Como Jean Wyllys se tornou a esquerda que a direita gosta

Nunca votei especificamente no deputado federal Jean Wyllys, eleito recentemente o melhor parlamentar de uma casa legislativa que não prima atualmente por grandes quadros. No entanto, como (ainda) simpatizante do seu partido, o PSOL, acredito que tenha ajudado sua eleição indiretamente ao votar 50 nos últimos sufrágios.

Não tenho nenhum motivo para fazer restrições ao seu mandato, que, ao contrário do que muita gente pensa, não se limita unicamente à defesa da causa homossexual. No entanto, quando temos a chance de ouvir suas opiniões a respeito de política internacional, o desacerto com a ideologia socialista que supostamente deveria representar gera uma grande decepção -- eu diria, até, uma enorme indignação por tamanha leviandade. Assim como outros dos seus colegas de partido também já causaram em outras oportunidades.

Jean-Wyllys

Nicolás Maduro, o presidente "totalitário"

Recentemente o laureado deputado foi se meter a fazer acusações sobre o presidente da Venezuela, que, através de um video editado com menos de um minuto, falou sobre a situação eleitoral do país. No tal video que Jean Wyllys publicou no seu Facebook, o presidente venezuelano afirma: 

Se sucedesse esse cenário hipotético (da vitória da oposição) negado, negado e trasmutado, eu governaria com o povo, sempre com o povo, e com união cívico-militar. Se ocorrer esse cenário, negado e trasmutado, a Venezuela entraria em uma das mais turvas e comovedoras etapas de sua vida política, e nós defenderíamos a revolução, não entregaríamos a revolução, e a revolução passaria a uma nova etapa (...) a revolução não será entregue jamais (...) com a Constituição nas mãos, levaremos adiante a independência da Venezuela, custe o que custar e como for”.

Numa interpretação pra lá de desonesta, digna de um verdadeiro quinta-coluna que faz a alegria da oposição golpista de direita, o deputado "socialista" brasileiro esquece o contexto de quase guerra civil que o mandato de Maduro precisa se manter e afirma que o presidente representa um perigo totalitário para a Venezuela, por suas medidas duras contra a oposição de direita, esta que não se furta a adotar quaisquer meios cabíveis para derrubar o governo bolivariano inaugurado por Hugo Chávez. Então quando o presidente diz que defenderá a revolução contra estes golpistas, estaria sendo, meramente, "antidemocrático".

Na pureza do coração dos socialistas defensores da "liberdade" (cuja democracia que apoiam se refere à defesa das instituições políticas burguesas e não da maior participação do povo nas decisões do poder, como fazem os "totalitários" Maduro e Fidel Castro), os verdadeiros socialistas venezuelanos que venceram golpes e atentados para implementarem um regime ainda frágil, incipiente, devem ceder gentilmente o poder àqueles que durante 500 anos exploraram a pobreza e o analfabetismo da população para se tornarem a classe rica e dominante.

Socialismo e liberdade pra quem merece: o povo

A confusão teórica de suas concepções socialistas já começa no nome do seu partido, que escolheu o pleonástico "socialismo e liberdade" para indicar que os outros socialismos são supostamente totalitários. Mas o PSOL é um partido de correntes, e existem outras concepções menos pueris do que esta na agremiação. Vendo, porém, a opinião do deputado sobre a Venezuela, podemos dizer que, na sua concepção, um partido socialista que tenha chegado ao poder ("democraticamente", é bom frisar) e precise se defender dos ataques, das ameaças, dos golpes e da influência perversa da ideologia burguesa nas mídias, é totalitário se não dançar conforme a música da farsesca democracia eleitoral burguesa. Os trotskistas do partido, baseados nesse engano colossal, também são capazes de lançar manifestos em apoio à revolução ucraniana (!) como fez Luciana Genro; e comparar o líder que libertou o mundo do nazismo ao preço de milhões de compatriotas combatentes, Josef Stalin, com um bandido criminoso que preside a Câmara dos Deputados (!!), como fez recentemente o deputado Chico Alencar.

Partidos socialistas depurados de conceitos incômodos para a burguesia como luta de classes, revolução e ditadura do proletariado, domesticados no consolo inútil da representatividade política no jogo da democracia burguesa, deveriam se limitar às suas pautas louváveis, como auditoria da dívida externa brasileira, taxação de lucro dos bancos e da riqueza, defesa das minorias, etc, coisas que o PSOL ainda faz muito bem. E deixar a política externa pra lá, porque já provaram que, nesse quesito, são um verdadeiro desastre.

Nota: o site do PSOL, tendo em vista a manifestação do seu deputado sobre o governo venezuelano, lançou um esclarecimento em que se isenta de responsabilidade nas afirmações do seu filiado, que durante os debates internos do partido, propícios para levantar teses, não se prestou a lançar nenhuma opinião sobre a Venezuela, preferindo jogar pra galera, naturalmente para polemizar. A nota do PSOL pode ser lida no link abaixo:

A Venezuela do PSOL

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