Faoro, DaMatta e as ideias-força que impregnam o senso comum brasileiro

N esta terceira postagem sobre a obra de Jessé Souza até aqui analisada, vamos discutir a influência do pensamento liberal-conservador de Sé...

Nesta terceira postagem sobre a obra de Jessé Souza até aqui analisada, vamos discutir a influência do pensamento liberal-conservador de Sérgio Buarque de Hollanda em pensadores de grande prestígio que se inspiram em seu trabalho, reforçando as falácias que perduram como verdades científicas no imaginário brasileiro: a do historiador Raymundo Faoro e do antropólogo Roberto DaMatta.

Veja também:

  1. A ciência brasileira a serviço das desigualdades
  2. Sérgio Buarque e os Estados Unidos idealizados como o paraíso na Terra

Raymundo Faoro e o patrimonialismo

“Se Buarque é o filósofo do liberalismo conservador brasileiro […] Raymundo Faoro é seu ‘historiador’ oficial” (Jessé Souza)

Jessé Souza afirma em seu livro até aqui analisado, A Tolice da Inteligência Brasileira, que a tese da obra de Raymundo Faoro, Os Donos do Poder, é bastante clara desde o início: reforçar o caráter patrimonialista do Estado e, por extensão, de toda a sociedade brasileira. Essa característica, supostamente exclusivamente nossa, responderia pela faceta antidemocrática, particularista e baseada em privilégios que marcaria assim o exercício do poder político no nosso país.

O Brasil seria, dessa forma, uma sociedade “pré-moderna”, reproduzindo um esquema patrimonialista cujas raízes poderiam ser rastreadas desde nossa herança portuguesa.

A função dessa tese conservadora é apenas uma: “ação intrinsecamente demoníaca do Estado contraposta à ação intrinsecamente virtuosa do mercado”. Essa é a ideia-força principal do liberalismo brasileiro, que perdura até hoje no senso comum nacional. Assim, Faoro dá sequência aos mitos fundados por Sérgio Buarque sob a chancela da ciência social. Episódios como o “mensalão” ou os atuais escândalos de corrupção expostos pelas investigações da Lava Jato, embora tenham a participação determinante de empresas privadas como as empreiteiras Odebrecht e OAS — ou seja, estimuladas claramente pelos interesses do mercado —, “na sua ‘subjetivação’ e ‘novelização infantilizada’ dos conflitos políticos, que passam longe de qualquer discussão racional dos conflitos sociais e políticos verdadeiramente em jogo, aludem à tese do patrimonialismo” (p.59).

Jessé explica em seu livro o núcleo que dá vida a essa tese falaciosa:

Na verdade, o que mantém a aparência de validade desta tese é a crença infantil de que existem Estados que não seriam ‘apropriados privadamente’ em qualquer lugar do planeta. Quando a única questão razoável é saber se o Estado é apropriado por uma pequena minoria privilegiada ou se pelo interesse da maioria. Como se pensar, por exemplo, o Estado norte-americano — o paraíso na Terra para os liberais brasileiros colonizados até o osso — depois da guerra do Iraque quando o interesse de companhias petrolíferas saqueou e provocou a morte de milhões, inclusive de norte-americanos, com base em mentiras para obter lucros; ou depois das fraudes da crise de 2008 operada pelo mercado financeiro, como ‘Estado público’ e não apropriado por uma minoria?

Roberto DaMatta e o “jeitinho brasileiro”

Não há quem já não tenha ouvido falar deste termo pejorativo, que supostamente tem a pretensão de caracterizar o comportamento do brasileiro, sempre pronto a infringir a lei circundando-a com práticas corruptas no dia a dia. Foi o antropólogo Roberto DaMatta quem ajudou a reforçar esse fenômeno através de uma obra chamada Carnavais, malandros e heróis, que é analisada em detalhes por Jessé em seu livro.

Mas é no ensaio publicado denominado “Você sabe com quem está falando?” que se encontram reunidas as principais teses de DaMatta sobre esse assunto. Para o antropólogo, esse costume “tipicamente” brasileiro revela um traço de nossa cultura que gostaríamos de esconder, que ele chama de “esqueleto hierarquizante de nossa sociedade”. Haveria uma hierarquia social oculta e aceita como tal no cotidiano brasileiro, que ocasiões em que o “Você sabe com quem está falando?” exporia desagradavelmente. O “pacto de silêncio” é perturbado por aqueles que acreditariam, como supostamente é lá fora, na igualdade de todos perante a lei, sendo obrigados a serem lembrados “do seu lugar” de inferioridade. Em vez de se seguir os ritos oficiais da lei, impessoais, aplica-se uma resolução informal, sem burocracia e rápida: uma carteirada, uma ameaça velada, um “jeitinho” ou o “você sabe…”, onde os privilegiados podem demonstrar a sua “superioridade” na hierarquia social, antes velada.

