Panorâmica Social

Denúncia das injustiças da plutocracia brasileira e mundial

5 de maio de 2017

O Brasil vai ficando mais longe do que se define como civilizado

Para uma sociedade mostrar-se civilizada perante o mundo nos parâmetros atuais — e não mais em comparação com tribos selvagens numa escala eurocêntrica de civilização, como era tempos atrás — é preciso que se cumpra alguns requisitos básicos. Direitos e deveres precisam caminhar pari passu, com os exemplos vindos de cima. Uma elite não pode ser uma elite só porque possui mais dinheiro, mas precisa ser, pelo menos na ótica burguesa, aquela classe que tem a solução mais inteligente para os problemas e dita os valores a toda a sociedade.

Tudo isso, infelizmente, passou ao largo no nosso país.

Nossas elites nunca tiveram um senso patriótico, nunca tiveram um projeto de nação para fundar um país digno e com oportunidades para todos. Nosso legado histórico de desigualdade, escravidão e violência cotidianas tiveram um peso muito maior na constituição de quem somos, muito mais do que os belos lemas burgueses europeus de igualdade e fraternidade.

O resultado disso hoje é que nossas classes dominantes continuam míopes a respeito de como resolver nosso crônico problema de violência e miséria. Outros países, cada um a seu ritmo, resolveram que, por meio da educação, da barreira tarifária na economia com incentivo à indústria nacional, incentivos à ciência e tecnologia locais, a implementação de uma cultura de verdadeira isonomia onde a lei é realmente para todos, ricos e pobres, dando assim o exemplo que vem de cima, poriam fim a esta realidade que sofriam e que até hoje grassa no nosso país.

Por que não o Brasil?

Porque nossas elites pouco se identificam com o que é nacional. Admiram mesmo o estrangeiro, tanto na sua pessoa física, branca, alta, de olhos claros, quanto nas suas romantizadas realizações. "Lá na Europa é tudo diferente"; "Lá no Canadá os carros param pra você atravessar a rua"; "Lá na Alemanha você pode andar sozinho na rua à noite sem medo".

Por que não o Brasil?

Porque aqui ninguém quer ir a fundo na solução definitiva do problema, atacar a raiz num projeto a médio-longo prazo de mudança, de reformas, de uma verdadeira revolução, coisa que muitos dos países hoje idolatrados pela nossa elite vira-latas fizeram há mais de 100 anos.

Por exemplo, se na Suécia, na Holanda, na Bélgica não existe a colossal violência que existe no Brasil, é porque eles levaram a sério o projeto do Iluminismo. Primeiro separaram definitivamente o Estado e a Igreja, acabando com a influência de líderes que pregavam o privilégio de suas crenças sobre as demais, fomentando ódios e violências; em seguida, decidiram investir tudo em educação 100 por cento gratuita e de qualidade para todos, erradicando a ignorância e o analfabetismo de seu meio. A resposta não demorou muito: sociedades com mão-de-obra qualificada, pessoas preparadas criticamente para entender e melhorar a sua sociedade e um padrão de vida elevado que praticamente tirou a necessidade de pessoas apelarem para a violência, seja para impor sua verdade religiosa, seja para roubar o carro que você tem. Se ela quiser ela vai lá e compra.

No Brasil... Estamos em pleno século XXI, era da Informação, e o Brasil sequer conseguiu cumprir o seu ciclo de alfabetização geral. A desigualdade é fruto de privilégios, muitas vezes indevidos, adquiridos no passado, que hoje influencia quem pode e quem não pode chegar a um lugar ao sol. Assistimos ao crescimento de seitas evangélicas neopentecostais que fomentam o ódio, o separatismo e a animosidade como razão de existência. A violência é um estigma que só poderia ser mesmo o resultado dessa nossa incapacidade de dar um salto civilizatório.

Mas pra amenizar a violência, nossas elites têm a solução mágica. Propõem um modelo de guerra, com aparato policial, fuzis, metralhadoras, e uma ideologia que trata o pobre, o negro, o marginalizado — no sentido de estar à parte do bem estar e do conforto que a civilização pode proporcionar — como alvo a ser abatido. Há quase 40 anos, essa é a "lógica" para que a classe média se sinta "segura".

Mas não é só isso. Os experts em solucionar a violência ainda querem que, numa sociedade campeã mundial de chacinas e homicídios, na casa de 55 mil mortes por ano, cada cidadão ainda tenha o direito de andar armado! Talvez se inspirando na "moderna" e "acadêmica" lógica do bang-bang dos faroestes estadunidenses, merece viver quem for o mais rápido no gatilho.

Esqueçamos por ora o lobby das indústrias armamentícias que compram, quer dizer, "ajudam" financeiramente as campanhas dos deputados proponentes dessa insanidade. Mesmo a sociedade tendo dito SIM ao desarmamento num referendo popular, quem disse que a opinião do povo conta? Se fosse assim não teria Reforma da Previdência nem Terceirização...

Assim como eles, os conservadores de direita armamentistas que afirmam que a maconha é uma droga que serve de porta de entrada para drogas mais pesadas, tiveram a ideia de pegar essa lógica e aplicar na questão das armas. Acaba de ser aprovada na Comissão de Segurança Pública [sic] e Crime organizado a PL 7785/2014, que autoriza a comercialização entre os cidadãos do nefando spray de pimenta. O próprio autor do projeto, deputado Onyx Lorenzoni, do DEM, assume que a intenção é "acabar com a farsa do estatuto do desarmamento", permitindo uma abertura para que no futuro possa ser votado o acesso às armas de fogo.



Ser civilizado não é praticar ou se deleitar com linchamentos e justiçamentos públicos, com a selvageria de presos sendo decapitados, é defender o Estado de Direito onde a justiça e a lei sejam respeitadas até para criminosos;

Ser civilizado não é propor redução de lei de maioridade penal como solução para crimes praticados por menores, é defender a difícil missão de mudar a nossa realidade social para que os jovens possam ter acesso a estudo de qualidade e emprego digno, tornando assim o crime uma opção menos sedutora;

Ser civilizado não é fazer pouco caso dos Direitos Humanos, por se reconhecer que, no mínimo, seria burrice tratar criminosos como animais, e depois ser vítimas desses mesmos criminosos duas vezes mais brutalizados nas ruas;

Ser civilizado não é culpar os trabalhadores pela crise do capitalismo, usando a própria crise como pretexto para que os mais pobres paguem a conta, sem tocar nos privilégios dos ricos;

Ser civilizado não é criar um factoide para um golpe parlamentar que retira do poder um governante que desagrada setores do sistema financeiro e das elites, é respeitar os trâmites legais do sistema eleitoral, sabendo que só se pode mudar um presidente no voto ou com crimes comprovados;

Ser civilizado é não propor violência como solução de violência, não é ficar feliz quando a polícia usa de seu despreparo brutalizado para chacinar parcelas inteiras da população ou para reprimir protestos pacíficos, e sim defender a igualdade e a democracia como preceitos básicos de qualquer sociedade.

Enfim, ser civilizados é tudo o que não somos.

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