E se o Brasil fosse uma família tradicional? Veja como seria

Michel Temer vira-lata

Digamos que de repente você, um adolescente visionário que mora com pais conservadores, teimoso mas com boas razões para suspeitar, resolva que no quintal da sua família existe uma mina de ouro. Você, determinado que só, comprou aparelhos sofisticados de inspeção de solo, aprimorou você mesmo a tecnologia deles com o seu conhecimento, aprendeu as melhores técnicas de exploração e… voilà, de repente se depara com o inimaginável: uma das maiores minas de ouro jamais encontradas na região.

Você pensa: “estamos ricos, muito ricos, poderei repor tudo o que eu investi em tecnologia pioneira para esta descoberta, ainda sobrará muito para reformar a nossa casa e dispor de recursos para vários de nossos futuros descendentes!”.

Bom, infelizmente seu pai, chefe da família de acordo com os preceitos da família tradicional, os quais ele segue religiosamente, pensa diferente. Paradoxalmente, ele diz que vocês não têm dinheiro suficiente para investir na exploração e retirada de todo o ouro (!!!!) e então propõe um modelo diferente: chama os vizinhos mais “ricos” e propõe que, de cada tonelada de ouro que conseguirem extrair, uma parte fique como indenização para vocês. Você não entende como seu pai pode ser tão estúpido assim, obviamente o certo a fazer seria investir por conta própria na exploração de todo o ouro e ficar com toda a riqueza para si, para vocês e para sua família, não para enriquecer os outros.

Infelizmente, não é por burrice que seu pai faz esse crime de lesa-família. Ele tem uma história que você mal conhece. Seu pai sempre foi pobre e explorado pelos vizinhos mais ricos, e cresceu com uma baixa autoestima que o faz se sentir um verdadeiro vira-latas, com vergonha da própria família. Geralmente seu pai vai a grandes festas organizadas por estes vizinhos, mas não leva a família por vergonha. Ele, apesar de pobre, se sente um daqueles galantes vizinhos de classe média alta. Acha que faz parte do mesmo clube de privilegiados, por participar como convidado de algumas festas chiques.

Numa dessas conversas, confessou ter descoberto a mina de ouro no quintal (que você descobriu com sua perseverança e recursos próprios, na verdade) e então foi convencido de que valia mais a pena permitir que seus vizinhos ricos, seus amigos, explorassem o recurso e lhe pagasse por este direito, do que você mesmo explorar a jazida de ouro. Afinal, lhe convenceram que vocês não tinham as mesmas condições técnicas, materiais e funcionais para uma empreitada tão difícil (apesar de você ter descoberto tudo sozinho com sua própria tecnologia). No fim das contas, seu pai, um sujeito sem visão, sem perspectiva, sem um plano a longo prazo e sem orgulho próprio, joga no lixo o futuro de várias gerações de sua família, para deixar as famílias dos vizinhos ainda mais ricas. Sua compensação é uma pequena migalha que ele usará, ainda por cima, para pagar a dívida que contraiu com esses vizinhos no passado, que, além do mais, ninguém sabe se já foi paga ou não. Virou hábito, por rotina. E assim se acabam os sonhos de grandeza de uma família inteira.

Pra quem ainda não matou: você é a Petrobras; seu pai é o atual governo Temer e, de modo geral, as classes dominantes brasileiras ao longo do tempo; seus vizinhos são os países ricos; a jazida de ouro é o pré-sal e sua família é o povo brasileiro.

Postagens mais visitadas deste blog

Voz de prisão. Na teoria, uma coisa, na prática, outra bem diferente

Qual é o termo gentílico mais adequado para quem nasce nos Estados Unidos?

Deputados contra a Reforma da Previdência: consciência política ou barganha pelas emendas parlamentares?

Como os homens manipulam a “vontade de Deus” de acordo com suas necessidades: a questão do lucro