Cunha afastado em mais um show de hipocrisia da Câmara

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Em questão de poucos meses, a Câmara dos Deputados foi capaz de nos brindar com dois episódios repletos de completa hipocrisia teatral. A primeira se deu em abril, no processo de votação do Impeachment da presidenta Dilma. Sob as mais estapafúrdias alegações, em nome de deus, da família e até pela oportunidade assumida de tirar o PT do poder — não pela via eleitoral, como deveria ser — deputados ignoraram as acusações formais e foram ao microfone exibir à nação um show de pantomima burlesca.

Ontem (12-09), quase cinco meses depois, o então presidente da Câmara por ocasião da votação do Impeachment foi, ele próprio, colocado em julgamento pelos seus ex-colegas e sob o completo silêncio de aliados, em mais uma notória demonstração de hipocrisia: o antes todo poderoso Eduardo Cunha foi defenestrado da Câmara, condenado por 450 votos a 10, por quebra de decoro. Uma derrota arrasadora, com quase 200 votos a mais do que o necessário para a condenação.

Eduardo Cunha tem uma longa lista de mal feitos, acusações, denúncias e suspeitas que vêm desde a época em que presidia a extinta Telerj, no Rio de Janeiro. O jornal El País chega a enumerar nada menos do que vinte casos desse tipo, que vão desde o recebimento de propina na construção do Porto Maravilha, abuso de poder, lavagem de dinheiro até chegar em corrupção.

Cunha foi tolerado todos esses anos na política. Mas agora, tal qual o mafioso Al Capone, preso por sonegação de impostos nos Estados Unidos, foi pego também por um crime menor: mentir na CPI da Petrobras. Por que só agora?

Porque os golpistas que usurparam o poder no governo federal já tinham conseguido o que queriam do nobre deputado: que ele colocasse em votação o processo de Impeachment e permitisse todo o circo que levou até o impedimento da presidenta Dilma. A partir desse momento, Cunha se tornou não apenas dispensável, mas também um incômodo. Conhecido chantagista, iria emperrar as votações da Câmara no governo Temer como fizera no governo Dilma. Além disso, sua figura mais do que repudiada pela opinião pública seria apenas um fator de desgaste ao novo governo, associado ao golpismo parlamentar. Melhor solução encontrada: cai a Dilma, cai o seu algoz, e o governo Temer tem caminho livre para negociar no Congresso.

Algumas pessoas estão com esperanças de que, agora, fora do poder, Cunha “leve consigo mais uns 50”, botando pra fora aquilo que sabe. Collor não fez isso, Cunha não fará. Ambos têm amor à própria vida, e também a das suas famílias, e não vão acusar ninguém, até porque todos já vimos como a verdade é facilmente manipulável ao bel prazer dos poderosos nas instituições republicanas brasileiras. Talvez só fosse piorar as coisas. Cunha “ameaça” contar tudo em livro, mas essa forma de divulgação já mostrou que não repercute. Se a Privataria Tucana, um compêndio muito bem documentado sobre os crimes do PSDB na era das privatizações não deu em nada, o que dirá acusações sem provas de um deputado afastado em busca de revanche. Talvez uma entrevista-bomba na Folha de São Paulo ou numa revista semanal, como fizeram Pedro Collor e Roberto Jefferson tivesse mais impacto nesse momento, mas certamente não vai ocorrer.

Por fim, é necessário acabar com as doces esperanças de que a condenação de Cunha representa um sinal de mudanças na política. Essa mesma Câmara dos deputados reúne o que se considera a pior legislatura desde a época da ditadura militar, e se Cunha caiu não foi por um surto de moralidade dos nobres deputados. Tal qual o episódio histórico da Inconfidência Mineira — inclusive lembrado por um dos dois deputados que se prestaram a defender Eduardo Cunha — em que jogaram Tiradentes na fogueira como um ato da mais abjeta traição, Cunha foi vítima da deslealdade daqueles que até ontem o defendiam com interesses políticos, como os deputados do DEM e do PSDB.

Por vias tortas, atendeu-se um clamor da população. Outro clamor que cresce bastante nas ruas é o Fora Temer. O atual presidente da Câmara, o inepto Rodrigo Maia, tem em mãos, por decisão do STF, o pedido de votação do Impeachment de Temer. Quem aposta o que irá acontecer? 

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