Atentado na França: o feitiço que vira contra o feiticeiro

129 mortos e 350 feridos, com 99 deles em estado grave. Este é o saldo, até o momento, dos ataques coordenados contra populações inocentes na França, reivindicados pelo Estado Islâmico (ISIS), em resposta, supostamente, à participação francesa ao lado dos Estados Unidos numa coalizão contra os terroristas do ISIS na Síria e no Iraque. Muito embora a França tenha se empenhado menos do que os próprios Estados Unidos, que não se empenham quase nada, nos ataques aos grupos terroristas religiosos que afrontam a Síria. Quem realmente combate o ISIS na região é a Rússia.

É preciso ser realista e acabar com esta hipocrisia ridícula que vem sendo a comoção mundial em favor da França. Antes de mais nada, é preciso dizer: o presidente francês admitiu abertamente, ano passado, que entregou armas a rebeldes sírios que tentam derrubar o governo de Bashar al-Assad naquele país, mesmo sabendo, como eu sei, como os EUA sabem, como o mundo sabe, que grande parte daquelas armas vai parar nas mãos do ISIS. Mas até aí, segundo eles, tudo bem. Os terroristas islâmicos cumprem um papel em nome dos imperialistas do Ocidente na região do Oriente Médio, que é desestabilizar e ajudar a derrubar governos não-alinhados com Washington. O problema é quando os terroristas, fanáticos e irracionais religiosos como são, saem do controle e atacam seus próprios financiadores...

Latuff para a 247

Se a França e o mundo devem sim prestar seu lamento pela morte de pessoas inocentes, devem fazer de modo crítico, condenando também o próprio presidente François Hollande pela culpa indireta nesse atentado, ao apoiar terroristas “moderados” na Síria. Se assim não for, cairemos numa comoção midiática tola que nos incentiva a colocar bandeirinhas da França nos nossos perfis de redes sociais e que tem como único objetivo sensibilizar a opinião pública para a necessidade de mais intervenção contra “terroristas” (pretexto para conseguir seus objetivos geopolíticos em outros países) e mais controle sobre a população. É o que já começa a pedir a extrema-direita francesa através do ex-presidente Nicolas Sarkozy, de Marine le Pen, entre outros. E assim ocultam quem está verdadeiramente por trás do próprio terrorismo mundial e os objetivos dessa empreitada maligna.

Outra questão bastante incômoda: um dia antes do atentado parisiense, ataques a bomba no sul de Beirute, capital do Líbano, também reivindicados pelo ISIS, mataram 43 pessoas e deixaram 239 feridos. Assim como acontece tantas vezes nas periferias do mundo. Por que só há essa comoção quando os alvos são os autoproclamados centros da hegemonia mundial, especialmente Europa e EUA? Por que, se, além de vítimas, esses países são também culpados pelo próprio terrorismo que, eventualmente, sofrem?

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Há muita coisa errada nesse mundo. Muitas delas precisam de grandes transformações. Mas muitas podem ter resultados incríveis se nos atermos desses meros detalhes.