Segundo Jessé, tais análises superficiais com o carimbo da verdade científica não apontam o que temos de similar com outras sociedades do planeta, o que só facilita o “conto de fadas” do Brasil como uma sociedade pré-moderna, do favor pessoal, da corrupção e do personalismo das relações pessoais em detrimento do respeito à lei igual para todos.

Como povo colonizado — e com uma ‘ciência’ servil que reproduz essa colonização — e que, portanto, idealiza sociedades estrangeiras, imaginamos também que existam, de fato, sociedades onde relações pessoais não envolvam privilégios para quem as possui. A evidência e eficácia desse tipo de discurso são, portanto, enormes. Esse ponto é fundamental: o verdadeiro pressuposto do culturalismo dual damattiano é uma oposição entre a imagem folclórica do Brasil e de suas relações sociais e uma imagem colonizada, basbaque, servil e acrítica dos Estados Unidos (p.77)

Quando apenas se concentra em criticar o “jeitinho brasileiro” de forma moralista e conservadora, típica do mero senso comum, Roberto DaMatta, que Jessé considera “colonizado até o osso”, só espalha ainda mais o preconceito do “brasileiro corrupto”, crítica feita para inferiorizar, com base supostamente científica, sociedades em desenvolvimento, como se não houvesse corrupção sistemática em todos os países capitalistas

Vale a pena ler a citação abaixo que, embora um pouco longa, faz o contraponto dessa ideia absurda que influencia como o brasileiro enxerga a si mesmo:

A “cereja do bolo” desse quadro pseudocrítico da sociedade brasileira é a ideia que de existem sociedades sem “jeitinho”, ou seja, sem influência de relações pessoais poderosas decidindo o destino de pessoas concretas, muito especialmente nessa sociedade de conto de fadas para adultos que são os Estados Unidos ao olhos de nossos liberais conservadores. Os Estados Unidos seriam a sociedade da accountability, da confiança interpessoal, do respeito à lei impessoal, e da igualdade como valor máximo. Tudo como se o policial norte-americano não batesse com mais força no latino e nos negros pobres, como se o governo, “na mutreta” e sem assumir, não espionasse aliados e inimigos, como se o eufemismo da ‘desregulação do mercado financeiro’ — o que é, afinal, ‘desregular’ senão abdicar de qualquer controle intencionalmente? — não fosse a senha para a corrupção aberta por meio de mecanismos financeiros com um só ganhador: os bancos norte-americanos que se apropriam por meios frequentemente duvidosos do excedente econômico do planeta inteiro. O interesse aqui não é obviamente praticar o antiamericanismo […], é apenas irritação contra esse tipo de admiração basbaque e infantil de tão cândida com relação a sociedades tão imperfeitas e dignas de crítica quanto qualquer outra sociedade humana existente (p.88)

[continua]

COMENTÁRIOS

BLOGGER: 2
Loading...
Nome

economia educação história internacional mídia opinião politica e sociedade sem categoria socialismo e capitalismo
false
ltr
item
Panorâmica Social: Faoro, DaMatta e as ideias-força que impregnam o senso comum brasileiro
Faoro, DaMatta e as ideias-força que impregnam o senso comum brasileiro
Panorâmica Social
http://www.panoramicasocial.com.br/2016/03/faoro-damatta-e-as-ideias-forca-que.html
http://www.panoramicasocial.com.br/
http://www.panoramicasocial.com.br/
http://www.panoramicasocial.com.br/2016/03/faoro-damatta-e-as-ideias-forca-que.html
true
650628655076264791
UTF-8
Nenhuma postagem encontrada VER TODAS Continue Responder Cancelar resposta Delete Por Início PÁGINAS POSTS ver todas RELACIONADAS Categorias ArquivoE PESQUISAR TODAS AS POSTEAGENS Sua busca não gernou nenhuma postagem Voltar para o início Domingo Segunda Terça Quarta Quinta Sexta Sábado Dom Seg Ter Qua Qui Sex Sab Janeiro Fevereiro Março Abril Maio Junho Julho Agosto Setembro Outubro Novembro Dezembro Jan Fev Mar Abr Mar Jun Jul Ago Set Out Nov Dez agora Há 1 minuto Há $$1$$ minutos Há 1 hora Há $$1$$ horas Ontem Há $$1$$ dias Há $$1$$ semanas Há mais de 5 semanas Seguidores Seguir ESSE CONTEÚDO É PREMIUM Por favor, compartilhe para desbloquear Copy All Code Select All Code All codes were copied to your clipboard Can not copy the codes / texts, please press [CTRL]+[C] (or CMD+C with Mac) to copy