Panorâmica Social

Denúncia das injustiças da plutocracia brasileira e mundial

29 de março de 2016

“Guerra Híbrida”: a crise brasileira num contexto mais amplo

Força bruta no golpe de Estado

Por estarmos direta e emocionalmente envolvidos com a crise político-econômica que se instalou no Brasil, às vezes fica difícil expandir o olhar, tirar o foco das coisas imediatas do noticiário e focalizar o problema dentro de um contexto maior, inseri-lo numa longa duração, conectando-o com outros fatos determinantes da conjuntura internacional. Mas sem esse olhar mais afastado, dificilmente entenderemos os interesses que estão por trás desses transtornos por que temos passado no Brasil.

Com a ajuda de especialistas e analistas políticos como Pepe Escobar, que escreve para grandes portais de internet, podemos chegar a uma explicação convincente.

Muitos de nós já estamos bastante familiarizados com o conceito de revolução colorida, que se iniciou nos anos 2000 nos países recém-independentes que faziam parte da antiga União Soviética, e que tiveram crises políticas que favoreceram o estabelecimento de governos pró-Ocidente — leia-se, pró-Estados Unidos — com o apoio dos serviços secretos estadunidenses financiando a mídia local e a oposição simpática aos EUA. A tática se espalhou através de mundo, e de lá pra cá, muitos governos hostis ou indiferentes aos interesses estratégicos norte-americanos passaram por crises e revoluções induzidas como essas.

Passados 16 anos desde então, a novidade, segundo Pepe Escobar, é que essa tática já não é suficiente. Surge agora o conceito de Guerra não Convencional (Unconventional War, em inglês), que aparece pela primeira vez no manual das Forças Especiais para Guerra não Convencional (GNC) dos EUA, em 2010. Segundo Escobar, o essencial desse documento se resume no trecho a seguir:

1-1. A intenção dos esforços de GNC dos EUA é explorar vulnerabilidades políticas, militares, econômicos e psicológicos de um poder hostil, mediante o desenvolvimento e sustentação de forças de resistência, para alcançar os objetivos estratégicos dos EUA. (...) Para o futuro previsível, as forças dos EUA se engajarão predominantemente em operações de guerra irregular

Qualquer governo do mundo que desafie os interesses geopolíticos estadunidenses podem ser considerados “hostis” dentro desse quadro. As revoluções coloridas passam a ser assim o primeiro estágio para a Guerra não Convencional, e a junção dessas duas táticas de desestabilização e derrubadas de governo se denomina “Guerra Híbrida”.

Atualmente a maior ameaça aos interesses internacionais dos Estados Unidos se chama BRICS. Pepe Escobar destaca alguns dos motivos:

O movimento na direção de comerciar e negociar em suas próprias respectivas moedas, deixando de lado o dólar norte-americano; a criação do Banco de Desenvolvimento dos BRICS; o confessado interesse na direção da integração da Eurásia, simbolizada pelos projetos: Novas Rotas da Seda – ou, na terminologia oficial, Um Cinturão, uma Estrada [ing. One Belt, One Road (OBOR)] liderados pela China; e União Econômica Eurasiana (UEE) liderada pela Rússia.

A Rússia de Putin já vem sentindo os efeitos da Guerra Híbrida não só na Ucrânia: de “sanções à mais total demonização; de ataque contra a moeda russa até uma guerra dos preços do petróleo, que incluiu até algumas (patéticas) tentativas de iniciar uma revolução colorida nas ruas de Moscou”.

No Brasil, país de características bem diferentes, a Guerra Híbrida levada a cabo pelos Estados Unidos é um pouco mais sutil para conseguir a desestabilização política/econômica. De acordo com o Manual da Guerra não Convencional dos Estados Unidos, “apoiar grupos insurgentes” como o Movimento Brasil Livre daquele imberbe oriental que se tornou o líder da direita no Brasil, até implantar “o mais amplo descontentamento, mediante propaganda e esforços políticos e psicológicos para desacreditar o governo”. Quem vê o papel bandido e golpista que a Rede Globo de Televisão vem fazendo em mais uma vez em inflamar as camadas médias da população, não duvida que sua atuação está inserida em um projeto bem maior: ela é o braço local que atua em favor do imperialismo.

Essas são as características de uma revolução colorida, disfarçadas, como sempre, na “luta contra a corrupção” e na “defesa da democracia”. Lula impediu que o pré-sal caísse nas mãos das empresas norte-americanas, favorecendo a Petrobras. Seria coincidência que uma grande operação (a Lava Jato) começasse a desmoralizar a estatal no momento em que um senador (José Serra) propõe a mudança no estatuto do pré-sal para favorecer as petrolíferas estrangeiras? Documentos vazados pelo WikiLeaks podem acabar rapidamente com qualquer ingenuidade nesse sentido.

