O que a Lava Jato e os Panama Papers têm em comum

Putin e Lula

O novo escândalo internacional envolvendo artistas, esportistas e políticos do mundo inteiro são os documentos vazados da empresa panamenha Mossack Fonseca e publicados no jornal alemão Sueddeutsche Zeitung. Tratam-se de milhões de documentos confidenciais que denunciam a prática preferida dos ricos e poderosos: sonegar bilhões de dólares em impostos em paraísos fiscais através de lavagem de dinheiro.

No Brasil, chegamos a 2 anos da  principal investigação de corrupção política dos últimos tempos: a chamada Operação Lava Jato já prendeu empresários e políticos. Mas algumas das atividades desta averiguação policial têm deixado suspeitas na opinião pública. Primeiro pela nítida ilegalidade de algumas das ações, como vazamento seletivo de denúncias, grampo telefônico em escritórios de advogados particulares, em pessoas com foro privilegiado… A nítida impressão que fica é que todas as 24 operações até agora realizadas tiveram como único foco um determinado partido e seus líderes, com acusações frágeis e denúncias levianas infladas por uma imprensa tremendamente partidarizada e tendenciosa, e no coincidente embalo de tentativas de Impeachment da presidente da República.

Apesar de algumas denúncias graves serem contra políticos como Aécio Neves, do PSDB — até agora a estrela maior da Lava Jato, tantas vezes seu nome apareceu em listas e delações que falam de propinas — o foco das denúncias está claramente em Dilma e Lula, do PT, o que mostra uma certa politização lamentável das investigações.

Algo parecido ocorre no novo escândalo internacional dos chamados Panama Papers. Os documentos revelam práticas financeiras ilegais de nada mais, nada menos, do que 72 chefes de Estado que estiveram recentemente ou que ainda estão no poder. Outros tantos senadores e deputados, sem contar os artistas e os esportistas. No entanto, fica clara a intenção de criminalizar um determinado político que desafia a hegemonia internacional dos Estados Unidos: Vladimir Putin.

Uma rápida busca pela internet e se encontram denúncias genéricas nas principais mídias do ocidente citando um ou outro político (a maioria desafetos políticos dos EUA como Bashar al Assad) ou artista, mas dando muitos maiores detalhes sobre o presidente russo:

  • A BBC coloca numa reportagem: “Os documentos lançam suspeitas sobre as atividades do Bank Rossiya”;
  • A CNN coloca no título de uma matéria:  Putin and the Panama Papers: Why power means more than money (Putin e os Panama Papers: por que poder significa mais do que dinheiro);
  • A Forbes afirma: “Putin Caught In Huge Panama Papers Scandal” (Putin pego em grande escândalo dos Panama Papers);
  • El País: “Investigação mundial revela contas ocultas de chefes de Estado” (a ilustração da matéria é uma enorme foto de Putin);
  • Newsweek:Panama Papers: What Is the Scandal and How Is Putin Linked?” (Panama Papers: O que é o escândalo e como Putin está envolvido?).

Estas são apenas algumas das manchetes e matérias da grande imprensa burguesa do Ocidente que escolheu um foco claro para as suas denúncias: o maior desafeto dos EUA. Tal como no Brasil, Dilma e Lula, por pouco que tenham mexido do histórico quadro brasileiro de privilégios e desigualdades, representam o temor das classes médias e elites alinhadas com o liberalismo mundial estadunidense, Putin representa a atual ameaça para a hegemonia total dos EUA no planeta. E as tendenciosas manchetes da mídia capitalista já dão os resultados esperados, pois o Departamento do Tesouro dos EUA estuda expandir as sanções contra a Rússia a partir de junho deste ano, que coincidentemente pode afetar as eleições naquele país.

Denúncias seletivas, tanto aqui no Brasil quanto no resto do mundo, com interesses claramente políticos, não têm a menor intenção de discutir os problemas inerentes ao sistema capitalista, tal como corrupção, paraísos fiscais e sonegação de impostos. A intenção clara é atacar políticos desafetos de determinadas linhas ideológicas dominantes, por menos que eles tenham tentado mudar o panorama mundial, mas porque não aceitam de cabeça baixa as determinações do imperialismo. Rússia e Brasil são potências de gás natural e petróleo. Isso explica muita coisa. 

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