Panorâmica Social

Denúncia das injustiças da plutocracia brasileira e mundial

21 de abril de 2017

Como os homens manipulam a “vontade de Deus” de acordo com suas necessidades: a questão do lucro

21 abril 0
Como os homens manipulam a “vontade de Deus” de acordo com suas necessidades: a questão do lucro

Constantino, o Grande, (imagem) é frequentemente lembrado como aquele que manipulou politicamente a seu favor a “vontade de Deus” no I Concílio de Niceia, em meados do séc. IV, declarando Cristo como divino. Mas no séc. XVI, na Reforma Protestante, outra polêmica que se tornava religiosamente cada vez mais difícil de contornar exigiu que os homens debatessem e decidissem mais uma vez qual era a opinião de deus: a questão do lucro.
A Igreja Católica, sempre firme nas suas tradições, demorou a compreender a transição por que passava o mundo naqueles anos do Renascimento. O mundo medieval no qual ela reinava absoluta estava chegando ao fim. Como afirma Leo Huberman[1]:
Quando ocorreu a revolução dos modos de produção e troca, que denominamos de modificação do feudalismo para o capitalismo, o que aconteceu à velha ciência, ao velho direito, à velha educação, ao velho governo, à velha religião? Também se modificaram.
Neste mundo novo que surgia, comandado pelos comerciantes e banqueiros, a religião católica se tornava mais do que obsoleta: ela era um empecilho à nova sociedade baseada no comércio, nos negócios — enfim, no lucro — pois condenava severamente a usura. O mundo demandava uma nova religião.


Assim como, mais tarde, economistas liberais iriam atacar as amarras do mercantilismo, naquele século XVI Martinho Lutero, Calvino e outros reformadores iriam atacar as amarras do catolicismo. O discurso a favor do lucro agradou aos príncipes e assim, sob proteção estatal, nascia a Igreja protestante. As pessoas queriam enriquecer sem culpa, sem medo de irem para o inferno. “[A igreja protestante] dividiu-se em muitas seitas diferentes, mas em todas, em graus variados, o capitalista interessado nos bens materiais podia encontrar consolo” [2].
Os protestantes souberam interpretar o espírito de sua época e saíram na frente, oferecendo aquilo que as pessoas queriam. Mas onde fica Deus nesta história?
O mundo passou séculos acreditando que a usura era pecado porque Deus condenava o lucro. Mas como a sociedade medieval era praticamente autossuficiente economicamente, a condenação da usura recaía convenientemente sobre os judeus, que viviam do comércio e do empréstimo de dinheiro. Mas depois, com o crescimento da economia, o comércio se espalhou pela Europa, e os reformadores decidiram que os homens tinham o dever de lucrar, com o beneplácito de Deus. Tomemos por exemplo os protestantes puritanos: enquanto os legisladores católicos advertiam que o caminho da riqueza podia ser a estrada do inferno, o puritano Baxter dizia a seus seguidores que se não aproveitassem as oportunidades de fazer fortuna, não estariam servindo a deus:
Se Deus vos mostra o caminho pelo qual podeis ganhar mais, legalmente [...] e se recusais, escolhendo o caminho menos lucrativo, estareis faltando a uma de vossas missões, e rejeitando a orientação divina, deixando de aceitar Seus dons para usá-los quando Ele o desejar.[3]
Teria Deus mudado de opinião? Ou seria Deus apenas claramente um pretexto para os homens justificarem suas necessidades de acordo com o contexto histórico? A resposta parece clara...

[1] HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do Homem. Editora Guanabara. Rio de Janeiro, 1986
[2] Ibidem
[3] Ibidem

18 de abril de 2017

Deputados contra a Reforma da Previdência: consciência política ou barganha pelas emendas parlamentares?

18 abril 0

Congresso Nacional

De repente, Michel Temer, o Pequeno, ou o Ilegítimo, começa a ter dificuldades entre a sua base aliada para a aprovação da impopular PEC 287/2016, a Reforma da Previdência. Muitos dos deputados que ajudaram o Ilegítimo a chegar ao poder através do Golpe Parlamentar, agora se colocam críticos da Reforma que, entre outros projetos infames, prevê a Terceirização de atividades-fim.

Se a votação fosse hoje, com um total de 513 deputados na Câmara, 275 seriam contra, de acordo com o placar periodicamente atualizado da Folha. Isso significa que nem as propostas mais brandas seriam aprovadas.

