A supremacia do Ocidente sobre o resto do mundo (2/2)

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No final da última Era Glacial, há aproximadamente 12 mil anos, o reaquecimento da Terra teve consequências em todos os lugares, mas impactou positivamente muito mais algumas regiões geograficamente melhor localizadas, nas latitudes entre 20º e 35º Norte no mundo antigo, onde a temperatura adequada fez crescer uma variedade de cereais e mamíferos domesticáveis.

Favoreceu, dessa forma, o advento da agricultura nestas áreas. Não aconteceu porque as pessoas destas regiões fossem mais inteligentes ou esforçadas; a natureza havia simplesmente lhes dado mais abundância do que em outros lugares. Foi no Crescente Fértil que a Agricultura surgiu, por volta de 7.500 AEC, depois na China e no Paquistão (5.500 AEC) e no México e Peru, e daí, com o desenvolvimento e difusão de técnicas agrícolas, para o resto do mundo.

Muita gente há de pensar que, desde o surgimento da agricultura no oeste da Ásia — e a reboque dela, de grandes cidades-estados e civilizações avançadas — que o Ocidente está na vanguarda do progresso humano, no topo da escala do desenvolvimento, sendo sempre a região mais rica, mais poderosa e mais sofisticada do mundo, o que não é verdade.

Por mais de mil anos, entre 600 e 1700 EC, esse posto foi ocupado pela China. Enquanto a Europa vivia uma fase de estagnação cultural, os chineses formaram um grande reino unificado. Ian Morris afirma que:

Enquanto os portugueses tentavam descer a costa oeste da África no sec. XV, os imperadores chineses lançavam frotas enormes que viajavam por boa parte do Oceano Índico sob a liderança do almirante Zheng He, que arrecadavam tributos em cidades da Índia, visitaram Meca e chegaram até o Quênia. Se Colombo liderou três navios e 90 marinheiros, Zheng esteve à frente de 300 embarcações e 27.870 homens.

A geografia favorável foi a grande responsável pelo sucesso de algumas regiões na Antiguidade e na Idade Média, mas também foi por causa dela que estas mesmas regiões declinaram em outras épocas, conforme novas contingências, tais como o comércio, se deslocavam para o oeste cada vez mais.

Das cidades italianas de Gênova e Veneza — com a conquista de Constantinopla pelos turcos otomanos — o centro de comércio europeu se deslocou do Mediterrâneo para o Atlântico, favorecendo primeiro cidades como Lisboa e Madri, e logo depois, Londres. A Grã-Bretanha, há 4 mil anos, era uma região de povos tribais, longe dos grandes centros de civilização como os vales do Nilo, do Indo e do Rio Amarelo, onde cidades grandiosas haviam se estabelecido. A geografia não a favorecia nesse período. Mas há 400 anos, com o deslocamento do eixo do comércio para o oeste da Europa, a mesma geografia que a prejudicava antes, agora a favorecia.

A Inglaterra estava de frente para o recém-descoberto continente do Novo Mundo, numa época em que se procurava por novas colônias e matérias-primas. O caminho entre a ilha britânica e a América pelo Oceano Atlântico era a metade da distância da China para o Novo Mundo pelo Pacífico. Estava inaugurada a Era de domínio ocidental do planeta.

Mas, curiosamente, a história continua se deslocando para oeste. Depois das Duas Guerras Mundiais, a supremacia econômica, cultural, política e militar sai das mãos dos britânicos e vai para a ex-colônia americana, que durante algum tempo, ainda teve que disputá-la com a antiga rival de Guerra Fria, a URSS.

Vencida, a União Soviética abriu caminho para que os EUA se tornassem a única potência hegemônica mundial. Na falta de um grande adversário para satanizar, aos moldes da União Soviética, a partir dos anos 90 os Estados Unidos elegem as regiões petrolíferas do Oriente Médio como a bola da vez, provocando guerras e intervindo diretamente na região, derrubando governos, apoiando regimes ditatoriais e guerras, cultivando inimigos e batizando-os com a etiqueta genérica de “terroristas”.

Reagindo ao que consideram uma violência xenófoba-religiosa-econômica dos Estados Unidos contra os povos árabes, que são invadidos e desrespeitados em seus assuntos internos, grupos fundamentalistas como a Al Qaeda de Osama Bin Laden planejam atentados contra o Império pelo mundo afora, que culminam no ataque às Torres Gêmeas do WTC há  15 anos.

O terrorismo da reação do governo americano não foi menor do que o produzido por Bin Laden. Muito pelo contrário. Neste últimos anos, 900 mil pessoas foram assassinadas pela “Guerra ao Terror” no Oriente Médio — um número de mortes 300 vezes maior do que as vítimas do WTC.

 
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Tudo isso mostra que o Ocidente, que domina o mundo nos últimos 400 anos, não tem nada de especial, não estão no topo da civilização mundial e tem nenhum direito de se impor ao resto do mundo. Está apenas exercendo uma hegemonia temporária, enquanto se recusa a estabelecer um diálogo de respeito com aqueles que não compactuam com a sua visão de mundo.
 
Esta falta de entendimento entre Ocidente e Oriente é antiga e piorou muito com a hegemonia americana. Ao que tudo indica, ao olharmos o trajeto que a história tem feito no mapa nos últimos séculos, é provável que a China supere o Ocidente entre 2050 e 2100 e reconquiste a sua posição de hegemonia econômica, política e militar no planeta.
 
Será o fim do efêmero domínio dos Estados Unidos e do Ocidente. Resta saber se a transição será pacífica, ou causará mais guerras e mortes de inocentes no futuro.