Parabéns Rafaela Silva

Rafaela Silva é ouro

Que o nosso país é injusto e trata com desigualdade sua população altamente estratificada, todos nós sabemos, mas quando há um evento como as Olimpíadas, em que os investimentos no esporte se refletem claramente no quadro de medalhas, as coisas ficam ainda mais evidentes.

Rafaela Silva, moradora da comunidade da Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, acaba de ganhar sua primeira medalha de ouro no judô. Negra, pobre e favelada, sem condições financeiras de se preparar enquanto atleta de alto rendimento, apesar de ser um talento nato, podemos imaginar o que essa menina teve que enfrentar para chegar hoje no mais alto ponto do pódio. Se não fosse pelo amor ao esporte e o altruísmo de Flávio Canto, que criou o instituto Reação, que dá oportunidades a pessoas pobres de seguirem no esporte, sabe-se lá o que Rafaela estaria fazendo neste momento, em vez de cantando o hino nacional com a medalha de ouro no peito.

Quantas outras Rafaelas não estarão aí, perdidas, sem chance por este enorme país, simplesmente porque o Brasil não conta com um projeto sério de massificação do esporte?

Não faz muito tempo e o ex-jogador de futebol Petkovic surpreendeu alguns brasileiros desinformados, quando respondeu se teria passado muita dificuldade na ex-Iugoslávia socialista. Com a naturalidade de sempre, “Pet” afirmou que não, muito pelo contrário. Lembrava que na infância, praticou diversos esportes, como vôlei, handebol, basquete, mas se destacou mesmo no futebol. O esporte sempre foi levado a sério nos países socialistas, e a parte secundária disso é o reflexo no quadro de medalhas das Olimpíadas; o principal, é que o esporte forma cidadãos como Petkovic, que chega no Brasil e impressiona a todos com sua inteligência, sua formação e seu talento em primeiro lugar.

Enquanto o país inteiro se volta para a expectativa da primeira medalha de ouro do futebol masculino, apoiando jogadores que, embora, de fato, tenham vindo das partes mais pobres da nossa sociedade, mas que hoje já estão com a vida ganha e se dão ao luxo de achar enfadonho representar o Brasil, existem outras histórias de superação, de luta e de amor ao esporte esperando para serem reveladas, como a de Rafaela.

Por isso que eu não tenho o menor pudor de dizer — e, aliás, quem me acompanha sabe que não é de hoje —: dane-se a seleção, seus torcedores coxinhas, seus dirigentes corruptos, o apoio da máfia de Rede Globo, e as empresas que exploram a paixão do povo pelo futebol: viva as Rafaelas da vida, que são verdadeiras heroínas do esporte e da sobrevivência neste país injusto com seus pobres. Viva Flávio Canto, que acredita nas pessoas, que investe do próprio bolso, e faz o que em outros países seria um projeto de país, porque o esporte forma o caráter e a consciência do cidadão muito mais do que estas pessoas resignadas que dizem “graças a deus” quando ganham um décimo lugar.

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