Teriam os deputados tomado tendência repentina, sentido o peso na consciência durante o sono, se preocupado com a situação do seu eleitorado? Quem dera que pudéssemos dar uma resposta dessas. Na verdade, é muito provável que tudo se resuma a uma estratégia de barganha política que faz parte de um sistema viciado e que favorece as negociatas em vez do bem estar geral.

Entenda o que representam as Emendas Parlamentares

Muita gente desconhece, de fato, o que representam tais emendas. Elas têm um caráter muito mais financeiro do que melhorias nas leis, como é o caso de outros tipos de emendas.

O governo federal define no segundo semestre o orçamento para o ano seguinte, que precisa ser aprovado pelos deputados. É aí que começam a ser feitas as emendas parlamentares, ou seja, quando os deputados começam a propor projetos na sua área de atuação que visa abocanhar uma fatia desse orçamento. Como afirma o site Direitos Brasil:

Por exemplo: um deputado federal eleito em Minas Gerais, com a maioria dos eleitores na zona metropolitana de Belo Horizonte, pode tentar reservar uma cota do total do orçamento disponível para a construção de postos de saúde para a sua zona eleitoral. É, ao mesmo tempo, parte das melhorias feitas pelos parlamentares e uma espécie de favorecimento da zona que elegeu cada parlamentar.

A ideia não parece ilegítima, mas tem o ranço da má política, já que o Executivo usa a verba bilionária para seduzir os deputados a votarem matérias do seu interesse. E aí que entra o jogo dos parlamentares na Reforma da Previdência.

Jogando com a barganha, fazendo charme, os deputados se posicionam agora contra a Reforma da Previdência, porque assim podem negociar com o governo fatias dessa verba para “vender” o seu voto. E o Ilegítimo já entrou no jogo. Segundo o site do PSOL, com base em informações do Estado de São Paulo, depois de liberar R$ 800 milhões para as polêmicas emendas, o Ilegítimo promete liberar, depois de um estratégico atraso, mais 1 bilhão esse mês, e mais R$ 800 milhões em maio. Tudo isso num momento bastante “oportuno” em que o governo pretende enfiar goela abaixo da nação uma Reforma que ninguém pediu e ninguém quer — a não ser a classe do patronato empresarial.

São necessários 308 votos para a aprovação em dois turnos no Plenário, e neste momento, apenas 101 deputados estão fechados com o governo na questão. Vejamos, a partir de agora, com o lançamento desse agrado do governo, se os deputados realmente tiveram suas consciências perturbadas e resolveram agir em favor dos trabalhadores, ou se — mais provável neste balcão de negócios que se tornou a Casa Legislativa — tudo não passa de um jogo de cena, conforme o placar dos apoiadores da Reforma for mudando ou não ao longo das próximas semanas.

10 de abril de 2017

Chantagem neoliberal: governo Temer quer fazer com os Estados o que o FMI faz com os governos

10 abril 0
Chantagem neoliberal: governo Temer quer fazer com os Estados o que o FMI faz com os governos


Quem ficou ou tem ou teve parentes internados em hospitais públicos sabe que essas instituições estão bastante infiltradas de religiosos, especialmente evangélicos. Espertamente, eles descobriram que podem angariar mais fiéis apelando para o momento de maior instabilidade emocional de uma pessoa, o momento em que ela está na dúvida entre a vida e a morte. A assistência oferecida tem como contrapartida o sentimento de dívida para com deus. Afinal, para os mais suscetíveis, a graça da cura fora conquistada com a mãozinha dos seus representantes na Terra.

A partir dos anos 80 o FMI passou a adotar esse tipo de chantagem, não emocional, mas financeira. No momento de maior aperto econômico das nações, os empréstimos passaram a ser condicionados a aplicações do receituário neoliberal na economia: queda de barreiras tarifárias a produtos importados, privatizações de empresas estatais, arrocho salarial de funcionários públicos, entre outras medidas.

Michel Temer mostra a que veio

Mal podendo esconder que veio ao poder para servir aos mesmos interesses do mercado internacional, o ilegítimo governo Temer resolveu aplicar no âmbito interno aquilo que os evangélicos aplicam nos hospitais e o FMI aplica no âmbito externo: chantagem.

Aproveitando-se da crise que alguns dos Estados brasileiros enfrentam, muitos deles por conta da total irresponsabilidade fiscal como no caso do Pezão no Rio de Janeiro (do mesmo partido do presidente, diga-se de passagem), o governo federal propôs 3 anos de moratória, para que estes Estados possam organizar suas finanças. A contrapartida? Privatizar empresas estatais, aumentar a contribuição de inativos e suspender o aumento de salários do funcionalismo. Temer deixaria os representantes do Consenso de Washington orgulhosos.

