Austeridade: Michel Temer quer salvar o futuro do capitalismo, não o seu


Sempre gostei de ler autores que se arriscavam em exercícios de futurologia, ou seja, com base em indícios dos rumos do presente, prever por que transformações passará a sociedade nas próximas décadas.

Alvin Toffler, falecido no ano passado, foi um dos melhores de sua época, prevendo, especialmente no livro A Terceira Onda, no começo dos anos 80 com uma grande dose de precisão, como a era da informática (a terceira onda) iria suplantar aos poucos a segunda onda, a industrialização, exatamente como esta suplantara a primeira, a sociedade rural.

Hoje vivemos este mundo que muitos chamam de pós-industrial, pós-moderno ou pós-fordista, todos com o significado claro de uma mudança estrutural na sociedade em diversos aspectos das nossas vidas. Agora, depois do colapso do sistema a partir de 2008 numa crise mundial sem precedentes e que até hoje coloca em risco o nosso futuro, já há autores predizendo o fim do próprio capitalismo. 

É o caso do jornalista Paul Mason, que no seu livro Pós-Capitalismo, um guia para nosso futuro, propõe "um convite à imaginação", analisando fatos concretos com uma enorme profundidade para chegar à conclusão de que o capitalismo chegou a um ponto de saturação sem volta.

Segundo Mason, a informática e a tecnologia deixaram as velhas formas de sociedade em descompasso, e na verdade as suas tendências espontâneas são a de dissolver mercados, destruir propriedades e romper a relação entre salários e trabalho. Neste novo mundo que se apresenta, Estados, bancos e corporações monopolistas seriam incapazes de manter as coisas privadas, escassas e comerciais. É um ponto sem volta onde o capitalismo teria criado o seu próprio monstro destruidor.

No entanto, as elites do mundo financeiro não vão cair sem lutar pelos seus privilégios. No campo social, violência contra protestos pacíficos, armas, tiros de bala de borracha, vigilância invasiva, controle, espionagem, restrição de liberdade tentam manter o status quo funcionando, ou seja, um mundo de altas finanças, baixos salários, sigilo governamental, militarismo, propriedade intelectual e energia baseada em carbono, que é o mundo que está com os dias contados.

No campo econômico, eles ressuscitaram o mal fadado neoliberalismo, o mesmo sistema desregulado de mercado livre que levou o mundo à sua maior crise de todos os tempos, a crise dos subprimes de 2008, que liquidou 13% da produção mundial e 20% de todo o comércio do planeta de uma vez.

A partir de então, tudo o que os governos mundiais fazem é tapar os buracos cada vez mais frequentes da represa que ameaça desabar sobre nossas cabeças, dessa vez de forma definitiva no futuro. Os remendos vem em forma de ajustes conhecidos como programas de austeridade financeira, e aí que entra o nosso Brasil nessa história.



Mason explica em seu livro que o programa de austeridade que muitos países adotaram como solução para a crise capitalista de 2008 não significa meramente cortes de gastos excessivos. Ele traz o depoimento do diretor executivo do Prudential, uma multinacional britânica de seguros de vida e serviços financeiros, Tidjane Thiam, que definiu em 2012 no Fórum de Davos, o real significado de austeridade: os sindicatos, disse ele, são o "inimigo dos jovens" e o salário mínimo é "uma máquina de destruir empregos". Os direitos dos trabalhadores e a recuperação do poder de compra do salário mínimo são obstáculos no caminho da recuperação do capitalismo e, por isso, diz de forma totalmente cínica o homem das finanças milionárias, "devem acabar".

Mason afirma que este é o verdadeiro projeto dos programas de austeridade: "rebaxar os salários e padrões de vida no Ocidente ao longo de décadas até que eles se nivelem com os da classe média da Índia e da China".

O programa de austeridade chegou forte no Brasil ano passado através de um golpe, quando o PMDB chegou ao poder e desde então tenta emplacar a sua "ponte para o futuro". A edição do livro Pós-Capitalismo em minha posse é de 2017, mas Paul Mason o escreveu em 2015 — antes, portanto, da ascensão do PMDB ao poder. Num exercício de futurologia com precisão impressionante, o autor desvendou claramente onde a ponte do Michel Temer pretende nos levar:

Então, por meio de programas de austeridade, eles transferiram o ônus das pessoas que investiram dinheiro estupidamente, punindo em vez delas os beneficiários da previdência social, trabalhadores do setor público, pensionistas, aposentados e, acima de tudo, as gerações futuras. Nos países mais atingidos, o sistema previdenciário tem sido destruído, a idade para a aposentadoria  tem sido elevada a tal modo que quem está saindo agora da universidade só vai se aposentar aos 70 anos, e a educação vem sendo privatizada [...]. Os serviços estão sendo desmantelados e os projetos de infraestrutura, paralisados*. 

É um impressionante quadro perfeito da política econômica que Michel Temer vem lutando arduamente para emplacar no Brasil. Pois senão vejamos: sua reforma previdenciária pretende destruir a aposentadoria de milhões de brasileiros; a reforma trabalhista pretende acabar com os sindicatos e seu congelamento de investimentos por 20 anos paralisa a infraestrutura do país e acaba com o reajuste do salário mínimo acima da inflação. Tudo isso porque, como assumiu Tidjane Thiam no fórum dos magnatas de Davos, essas coisas atrapalham a recuperação do capitalismo.

E assim, embora jamais se diga algo parecido no Brasil com tanta sinceridade, fica nítido que a crise que a elite global causou nos cassinos neoliberais do sistema financeiro mundial será paga com o suor, o sacrifício e a vida de milhões de trabalhadores. Que o capitalismo está moribundo, mas enquanto estas mesmas elites puderem sugar a última gota de sangue do povo, eles vão manter os aparelhos que mantém o capitalismo vivo ligados.

E é por isso que o mundo precisa acordar e propor uma alternativa a este sistema vil e assassino, não sem antes colocar todos estes políticos e magnatas no banco dos réus de um tribunal revolucionário para que paguem pela covardia que fazem com 99 por cento da população mundial. Sem esquecer alguns jornalistas também, que não tem coragem de mostrar a verdade, porque são vendidos como capatazes dos barões do capitalismo mundial.
 *MASON, Paul. Pós-Capitalismo - um guia para nosso futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, pág.31

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