Sérgio Buarque e os Estados Unidos idealizados como o paraíso na Terra

Pobreza na América

Dando sequência à resenha do livro de Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira, que começou em A ciência brasileira a serviço das desigualdades, vamos falar agora do tipo colonizado e conservador de liberalismo que surgiu no país principalmente na esteira das ideias de Sérgio Buarque de Holanda, o pensador que conta com o prestígio em todos os espectros políticos do país.

Segundo Jessé Souza em seu livro, o aspecto decisivo comum a toda tradição liberal brasileira é um tipo de encanto por uma sociedade idealizada como a perfeição na Terra: os Estados Unidos. Esse país sempre representou uma espécie de parâmetro para os liberais brasileiros, assim como a aristocracia tinha na França o seu modelo ideal.

Sérgio Buarque constrói a dicotomia definitiva entre o homem cordial brasileiro e todos os seus defeitos, como sua emotividade e pré-racionalidade que guiam seu comportamento e o protestante ascético norte-americano, referência de tudo o que é positivo, como a racionalidade, o senso de responsabilidade, guiado por relações impessoais. Grandes bobagens generalizantes, com toda a certeza, mas que perduram no imaginário nacional com grande persistência.

Homem cordial sem classe social?

A grande crítica feita pelo autor da Tolice da Inteligência Brasileira é justamente o aspecto generalizante da noção de homem cordial: mesmo com a imensa desigualdade social num país de população tão grande — ou seja, com diversas camadas sociais — o “homem cordial” não tem classe social, escondendo as diferenças e os conflitos sociais por trás de uma figura idealizada, que serve somente ao desiderato de contraponto negativo ao protestante ascético norte-americano, também este idealizado como símbolo da perfeição norte-americana. Nessa leitura, os estadunidenses seriam os campeões da democracia ideal, impessoal e da eficiência por razões históricas e culturais. Portanto, atestando assim a superioridade moral de sua cultura.

Não precisamos — ou precisamos? — afirmar o quando essa construção está longe da realidade, ainda mais hoje em dia. Os Estados Unidos também sofrem com brutais desigualdades sociais; a vida do americano médio é exatamente isso, medíocre, alienada, enganada, sem direitos sociais assegurados, onde o cidadão é “preso a pequenos prazeres e ditames de uma indústria de consumo que lhe diz o que sentir e o que querer”. E também a um governo sequestrado pelos interesses da indústria bélica e do mercado financeiro, como vem denunciando Bernie Sanders, que concorre com Hillary Clinton ao direito de disputar a presidência da República pelos Democratas. Sérgio Buarque seria então, segundo Jessé, “o grande criador de uma tradição colonizada até o osso” com base nessas invenções.

É de Buarque a grande contribuição que perdura até hoje nas mentes colonizadas brasileiras: a noção de que todos os defeitos do “homem cordial” se materializam especialmente em sua atuação no Estado, tese que vai se concretizar na ideia do patrimonialismo:

Tudo isso sob o pano de fundo não discutido de que existe um lugar do mundo onde os ‘privilégios’ do acesso a relações de influência e prestígio não acontecem. A imagem idealizada dos Estados Unidos como terra da justiça social e da igualdade de oportunidades é o panorama de literalmente todas as ideias-força dos liberais brasileiros (p.48)

Coube, portanto, a Sérgio Buarque lançar as bases ideológicas que caracterizam o liberalismo conservador dominante hoje no Brasil. Jessé Souza resume essa contribuição em quatro pontos:

  1. A idealização dos Estados Unidos como uma espécie de “paraíso na Terra”, com justiça social e igualdade de oportunidades, com o protestante pré-capitalista, e portanto, “mítico”, servindo de contraponto crítico da situação brasileira;
  2. O homem cordial brasileiro como um ser genérico de todas as classes, emotivo, prisioneiro das paixões do corpo, e, portanto, moralmente inferior, indigno de confiança e tendencialmente corrupto;
  3. O amálgama institucional do “homem cordial” na noção de “patrimonialismo” apenas estatal, que servirá mais tarde para a contraposição entre mercado virtuoso e Estado demonizado;
  4. A criação de um caminho alternativo universalizável para toda a nação: um antiestatismo sob a condução dos interesses de mercado do Estado de São Paulo.

[continua]

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