A estupidez em insistir no que dá errado

Chega a ser inacreditável como as classes dominantes brasileiras, através de seu braço político no governo, são estúpidas o suficiente para apostar numa receita já testada e reprovada no mundo como retumbante fracasso, que apenas se sustenta com muita propaganda ideológica nas mídias e repressão policial nas ruas. Nos anos 90 muitos países, especialmente na América Latina, disseram um clamoroso NÃO ao neoliberalismo, que, na prática, representou a eleição de presidentes de vieses progressistas, como Evo Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador, Lula no Brasil, entre outros.

Com o apoio da mídia alinhada com o mercado financeiro e classe empresarial, alguns destes países vêm sofrendo reviravoltas com a ascensão de novos representantes do neoliberalismo mundial. Como característica, apresentam nenhum respeito pelo processo democrático eleitoral ou apelam para agitações sociais e golpismos, tudo para ver de volta a predominância do mercado capitalista sobre os interesses do cidadão.

http://panoramicasocial.tumblr.com/post/159432668336/sip-onde-se-forma-o-consenso-da-imprensa

No Brasil Aécio Neves é o típico representante dessa corrente. Na Argentina, o presidente Macri e sua agenda neoliberal estão trazendo de volta os piores anos da época Menem/Cavallo, e a população já está nas ruas. Na Venezuela, o governo Maduro enfrenta um parlamento golpista que apela até a países estrangeiros para uma intervenção militar. E na recente eleição presidencial no Equador, o candidato da oposição e banqueiro Guillermo Lasso deu uma de Aécio e não reconheceu o resultado soberano das urnas que elegeu o candidato da situação.

http://panoramicasocial.tumblr.com/post/159432967546/o-fantasma-do-neoliberalismo-está-de-volta-entre

As táticas são as mesmas, os projetos, os mesmos. Líderes políticos bem nascidos, ricos ou com ligações com os setores financeiros e empresariais, sem nenhuma ligação com o povo, tentam derrotar os governos progressistas e trazer de volta esse monstro do neoliberalismo no nosso continente. Quem adivinhar quem está por trás de tudo isso, apoiando, financiando e fornecendo o aparato ideológico que permeia nossos telejornais burgueses, ganha uma mariola.

Pobre Brasil. Fadado a ser eternamente um bobo gigante

10 abril 0

gigante pica pau

O peso da herança colonial na América Latina é um fardo que até hoje os países desta região ainda carregam, por conta das estruturas específicas que estão na origem de suas formações. Mas, no Brasil, esse legado é ainda mais paralisante, por conta das especificidades de nossa história.

Aqui, ao contrário dos nossos vizinhos, não houve grandes rupturas, frutos de embates entre o colonizador e os já identificados com os interesses da colônia. Nossa transição para a Independência, apesar de não ter sido tão pacífica quanto dizem os livros de história, foi feito com arranjos dos altos escalões. Manteve-se a monarquia e, com o passar do tempo, um projeto de país foi perdendo espaço porque nossas elites aprenderam a tirar proveito pessoal do imperialista mundial da vez. Primeiro, Portugal e seus laços de dependência ainda recentes; depois a abertura de portos para “nações amigas” — leia-se, vender matérias-primas para a já industrial Inglaterra — e, depois de flertar com as etiquetas de costumes dos franceses, se colocaram à disposição do vencedor ocidental da II Grande Guerra: os Estados Unidos. E assim tem sido desde então.

Outros países do mundo também passaram por processos de colonização e independência, mas muitos deles conseguiram romper os laços de subordinação em nome de um projeto nacionalista, de desenvolvimento e prioridade dos próprios interesses. Também um dia a China, a Coreia (do Sul), a Austrália, a Índia, o Japão e tantos outros países foram pobres, tinham um contingente enorme de analfabetos e uma economia nacional subdesenvolvida. No entanto, seja através de revoluções ou de um grande projeto nacional que incluía a proteção das suas indústrias nacionais, a massificação da educação pública de qualidade e o investimento em pesquisa e desenvolvimento (a verdadeira chave da libertação da dependência tecnológica dos países em desenvolvimento) conseguiram dar um salto adiante e se tornarem destaques no cenário internacional.

http://panoramicasocial.tumblr.com/post/159414701551/o-mito-do-livre-mercado-os-casos-sul-coreano-e

O Brasil… Bem, o Brasil, o “país do futuro”, parecia que tinha finalmente conseguido dar seus primeiros passos nessa direção, há pouco menos de 10 anos. O país crescia em plena crise internacional, abria diversas escolas técnicas e universidades federais, tirava milhões da linha de pobreza para a faixa de consumo, e como bônus, a descoberta do pré-sal garantiria para as próximas décadas os investimentos necessários para manter esse ciclo virtuoso: financiamentos em saúde e educação.