A marcha na direção de Guerra Híbrida no Brasil pouco tem a ver com direita ou esquerda política. Consiste, basicamente, de mobilizar algumas famílias ricas que realmente governam o país; subornar fatias imensas do Congresso; pôr sob estrito controle as principais empresas de mídia; pôr-se a agir como senhores de engenho de escravos do século 19 (as relações sociais da escravidão ainda permeiam todas as relações na sociedade brasileira); e legitimar a coisa toda com discursos de uma tradição intelectual robusta, mas oca.

É o retrato exato do que estamos assistindo acontecer no Brasil. Pepe Escobar não acredita que, falhando o plano de golpe soft que está em andamento no Brasil, entre em cena o modo hard, por conta da crescente mobilização que vem acontecendo em vários setores da sociedade contra o golpe. Mas a história do Brasil mostra que não há limites morais quando os interesses da burguesia nacional associada ao capital internacional estão em jogo. Estamos assistindo a história acontecer diante dos nossos olhos, e é esperar pra ver o desfecho de mais essa tentativa de alijar governos indesejáveis, porém democraticamente eleitos, do poder no país.

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2 comentários:

  1. Antes do golpe o Brasil tinha uma direita organizada e atuante:

    O "udenismo" caracterizou-se pela defesa do liberalismo clássico e da moralidade, e pela forte oposição ao populismo.
    Além disso, algumas de suas bandeiras eram a abertura econômica para o capital estrangeiro e a valorização da educação pública
    Concorreu às eleições presidenciais de 1945, 1950, e de 1955 postulando o brigadeiro Eduardo Gomes nas duas primeiras e o general Juarez Távora na última, perdendo nas três ocasiões
    Como todos os demais partidos, a UDN foi extinta pelo governo militar que assumiu o poder em 1964, através do Ato Institucional Número Dois. [Wikipédia]

    Os militares nos livraram de males maiores.
    Jânio Quadros queria ser um “ditador democrático” como foi Getúlio no Brasil e Peron na Argentina (Lula também tenta isso).
    João Goulart quis aproveitar o fracasso de Jânio para implantar o Comunismo, se ligar a URSS.

    Como o Brasil tinha uma direita forte os cidadãos resolveram se proteger de Goulart junto aos militares, que já tinham nos protegido de Jânio.
    É evidente que Jânio e Goulart contavam com grande apoio da população, a sociedade estava dividida e o fiel da balança sem dúvida foram os militares.

    O problema é que os Liberais esperavam que os militares intervissem por no máximo 2 anos, até as próximas eleições democráticas... o que obviamente não aconteceu.
    O mais triste é que os militares estatizaram tanto a economia quanto os Comunistas fariam.
    Os militares não nos levaram para a URSS, mas também não nos aproximaram do USA e outras nações ocidentais desenvolvidas, os militares fecharam nosso mercado nos levando a um isolamento econômico.
    Fica claro que o milagre econômico da década de 70 foi fruto de algum liberalismo depois do fim da Segunda Guerra.

    A direita plantou, os militares estatizadores colheram, até falir o país.

    Muito parecido com o que ocorreu recentemente.
    FHC introduziu algum Liberalismo de 1994 a 2002 principalmente desestatizando um pouco a economia, o PT colheu os frutos até falir o Brasil.

    Os militares demoraram 20 anos para acabar com o sopro saudável do liberalismo, os petistas conseguiram em 13 anos “energizados” pela corrupção desmedida.

    Infelizmente a Direita nunca esteve no poder, por isso continuamos subdesenvolvidos.

    No Brasil só tivemos esquerdismo, militarismo e populismo.
    Depende de você voarmos como águias e abandonarmos os voos de galinha.

    http://terapiadalogica.blogspot.com.br/2016/01/nova-eleicao-para-presidente.html
    ________________________

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    1. Olá William,

      Seu comentário é bastante enviesado com fatos históricos e conclusões absurdas.

      Nunca ninguém desconfiou que Jango era comunista, ou quisesse implementar o comunismo no Brasil. Nem os militares golpistas acreditavam nisso. O maior medo deles era das Reformas, que dentro da Constituição, iria acabar com alguns privilégios históricos e imerecidos nesse país.

      Se os militares "fecharam" nosso mercado, então foi algo que eles fizeram de bom, pois foi a época que o Brasil mais cresceu em sua história...

      Ironias à parte, é muito fácil de explicar. O liberalismo nos levou à duas Guerras. A partir dos anos 50, para evitar mais guerras capitalistas, decidiu-se por uma maior intervenção do Estado no mercado, assegurando direitos aos trabalhadores e deveres aos especuladores. Disso saiu o Estado de bem estar social, que o liberalismo tucano de Fernando Henrique Cardoso tentou destruir em nome do Estado Mínimo. Percebe como você está equivocado na sua análise?

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