29 de maio de 2017

Ricardo Boechat e a violência nos protestos

Com violência ou sem violência? Jornalista não deixa opção

O radialista e apresentador do Jornal da Band, Ricardo Boechat, conta com grande simpatia — merecida ou não — de grande parcela da opinião pública progressista, muito embora, durante os programas de rádio onde pode emitir sua opinião, não faça muito jus a esse respeito.

Jornalista que não incomoda o status quo

Boechat sempre teve uma postura crítica que, entretanto, pouco assusta ou ameaça a ordem, pois se assim não fosse, não estaria no ar a tanto tempo. Jornalistas que incomodam o establishment não têm espaço na mídia para contrariar o senso comum patrocinado pelas grandes corporações. E por isso vemos tantos jornalistas amestrados na coleira do capital como Míriam Leitão, Merval Pereira e outros congêneres. Assim mantêm seus empregos. Um exemplo notório disso que estamos falando é o raivoso e reacionário Reinaldo Azevedo, que teve seu vasto currículo de serviços prestados ao capital solenemente ignorado, pois ousou ser imparcial e criticou a forma como a Lava Jato estava conduzindo as investigações contra Lula. Conclusão: demissão da revista Veja, olho da rua.

Mas voltando a Boechat e seu curioso prestígio entre os setores de esquerda. O jornalista já cometeu o desplante de criticar greve de professor e nem sequer se deu o trabalho de criar uma desculpa diferente do senso comum: os alunos não têm culpa e não podem "sofrer as consequências de ficar sem aulas". Típica opinião de quem não conhece a realidade da sala de aula.

Também andou criticando manifestantes que vão para as ruas, porque atrapalham o trânsito e “impedem as pessoas de trabalhar”.

"Vandalismo" nos atos de protesto.

Agora Boechat ressuscitou sua antiga implicância: falar mal de “protestos violentos”. Assim, sem nenhuma ressalva, coloca no mesmo saco da ilegitimidade toda e qualquer manifestação que por ventura contenha algum ato de “vandalismo”, essa pecha ridícula que a imprensa burguesa decalcou em todo manifesto não-passivo. Ou seja, Boechat não procura verificar se a violência nos protestos é legítima ou não — a imprensa oculta propositalmente o fato de que nem toda violência é condenável, como por exemplo um ato de “legítima” defesa, como o próprio nome diz —, não quer saber se quem causa a violência é a polícia ou agentes infiltrados em manifestações, enfim, para ele, 50 mil pessoas na rua lutando por uma causa lícita perdem toda a razão se uma vidraça ou uma lâmpada de poste forem danificadas.

E agora, depois do protesto de ontem, ele realmente mostrou a sua cara.

No protesto de Copacabana realizado ontem (domingo, 29/5) contra Michel “Ilegítimo” Temer e a favor das “Diretas”, Boechat deixou o povo brasileiro sem saída. Mais de 150 mil pessoas protestaram em Copacabana de forma pacífica e ordeira, o tipo de protesto ideal que Boechat defende. Mas, curiosamente, no seu comentário das manhãs do programa de rádio da Bandnews FM, Boechat fez pouco caso do ato!! Sim, 150 mil pessoas não causaram nenhum impacto político. Sabemos disso, 150, 200 ou 500 mil pessoas passeando no Calcadão fechado, sem causar nenhum transtorno à ordem, não vai mesmo ter nenhuma repercussão, nem pro bem, nem pro mal. Mas a surpresa é Boechat admitir isso, pois senão vejamos: protestos violentos são contraprodutivos segundo sua ótica; protestos pacíficos são irrelevantes. O que resta para a população brasileira, que opção teríamos de reivindicar? Aparentemente, nenhuma.

Se você não levar em conta que a violência nos protestos é uma arma do povo que a burguesia teme e as forças policiais e a imprensa a serviço da ordem burguesa distorcem para criar o dissenso no seio das manifestações, não estará sendo honesto e fiel à verdade. Em praticamente todas as grandes manifestações, e nisso eu incluo as que eu testemunhei em 2012/13, o livre direito constitucional de se manifestar é absolutamente vilipendiado pela polícia militar. A reação natural a isso vem de grupos de manifestantes dispostos a enfrentar a brutalidade policial com táticas de ataque e defesa. O mais famoso desses grupos acabou sendo os black blocs, mas outros grupos surgiram pelo mundo desde as famosas manifestações de Seattle em 1999 contra o encontro de cúpula da OMC e Gênova em 2001 no encontro do G8, como por exemplo os “macacões brancos”.

Pode-se concordar ou não com tais atos, mas não podemos entrar na onda midiática e condenar acriticamente a reação dos manifestantes representada pela desobediência civil legítima, sem tocar em nenhum momento em quem causa a ação violenta (as forças policiais) e quem amplifica os conflitos desproporcionalmente para tirar proveito político delas (a mídia). Senão, vamos passar o resto da vida colocando essa questão secundária da violência em evidência para deixar de discutir o principal: a necessidade de se programar eleições diretas de qualquer maneira para barrar os pacotes neoliberais do Ilegítimo, ou de quem quer que venha a substituí-lo, escolhido por um Congresso corrompido e sem moral.
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