Por que o brasileiro odeia tanto o Brasil

brasileiro colonizado

A crise política e econômica atual atacou a autoestima do brasileiro e fez ressurgir um dos seus hábitos preferidos: falar mal do país e de si mesmo. Basta uma simples olhada nas conversas de rua, de botequins ou de qualquer lugar onde o assunto seja o Brasil, e uma enxurrada de falácias surgirá na ponta das línguas. E o pior, com aquele balanço de cabeça e aquela risada de concordância dos ouvintes. Falar mal do país é quase um esporte nacional, assunto preferido junto com enredos de novelas e campeonatos de futebol. Mas por que temos esse costume de colocar pra baixo a nós mesmos, e que consequências isso acarreta em nossas vidas?

Pra entender essa questão, precisamos recorrer a alguns ilustres pensadores. O primeiro deles, o alemão Karl Marx, que dedicou uma parte de sua brilhante carreira no desvendar da ideologia em sua obra A Ideologia Alemã (1846), ou seja, procurou entender os meandros da produção de ideias, de representações e da consciência. Segundo ele, o pensamento da classe dominante é, em todas as épocas, o pensamento dominante. Com base nesta afirmação, já temos uma pista de onde procurar a fonte daquelas afirmações abjetas que escutamos por aí através do senso comum. Mas o que é o senso comum?

Quem nos responde essa é o sociólogo brasileiro Jessé Souza, em seu livro A Tolice da Inteligência Brasileira (2015). Neste livro ele afirma que o senso comum, aquilo que as pessoas repetem como verdades nos botecos, nas filas do banco, em conversas informais ou em qualquer lugar, são versões simplificadas daquilo que é produzido nos altos estudos acadêmicos, nas redações de jornalismo, nas salas de aula e nas palestras de grandes pensadores, a maioria ligada a algum tipo de interesse comum com as mesmas classes dominantes, que financiam estas instituições.

Desta forma temos espalhadas por aí ideias preconceituosas sobre o brasileiro trabalhador, negro, pobre, a mulher, coisas como “nesse país ninguém gosta de trabalhar, só sabem ficar bebendo cerveja”, apesar do brasileiro trabalhar 44 horas semanais, em comparação com as 38 horas da Alemanha e 35 da França. Será que alemães e franceses são mais preguiçosos que nós então?

Nem no ranking de maiores bebedores de cerveja somos os maiorais. Somos apenas o décimo-sétimo em consumo por litro de cerveja, apesar de sermos o quinto país mais populoso.

Consumo de cerveja no mundo

fonte: Ranking dos países que mais bebem cerveja

Outros chegam a afirmar que o Brasil não possui uma verdadeira cultura nacional (?!!), que a nossa cultura é inferior ou emprestada dos outros. Simples assim.

O que dizer? Este pobre infeliz simplesmente não sabe o que é cultura, ou não conhece o Brasil. Ignorar tantas contribuições tipicamente brasileiras, transformações da cultura original indígena com influência da cultura negra e europeia para coisas absolutamente originais na nossa música, na nossa língua, na nossa culinária, nas artes e costumes, tantas que seria impossível de enumerar, chega a ser incrível.

Mas, lembram da nossa investigação sobre as raízes dessas ideias? Sim, as elites brasileiras, elas que são as culpadas por estes ataques à nossa autoestima. Logo elas, que devem considerar verdadeira cultura a cultura de massas pasteurizada dos Estados Unidos e seus fast-foods, seus super heróis, suas músicas comerciais e roupas padronizadas até quando se dizem fora dos padrões.

É claro que as elites brasileiras e as classes médias cooptadas odeiam o Brasil. Apesar de seu patriotismo tosco, representado pela tríade conservadora “deus, pátria e família”, que quer dizer o cristianismo como base de uma sociedade desigual e injusta acobertada sob um manto de “brasilidade” e da família tradicional burguesa, branca, cristã, onde o “chefe-de-família exerce sua autoridade descendo hierarquicamente da mulher até os filhos. Esse é o Brasil e o brasileiro dessa gente. Nesse modelo, ficam de fora as comunidades pobres, os brancos despossuídos, as mulheres das classes baixas, mães solteiras, os negros, e toda a “ralé” que é vítima dos preconceitos levantados aqui como exemplo. E como a ideologia da classe dominante é a ideologia dominante, logo vemos as próprias vítimas desses ataques fazendo coro contra si mesmos, muitas vezes sem nem perceber.

Poderíamos ligar a TV e ver um pouco dessa ideia negativa contrabalançada com as grandes realizações desse país e de seus membros. Pois acreditem, são muitas em áreas mais diversas como ciência, tecnologia e cultura. Mas a TV também reforça a ideia de um país que não dá certo, com violências e mais violências em programas policialescos especializados em violências.  Reforçam a ideia de que o brasileiro é violento por natureza, e tome mais preconceito. Para as classes dominantes, estes programas prestam um serviço maravilhoso. Pois quando se discute a solução para a violência, o que estes privilegiados propõem e que se reflete nas opiniões dos apresentadores é mais repressão, mais prisão, mais mortes, redução da maioridade, ou seja, um conjunto de fatores que só tentam remediar há pelo menos 30 anos a violência. As pessoas assistem na TV tanta violência que certamente se tornam propensas a aceitar que só mais violência acaba com a violência. Porque discutir o problema a fundo, ou seja, o fato de sermos violentos porque a distribuição de riquezas no Brasil é altamente desigual, seria prejudicial aos interesses das classes dominantes. Então de quem é a culpa da violência mesmo?

Esse post tem a única pretensão de fazer você repensar a ideia de que deu azar de nascer no Brasil. Pesquise outros países, veja se são mesmo tão melhores que nós, ou se apenas temos um conhecimento distorcido da verdade. Nos induzem a pensar que nos países lá fora não existem problemas, são maravilhosos e civilizados, e que nós somos tudo o que há de ruim na Terra.

Pensa bem, alguém pode estar querendo tirar proveito do seu desânimo.

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