“Guerra Híbrida”: a crise brasileira num contexto mais amplo

Força bruta no golpe de Estado

Por estarmos direta e emocionalmente envolvidos com a crise político-econômica que se instalou no Brasil, às vezes fica difícil expandir o olhar, tirar o foco das coisas imediatas do noticiário e focalizar o problema dentro de um contexto maior, inseri-lo numa longa duração, conectando-o com outros fatos determinantes da conjuntura internacional. Mas sem esse olhar mais afastado, dificilmente entenderemos os interesses que estão por trás desses transtornos por que temos passado no Brasil.

Com a ajuda de especialistas e analistas políticos como Pepe Escobar, que escreve para grandes portais de internet, podemos chegar a uma explicação convincente.

Muitos de nós já estamos bastante familiarizados com o conceito de revolução colorida, que se iniciou nos anos 2000 nos países recém-independentes que faziam parte da antiga União Soviética, e que tiveram crises políticas que favoreceram o estabelecimento de governos pró-Ocidente — leia-se, pró-Estados Unidos — com o apoio dos serviços secretos estadunidenses financiando a mídia local e a oposição simpática aos EUA. A tática se espalhou através de mundo, e de lá pra cá, muitos governos hostis ou indiferentes aos interesses estratégicos norte-americanos passaram por crises e revoluções induzidas como essas.

Passados 16 anos desde então, a novidade, segundo Pepe Escobar, é que essa tática já não é suficiente. Surge agora o conceito de Guerra não Convencional (Unconventional War, em inglês), que aparece pela primeira vez no manual das Forças Especiais para Guerra não Convencional (GNC) dos EUA, em 2010. Segundo Escobar, o essencial desse documento se resume no trecho a seguir:

1-1. A intenção dos esforços de GNC dos EUA é explorar vulnerabilidades políticas, militares, econômicos e psicológicos de um poder hostil, mediante o desenvolvimento e sustentação de forças de resistência, para alcançar os objetivos estratégicos dos EUA. (...) Para o futuro previsível, as forças dos EUA se engajarão predominantemente em operações de guerra irregular

Qualquer governo do mundo que desafie os interesses geopolíticos estadunidenses podem ser considerados “hostis” dentro desse quadro. As revoluções coloridas passam a ser assim o primeiro estágio para a Guerra não Convencional, e a junção dessas duas táticas de desestabilização e derrubadas de governo se denomina “Guerra Híbrida”.

Atualmente a maior ameaça aos interesses internacionais dos Estados Unidos se chama BRICS. Pepe Escobar destaca alguns dos motivos:

O movimento na direção de comerciar e negociar em suas próprias respectivas moedas, deixando de lado o dólar norte-americano; a criação do Banco de Desenvolvimento dos BRICS; o confessado interesse na direção da integração da Eurásia, simbolizada pelos projetos: Novas Rotas da Seda – ou, na terminologia oficial, Um Cinturão, uma Estrada [ing. One Belt, One Road (OBOR)] liderados pela China; e União Econômica Eurasiana (UEE) liderada pela Rússia.

A Rússia de Putin já vem sentindo os efeitos da Guerra Híbrida não só na Ucrânia: de “sanções à mais total demonização; de ataque contra a moeda russa até uma guerra dos preços do petróleo, que incluiu até algumas (patéticas) tentativas de iniciar uma revolução colorida nas ruas de Moscou”.

No Brasil, país de características bem diferentes, a Guerra Híbrida levada a cabo pelos Estados Unidos é um pouco mais sutil para conseguir a desestabilização política/econômica. De acordo com o Manual da Guerra não Convencional dos Estados Unidos, “apoiar grupos insurgentes” como o Movimento Brasil Livre daquele imberbe oriental que se tornou o líder da direita no Brasil, até implantar “o mais amplo descontentamento, mediante propaganda e esforços políticos e psicológicos para desacreditar o governo”. Quem vê o papel bandido e golpista que a Rede Globo de Televisão vem fazendo em mais uma vez em inflamar as camadas médias da população, não duvida que sua atuação está inserida em um projeto bem maior: ela é o braço local que atua em favor do imperialismo.

Essas são as características de uma revolução colorida, disfarçadas, como sempre, na “luta contra a corrupção” e na “defesa da democracia”. Lula impediu que o pré-sal caísse nas mãos das empresas norte-americanas, favorecendo a Petrobras. Seria coincidência que uma grande operação (a Lava Jato) começasse a desmoralizar a estatal no momento em que um senador (José Serra) propõe a mudança no estatuto do pré-sal para favorecer as petrolíferas estrangeiras? Documentos vazados pelo WikiLeaks podem acabar rapidamente com qualquer ingenuidade nesse sentido.

A marcha na direção de Guerra Híbrida no Brasil pouco tem a ver com direita ou esquerda política. Consiste, basicamente, de mobilizar algumas famílias ricas que realmente governam o país; subornar fatias imensas do Congresso; pôr sob estrito controle as principais empresas de mídia; pôr-se a agir como senhores de engenho de escravos do século 19 (as relações sociais da escravidão ainda permeiam todas as relações na sociedade brasileira); e legitimar a coisa toda com discursos de uma tradição intelectual robusta, mas oca.

É o retrato exato do que estamos assistindo acontecer no Brasil. Pepe Escobar não acredita que, falhando o plano de golpe soft que está em andamento no Brasil, entre em cena o modo hard, por conta da crescente mobilização que vem acontecendo em vários setores da sociedade contra o golpe. Mas a história do Brasil mostra que não há limites morais quando os interesses da burguesia nacional associada ao capital internacional estão em jogo. Estamos assistindo a história acontecer diante dos nossos olhos, e é esperar pra ver o desfecho de mais essa tentativa de alijar governos indesejáveis, porém democraticamente eleitos, do poder no país.

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