Esquerda não tem nome a propor numa eleição direta

Q uando eu estava na faculdade, numa aula de sociologia, houve o debate sobre as novas formas de movimentos sociais. Na onda da queda de pre...


Lenin

Quando eu estava na faculdade, numa aula de sociologia, houve o debate sobre as novas formas de movimentos sociais. Na onda da queda de prestígio e representatividade dos partidos políticos, muitos estavam felizes com as novas formas de protestos e de movimentos sociais descentralizados, sem uma liderança clara e assumida, tendo a Aliança Zapatista de Libertação Nacional (AZLN) e seu relutante líder, comandante Marcos, como modelo ideal. Hoje vemos que esse tipo de mobilização não deu os frutos que se esperava.

A famosa Primavera Árabe causou revoltas “populares” que tinham como finalidade “tirar ditadores do poder” mas que no fundo não passaram daquilo que é conhecido como revoluções coloridas, cujo resultado foi guerra civil e ascensão de grupos radicais como o Estado Islâmico.

Nos Estados Unidos o Occupy Wall Street prometia ser um marco na luta contra a poderosa influência do setor financeiro naquele país, cuja quebra da economia em 2008 levou milhões ao desemprego. No entanto, sem um foco e uma bandeira definidos, hoje não tem a menor representatividade. E assim tem sido na Ucrânia, tendo como consequência o surgimento de grupos fascistas, na Venezuela, cuja mobilização favorece uma classe média altamente reacionária que não aceita a ascensão dos pobres, e assim por diante.

No Brasil, a onda de protestos começou em 2012 com manifestações contra o aumento das passagens e englobou tantas reivindicações, tão contraditórias entre si, que foi fácil para uma determinada camada social com o apoio da mídia direcionar o foco para a crítica interesseira ao governo Dilma. Assim a classe média reacionária brasileira também assumiu as manifestações com suas próprias demandas, e as legítimas exigências de reformas ficaram no caminho.

Com a crise prolongada causada por um Impeachment golpista e mal ajambrado, setores das camadas sociais progressistas e de trabalhadores, que andavam afastados das ruas, começam a voltar timidamente. Mas quais são as suas bandeiras? Quem lidera o movimento?

Parece que o grande consenso dos partidos de esquerda, dos movimentos sociais e dos trabalhadores organizados é o inócuo “Fora Temer” e suas reformas draconianas. Mas aí está o cerne da nossa crise, do por que as massas não estarem envolvidas nas ruas nos protestos. Sai Temer, entra quem? Em nome de que causas? Em nome de quem?

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Infelizmente, por conta da onda de manifestações descentralizadas, sem uma liderança clara, que engloba demandas não muito específicas e aliada à crise de representatividade dos partidos nestes tempos de pós-modernidade, não foi possível forjar uma liderança que guiasse e reunisse os anseios da massa de cidadãos, aquele que simbolizasse a esperança de um novo caminho. Você olha as manifestações e não é capaz de encontrar alguém que possa dizer: “este é o caminho, vamos juntos construir um novo modelo de país”.

A narrativa que impregna o senso comum de que todo político é igual, que a corrupção generalizada está em todos os partidos e que ninguém escapa faz muito mal ao Brasil, e nisso a imprensa tem uma responsabilidade muito grande. Na TV, vemos todos os dias listas de partidos que receberam “doações”, caixa 2 e participaram de esquemas de propinas em obras, onde os destaques são sempre PT, PSDB e PMDB, junto com outros que engrossam a lista. Mas veja como também seria um serviço ao país uma reportagem que dissesse: “Agora vamos mostrar também a lista dos partidos cujos políticos jamais apareceram em nenhuma lista de corrupção e propinas da Lava Jato”. Eles existem e estão aí, mas ninguém fica sabendo.

O que falta para que a população brasileira de modo geral, e não apenas seus setores organizados se engajem mais nas mudanças que o Brasil precisa promover é aparecer uma liderança. Sem um símbolo — a direita sabe disso e na falta de um, construiu o seu “caçador de marajás” nas eleições de 90, entre outros casos — as demandas dispersas não atingirão o núcleo do poder no Brasil, antigo, organizado e coeso, sempre pronto a defender seus próprios interesses, embora hoje não saibamos se é manter Temer ou tirar Temer. A própria direita se encontra dividida, mas a única coisa que sabemos é que ela sabe quem colocar para defender os seus interesses, caso Temer venha a cair. E nós, quem é o nosso representante?

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Panorâmica Social: Esquerda não tem nome a propor numa eleição direta
Esquerda não tem nome a propor numa eleição direta
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