos últimos meses apareceram movimentos como o Vem Pra Rua e o MBL que parecem mais próximos de uma opção liberal, a favor de um Brasil menos estatal e vitimista. Ser liberal significa crer mais no mercado (sem ter que achá-lo um "deus") e menos em agentes públicos.
Uma revista das forças armadas, ou seja, servidores públicos, que convida o cidadão a crer mais do mercado do que em agentes públicos!! Ironia das ironias...

Mas o desfecho dessa edição é que realmente é de cair o queixo. Em artigo assinado pelo general Luiz Eduardo Rocha Paiva em que o título já diz tudo, "Acabou o fosso ideológico que separava governo e forças armadas", é feito um histórico dos malvadões da esquerda desde a fundação do PCB até o PT; um balanço positivo cheio de eufemismos sobre a ditadura militar; e o principal, a celebração da queda do governo petista, e a alegria das forças armadas nacionais em saber que Michel Temer e sua corja de ladrões investigados pela Lava Jato são da mesma linha ideológica que os oficiais militares. Leiam, leiam até duas vezes se precisarem, mas entendam o significado destas palavras:
A crise de valores e a corrupção, que assolam o país, estão disseminadas pela liderança política, independente do partido, e não começaram com o PT, embora
tenham chegado a níveis desastrosos com sua ascensão ao poder e o uso da corrupção como política de governo. A falta de credibilidade na classe política gera dúvidas, justificáveis, se o novo governo pautará sua conduta por princípios éticos, morais e cívicos. Porém, ao contrário do governo afastado, o atual é democrata e organizado com representantes da esquerda e da direita
situados no centro democrático. Assim, não existe fosso ideológico entre o atual governo e as FA.
São estes senhores que José Dirceu conclama para uma reação patriótica ao governo Temer!!!

Vejamos, Dirceu não é tão ingênuo assim. Conforme seu artigo no site 247 ele sabe que os militares morrem de amores por seus representantes na política, seja Hamilton Mourão, seja o Bolsonado e suas falácias machistas, antipetistas, autoritárias, antipovo e saudosas da ditadura. Seu erro é achar que pode acender uma facção de oposição dentro das forças armadas, mais progressista, nacionalista, em contraste a estes que colocam as FFAA meramente ao serviço das classes dominantes capitalistas. Aí está seu erro.

Essa parcela das forças armadas ou está esmagada, silenciada, oprimida dentro da caserna, ou está nos setores subalternos, soldados, sargentos, tenentes. Mas, ao contrário do saudoso Leonel Brizola, com esses o Dirceu não quer conversa. Respeita muito a ordem, a hierarquia e a disciplina. Só quer falar com os "de alta patente".

Como pode haver diálogo com quem apoia tudo o que aconteceu no Brasil desde o golpe, menos quando a discussão da previdência ameaçou alterar o tempo de aposentadoria dos militares? Aí eles gritaram. Amazônia? Pré-sal? Direitos do povo? Estão nem aí. Só temem um imaginário perigo vermelho.

Nossas forças armadas são ideologicamente capachas de um ideário liberal de viés estadunidense e não parece que isso vai mudar tão cedo. Infelizmente, este é um caso perdido.

Veja aqui a edição 460 da revista do Clube Militar

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Panorâmica Social: José Dirceu faz apelo ao sentimento nacionalista das Forças Armadas. Mas isso existe?
José Dirceu faz apelo ao sentimento nacionalista das Forças Armadas. Mas isso existe?
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