Schopenhauer e o senso comum brasileiro

Todos vão preferir acreditar do que julgarSêneca

O senso comum é uma das coisas mais danosas que circulam na nossa sociedade. Já falei sobre esse tema aqui, em algumas postagens. Através dele, cria-se a falsa sensação de avaliação criteriosa, que o sociólogo Jessé Souza chama de “charminho crítico”, pois as pessoas opinam sobre coisas que não sabem a fundo, tendo a ilusão de fazer uma afirmação com alguma base de verdade.

Veja mais em:

  1. Trabalho, senso-comum e ideologia dominante
  2. O senso comum por trás do “bandido bom é bandido morto”
  3. Os mitos da meritocracia e da brasilidade a serviço dos privilégios no Brasil

Isso acontece porque o senso comum é tão disseminado que cria verdades absolutas que aproximam pessoas que pensam igual, que alimentam e reforçam essas mesmas falácias através da repetição. Esse fato pode ser entendido em detalhes aqui em O fenômeno da Polarização de Grupo. Por conta desses episódios, as pessoas tendem a repetir irrefletidamente factoides que veem e ouvem por aí, porque são aceitos como verdades pela maioria das pessoas.

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O problema é que esses consensos não vêm do nada. Eles são fabricados por terceiros, pessoas interessadas, por exemplo, em manchar a reputação pública de um adversário político, ou de uma proposta que prejudique seus negócios.

Lendo recentemente um livro, eu encontrei um trecho que explica magistralmente essa situação, apesar de ter sido escrito há mais de 150 anos pelo filósofo Arthur Schopenhauer em seu livro “Como vencer um debate sem precisar ter razão”.  A citação é longa, mas vale a pena ler pela reflexão sobre esse tema:

[…] Sim, não existe ideia, por mais absurda que seja, que as pessoas não tomem como suas com tanta facilidade e tão logo se convençam de que tal coisa é adotada de maneira geral. […] São ovelhas que seguem o pastor aonde ele for: para elas é mais fácil morrer do que pensar. É muito curioso que a universalidade de um pensamento tenha tanto peso sobre as pessoas, é como se sua própria experiência lhes dissesse que sua aceitação é um processo sem questionamento e por imitação.

[..] O que se chama de pensamento universal, visto à luz, é o pensamento de duas ou três pessoas; e seríamos convencidos disso se pudéssemos ver como realmente surgem esses pensamentos. Descobriríamos então que existem duas ou três pessoas que a princípio os aceitaram, promoveram ou defenderam; […] E então convencidas de antemão que estas tinham capacidade, algumas outras pessoas também aceitaram a opinião. Estas, por sua vez, receberam a confiança de muitos outros, cuja preguiça lhes sugeriu que era melhor acreditar de uma vez do que ter o trabalho de testar a questão por si mesmas. Assim, dia após dia, cresce o número de tais preguiçosos e seguidores crédulos; então logo a opinião tem um bom número de defensores […] e os que tivessem dúvidas eram compelidos a validar o que era admitido universalmente, para não passarem por cabeças-duras que resistem às opiniões validadas pela maioria, ou por pessoas rudes que querem ser mais espertas que o resto do mundo.

Agora, aderir torna-se uma obrigação. A partir desse ponto, os poucos que são capazes de julgar se calam. E quem se aventura a falar é completamente incapaz de ter ideia ou julgamentos próprios, simplesmente ecoam a opinião alheia; e mesmo assim a defendem com grande zelo e ignorância. Pois o que elas odeiam nas pessoas que pensam de outra maneira não são as ideias que elas professam, mas a pressuposição de que querem julgar as coisas por si mesmas, o que elas mesmas nunca fazem. […] Em resumo, poucos conseguem pensar, mas todos querem ter opiniões — o que resta a não ser pegá-las prontas dos outros em vez de formas as suas próprias?

Esse trecho é de uma atualidade incontestável. E onde esses pensamentos universais (senso comum) se manifestam hoje em dia?

Fácil enumerar: onde novas ideias e intenções ferem a “ordem” do conservadorismo brasileiro. Assim se espalham factoides que alcançam o senso comum, direcionando a opinião pública. Políticos de esquerda são difamados em boatos que circulam na internet; propostas de aborto; direitos humanos; redução da maioridade penal; feminismo; cotas para negros em universidades, corrupção (só) do governo petista e não de outros governos ou do empresariado… Todo mundo tem uma opinião “pronta” sobre esses assuntos, mas que na verdade, por não serem refletidas e pensadas, apenas reproduzem a ideia de terceiros.

A solução é usar a cabeça, pensar por si mesmos, evitar espalhar boatos por aí, para não servir de ovelha numa massa de manobra que tem a intenção de deixar as coisas sempre como estão. Aí está uma lição de mais de 150 anos que não pode ser ignorada.