Carta de Dilma: rendição final aos algozes

Quando pretendemos mandar uma mensagem, devemos ter em mente se o nosso remetente é capaz de ponderar sobre os pontos que levantamos e, se for o caso, repensar suas ideias concebidas. Propostas de diálogo ou apelo à razão e à ponderação devem ser remetidas para quem possui estas capacidades. Ou então estamos apenas perdendo tempo, jogando palavras ao vento. Jamais, por exemplo, poderíamos lançar uma proposta de diálogo com um grupo extremista como o Estado Islâmico. Com este tipo de antagonista, o combate é a única solução que existe.

A presidente afastada Dilma lançou ontem (17 de agosto) a sua carta aberta aos senadores, seus algozes no processo de Impeachment. Qualquer analista político iniciante sabe que a parada está perdida. E ainda assim, Dilma Rousseff lançou apelos inócuos de “união de forças” pela democracia, “concentração de esforços” pela Reforma Política, “pacto nacional”, e outras baboseiras pseudo-republicanas, como se estivesse lidando com nobres e leais estadistas que, em vez de golpistas usurpadores convictos a serviço do capitalismo e da manutenção do status quo, fossem homens sensatos em busca da justiça.

Ora bolas, desde o primeiro dia do seu segundo mandato, em que conspiradores da política tramavam pela sua queda, Dilma erra em propor pacto e união com essa escória que ela, inclusive, trouxe para dentro do seu próprio governo, e continua errando até o final, quando continua propondo acordos com essa gente e se rende aos golpistas, insinuando aceitar novas eleições como uma saída menos pior para o seu impedimento. Como se Jango tivesse aceito quieto a manobra do parlamentarismo que lhe tirava das mãos o poder, e não lutado todos os dias até conseguir de volta os plenos poderes do seu mandato.

Já tendo em vista a derrota iminente e inexorável, a presidenta perdeu uma tremenda oportunidade de transformar sua cartinha de resignação em um manifesto-bomba com o peso (guardadas as proporções) da carta-testamento de Getúlio, que teve a força de paralisar os golpistas de sua época por 10 anos. Claro que o suicídio do ex-presidente teve um papel importante neste impacto, mas com referência apenas ao conteúdo da mensagem, a diferença da postura é colossal. Imagina se Getúlio iria propor “diálogo, união de forças e pacto” com figuras como Carlos Lacerda…

No mais, fica a triste despedida de uma mulher que outrora fora valente ao enfrentar seus algozes da ditadura, mas que hoje sucumbe com tanta facilidade perante inimigos mais indignos, ratos da política que nem respeito merecem.

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