É o fim da Era Vargas

Velório de Vargas

Demorou quase 80 anos, mas finalmente as elites nacionais conseguiram destruir o legado daquilo que ficou convencionalmente conhecido como “getulismo” no século XX. Depois de um suicídio em 54, duas tentativas de impedimento de assumirem a presidência da República (uma de Juscelino em 55 e outra de Jango em 61), conspirações, um golpe militar em 64, uma ditadura, um governo neoliberal nos anos 90, finalmente o golpe final no legado de Getúlio Vargas foi dado de forma direta: a proteção social da Previdência e a Consolidação das Leis do Trabalho foram destruídas.

Para isso, é claro, duas condições primordiais foram decisivas. Um governo ilegítimo e uma esquerda enfraquecida ao mesmo tempo. Em 54, Getúlio Vargas já sofria as pressões de uma classe dominante reacionária e mesquinha, infiltrada em setores diversos como as Forças Armadas, a Igreja Católica, o empresariado e a imprensa.

Seu suicídio serviu como ato político que mobilizou o país, assustou a direita e refreou sua sanha golpista. Em 1955 eles ainda tentaram impedir a posse de Juscelino Kubitschek por suas ligações políticas com o “getulismo”, mas um marechal nacionalista como Henrique Teixeira Lott ainda existia naquela época e garantiu a posse.

Em 61 foi a vez dos ministros militares capitaneados pelo abjeto marechal Odílio Denys e seu antigetulismo cego tentarem impedir a posse do vice-presidente João Goulart pelo mesmo motivo, mas a bravura de Leonel Brizola e do povo gaúcho seduziu Machado Lopes, comandante do III Exército para o lado dos legalistas.

Em 64 veio o golpe e a ditadura militar, mas nem os golpistas tiveram a coragem de mexer nos direitos trabalhistas. Os movimentos sociais, os sindicatos e muitos combatentes da esquerda estavam vigilantes nesse período, e temia-se a repercussão de um ato tão severo.

Durante o governo neoliberal dos tucanos de 1994 a 2001, Fernando Henrique Cardoso decretou publicamente que ia acabar com a Era Vargas. Vendeu o país, destruiu empregos, privatizou empresas estratégicas, mas a CLT, apesar das ameaças, continuava resistindo.

Foi preciso que um governo ilegítimo, sem voto, sem projeto nacional, apenas com compromisso de servir de capacho ao capitalismo entrasse em cena, se aproveitando da fraqueza de uma esquerda abatida com as traições do PT, para que finalmente o sonho das elites desse país se concretizasse: em menos de um ano, inviabilizaram a aposentadoria de milhões de pessoas, enquanto retiravam os direitos de milhões de trabalhadores.

Tudo isso sem tocar em um privilégio sequer das elites. As novas regras da Previdência e o decreto de morte da CLT representam os maiores golpes que os brasileiros já receberam desde a fundação deste país. Na verdade, se olharmos através de um panorama mais geral, estes foram apenas dois grandes golpes num conjunto de incríveis abusos cometidos pelas classes dominantes desde a posse de Temer, especialmente em três setores: na Justiça, na Política e na Imprensa.

Começou com a farsa do golpe que tirou uma presidente, mais uma vez, do poder, porque não agradava cem por cento os setores capitalistas; depois a votação, às pressas, das novas regras da Previdência; a seguir uma reforma do Ensino feita com empresários que inviabiliza uma geração de futuros seres críticos e pensantes; a mudança na partilha do pré-sal que entrega de bandeja para os estrangeiros aquilo que serviria para produzir recursos para a Educação e Saúde públicas; esfriamento das relações com os membros do BRICS que propõem um contraponto à política internacional dos Estados Unidos e seus interesses imperialistas; um pacote de austeridade que prevê cortes em investimentos no país em pelo menos 20 anos, sem, no entanto, questionar o pagamento dos juros da dívida pública, verdadeiro buraco sem fundo que serve para enriquecer os parasitas das classes dominantes.

Esse é o panorama em que as classes médias alienadas com o apoio da rede Globo nos meteram. Só existe duas saídas: o povo sair do seu transe e ir para as ruas numa greve geral, ou mais pacificamente como é do nosso feitio, eleger um candidato em 2018 que prometa reverter todas esses ultrajes que estão sendo feitos com o povo brasileiro. Nunca lutar foi tão imprescindível. Nossos netos não perdoarão nossa covardia, se os legarmos este monstro que está sendo parido.