Além disso, um importante fator para que o país se consolidasse de vez entre os BRICS e deixasse para trás sua herança de país-fazenda era o investimento federal no projeto Ciência Sem Fronteiras.

Não acreditem, amigos, naqueles que dizem que a luta de classes é uma teoria que já não cabe mais no presente. Ela está aí, a olhos vistos. Seu principal exemplo é o golpe parlamentar que tirou não um partido político do poder, mas aquilo que ele representava: uma tentativa, embora tímida, de subverter nossa herança de atraso e dependência. Dessa forma, assumiram o poder, com o apoio de uma mídia parcial comprometida com os ideais do mercado, aqueles que são os descendentes da Casa Grande, dos ricos e dos privilegiados, que se sentiram ameaçados com as pequenas reformas propostas, os filhos e netos daqueles que também deram o Golpe de 64, quando João Goulart defendia as Reformas de Base.

Primeiro atacaram a partilha do pré-sal, abrindo a possibilidade de que empresas estrangeiras pudessem tirar proveito do nosso petróleo. No fim das contas isso representa o fim do financiamento da saúde e educação; depois acabaram com o que restava do incipiente Estado de Bem Estar social no Brasil, ao implementar uma política econômica neoliberal que representa um ataque à indústria nacional, sem falar no fim da proteção social e das aposentadorias, que é o que de fato significam as mudanças em curso. Mas o golpe fatal no nosso futuro foi dado recentemente com o corte do Ciência Sem Fronteiras para alunos da graduação.

O Ciência sem Fronteiras foi um projeto criado em 2011 para promover bolsas de estudo a brasileiros nas melhores Universidades do mundo. Atendendo a um quesito da Constituição que afirma ser dever do Estado a promoção da pesquisa, da ciência, da tecnologia e da inovação, o projeto visava formar jovens cientistas qualificados para ajudar o Brasil a se livrar da dependência tecnológica, que nos obriga a pagar royalties sobre patentes de produtos estrangeiros. Muitos países investiram em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e hoje lideram a economia mundial, saindo de um atraso tão grande quanto o do Brasil. Mas como dissemos, esses países tinham um projeto de nação…

http://panoramicasocial.tumblr.com/post/159414776251/falta-de-cultura-científica-cria-dependência

Aqui, prevalece o atraso, a superstição religiosa, a ideia do Brasil como uma grande fazenda fornecedora de matérias-primas, porque assim é que nossas elites aprenderam que deveria ser. São eles que se privilegiam desse modelo, enquanto o país chafurda e patina parado no tempo.

Estamos condenados a ser uma eterna colônia, um país gigante, cheio de potencial, mas com uma classe dominante que padece de baixa auto-estima e nenhum senso de patriotismo. Pra eles, a bandeira do Brasil só serve para representar manifestações contra governos que tentam vencer os privilégios que aquela mesma bandeira oculta sob a ideia de “brasilidade”. Um mito construído para ocultar que não somos todos iguais. Que existem brasileiros e brasileiros. Que alguns destes não tem nada em comum com os outros. Nem sequer empatia.

8 de abril de 2017

E se o Brasil fosse uma família tradicional? Veja como seria

08 abril 0

Michel Temer vira-lata

Digamos que de repente você, um adolescente visionário que mora com pais conservadores, teimoso mas com boas razões para suspeitar, resolva que no quintal da sua família existe uma mina de ouro. Você, determinado que só, comprou aparelhos sofisticados de inspeção de solo, aprimorou você mesmo a tecnologia deles com o seu conhecimento, aprendeu as melhores técnicas de exploração e… voilà, de repente se depara com o inimaginável: uma das maiores minas de ouro jamais encontradas na região.

Você pensa: “estamos ricos, muito ricos, poderei repor tudo o que eu investi em tecnologia pioneira para esta descoberta, ainda sobrará muito para reformar a nossa casa e dispor de recursos para vários de nossos futuros descendentes!”.

Bom, infelizmente seu pai, chefe da família de acordo com os preceitos da família tradicional, os quais ele segue religiosamente, pensa diferente. Paradoxalmente, ele diz que vocês não têm dinheiro suficiente para investir na exploração e retirada de todo o ouro (!!!!) e então propõe um modelo diferente: chama os vizinhos mais “ricos” e propõe que, de cada tonelada de ouro que conseguirem extrair, uma parte fique como indenização para vocês. Você não entende como seu pai pode ser tão estúpido assim, obviamente o certo a fazer seria investir por conta própria na exploração de todo o ouro e ficar com toda a riqueza para si, para vocês e para sua família, não para enriquecer os outros.

