Panorâmica Social

Denúncia das injustiças da plutocracia brasileira e mundial

16 de dezembro de 2016

Como o livre-mercado prejudica países em desenvolvimento: o exemplo do futebol

Seleção Brasileira de gringos

Durante muitas décadas no nosso país, vigorou na legislação esportiva a chamada lei do passe, especialmente no caso da profissionalização do futebol ocorrida na primeira metade do século passado. O “passe” era o vínculo que o atleta tinha com o seu clube de futebol, que representava, na verdade, uma posse, uma propriedade sobre o atleta.

Muitos, por um lado, passaram a ver o passe, em determinado momento em que o mundo discutia a liberalização da economia internacional por conta da queda da União Soviética, no começo dos anos 90, como uma forma de escravidão. De fato, os atletas de futebol não tinham muita liberdade de escolher onde trabalhar. O futebol brasileiro de então representava um mercado fechado, e as transferências, tanto nacionais quanto internacionais eram mais raras.

Como consequência, era normal os principais jogadores de um clube atuarem por seus respectivos times durante muitos anos seguidos, às vezes mais de uma década, enriquecendo assim o nosso produto, qual seja, o futebol nacional. Para ver Pelé, Didi, Garrincha, Leandro, Júnior, Zico, Reinaldo, Romário e tantos outros craques famosos, ninguém precisava pagar TV a cabo para assistir, por exemplo, Barcelona x Real Madrid na Liga dos Campeões. Era só comprar um ingresso no Maracanã para ver um Flamengo x Botafogo no Campeonato Carioca.

O passe representava, então, uma espécie de protecionismo, pois impedia que os clubes mais ricos do exterior pudessem usar seu poderio financeiro para retirar do futebol brasileiro os melhores atletas.

A ideologia do mercado entra no futebol

A onda neoliberal que acossou o mundo no final dos anos 80 e começo dos anos 90 chegou ao futebol para liberalizar as relações entre clubes e atletas dos países em desenvolvimento. No Brasil, esse movimento culminou com a lei 9.615/98, propriamente chamada de Lei Pelé. Com ela, foram institucionalizadas normas gerais no desporto, e dentre elas, a questão do passe.

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Na verdade, o que a Lei Pelé fez foi extinguir a Lei do Passe. Em tese, aplicando a lógica neoliberal ao futebol, quebrou-se o protecionismo, abriu-se o mercado brasileiro, e de tempos em tempos durante o ano, em situações que se chamam “abertura de janela”, os clubes europeus, asiáticos ou de quaisquer outros lugares em que a economia seja mais forte do que a nossa, vêm aqui pesquisar pra levar alguns dos nossos melhores atletas, exatamente como numa feira de domingo, pagando uma multa rescisória e levando o jogador na hora.

Além disso, a Lei Pelé permitiu a criação de clubes-empresas. Qualquer empresário, seja ele do ramo do futebol ou não, pode abrir um clube, muitas vezes que só existe no papel, para aliciar jogadores da base dos clubes verdadeiramente formadores de atletas, prometendo o caminho mais curto para a Europa. Neste exato momento existem centenas de jogadores brasileiros atuando em clubes europeus que nem sequer jogaram uma única partida pelos profissionais de nenhum clube brasileiro.

O resultado é óbvio: com os melhores jogadores do mundo, as ligas europeias e seus respectivos clubes ganham destaque mundial, arrecadam bilhões de dólares em publicidade e compra de direitos de transmissão. Os clubes brasileiros, por seu turno, padecem com jogadores medíocres, ou em fim de carreira, sem mercado lá fora pela idade avançada, que por sua vez disputam um campeonato tecnicamente pobre com estádios vazios e que, pasmem, alcança cada vez menos índices de audiência na TV. Viraram meros fornecedores de matérias-primas, exatamente como o restante da economia brasileira inserida de forma dependente no mercado mundial. Nosso país desindustrializado produz carne, soja e jogadores para o mundo.

A questão é: num mercado mundial totalmente aberto em que as relações econômicas e de poder são gritantemente desiguais, alguém sempre vai sair perdendo. E é óbvio que os clubes brasileiros, mais fracos economicamente, perdem nesta relação.

Alguém poderia alegar, não sem uma dose de razão, que jogadores são pessoas e que ninguém deveria impedir as pessoas de escolherem onde querem trabalhar, onde lhe oferecerem as melhores condições. Então eu sou obrigado a lembrar de uma das maiores ironias do capitalismo globalizado e liberalizante: produtos, capitais e serviços circulam livremente no mundo capitalista, menos… as pessoas. Ninguém é livre no mundo para atravessar fronteiras e dizer “quero trabalhar na Noruega”, ou no Canadá, ou nos Estados Unidos, ou em qualquer outro lugar. Nesse caso, em todos esses países existem leis protecionistas que inibem a imigração. Não é curioso?

Transpondo essa lógica para a economia de modo geral, se não deveríamos impedir atletas de jogarem onde quiserem, deveríamos, pelo menos, criar restrições aos produtos estrangeiros, para que nossa indústria possa crescer e produzir, competindo de igual para igual com os outros países. Os ideólogos adamsmithianos do capitalismo mundial querem nos fazer crer que o Brasil tem apenas vocação agrícola e deve se manter assim, uma eterna grande fazenda. E encontra tolos no nosso próprio país dispostos a acreditar nisso, alimentando uma dependência, um atraso e uma defasagem tecnológica que nos coloca nas trevas no grande jogo geopolítico internacional.

Como diz um grande amigo, o futebol emula a vida.

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