Infelizmente, não é por burrice que seu pai faz esse crime de lesa-família. Ele tem uma história que você mal conhece. Seu pai sempre foi pobre e explorado pelos vizinhos mais ricos, e cresceu com uma baixa autoestima que o faz se sentir um verdadeiro vira-latas, com vergonha da própria família. Geralmente seu pai vai a grandes festas organizadas por estes vizinhos, mas não leva a família por vergonha. Ele, apesar de pobre, se sente um daqueles galantes vizinhos de classe média alta. Acha que faz parte do mesmo clube de privilegiados, por participar como convidado de algumas festas chiques.

Numa dessas conversas, confessou ter descoberto a mina de ouro no quintal (que você descobriu com sua perseverança e recursos próprios, na verdade) e então foi convencido de que valia mais a pena permitir que seus vizinhos ricos, seus amigos, explorassem o recurso e lhe pagasse por este direito, do que você mesmo explorar a jazida de ouro. Afinal, lhe convenceram que vocês não tinham as mesmas condições técnicas, materiais e funcionais para uma empreitada tão difícil (apesar de você ter descoberto tudo sozinho com sua própria tecnologia). No fim das contas, seu pai, um sujeito sem visão, sem perspectiva, sem um plano a longo prazo e sem orgulho próprio, joga no lixo o futuro de várias gerações de sua família, para deixar as famílias dos vizinhos ainda mais ricas. Sua compensação é uma pequena migalha que ele usará, ainda por cima, para pagar a dívida que contraiu com esses vizinhos no passado, que, além do mais, ninguém sabe se já foi paga ou não. Virou hábito, por rotina. E assim se acabam os sonhos de grandeza de uma família inteira.

Pra quem ainda não matou: você é a Petrobras; seu pai é o atual governo Temer e, de modo geral, as classes dominantes brasileiras ao longo do tempo; seus vizinhos são os países ricos; a jazida de ouro é o pré-sal e sua família é o povo brasileiro.

6 de abril de 2017

PT e PSDB abrem diálogo inédito. Com que intenções?

06 abril 0

Fernando Henrique e Lula juntos

No próximo dia 18 de abril, por iniciativa de Márcio Pochmann, haverá um encontro entre representantes de dois dos principais partidos políticos do país. Pochmann é representante da Fundação Perseu Abramo, ligada ao Partido dos Trabalhadores, e o encontro também contará com membros da Fundação Fernando Henrique Cardoso (FFHC) e Instituto Teotônio Vilela, ligados ao PSDB.

A princípio, o encontro tem por finalidade discutir os resultados de uma pesquisa qualitativa feita pela fundação entre ex-eleitores da sigla na periferia de São Paulo. Mas é muito provável que essa discussão seja pretexto para que o encontro resvale para assuntos da política nacional.

Como podemos entender essa aproximação de partidos “antagônicos”?

De um ponto de vista republicano, eu acredito que esse diálogo faça parte de uma iniciativa madura de duas entidades que representam as duas principais correntes políticas do país. Nos dias de hoje, não só de crise econômica, mas muito mais de risco de colapso das instituições políticas por pura falta de legitimidade governamental, a discussão dessas duas correntes sobre questões como "modernizar o Brasil" e "reforma política", como diz a matéria do Estadão, pode ser muito saudável para o momento conturbado do país. Um pouco de serenidade e moderação neste momento seriam imprescindíveis para dar um rumo a este país que parece perdido.

Por outro lado, me preocupa se, mais do que boas intenções republicanas e democráticas, esteja por trás disso uma forma de aliança politiqueira para manter a velha e viciada polarização entre PT e PSDB. Ambos os partidos estiveram no poder por mais de vinte anos consecutivos e deixaram os seus governos em baixa. É preciso pensar uma alternativa a essa incoerente polarização (que não seja um governo golpista e ilegítimo como o do PMDB atual), que, antes de mais nada, prejudica a própria democracia.  Se o encontro foi realmente com a intenção de manter esse tipo de predomínio entre os dois partidos na política nacional, sabe-se lá com que tipo de negociação (alívio nas delações contra Aécio em troca do fim das perseguições da Lava Jato contra Lula, por exemplo) eu lamento muito que venhamos a desperdiçar a chance de propor um projeto nacional em nome das mesquinharias de sempre.